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13 julho 2011

Entrevista: Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional

"É hora de internacionalizar a literatura brasileira"

 PublishNews - 13/07/2011 - Maria Fernanda Rodrigues
 Em Paraty, Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, comenta as ações que devem ser empreendidas para uma boa participação brasileira na Feira de Frankfurt em 2013

Encontro de tradutores e reunião entre os organizadores da Feira de Frankfurt e editores brasileiros durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, um programa de residência de tradutores no Brasil e um convite especial para que os “leitores especiais” das editoras estrangeiras conheçam as editoras daqui estão nos planos de Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional, para este momento pré-Frankfurt 2013. A Fundação Biblioteca Nacional está centralizando a organização da participação do Brasil como o país homenageado da maior feira de livros do mundo e espera para os próximos dias a criação de comitês e subgrupos de trabalho, que vão envolver além de profissionais do mercado editorial, os diferentes ministérios e institutos culturais. Nesta entrevista, Galeno Amorim comenta as ações que devem ser feitas pensando em Frankfurt, os preparativos para a Feira de Bogotá, que homenageará o Brasil em 2012, e a nova versão do Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros no Exterior.

Como vai funcionar o programa de apoio à tradução?
Esse programa prevê um total de R$ 12 milhões até 2020 e o objetivo é dar previsibilidade e garantia aos editores, agentes e editoras estrangeiras de que essa política vai ter continuidade e que não será uma política temporária de um mandato. Ela se insere na condição de política pública que deve atravessar vários governos. A ideia depois disso que é se tenha algo olhando para mais 10 anos e assim por diante.
A cada dois anos vamos publicar um edital para sempre ajustar ao foco daquele momento seguinte, embora tenha uma perspectiva mais ampla. Será a cada dois anos porque existem aquelas metas um pouco mais imediatas. Por exemplo, no primeiro biênio desse programa claro que ele vai contemplar a presença do Brasil em feiras internacionais como é o caso de Frankfurt em 2013. Depois o Brasil vai ser homenageado em Bolonha e certamente o próximo edital vai levar isso em conta. E assim por diante. Mas sempre com a garantia de recursos até 2020.


Não corre o risco de daqui a dois anos o projeto ser cancelado?
Não. Ele tem uma previsão de fonte de recursos que é o Fundo Nacional de Cultura e está aprovado um plano de trabalho até 2020.


Vai valer para qualquer editora de qualquer país ou será dada preferência para as línguas mais faladas?
É um programa que leva em conta a publicação nos mais diferentes idiomas. É evidente que há um esforço concentrado neste momento pensando em Frankfurt, mas a ideia são os mais diferentes idiomas. Como tem a presença do Brasil em 2013 em Frankfurt é claro que uma parte importante dessas bolsas contemplará a publicação em alemão, mas é uma política para apoiar a publicação em todos os idiomas.


Não necessariamente os que vendem mais, os melhores mercados?
O que vai ocorrer é uma análise no momento da seleção e que vai levar em consideração alguns critérios como plano de distribuição da obra, tiragem, como será essa edição, a própria qualidade do livro. Pode ser importantíssimo, por exemplo, publicar o Drummond em italiano. Certamente é e será apoiado. O programa vai procurar buscar um certo equilíbrio levando em consideração os vários idiomas e os vários países. Algo importante de se observar é que se trata de uma política de internacionalização da literatura brasileira. Não criamos um programa para participar de Frankfurt. Frankfurt, na verdade, é uma boa motivação para o Brasil fazer aquilo que está na hora de ser feito, que é ampliar sua presença no cenário internacional.


Quanto tempo as editoras têm para produzir o livro depois que o projeto é aprovado?
O presente edital dá o período de 18 meses para a publicação do livro, mas há um limite. Quem pegar agora vai ser mais beneficiado e quem pegar o recurso um pouco mais tarde vai ter que trabalhar mais rápido porque ele está estabelecendo um limite que é publicar até agosto de 2013. Ou seja, essa edição do edital prioriza Frankfurt, embora a política seja mais ampla. A cada dois anos vai priorizar alguma coisa.


Para quando vocês calculam que as editoras inscritas terão a resposta?
Uma novidade do programa é que ele é ininterrupto. No último dia de cada trimestre vai ser feito o levantamento das inscrições, uma análise e 30 dias depois sai a resposta. Um dia fecha o trimestre e no dia seguinte começa o novo trimestre com outras inscrições.


O programa era tido como burocrático, com muitos formulários para serem preenchidos, muito demora. Vai mudar?
Os formulários que criamos este ano são muito compatíveis com os formulários dos melhores programas internacionais de bolsas de tradução. Ele tem o mesmo grau de exigência. Nós aprimoramos várias coisas: prazo, tamanho do edital, valor, cronograma, o fato de ele ter 10 anos. Para se ter uma ideia, nos últimos 10 anos o valor destinado à tradução era R$ 100 mil em média por ano. Estamos ampliando para um valor infinitamente maior que esse.


Quantos livros devem caber neste orçamento?
Esse não é um edital para Frankfurt. Ele é um edital de internacionalização. O que queremos é chegar a Frankfurt, tomando isso como exemplo, com cerca de 250 títulos. Alguns títulos vão receber US$ 2 mil. Outros vão receber US$ 8 mil. Dependendo da quantidade de títulos que serão apresentados é que você vai ter essa quantidade de títulos apoiados.


Como será feita essa divisão?
Traduzir Sagarana, do Guimarães Rosa, é diferente de traduzir um livro infantil ou livro de crônicas que tenha 80 páginas. A complexidade, o número de páginas da obra a ser traduzida e o próprio plano de edição e distribuição serão levados em conta. Estamos também procurando apoiar a publicação de obras já editadas e que estão fora de catálogo, que não existia antes.


Como o Brasil vai chegar a Frankfurt? Já existe um conceito dessa participação?
A literatura brasileira vai ser o fio condutor da presença do Brasil em Frankfurt. O Brasil deve chegar não só com o livro; vai chegar também com a sua música, o cinema, a arte, o artesanato. O Brasil é hoje um país com uma imagem muito positiva no mundo todo por conta de suas conquistas no campo da economia, da política, no enfrentamento das desigualdades. É esse Brasil novo, moderno, importante protagonista no cenário internacional que vai ser mostrado em Frankfurt. As várias estéticas e as várias áreas criativas estarão presentes. O Brasil vai aproveitar esse momento, essa oportunidade apresentada pela Feira de Frankfurt, para levar livros, mas também para levar o país que é hoje, que é muito diferente do Brasil que existia em 1994 quando o país foi homenageado pela primeira vez. Estamos nos preparando para isso.
A presidenta da República Dilma Roussef deve assinar nos próximos dias um decreto que vai criar o comitê que vai organizar essa participação. Nós estamos criando um comitê que terá quatro subgrupos de trabalho: um dentro da Fundação Biblioteca Nacional, outro com as várias instituições que compõem o Ministério da Cultura e outras como o Instituto Moreira Salles, Itaú Cultura, o Instituto Goethe. Haverá um outro grupo que vai cuidar da participação dos demais ministérios e por fim outro grupo de trabalho com profissionais do mercado.
Em termos de comitês temáticos, nós temos um grande grupo que vai cuidar de toda a programação voltada para a questão da literatura. Um segundo que será o mercado propriamente dito. E teremos uma outra área que vai cuidar das exposições e concertos que não acontecerão somente em Frankfurt mas em toda a Alemanha entre março a outubro de 2013. Essas ações já começaram com a apresentação do programa de tradução durante a Flip. Na Bienal do Livro do Rio teremos um encontro de tradutores e outro dos organizadores da Feira de Frankfurt com os editores brasileiros.


Como o mercado editorial será envolvido?
Todas as ações que dizem respeito à venda de direitos e à questão do negócio do livro são as próprias entidades que vão fazer. As entidades do livro, a Câmara Brasileira do Livro e o Sindicato Nacional de Editores, estão coordenando com outras entidades como a Abeu e a Libre a elaboração de um grande catálogo impresso e digital com as obras que estão sendo traduzidas. Já este ano vamos levar uma quantidade expressiva de obras para mostrar o que estamos tentando vender.


E a sua ideia de ter uma residência de tradutores no Brasil?
Nós já começamos a trabalhar. O Itamaraty vai nos ajudar a implementar isso e a ideia é trazer não só tradutores, mas trazer os chamados leitores especiais das editoras, que são formadores de opinião, para que eles venham ao Brasil, se ambientem, conheçam o país, morem aqui durante algumas semanas. A ideia é fazer as primeiras este ano.


Quem é o público alvo? De quais países?
Começaremos com tradutores da Alemanha e de alguns outros países da Europa e depois ampliaremos.


O mesmo grupo de trabalho cuidará da Feira de Bogotá?
A Feira de Bogotá é mais localizada e estamos trazendo algumas outras pessoas para ajudar especificamente neste projeto, mas boa parte do esforço que começa a ser feito vai voltar para atender Bogotá. Mesmo porque esse grande esforço não está sendo feito para Frankfurt. É um esforço para a internacionalização da literatura brasileira. O que nós fizermos para publicar em espanhol nesses próximos anos vai beneficiar Bogotá e Frankfurt.


O Brasil vai ser homenageado em Bogotá no ano que vem. Vai dar tempo de traduzir os livros até lá?
Sim. Algumas coisas nós teremos tempo de fazer, mas não vamos com uma meta de títulos para Bogotá, que é diferente da Feira de Frankfurt, uma feira de venda de direitos. Bogotá é uma feira de público, tem um outro formato. Nós temos que ir com palestras de autores na própria feira do livro, universidades, escolas e bibliotecas e já fiz esses contatos. Fui pessoalmente a Bogotá, combinei com o Instituto Brasil-Colômbia, com a Embaixada, com o Cerlalc e com a Fundalectura para levar brasileiros antes da feira, alguma coisa inda neste ano, mas mais no ano que vem, e fazer um bom calendário da presença do Brasil e algumas exposições na feira. É uma feira de público e a programação vai ocorrer principalmente na época. Será um ensaio para a Feira de Frankfurt e trataremos Bogotá com muito respeito. A Colômbia tem um papel importante na difusão de políticas públicas de leitura. Quanto às traduções, ainda dará tempo de traduzir algumas coisas que já estão engatilhadas, mas pouca coisa. Esse programa não é voltado para Bogotá.


Esta entrevista foi extraída do site PublishNews e é de autoria de Maria Fernanda Rodrigues | Todos os direitos reservados | A postagem aqui é apenas para divulgação do assunto.

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