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8 de novembro de 2011

O Portal, Eliane Raye, Vermelho Marinho

O Portal
Eliane Raye - Vermelho Marinho - R$32,00
Nº de páginas: 202 - Ano de lançamento: 2010

Sinopse:
"Os sinais escondem um mistério que poderá mudar o rumo da história." Elizabeth Macwood foi criada em Nova York. Filha de um grande empresário americano, Robert Macwood, decide acompanhá-lo em seu novo compromisso no Brasil. Após uma noite agitada, Elisabeth acorda com três sinais desconhecidos rasgados em suas costas e uma súbita amnésia que a faz se esquecer dos acontecimentos que geraram as marcas. Em uma busca incessante para desvendar o motivo dos sinais, Elizabeth se vê envolvida em histórias inacreditáveis, verdades, mentiras, símbolos, viagens no tempo, medos, supresas e paixões inesperadas. Ambientado nas cidades de Nova York e Rio de Janeiro, O Portal apresenta um enredo de enigmas, no qual a autora Eliane Raye nos conduz em suspense até o último momento, em reviravoltas inusitadas. Um romance com personagens marcantes em que todos apostam a própria vida para descobrir a verdade."

Minha resenha: 
Me interessei por esse livro quando o vi entre os indicados ao Codex de Ouro 2011. O Portal possui 3 indicações no total, nas categorias Melhor Booktrailer, Melhor Ficção/Fantasia e Melhor Design de Capa. Particularmente, concordo com as indicações, ainda mais agora que o li.

Conheci a Eliane Raye durante a Bienal do Livro do Rio e pela primeira vez vi o livro ao vivo e constatei que realmente a capa é muito bela. E a escritora me deu bastante atenção. Acrescentei o livro à minha wishlist e quando o ganhei da própria Eliane, quase morri de felicidade!
Uma observação pessoal é que Eliane enviou o livro com a dedicatória mais linda que já recebi, e este tornou-se um dos livros mais especiais de minha estante, antes mesmo de ser lido. A Eliane enviou também um kit que está sendo sorteado aqui no blog, não perca a chance de participar!
A capa, o material, a diagramação e a revisão estão aprovados! Um livro de qualidade, isso nota-se ao segurá-lo e folheá-lo. E o conteúdo? Maravilhoso!
Na minha opinião, existe um estilo de narrativa semelhante ao estilo do Sidney Sheldon, que pode ser notado na forma como a ação e suspense ocorrem, nos capítulos empolgantes, no mistério envolvido, nas referências modernas nos detalhes... e muitas outras coisas. A protagonista é uma mulher com uma personalidade bem definida.
Mas é claro que existe o diferencial! Eliane consegue ser mais sensível e profunda. Além disso, apesar da protagonista, Elizabeth (Lizzie) ser de Nova Iorque, os pontos poderosos da trama se passam no Rio de Janeiro (com uma escapadinha em Búzios). Cenários típicos da cidade, como as encantadoras praias e pontos turísticos estão bem explorados e detalhados. Moro em Cabo Frio (do ladinho de Búzios; poxa quando lerei um trechinho de algo em Cabo Frio, hein? Na série Horizontes, outro livro nacional que li neste ano, Búzios também é citado, e nada de Cabo Frio ahaha.), mas nasci e vivi no Rio e adorei ver cenários como a Biblioteca Nacional e o Pão de Açúcar, locais que eu amo!
Também existem momentos em Nova Iorque, no Central Park ou na Wall Street. Damos também um "pulinho" em Columbia e Orangeburg.
O Rio de Janeiro e Nova Iorque são interligados numa teia curiosa de acontecimentos capaz de agarrar o leitor. O retorno ao passado surge contando a história dos pais de Lizzie, e de sua infância. Essas voltas ao passado são importantes para entendermos melhor as personagens, o presente e também outras coisinhas. No início me perguntei se isso era apenas uma tática da autora para "enrolar" um pouco, mas descobri que nada é exposto por acaso, todos os fatos vão se encaixando e fazendo um tremendo sentido. Uma teia muito inteligente interligando os ambientes e a linha temporal.
Todas as personagens possuem características marcantes e apesar das mudanças sofridas, existe fidelidade em manter suas personalidades, fato que achei uma ótima estratégia.
Lizzie é uma jovem mulher de personalidade marcante, teimosa, charmosa e inteligente. Seus defeitos são tão fortes quanto suas qualidades, o que a torna uma moça real. Em alguns momentos você a admira, pela coragem em enfrentar o desconhecido e carinho com os pais, por exemplo. Em outros momentos você tem vontade de agarrá-la pelos ombros e gritar-lhe sobre sua indecisão e insistência. Isso faz da leitura uma ação muito divertida.
Uma personagem que gostaria de destacar é seu pai, Robert. Conhecemos sua história de trabalho duro, um rapaz simples e estudioso que se transforma num homem rico e bem-sucedido. Você não o inveja, pelo contrário, vê o quanto ele merece. É um ótimo pai e marido, uma pessoa de bom coração.
Leonardo, o médico que é quase dermatologista, literalmente esbarra em Lizzie, e acaba se metendo numa confusão e suspense que muda sua vida para sempre. Gosto de como ele e Lizzie brigam, se desentendem e num minuto depois se acertam e continuam na tentativa de descobrir o grande mistério que envolve Lizzie.
As personagens secundárias são tão bem estruturadas quanto as principais, um ponto forte no livro. A única diferença que as separa é a frequência com que aparecem nas páginas: Brian, Flávia, Rachel, Cíntia e Marcello. Gostei de todos eles!
O mistério envolve marcas estranhas feitas dolorosamente nas costas de Lizzie, uma chave misteriosa, um enigma fenício, papéis com teorias loucas, borboletas, interesse de grupos poderosos, perigo e a Pedra da Gávea! Totalmente eletrizante! Um portal para viajar no tempo, parece loucura? Não nesse livro empolgante.
Além da ação-suspense-mistério-perigo, existe o romance. Um "quadrado" amoroso para leitor algum colocar defeito! Com quem Lizzie deve ficar? Com seu primeiro amor adolescente, com um sedutor refinado ou um amigo apaixonado? Isso também faz parte do mistério do livro...
Depois do término da leitura, me senti um pouco incomodada. Quero mais. Existe muita coisa ainda a ser explorada, não que não tenha sido bem trabalhada pela autora, muito pelo contrário. Não sei se ao escrever O Portal ela já imaginava a continuação, ou se foi uma necessidade que nasceu depois de ver o livro publicado. O que importa é: O Portal 2 será muito bem-vindo! A Eliane anunciou por esses dias que está finalizando a continuação e eu fiquei muito interessada!
Gostaria de agradecer a Eliane por me proporcionar momentos agradáveis de entretenimento, pois na última semana passei por um estresse e não conseguia me concentrar em ler e escrever. O Portal foi uma salvação, me fazendo "escapar" do problema.
Livro agradável e viciante que recomendo a todos.
Skoob.


Como comprar O Portal



Eliane Raye

Além de escritora, Eliane Raye também é ilustradora e dentista. Nasceu em Volta Redonda, RJ, foi criada em Brasília e atualmente mora no Rio de Janeiro. Foi cantora e designer e é casada.
É autora do livro O Portal, que possui 3 indicações ao Codex de Ouro 2011 (Ficção/Fantasia,Design de capa e Booktrailer) e do livro Os Primeiros Socorros Para Os Seus Filhos.
Ilustrou Uma Turma Para Dora de Ana Cristina Melo e Uma Vaca Que Não Gostava do Pasto da autora mirim Nina Krivochein. É editora do site Tabletes Culturais.

Na internet: website | twitter | skoob de autora | Tabletes Culturais
Contato: elianev@gmail.com




Booktrailer:



Pesquisando sobre o assunto
Após ficar imaginando a continuação, pesquisei um pouco na internet sobre os mistérios que envolvem o livro, e me surpreendi. Gostaria de compartilhar dois textos interessantes que encontrei, mas apenas para quem já leu o livro! Como um "complemento".

O "rosto" na Pedra da Gávea.

Texto extraído de Mundi Philosophorum (apenas para quem já leu o livro)

"As 13 caravelas com mais de mil homens comandados pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral estavam bem próximas da costa brasileira. Depois de mais de 40 dias navegando pelo Atlântico, os lusitanos avistaram o Monte Pascoal, próximo a Porto Seguro, na Bahia, em 22 de abril de 1500.
Os portugueses então seguiram para o norte e atracaram na baía Cabrália, dois dias depois, em 24 de abril. A primeira missa em território brasileiro foi rezada na manhã do dia 26 de abril, um domingo, pelo frei Henrique de Coimbra. Depois da missa, os portugueses seguiram viagem para as índias.


O início da História do Brasil começa oficialmente no breve relato acima. Pouco é sabido sobre o Brasil antes da chegada de Cabral, mas é certo que a seqüência histórica a partir do Descobrimento revelou alguns enigmas, ainda não muito bem esclarecidos, sobre a suposta estada de povos navegadores da antigüidade na costa Brasileira, muito antes dos portugueses.


Os lusitanos retornaram ao Brasil em 1501, para um reconhecimento mais detalhado da costa das terras recém-descobertas. Navegaram em três grandes caravelas pelo litoral brasileiro entre 10 de maio de 1501 e 7 de setembro de 1502, dando nome aos acidentes geográficos que mais se destacavam na vista que tinham da costa.


Em 1 de janeiro de 1502, os portugueses chegaram ao local que achavam ser a foz de um grande rio, e deram-no o nome de Rio de Janeiro. Porém, na vista do relevo daquele lugar, uma elevação se erguia a partir da beira do mar e se destacava com seu topo de granito, a 842 metros de altitude, ao lembrar o formato das gáveas das caravelas, que eram plataformas nos topos dos mastros, de onde os navegadores buscavam avistar ilhas ou continentes no horizonte. A curiosa formação rochosa acabou batizada com o nome de Pedra da Gávea pelos portugueses.


A singular forma da Pedra da Gávea lembra, mesmo que desgastada pela ação erosiva do tempo, um rosto enrugado, com longas barbas, e que pertence ao corpo de um leão montado no topo do morro. Essa suposta forma de uma antiga esfinge deixou o rei português Dom João 6º ainda mais curioso, quando um grupo de investigadores relatou a existência de estranhos sinais medindo 15 metros de altura por 4 metros de largura, entalhados na rocha do lado direito da 'têmpora' da imensa figura 'humana'.


Em 1839, uma expedição liderada pelo historiador Manoel Araújo Porto Alegre confirmou a localização dos estranhos sinais. A surpresa geral veio a público quase um século depois, em 1928, quando o arqueólogo amazonense Bernardo da Silva Ramos (1858–1931) publicou o livro 'Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, Especialmente do Brasil', onde afirma que os sinais são inscrições fenícias, cuja tradução para o português revela: "Tyro, Fenícia, Badezir, primogênito de Jethbaal". Em 856 Antes de Cristo, Badezir sucedeu o pai no trono da cidade de Tiro, capital da Fenícia, e reinou até 850 AC, quando desapareceu misteriosamente.


Bernardo Ramos revela ainda no livro, que várias palavras indígenas brasileiras possuem origem no antigo idioma fenício. Em vários lugares do Brasil, além da Pedra da Gávea, foram encontradas supostas inscrições fenícias gravadas em rochas.


Em Pouso Alto, na Paraíba, um conjunto dessas misteriosas inscrições teve a curiosa tradução:
'Somos filhos de Caná, de saída, a cidade do rei. O comércio nos trouxe a esta distante praia, uma terra de montanhas. Sacrificamos um jovem aos deuses e deusas exaltados no ano de 19 de Hiram, nosso poderoso rei. Embarcamos em Ezion Geber, no mar Vermelho, e viajamos com 10 navios. Permanecemos no mar juntos por 2 anos, em volta da terra pertencente a Ham (África), mas fomos separados por uma tempestade, nos afastamos de nossos companheiros e, assim, aportamos aqui: 12 homens e 3 mulheres. Numa nova praia que eu, o almirante, controlo. Mas auspiciosamente passam os exaltados deuses e deusas intercederem em nosso favor'.


Outro achado curioso aconteceu nas margens do lago Pensiva, no Maranhão, onde foram encontrados estaleiros de madeira petrificada, com espessos pregos de bronze. O pesquisador maranhense Raimundo Lopes encontrou utensílios tipicamente fenícios no lugar, na década de 1920. Na ilha de Marajó, foram encontrados tipos de portos tipicamente fenícios, parecidos com muralhas de pedras, iguais aos encontrados na costa do território da antiga Fenícia.


Os fenícios formavam um povo da antigüidade que não possuía exército poderoso e nem se dedicava à literatura, porém, ficaram famosos por serem os melhores navegadores de sua época. Viviam em uma faixa de terra de 200 quilômetros, entre o mar Mediterrâneo e as montanhas do oeste do Líbano, onde havia fartura de madeira de cedro própria para a construção de embarcações.


Os fenícios foram influenciados pelas bases da cultura egípcia. No início, os fenícios adoravam rochedos, árvores e pedras negras ovais; depois, passaram a adorar os astros e as forças da natureza, chamados de baals; o Sol era o grande baal. O culto a esses deuses era realizado em templos erguidos em lugares elevados ou perto de nascentes de rios. Na iminência de um grande perigo, ou quando se construía uma cidade ou um templo fenício novo, os fenícios sacrificavam crianças, que eram lançadas vivas aos braços incandescentes da estátua de bronze do Baal, aquecida por uma fornalha.


Tiro foi a cidade mais importante do império comercial fenício e era chamada de 'A Rainha dos Mares'. Com o propósito de enriquecer sem limites, os fenícios foram grandes negociantes marítimos e piratas ao mesmo tempo. Quando estavam em menor número ao desembarcarem em um lugar, apresentavam suas mercadorias e ficavam satisfeitos com o lucro de suas vendas; mas, se eram numerosos e mais fortes que os habitantes da região onde chegavam, incendiavam e saqueavam os povoados, além de raptarem mulheres e crianças que eram vendidas posteriormente em Tiro, Mênfis e Babilônia.


Como exímios navegadores de seu tempo, os fenícios fundaram importantes cidades como Lisboa, atual capital de Portugal, que era uma colônia fenícia e foi fundada há mais de 3 mil anos, sendo a 2ª cidade mais antiga da Europa, mais antiga do que Roma inclusive, só perdendo para Atenas. A palavra Lisboa é de origem fenícia e queria dizer "bom porto"


Os fenícios também defendiam seu controle absoluto sobre os mares que exploravam, exterminando, sem piedade, seus concorrentes. O apego dos fenícios pelo monopólio do lucro de seu comércio chegava a níveis inimagináveis. Conta-se a história de um navio fenício que ia buscar estanho na Sicília e, ao perceberem que eram seguidos por uma embarcação estrangeira, os fenícios preferiram afundar seu navio a mostrarem o caminho do estanho aos inimigos.


Para afastarem os possíveis concorrentes de seus territórios, os fenícios contavam lendas fantásticas sobre as terras que exploravam; diziam que a Sicília era habitada por gigantes que se alimentavam de carne humana; e que a África era cheia de monstros horrendos.


Teria esse curioso povo da antigüidade estado no Rio de Janeiro e esculpido uma esfinge na Pedra da Gávea para realizar ali sacrifícios religiosos e sepultar seu rei Badezir muito antes do século 1 da era cristã? Para muitos pesquisadores modernos, a resposta é não.


O geólogo Marco André Malmann Medeiros, da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) afirma que as supostas inscrições são falhas geológicas na pedra, resultantes do desgaste dos minérios mais sensíveis ao longo do tempo. Já o antropólogo cultural e professor Francisco Otávio da Silva Bezerra, um dos fundadores do Centro Brasileiro de Arqueologia, afirmou que não há prova científica da vinda dos fenícios ao Brasil.


No outro extremo das explicações relativas aos mistérios sobre a Pedra da Gávea, os membros da Sociedade Brasileira de Eubiose definem o local como um ícone da presença fenícia no Brasil. Outra expressão dos mistérios da Pedra da Gávea é um suposto 'portal' de quinze metros de altura, marcado por uma reentrância próxima ao topo da Pedra, do lado voltado para a Barra da Tijuca. Para muitos místicos, trata-se de um portal que dá acesso à outra dimensão, ou à entrada para Agharta, que seria um império subterrâneo com milhares de habitantes. A revista 'O Cruzeiro', que marcou época na história do jornalismo brasileiro, publicou, em 1952, uma foto em que aparece um suposto disco voador ao lado da Pedra da Gávea.


Entre o ceticismo e a crença de que os mistérios da Pedra da Gávea são marcos físicos e históricos que comprovam teorias sobre a presença fenícia nas américas, olhar para a forma tão particular da Pedra, a partir do oceano ou das areias da orla carioca, deixa a dúvida que, talvez, jamais seja esclarecida pelo simples fato de suas verdades plenas estarem perdidas em algum lugar muito além das primeiras páginas dos livros de História do Brasil, que definem o começo como sendo a chegada das 13 caravelas de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, em 22 de abril de 1500."

Cássio Ribeiro



Texto publicado em O Globo em 06/08/2000 (encontrado no mesmo blog)





"Esfinge, tumba fenícia, portal para o mundo subterrâneo? Há quase 200 anos os mistérios da Pedra da Gávea intrigam excursionistas, pesquisadores e esotéricos. No último dia 28, uma expedição de cientistas das UFRJ e da Uerj, acompanhada por repórteres do Globo e guiada pelo montanhista Sérgio Marcondes, da Outdoor Consultants, desvendou o enigma. Foram necessárias quase 14 horas de caminhada para levar o equipamento GPR (sigla em inglês para radar de penetração no solo), que "enxerga" através da rocha, até o alto dos 842 metros da pedra. O resultado deve decepcionar os iniciados: 


- Os dados obtidos não mostraram nada além de rocha maciça na Pedra da Gávea - diz a geofísica Paula Ferrúcio da Costa, professora e líder da equipe de cientistas da UFRJ.


A existência de uma cavidade seria indício de que a pedra seria a tumba do rei fenício Badezir, que em 850 a.C. teria sido enterrado num salão ao lado de dois filhos, dois escravos e uma galera. A teoria surgiu no século XIX, com um certo frei Custódio, especialista em epigrafia (estudo de inscrições em pedra), que teria alertado dom João VI para a existência de inscrições na Pedra da Gávea. A lenda ainda existe, às vésperas do 31º Congresso Internacional de Geologia, que começa hoje no Rio.


Em 1839, uma expedição do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) não conseguiu confirmar se as marcas tinham sido feitas pela mão do homem ou pela ação do tempo. A dúvida persistiu e, em 1930, foi publicado o livro "Inscripções e tradições da América pré-histórica", de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos. Nele, o arqueólogo amador traduzia as supostas inscrições. De acordo com Ramos, elas diziam "Tiro, Fenícia, Badezir, primogênito Jethbaal" - sendo Tiro uma das cidades-estados da Fenícia e Badezir outra grafia de Baalazar, que teria reinado naquela cidade entre 855 e 850 a.C. 


- As tais inscrições não passam de falhas geológicas. Com as intempéries, os minérios mais sensíveis gastam e o resultado ficou com a aparência de inscrições - afirmou o geólogo Marco André Malmann Medeiros, da Uerj.


Balde de água fria nos seguidores da Sociedade Brasileira de Eubiose, que cultuam a Pedra da Gávea como um dos marcos do "Brasil fenício". Em seus escritos, o patrono do grupo, Henrique José do Nascimento, compara a forma da pedra a uma esfinge egípcia e conta a história dos fenícios Jethbaal, sua irmã Jeth Baal-Bey e o pai, Badezir, que teriam sido expulsos de Tiro.


- Ainda não há prova científica da vinda dos fenícios ao Brasil. Nem no Rio, nem em outro estado - afirmou o professor Francisco Otávio da Silva Bezerra, antropólogo cultural e um dos fundadores do Centro Brasileiro de Arqueologia.


O portal dos fenícios, uma reentrância retangular de cerca de 15 metros de altura bem próxima ao cume da Pedra da Gávea, também é objeto de lendas. A mais fantástica conta que o portal seria a entrada para Agarta, império subterrâneo com milhares de habitantes.


Se a arqueologia não confirma a tese dos fenícios e tampouco a descarta, a geologia é mais categórica: as medições realizadas com o GPR pelos geofísicos da UFRJ, no dia 28 de julho, não apontaram qualquer reentrância atrás do portal.


O diagnóstico também é desanimador para quem esperava um túnel escondido. Os geofísicos Carlos Eduardo Guerra e Marcelo Marques, da UFRJ, analisando os gráficos obtidos pelo equipamento, descartam a existência de qualquer caverna nas proximidades do portal.


A aura de mistério da Pedra da Gávea atraiu de cientistas a esotéricos, passando pelo cantor Roberto Carlos; o ator José Mojica Marins, o Zé do Caixão; o tecladista inglês Rick Wakeman; e o paranormal Uri Geller. Em 1952, a revista O Cruzeiro publicou uma das primeiras fotos de disco voador de que se tem notícia, bem ao lado da pedra. Hoje, sites na Internet difundem lendas para todos os gostos. Em 1989 foi a vez de o filme Os Trapalhões na terra dos monstros explorar a suposta origem fenícia da pedra.


Em 1973, a revista Planeta publicou uma entrevista com o vidente Alex Madruga, que garantiu ter visto vultos que vestiam mantos de cor púrpura bordados a ouro. Anos depois, foi a vez de Uri Geller dizer que sentira vibrações na pedra, que teria sido palco de sacrifícios.


Em 1977, o escritor Erich von Däniken, autor do best-seller Eram os deuses astronautas?, escreveu o prefácio do livro Mensagem dos deuses: para uma revisão da História do Brasil, do jornalista Eduardo B. Chaves, obra dedicada à Pedra da Gávea. Entre as teorias apresentadas, está a de que os descendentes dos habitantes de Atlântida - o continente perdido citado pelo filósofo Platão em um de seus Diálogos - teriam modelado a pedra.


A Internet oferece farto material com outras explicações. Um dos mais respeitados sites sobre cultura fenícia, apresenta um texto em que o autor lista vestígios da cultura fenícia no Brasil, entre eles inscrições na Pedra da Gávea.


Uma velha vontade de ver fenícios por toda a parte Vontade não faltou para encontrarem vestígios de fenícios ou vikings no Brasil. O historiador Johnni Langer, da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, procura esclarecer na tese de doutorado A arqueologia no Brasil Império tamanha disposição de arqueólogos e cientistas da época para descobrir sinais de outras civilizações avançadas anteriores à chegada dos descobridores, em 1500. Langer chegou à conclusão de que os esforços faziam parte da construção de um nacionalismo comparável ao da Europa.


- Foi a época em que se começou a construir a nação. E o berço da civilização não podia ser apenas a Europa - explica o historiador, que dedicou o capítulo O enigma de uma esfinge aos mistérios da Pedra da Gávea.


A tese traça um paralelo entre as "descobertas" fenícias no Brasil e a interpretação de inscrições ditas fenícias nos Estados Unidos. Em 1680, o americanista francês Antonio Court de Gebelin estudou as inscrições da pedra de Dighton, no estado de Massachusetts e chegou à conclusão de que eram de procedência fenícia. Para ele, os fenícios haviam estado em toda a Terra. Porem até o momento não provaram quem esculpiu aquele enorme rosto que chamou a atenção do Portugueses desde Don Pedro, e que qualquer carioca já viu. Quem o fez? De onde veio? Criação da natureza?"


Eric Brücher Camara

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