Um Mundo Brilhante, T. Greenwood, Novo Conceito

Um Mundo Brilhante (The Glittering World)
T. Greenwood - Editora Novo Conceito
Tradução: Ivan Panazzolo Júnior
336 páginas - 2012 - R$29,90

Sinopse:
"Quando o professor Ben Bailey sai de casa para pegar o jornal e apreciar a primeira neve do ano, ele encontra um jovem caído e testemunha os últimos instantes de sua vida. Ao conhecer a irmã do rapaz, Ben se convence de que ele foi vítima de um crime de ódio e se propõe a ajudá-la a provar que se tratou de um assassinato.
Sem perceber, Ben inicia uma jornada que o leva a descobrir quem realmente é, e o que deseja da vida. Seu futuro, cuidadosamente traçado, torna-se incerto, pois ele passa a questionar tudo à sua volta, desde o emprego como professor de História, até o relacionamento com sua noiva. Quando a conheceu, Ben tinha ficado impressionado com seu otimismo e sua autoconfiança. Com o tempo, porém, ela apenas reforçava nele a sensação de solidão que o fazia relembrar sua infância problemática.
Essa procura pelas respostas o deixará dividido entre a responsabilidade e a felicidade, entre seu futuro há muito planejado e as escolhas que podem libertá-lo da delicada teia de mentiras que ele construiu.
Esta, enfim, é uma história fascinante sobre o que devemos às pessoas, o que devemos a nós mesmos e o preço das decisões que tomamos."


Resenha:
O livro chama a atenção de qualquer pessoa pela capa: a imagem de silhuetas encasacadas em meio a uma forte nevasca. Onde estão os flocos de neve, possui um feito delicado de glitter, como uma fina camada de gelo. O livro é lindo e com certeza um dos mais belos trabalhos gráficos da Novo Conceito. Diagramação e revisão boas, fonte de tamanho agradável.

O livro possui sessenta e cinco capítulos divididos em cinco partes: Mundo Vermelho, Mundo Azul, Mundo Amarelo, Mundo Preto e Branco e O Mundo Brilhante. A narrativa é em terceira pessoa, sempre sob a visão de Ben, o protagonista.
Os capítulos são curtos e dinâmicos, sempre se interligando, e por vezes retornando ao passado por breves períodos. A autora soube finalizar um capítulo de forma a deixar o leitor com muita vontade de prosseguir a leitura. Certas vezes o capítulo termina com uma surpresa ou gancho para novos rumos na trama.
O problema está no fato da autora terminar o capítulo bruscamente e ao iniciar o próximo, contar o que ocorreu nesse intervalo como passado, pulando o suspense máximo que ela poderia ter dado ao fato se o contasse no presente, seguindo uma linha contínua.
Agora sobre o retorno de Ben ao passado longínquo, na forma de lembrança, é uma manobra que enriquece muito a história, nos ajudando a tecer a personalidade dele.
A narrativa é envolvente, os acontecimentos são claros e nos causa diversas reações.

As personagens não são pessoas perfeitas, elas omitem, mentem, manipulam, traem. Mas não são necessariamente más. Nem boas, apenas possuem suas justificativas e metas. No entanto, apesar de admirar a autora por criar personagens reais e comuns, não me senti cativada por ninguém em especial. Nenhuma personagem me emocionou de fato, apenas em alguns momentos dramáticos e tristes meu coração foi abalado, mais pelas situações do que por apego à elas.

Agora, criar cenas e fatos bem estruturados faz parte da forma da autora escrever. Ela tece lugares e interliga vidas. E não entrega respostas de primeira, faz o leitor imaginar e julgar as ações.
Flagstaff
Não há como não julgar personagens e pensar em como isso ou aquilo foi errado ou imprudente. Durante várias decisões tomadas pelo protagonista, tive vontade de gritar com ele. Então eu pensava na história familiar dele, e mesmo não justificando certas coisas que ele faz, eu me mantinha calada e pensando que ele iria mudar.

O pano de fundo da história é um relacionamento de aparências e um assassinato. Ben está noivo de Sara, com quem vive junto há anos, possuem uma casa e até uma cachorra. Quando se conheceram, o namoro era intenso e o amor parecia forte.
Sara era uma moça perfeita, embora mimada pelos pais. Sua vida era boa, ela nunca sofreu grandes decepções, nunca perdeu um ente querido ou passou por crises financeiras. Ao contrário de Ben, que teve sua família destruída aos poucos, por um desastre. Por isso ele se apega a Sara e sua energia positiva.
Com o passar do tempo, ele foge do compromisso com a noiva, enrola para marcar a data do casamento e o casal afasta-se cada vez mais. Ele nunca está presente quando ela precisa dele, e ela torna-se amarga e manipuladora por isso.

Não consegui deixar de imaginar quantos relacionamentos de fachada existem, quantos casais se deitam na mesma cama todas as noites, mas sonham com outras pessoas. Quantas pessoas vivem mecanicamente suas vidas sem ter a ousadia e coragem de modificá-las. Muitas pessoas não tem ao menos a capacidade de imaginar que estão vivendo de forma incompleta e depressiva. Apenas continuam a viver, mas não encontram felicidade no que fazem, seja num relacionamento, num emprego ou onde moram.
O livro é para esse tipo de reflexão. De pensarmos o quanto estamos satisfeitos com a vida que temos, o quanto somos os próprios responsáveis por nossa infelicidade. Comodidade pode ser um atraso de vida.

Phoenix
Além do fundo emocional, dramático e reflexivo, existe suspense no livro, criado a partir da busca incessante de Ben pelos responsáveis do assassinato de um jovem índio navajo, que caiu morto na calçada de sua casa. Ele não quer apenas descobrir quem matou o rapaz, mas também deseja que os culpados sejam punidos, que a justiça seja feita. Ele mergulha tão profundamente no caso, ao ponto de querer saber o porquê de tamanha violência. E o pior está no fato de parecer que ninguém se importa, apenas a irmã da vítima. Ele se envolve com a moça e com uma vida que parece não lhe pertencer, um mundo que parece irreal. Shady surge para criar mais dúvidas ainda no relacionamento de Ben e Sara.

Dilemas e buscas recheiam as páginas de Um Mundo Brilhante, uma história de arrependimentos, dúvidas e vidas conturbadas. Atos simples e impensados podem desencadear uma série de modificações irreparáveis. Ou a omissão, fingir que os problemas não existem, transformando-os numa grande bola de neve, pode ser pior que decisões erradas. Não tomar uma atitude corajosa pode ser pior que escolher o caminho errado.

Ponto positivo para os opostos dos cenários, da cidade gelada de Flagstaff em relação a quente Phoenix. Esses extremos de temperatura e mundos diferentes parecem influenciar no humor de Ben. Outro ponto a favor do livro está no fundo político e sociocultural. O preconceito e racismo de muitos brancos em relação aos indígenas e o poder que cargos políticos podem trazer a algumas pessoas.

Artesanato navajo
Ben para mim resume-se a um homem medroso. Ele prefere o certo e não o troca pelo duvidoso, mesmo que permaneça triste, frustrado e desmotivado. A justificativa de sua história pessoal, não é suficiente para que eu o absolva de mentir e enganar a todos. Ele se arrisca tanto para descobrir o porquê da morte de uma pessoa que ele nunca conheceu, mas é totalmente incapaz de tomar uma única atitude em relação a sua própria vida, ao relacionamento frio e a vida profissional sem sucesso. Sua noiva age de forma omissa, finge que não vê o que ocorre ao redor, achando que fugir da realidade é uma forma de fingir que problemas não existem, e que gritar e discutir por futilidades é uma forma de diminuir o vazio da relação.

O final é triste e comovente, fazendo valer toda a leitura. Drama e suspense andam juntos. Segredos e mentiras. O livro termina de forma realista, mesmo que não haja justiça em tudo. Uma história que merece ser lida, para que as pessoas reflitam sobre a forma como conduzem suas vidas. O poder da mudança começa em cada um de nós, seja para correr atrás de algo novo, ou para modificarmos nossas próprias atitudes.

Nosso mundo pode ser colorido ou preto e branco, de acordo com nossas atitudes. Nosso mundo pode mudar de cor, de acordo com nossos sentimentos. Mas todos nós devemos tentar fazer dele um mundo brilhante.

Trechos:
"De qualquer modo ninguém espera sair pela porta da frente em um domingo buscar o jornal e encontrar uma pessoa morta na calçada."
"Há muito tempo, tudo estava inteiro. Ben se lembrava daquela época como se ela pertencesse a algum outro Ben."
"Naquela noite, enquanto Sara dormia de costas para ele, Ben pensou em todas as maneiras de dizer a ela que tudo estava acabado."
"...e olhou ao redor do escritório com um sentimento de culpa, como se alguém pudesse estar espiando por cima do seu ombro."
"Em seis breves anos, ele sistematicamente transformara a vida sublime em vida miserável."
"– Amanhã você vai ter de fazer uma escolha. E quando fizer essa escolha, não vai poder voltar atrás. Nem mesmo se for a escolha errada. Nem mesmo se isso magoar alguém."
"Cada dia era um pedido de desculpas." 


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Booktrailer:


Sorteio:
Este livro está sendo sorteado aqui no blog, num kit cedido pela Editora Novo Conceito. Quer tentar a sorte? Então participe!



A autora:
T. Greenwood escreveu seis romances, incluindo Two Rivers e The Hungry Season.
Recebeu vários prêmios e verbas para se dedicar à literatura, incluindo a Verba Nacional para a Literatura e as Artes e uma concessão do Conselho Artístico do estado de Maryland.
A autora mora em San Diego, na Califórnia, com seu marido e suas duas filhas, onde dá aulas de redação criativa, estuda fotografia e continua a escrever.

12 comentários

  1. Nossa, que blog legal! Já estou seguindo!
    Segue o meu:http://navegandoempaginas.blogspot.com/

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  2. Adorei a resenha Tatinda!
    Mesmo com sua opinião tão sincera ao dizer que em certos momentos o personagem é medroso e inseguro quanto as decisões que toma. Quero muito ler!
    Fiquei super curiosa com esse final e já adicionei este livros aos meus desejados no skoob!

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    1. Oi, Lindsay! O livro é bom, embora as personagens não sejam tão cativantes. Mas a autora escreve muito bem os fatos e cenários. Quanto ao protagonista ser assim... bem, foi apenas minha impressão, talvez outras pessoas pensem diferente. Acho que esta é a graça do livro, dá o direito de cada um ter sua opinião. Vale a pena a leitura. Beijos.

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  3. Tati ficou linda a resenha.
    Eu me simpatizei por Ben, ao contrário de você. rs
    Acho que ele nos faz refletir sobre a forma que a vida pode impor as coisas quando a gente permite que isso aconteça. É uma boa reflexão.

    Beijos
    Leitora Incomum

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    1. Fer, que linda, adoro quando vc me faz ver as coisas por outro angulo com sua opinião. Espero sua resenha. Mas eu achei que o Ben tinha que ter mais atitude, ser mais ousado ahaha beijos.

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  4. Resenha muito bem escritas, meus parabéns! Não é à toa que "Um Mundo Brilhante" está sendo tão comentando, tramas com personagens "imperfeitos" deixam a interação com os leitores ainda mais perfeita. Engraçado isso, concorda? Todos temos nossos defeitos e às vezes não somos tão bons e pode até acontecer de agirmos de modo completamente atípico. Não é algo de se estranhar considerando que somos seres tão voláteis.

    Abraços!

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    1. Sim, geralmente gosto mais de ler histórias com personagens que tenham problemas, conflitos, defeitos... gosto de odiá-los ou julgá-los ahaha sou má. Beijos.

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  5. Adorei sua resenha! Morro de vontade de ler esse livro, personagens perfeitos demais me entediam um pouco... Afinal, existe alguém perfeito nesse mundo, por acaso? Muito legal seu blog!

    Beijo

    Ju
    entrepalcoselivros.blogspot.com

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  6. Estava com esse livro na mão, mas acabei optando pelo da Charlaine Harris-Visão do Além, não me arrependo, mas me deu vontade de le-lo agora rsrsrsrsrsrsrs. Tb detesto livro em que os personagens são perfeitos demais, bonzinhos e servis, fica muito irreal, gosto dessa personalidade mais tortuosa, sou diferente, eu sei, mas fazer o quê? rsrsrsrs

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