A Filha da Minha Mãe e Eu, de Maria Fernanda Guerreiro, Novo Conceito

A Filha da Minha Mãe e Eu
Mesmo quem nos ama às vezes não consegue ver quem realmente somos
Maria Fernanda Guerreiro - Editora Novo Conceito/Novo Conceito Jovem
256 páginas - Ano: 2012 - R$29,90

Sinopse:
"Sensível e tão real a ponto de fazer você se sentir parte da família, A filha da minha mãe e eu conta a história do difícil relacionamento entre Helena e sua filha, Mariana. A história começa quando Mariana descobre que está grávida e se dá conta de que, antes de se tornar mãe, é preciso rever seu papel como filha, tentar compreender o de Helena e, principalmente, perdoar a ambas. Inicia-se, então, uma revisão do passado – processo doloroso, mas imensamente revelador, pautado por situações comoventes, personagens complexos e pequenas verdades que contêm a história de cada um."

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Resenha:
Quando vi o título do livro e a capa e li a sinopse pensei: "Vou chorar muito com esse livro até perder a respiração, por sentir saudades da minha mãe, falecida há quase treze anos." Só de imaginar um livro com o foco principal sendo o relacionamento entre mãe e filha, por mais diferente que seja de como era a relação com minha mãe, eu sabia que iria me emocionar.
A Novo Conceito está de parabéns pela publicação, como sempre trazendo um livro de qualidade editorial excelente, desde a parte gráfica até à revisão e diagramação.

Apesar de o tema central ser o relacionamento de Mariana, a filha e Helena, a mãe, toda a família está diretamente envolvida e influenciando o rumo da história. É o tipo de livro onde as personagens são imperfeitas e os acontecimentos são reais, por isso, causa rápida e fácil ligação com o leitor.
Uma família enfrentando conflitos do cotidiano que trazem altos e baixos aos integrantes. Ás vezes os problemas os afastam; em outros momentos, os unem.

A narrativa é em primeira pessoa, contada pela filha e o ponto de partida é a descoberta da gravidez. Ela reflete sobre questões não resolvidas sobre seu passado com sua mãe, e principalmente consigo mesma. Percebe naquele momento que resolver essas pendências sentimentais e psicológicas é a prioridade em sua vida. Como ser mãe se ainda não compreende o relacionamento com a sua própria?
Como ser uma boa mãe se não tem certeza se é uma boa filha? Mariana não quer repetir os mesmos erros que sua mãe cometeu com ela; ao mesmo tempo, analisa e assume que grande parte desses problemas foram direta ou indiretamente gerados ou ampliados por si própria e as armadilhas da vida.
Então ela nos apresenta sua família, suas origens, sua infância e adolescência. Se concentra em sua mãe, claro, mas nos detalha também seu pai e seu irmão.
A narrativa é muito dinâmica e nada rebuscada, porém é elegante. O livro é recheado por muitos diálogos e eu achei essa abordagem perfeita para o caso.

Não gostei da forma como ela narra fatos em que não esteve presente. É lógico que foram relatos que contaram a ela, por isso acho que a forma como ela nos conta deveria ser diferente. O modo como ela narra o passado dos pais e acontecimentos não vivenciados por ela soa como se ela estivesse estado lá e destoou do restante da narrativa. Um exemplo disso é a reprodução total e detalhada de diálogos. Ela não presenciou o ocorrido, então deveria ter contado de forma mais superficial.
Por um momento pensei se o livro teria ficado mais interessante se a narrativa se alternasse entre mãe e filha, ou apenas pela mãe, porém me enganei. No decorrer da leitura descobri que a autora escolheu perfeitamente a filha como narradora. Ficou impecável, nesse fator.

Os conflitos emocionam, mas não o suficiente para marcar ou fazer chorar. No entanto, diversas partes me fizeram parar e refletir o relacionamento entre pais e filhos. Muitas vezes percebi estar divagando sobre como era minha vida com os meus pais, ou como eu via primos com tios, ou meus pais com meus avós, ou até mesmo amigos com seus pais.

No caso da Mariana e sua família, a competição entre ela e seu irmão pela atenção e carinho dos pais é notável, assim como a união e cumplicidade existente entre os dois. Uma disparidade, não? Outra ponta principal é a competição entre mãe e filha, mas pelo amor do pai. Mariana é mais próxima do pai, com quem possui muito mais amizade e isso deixa Helena frustrada.
E o principal do livro: Mariana não compreende que não adianta tentar assumir o papel de mãe e querer cuidar de tudo e todos e se mostrar autossuficiente, seja emocionalmente ou nas decisões em sua vida - acaba errando e deixando de pedir ajuda em momentos difíceis. Ela não compreende que precisa da mãe, além do pai, mesmo não existindo o mesmo tipo de demonstração de carinho e companheirismo entre elas.
Por outro lado, vemos a todo o momento a versão da mãe através de suas atitudes e história de vida, e embora Mariana seja a narradora de tudo, ela não percebe a visão e sentimentos de Helena! Essa é a grande questão: Mariana nos conta tudo, e nós, de fora, percebemos seus erros e falhas e ela, mesmo desabafando, demora a perceber coisas essenciais.
Mesmo sua mãe sendo uma pessoa difícil de ser compreendida, Mariana se acha tão mais simples, no entanto, é um reflexo da própria mãe.

A autora aborda temas atuais como drogas, aborto, homossexualismo, sexo, dentre outras coisas que não posso mencionar para não estragar a leitura. Tudo de forma bastante natural e liberal, e ao mesmo tempo de forma suave e branda, transformando a leitura em boas reflexões para os jovens.

Certamente o destaque do livro não é Mariana. É sua mãe, Helena. Complexa, imprevisível e forte. Uma personagem poderosa que foi bem explorada. Mariana é interessante, mas perde sua luz com uma mãe tão cheia de personalidade. Seu irmão sofre enormes mudanças e choques e traz conflitos importantes para toda a família e essenciais para o livro. Já o pai, sendo tão bondoso, amigo e correto acaba se perdendo entre as outras personagens e sua falta de atitude me irritou por diversas vezes, um homem aparentemente fraco que foge dos conflitos e discussões. Até vê-lo finalmente ter pulso firme e "sair de cima do muro" eu o achava entediante.

Sobre o desenrolar da história, eu achava que o rumo estava sendo muito previsível e sem inovação alguma, mesmo as páginas estando lotadas de conflitos familiares e psicológicos.
Até que, num certo momento, a autora introduz personagens secundárias, modifica o rumo dos fatos e traz emoção e ação de forma especial. A história esquenta e cada vez mais as descobertas de Mariana (quase todas já percebidas pelo leitor) cativam de forma perturbadora - muito diferente do início morno.
O livro poderia ter um início melhor, mas com o andamento da leitura não me arrependi em lê-lo e me deixei mergulhar na história. Principalmente por causa da Helena.

Apesar do relacionamento entre Helena e Mariana em nada se parecer com o que eu tinha com minha mãe, notei que na verdade, se parece em muitos aspectos com o relacionamento que existia entre minha mãe e minha avó. Um dos motivos para minha mãe ter tido sua primeira filha com trinta e dois anos de idade e a segunda aos trinta e seis (tarde para a década de 1980) foi justamente ter refletido sua existência como filha - ela me contou isso e tenho seus velhos diários de quando era adolescente. E até seu último dia de vida, sua relação com minha avó era muito semelhante à mostrada no livro. Por isso achei a história do livro atemporal e muito verdadeira.

É um livro psicológico, reflexivo, introspectivo, leve e profundo. É necessário buscar na simplicidade de suas páginas e diálogos as mais profundas e complexas entrelinhas sobre o relacionamento humano, principalmente familiar. Uma boa e emocionante leitura, mesmo não sendo impactante. Os amantes de Psicologia (não necessariamente profissionais) irão adorar o livro ao destrincharem as personagens.


Booktrailer:


A autora:
Médica, jornalista, atriz, advogada, cantora e psicóloga até os 15 anos, Maria Fernanda Guerreiro nasceu em 18 de janeiro de 1973, na cidade de São Paulo, e acabou optando por cursar Publicidade depois de ser uma das finalistas em um concurso de melhor redação entre as escolas de ensino médio de São Paulo. Formada em Comunicação pela FAAP, trabalhou como redatora em algumas das mais premiadas agências de propaganda do País até 2008, quando nasceu seu primeiro filho. Atualmente é uma das roteiristas do longa Estação Liberdade. O livro A Filha da Minha Mãe e Eu é seu romance de estreia.






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16 comentários

  1. O enredo já começa a ser sensível devido ao ponto que aborda: a relação entre mãe e filha. Normalmente os (as) filhos (as) sempre se ligam mais à mãe, acredito que seja uma questão biológica, pois ela nos sustenta dentro de si por nove meses, mas também uma questão espiritual. O pai, obviamente, importa muito, mas a mãe parece sempre ser mais compreensiva com a sua descendência. A sua resenha ressaltou muito a beleza dessa história e, independente do que acreditamos, essas pessoas queridas (mães) sempre serão inspirações preciosas para viver ;D

    Beijos!

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    1. E o livro mostra justamente o oposto, a filha é muito mais apegada ao pai, eles são amigos e possuem várias afinidades, já com a mãe... relacionamento complicado... por isso a história é interessante. Beijos.

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  2. Nossa o livro a capa tudo é fantástico,amor de mãe e filha são super ligadas.Esta história aborda um tema magnífico e muito lindo!

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    1. O tema abordado (e a forma natural) é mesmo bonito. Beijos.

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  3. Muito legal, tanto a capa, quanto a resenha.

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  4. Depois de ler a resenha, fiquei curiosa para ler a história, afinal, ao nos envolvermos nos conflitos existentes na relação conturbada entre mãe e filha e seus demais familiares e os motivos desses conflitos alguma lição deveremos tirar disso.

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  5. Sinceramente não imaginava que o livro era tão tocante e real dessa maneira. O bom é que às vezes algum acontecimento nos faz parar e pensar nos nossos papeis na vida como um todo. Seja ele no ambiente familiar, no trabalho, etc. Mesmo não fazendo parte do gênero de livro que gosto, se tiver oportunidade, lerei sim!

    @_Dom_Dom

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  6. Olá

    Muito linda sua resenha, vivi um pouco do livro aqui. Gostei que o livro traz uma família real, com altos e baixos, desunião e união, assim como é a realidade, ofertando uma proximidade maior ao leitor.
    Pode ser que o relacionamento entre mãe e filha do livro, não se encaixe em seu caso, talvez no meu tb, mas com certeza se encaixa na vida de muitos. Acho esta uma leitura emocionante e reflexiva.

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    1. Com certeza, mesmo se o relacionamento não for parecido com o que a pessoa tem ou teve com a mãe, é uma história super comovente, aos olhos de qualquer leitor atento. Beijos.

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  7. A história do livro realmente deve ser bantante emcionante, gostei realmente! É sempre bom refletir o papel de filha e de como mãe. Gostei da sua resenha! Vou chorar horrores com esse livro!

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    1. Tanto o papel de mãe como filha são emocionantes e únicos. Acho que isso é o mais lindo do livro, assumirmos nosso papel e estarmos sempre compreensivos e abertos. Beijos.

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  8. resenha muito bem feita, que me deixou bastante curiosa quanto a história, deve ser realmente uma história linda e emocionante, além de nos fazer refletir sobre algumas de nossas atitudes.

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