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21 de setembro de 2012

Os Gêmeos - Crônicas de Salicanda livro 1, Pauline Alphen, Companhia das Letras

Os Gêmeos (Les Éveilleurs)
Crônicas de Salicanda - livro 1
Pauline Alphen - Cia das Letras
Tradução: Dorothée de Bruchard com o auxílio da própria autora
368 páginas - Ano: 2011

Sinopse:
"Claris e Jad são irmãos gêmeos tão inversos quanto idênticos. Compartilham sentimentos e pensamentos, mas enquanto Jad tem um coração frágil e sofre de enxaquecas terríveis, condições que lhe impedem de passar muito tempo ao ar livre, Claris é uma garota cheia de vida, destemida, que sonha em viver grandes aventuras. Aventuras como as que lê na Torre dos Livros, onde seu melancólico pai vive enfurnado desde o sumiço da mulher; aventuras como aquelas que a mãe lia para ela; aventuras como as que Jad, com seus problemas de saúde, não pode experimentar.
Eles vivem em uma aldeia chamada Salicanda, em um castelo cravado num vale isolado por uma cadeia de montanhas e encharcado por uma chuva fina e incessante, com o pai, Eben; um preceptor, Blaise; e a ama, Chandra. A mãe, Sierra, desapareceu em uma noite de temporal, no dia em que os gêmeos completavam três anos, deixando a família despedaçada e muitas perguntas no ar.
Claris, que divide o tempo entre os livros, as aulas de esgrima e as cavalgadas na floresta, anda obcecada com a ideia de que as aventuras são sempre protagonizadas por meninos - o que ela acha extremamente irritante. Mas está enganada, pois vai viver uma aventura e tanto ao lado do irmão.
À procura de respostas para os mistérios que envolvem o sumiço da mãe, a história de Salicanda e os dons sobrenaturais que parecem ter herdado de Sierra, os gêmeos vão ultrapassar as fronteiras do castelo onde vivem e também do seu mundo: aquele da infância dos dois, o de um passado que eles desconhecem."

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Resenha:
Um livro juvenil com densidade e complexidade. É o tipo de livro que por mais que você goste e se empolgue com a leitura, provavelmente não será lido em poucas horas. Eu adorei o livro, o mundo, as personagens, os mistérios, os fatos históricos, praticamente gostei de tudo, porém demorei bastante tempo para terminar a leitura, lia paralelamente outros livros e não conseguia e nem queria terminar Os Gêmeos.
Não é o tipo de leitura de ligeira digestão, não é uma leitura leviana e infantil, embora as personagens principais sejam pré-adolescentes e o livro seja voltado ao público jovem. É difícil explicar exatamente a leitura deste livro, ela é complexa. Nesse ponto eu comparo o livro ao O Hobbit ou O Senhor dos Anéis, por exemplo. Uma saga que pode ser lida e admirada por diversas idades, que o adolescente irá ler e sentir que é uma leitura grandiosa, importante, que não menospreza a inteligência dos mais jovens. Não comparo Alphen à Tolkien, não é isso. Mas ela criou um mundo mágico próprio e também possui uma narrativa extremamente descritiva, tanto nos cenários, quanto nos hábitos e cultura de cada local ou personagem.

A capa simboliza o coração de Salicanda, o Farol com a incrível biblioteca. ao redor: a magia, o inexplicável, o desconhecido. Trata-se de uma das cenas do livro, que é o volume um das Crônicas de Salicanda. E aviso: não é um livro a ser lido independentemente dos outros. Terminando Os Gêmeos, a história não possui um final, você necessitará torcer para que seja logo publicada a continuação. Não existe um final, aparentemente, e sim uma nova etapa a se iniciar. Eu terminei tão curiosa e empolgada para ler o livro dois, que será lançado no Brasil pela Editora Seguinte da Companhia das Letras que fiquei triste e me senti abandonada pelas personagens.
A Companhia das Letras está de parabéns pela obra. A autora é brasileira, mas de família francesa e vive na França. O livro foi escrito em francês, mas durante a tradução ela auxiliou e isso deixa o livro esplêndido, porque sabemos que as nomenclaturas inventadas pela autora em francês certamente foram todas aprovadas por ela nessa versão brasileira, como a bebida mais presente na história, o chocafe.
E vocabulário próprio é o que não falta nesse mundo! Animais, plantas, artefatos - tudo nascido da fértil imaginação da autora.

Enquanto o livro é extremamente agradável e repleto de aventuras e um mundo único, original e curioso, as descrições da autora são excessivas e muitas cenas e diálogos parecem ser dispensáveis - mas não são!
O problema é que talvez a forma natural escolhida pela autora para demonstrar ao leitor toda a evolução psicológica (e física) das personagens pareça um pouco lenta. Não choca repentinamente, mas vai trazendo adrenalina, dúvidas e surpresas bem lentamente, aos poucos.
No começo do livro e durante toda sua primeira parte, a história parecia parada e de difícil prosseguimento. Eu lia, lia, lia e parecia estar ainda no primeiro capítulo, porque apesar do mistério, ação e muitas coisas estranhas e interessantes surgindo, a história parecia não mudar muito. Parecia que as coisas importantes ou aconteciam indiretamente ou permaneciam escondidas - e é a verdade! Você precisa chegar à segunda parte para sentir o coração acelerar e somente ficar sem ar na terceira e última parte! No entanto, como um todo, o livro é excelente. Mais que isso, se a saga toda mantiver o nível da terceira parte, poderá ser uma obra-prima. Tudo dependerá da forma como serão os próximos volumes.

Por outro lado, as personagens e as culturas diversificadas de Salicanda e demais vilarejos vizinhos são muito bem explicados e descritos. Um mundo supostamente medieval. Apenas na aparência, porque descobrimos que existe um passado poderoso e proibido que transformou o mundo completamente e a autora não entrega as informações ao leitor de forma rápida e simples. Ela atiça a curiosidade e o obriga a acompanhar as personagens para se perder com eles nessa busca por respostas.
A procura por respostas pessoais e existenciais únicas de cada personagem, aliada à personalidade de cada uma delas transforma a busca por respostas simples em uma jornada de todo um povo, o retorno ao passado da Humanidade.
Misturando Ficção Científica com Fantasia a autora premia o autor com um mundo novo, diferente, futurístico e ao mesmo tempo com aura medieval. Uma sociedade que desconhece, ou com uma elite que prefere fingir que nada sabe sobre o passado desastroso. Um mundo pós-apocalíptico que foi forçado a recomeçar.

Os gêmeos nada sabem sobre isso e a vida bucólica, alegre, culta e campestre de Salicanda parece uma utopia, se não fossem esses fatos secretos e o desaparecimento da mãe deles.
Claris, a menina que gosta de revezar seu tempo entre livros, histórias, lendas e poemas e atividades tipicamente de meninos, como montar cavalos, praticar esgrima e arco e flecha. Na verdade, uma coisa leva a outra: embalada pelos livros fantásticos que ela lê, sonha em viver aventuras como as das páginas de O Senhor dos Anéis, Harry Potter e muitos outros livros aos quais a autora faz referência e homenagem. Seu herói preferido é Lancelote. Ela se irrita e vive inconformada em ser uma menina que deve crescer e se tornar uma dama.
Enquanto isso, seu irmão gêmeo Jad (seu igual e seu oposto) não pode praticar atividades pesadas e ser como os outros meninos. Ele observa sua irmã fazer tudo o que ele não pode. Então ele se dedica à atividades mentais como jogos complicados, cuidar de bonzais, ler, estudar e meditar. A história contada pelo pai que ele mais adora é Star Wars, pois admira Mestre Yoda e todos os Jedis - talvez ele seja um, tenha a Força, já que não possui músculos. O problema é que ele não consegue encontrar o livro dessa história, de onde seu pai a tirou mesmo, afinal a biblioteca parece ser infinita!
O pai dos gêmeos, o Duque de Salicanda, acabou se fechando nessa biblioteca, no Farol, local preferido de sua esposa antes dela desaparecer. Ele gosta de simplesmente segurar os queridos livros da esposa e estar num dos locais por ela preferidos.
O sumiço é inexplicável, durante o aniversário dos gêmeos e uma enorme tempestade. Teria ela fugido? Por que Jad sonha constantemente com a mãe e sofre tanto desde que ela se foi com sonhos esquisitos e enxaquecas repentinas? E por que Claris finge que nada ocorreu, estando sempre irritada com o assunto.

O mais incrível do livro, são as sensações e visões que causam ao leitor. Eu viajei muito com os cenários e acredito que cada leitor faça a sua viagem de forma própria. Para mim parecia um mundo como os de alguns jogos da série Final Fantasy. As aldeias, o visual das personagens, animais, magia e artefatos, tudo me lembrava Final Fantasy.
O jogo dos Mil Mundos, uma dos maiores mistérios do livro, será adorado por leitores que curtem tabuleiros de RPG. Foi uma das peças que me fizeram ficar cada vez mais curiosa sobre o livro, porque às vezes ele parece ter vida própria, em outras parece que o jogo é quem joga com a realidade.
A segunda coisa foi o anel que parece um envólucro de lembranças eternas. Assume várias formas e serve para muitas coisas. Como um computador ultramoderno e mágico. Os objetos dos Tempos de Antes são todos proibidos e ver alguns deles como mágicos e perceber que na verdade são tecnologias mais desenvolvidas e modernas que as atuais me fez dar muitos pontos positivos à criatividade da autora.
O terceiro item que me agradou em cheio foi na verdade dois grupos de seres fantásticos e misteriosos: os Elementais e o Povo das Árvores.
E por último, não posso detalhar, mas também nem deixar de comentar: As Crônicas dos Tempos de Antes - uma leitura embutida ao livro interessantíssima e responsável por sanar (e criar) mais dívidas ao enredo. Se os escritos são verdade ou não, o mundo encontra-se a frente do século XXIII!

Além das histórias citadas anteriormente por mim nesta resenha, a autora faz referências populares de filmes, livros, e coisas mais simples que não mais existem no mundo de Salicanda, como a fotografia, os aparelhos eletrônicos, a internet, o cinema... Estranhamente o mundo tornou-se medieval novamente.
Ao longo do livro, o leitor necessita, assim como os gêmeos, descobrir o que aconteceu com a mãe deles e com o mundo e toda a Humanidade. Será que existem similaridades?
E o futuro dos gêmeos, que mudam no decorrer da história, será modificar tudo novamente?

Destaque para personagens secundárias: Blaise, Ugh e a família Borges.
A família Borges é quem traz ação e novos ares ao livro, com cada integrante da família sendo especial, Do bebê alegra, passando pelas meninas inteligentes e o casal moderno.Uma família exótica, culta, aventureira e totalmente fora dos padrões!
Blaise se comunica com a natureza, com os animais (principalmente a coruja Athena e o gato Cinzento) e todos os moradores misteriosos. Ele medita e desconfia que os gêmeos herdaram poderes da mãe. Como tutor dos irmãos e um sábio Mandarim bastante enrolado, ele traz cenas interessantes à história.
Ugh provoca as mesmas sensações, o simples rapaz do castelo, filho da ama dos gêmeos e muito amigo deles é a personagem que mais evolui e cresce e acompanhar estes momentos foi bom. Ele é um anti-herói. Apesar de ser inquieto e estar em busca de ser alguém especial, ele não possui a ousadia de Claris em aventurar-se pelo mundo, nem ser um livre, líder e sábio como Jad. Talvez Ugh seja tão enrolado quanto Blaise.
Ambos, assim como os Borges, ainda devem ser muito importantes na trama, quase como os gêmeos também o serão.

Pelo menos são estas as minhas expectativas: mais ação nos acontecimentos, a continuação nas mudanças sofridas pelas personagens e descrições magníficas de hábitos e ambientes e segredos revelados, porque terminei o livro com grandes dúvidas. E espero por um clímax mais impactante e menos tardio no próximo volume, afinal, já conhecendo as personagens (e já amando quase todas) a autora não precisa se prender a nos apresentá-los novamente no segundo volume. Espero ansiosamente por mais aventura, magia e muita adrenalina. Ah... e pressinto um romance no ar!
Livro mais que recomendado se você se entregar à leitura, mergulhar num mundo totalmente diferente, exótico e mágico.

O livro dois será publicado pela Editora Seguinte da Companhia das Letras e estou ansiosa.


A autora:
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Filha de pai francês e mãe alagoana cresceu na França e hoje vive em Toulouse. Formada em Jornalismo e História, é escritora, tradutora e autora de livros infantis.
Pela Companhia das Letrinhas lançou Do outro lado do Atlântico, A odalisca e o elefante e A porta estava aberta. Publicou pala Companhia das Letras o primeiro livro das Crônicas de Salicanda: Os Gêmeos. A continuação será lançada pela Editora Seguinte.


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