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19 de agosto de 2013

O Projeto Rosie, Graeme Simsion, Editora Record

O Projeto Rosie (The Rosie Project)
Graeme Simsion - Editora Record
Tradução: Ana Carolina Mesquita
320 páginas - Ano: 2013 - R$30,00

Sinopse:
"Para se ter a vida de Don Tillman, não é preciso muito esforço. Às terças-feiras come-se lagosta com salada de wasabi (seguindo um roteiro com refeições padronizadas que evitam o desperdício de ingredientes e de tempo no preparo); todos os compromissos são executados de acordo com o cronograma – alguns minutos reservados para a prática do aikido e do caratê antes de dormir; uma hora para limpar o banheiro; três dias da semana reservados para suas idas à feira – e se, apesar dessa programação, algum desagradável contratempo surgir em sua rotina, não há nada que não possa ser solucionado com meia hora de pesquisa científica.
Exceto as mulheres.
Até o momento, a única coisa não esclarecida pelos estudos no campo de atuação de Don, a genética, é o motivo para sua incapacidade de arrumar uma esposa. Uma namorada ao menos? Ou até mesmo uma amiga para somar ao seleto grupo de amigos de Don, formado por Gene, também professor na universidade, e a mulher dele, Claudia, psicóloga e esposa muito compreensiva.
Para solucionar esse problema do modo mais eficaz, Don desenvolve o Projeto Esposa, um questionário meticuloso que irá ajudá-lo a filtrar candidatas inadequadas a seu estilo de vida: fumantes JAMAIS, e mulheres que se atrasam por mais de cinco minutos ou que usam muita maquiagem estão fora dos critérios pouco flexíveis que o levarão à mulher ideal.
O único problema é que um questionário desse tipo exige tempo e dedicação, duas coisas que começaram a diminuir exponencialmente no cotidiano de Don desde que ele conheceu Rosie: fumante, vegetariana e incapaz de chegar na hora marcada. Ou esse era o único problema até Rosie entrar na vida de Don e – despretensiosamente, uma vez que ela nunca se candidatou ao Projeto Esposa – mostrá-lo que a mulher ideal não existe, mas o amor, sim."

Links: Record | Skoob | degustação

Resenha:
Boa escolha de título. São tantos acontecimentos e planos ligados a ele (O Projeto Rosie), que o livro poderia ter sido nomeado de diversas formas, e todas seriam adequadas: O Projeto Pai e O Projeto Esposa, por exemplo. O resultado final é mais abrangente, já que inclui os dois citados por mim.
A capa é exatamente como a ideia central da trama: Aparentemente simples e discreta, mas detalhista, profunda e com interpretações diversas.
Bicicleta, microscópio, flores, lagosta, coração, coquetel... - tudo interligado. A capa não é apenas fofa e romântica, ela possui símbolos presentes na história e que integram a vida do protagonista e seus projetos muito elaborados.
O fundo é um papel quadriculado, excelente para representar a organização contínua do protagonista referente ao mundo ao seu redor, e o título em letra cursiva, como uma anotação manual.
Capa totalmente perfeita.

O Projeto Rosie tem sido tratado como um romance chick-lit, uma comédia romântica, um livro leve, descontraído e engraçado. Sim, ele é. Porém observei e interpretei diversas nuances. Embora não saiba se estou certa, gostaria de compartilhar minha visão, mas de forma a não atrapalhar a surpresa de quem ainda não o leu, ou seja: Sem spoilers, não se preocupem.
Desde as primeiras páginas imaginei se Don, o protagonista, sofria de um certo transtorno. No decorrer da leitura fui tomando anotações mentais e mesmo depois de ler os trinta e seis capítulos, continuo com a mesma ideia na cabeça. Pesquisei um pouco e embora seja estudante medíocre de Psicologia (visto que iniciei meu primeiro período da graduação), interpreto Don dessa forma e encontrei justificativas para seu complexo comportamento.
Enquanto a maioria das pessoas tem enxergado nele um "nerd maníaco cheio de TOCs" (transtorno obsessivo compulsivo, termo utilizado erroneamente para generalizar qualquer tipo de mania, então o erro já começa aí) ou um homem chato, eu vi muito mais em Don, e essa personagem me causou afeição imediata. Conforme mais eu lia, mais eu gostava dele, principal item de favoritar o livro na minha estante.
Não, não é uma caricatura, é uma pessoa de verdade; Don não é o padrão difundido do transtorno, Don é real. Ele não é assim por falta de aptidões ou vontade fraca e sim por ser diferente.
A melhor coisa é que o autor apresenta isso como um caso, não um problema.

A narrativa é de Don, em primeira pessoa e o autor soube manter o mesmo incrível tom do início ao fim, o que deve ter sido difícil. Mesmo sendo uma escrita prazerosa, simples e que leva o leitor a passar páginas e páginas sem perceber os minutos correndo, notei um padrão forte totalmente compatível com a personalidade de Don. Isso causa veracidade à história, mesmo ela sendo ficcional. Don mantem sua narrativa de tal forma que se torna mais real a cada capítulo do livro. Grande capacidade do autor de convencimento.
Como Don é complexo! Ele é um geneticista genial, metódico, científico ao extremo. Além de pesquisador, ele dá aulas e palestras, portanto não possui problemas em lidar com o público. Seu problema está nas interações pessoais. Ele não consegue estar dentro dos padrões sociáveis pré-estabelecidos. Ele se relaciona com as pessoas de forma peculiar. Consegue ter amigos e relacionamentos, porém não da forma comum.
É muito muito bonito, possui trinta e nove anos de idade e uma boa saúde, se preocupa com seu bem-estar físico e mental - não social. Portanto, ele cuida de sua aparência por questões de saúde, não estéticas. Então ele pratica ativamente artes marciais, exercícios físicos e mantem uma alimentação e rotina equilibradas e planejadas - planejamento até demais.

Nessa parte começam suas dificuldades: Ele possui planos e horários para tudo, além de várias manias que precisam ser repetidas frequentemente, do mesmo modo. Suas refeições, horas de sono, trajetos de um local ao outro, faxina, conversas... Tudo, sim, tudo, é monitorado, cronometrado e elaborado previamente. Se imprevistos surgem ele sempre procura rapidamente por um plano B, o importante é não ficar sem planejamento.
Isso afeta sua vida pessoal e profissional diretamente. O lado particular fica confuso; o profissional, excelente. Uma forma simples de resumir Don: Ele segue a lógica, não a emoção. E não é por escolha. Ele é assim.
Ele não desperdiça tempo com coisas que acha desnecessárias e fúteis, como comprar roupas à toa (e que não sejam adequadas ao uso correto), não perde tempo escutando música ou navegando em redes sociais. Se sua rotina precisa mudar, ele sofre com isso.
Por possuir uma inteligência muito acima do normal somada a sua falta total de habilidade em se relacionar socialmente quando o foco é pessoal, sua narrativa, interação com as demais personagens e diálogos são hilários.

O livro é muito engraçado, eu me surpreendi por estar sorrindo e até mesmo rindo em vários momentos! É muito difícil uma leitura me provocar isso. Mas os acontecimentos sob o ponto de vista de Don são cômicos, mesmo quando não há a intenção direta disso ocorrer.
Ele calcula e raciocina cientificamente o tempo todo, sempre com estatísticas e descrições minuciosas. Ele chega a enumerar e ordenar seus pensamentos ao nos contar a história e assim compreendermos melhor como a mente complexa dele funciona. É muito diferente da maioria das pessoas.
Arrisco dizer que o autor traz o lado bem-humorado para demonstrar na verdade o drama vivido por Don, sua dificuldade de se relacionar e de, consequentemente, encontrar uma esposa.
A premissa do livro é essa: Don planeja, como tudo na vida, a encontrar a parceira ideal. Ele não é capaz de sentir emoções como a maioria da população, mas isso não significa que não queira ser como ela.
Com o Projeto Esposa ele inicia a busca pela mulher ideal para ele. O casal de amigos (Gene e Claudia) o auxilia indiretamente quando possível. Eles são psicólogos e tentam ajudar Don a conviver melhor com os outros, porém possuem seus próprios problemas, que agregam algumas situações ao livro.

O autor nos apresenta Rosie, uma das "heroínas" mais bem construídas que eu já gostei - e que não é uma heroína comum, outro rótulo derrubado. Personagem rara, ainda mais em livros românticos. Ela entra na história e você começa a desenvolvê-la na mente, criá-la, e de repente... Descobre que a personagem enganou o leitor.
Rosie é espetacular! Ela parece feminista, liberal e feliz, mesmo com seus problemas pessoais. Mais para frente, percebi que a ideia do autor não foi mostrar essa Rosie, e sim outra, mais profunda.
Sendo totalmente o oposto da mulher ideal (na verdade completamente "inadequada" na classificação de Don), ela é marcante e passa a ser importante na vida do protagonista. Ela o choca e naturalmente o faz sair do "lugar-comum" em que ele tem vivido.

Com a desculpa de um relacionamento lógico, profissional e não-emotivo, Don sente algo especial por Rosie e tenta lidar com isso e essa é a essência do livro.
Uma história que não serve para mostrar como "os opostos se atraem", não! É para mostrar como para existir um bom relacionamento as pessoas não precisam estar dentro de padrões, elas apenas se aceitam. Se descobrem, percebem, notam as diferenças, defeitos e qualidades. E o segredo é a compreensão. Cada um busca entender como o outro é e o respeita dessa forma.
Não existem fórmulas científicas, nem explicações lógicas. E por isso Don se sente perdido.
Ele não é capaz de amar? Não pode se apaixonar e amar romântica e emotivamente como nós estamos acostumados? Como vemos nos filmes românticos?
E surge novamente a barreira do padrão. Padrão criado por nós, pela sociedade. Don não se encaixa nesse padrão, porém é capaz de amar sim, do jeito dele, com sua mente lógica e superando a si mesmo nas relações interpessoais.
Don não precisa mudar para agradar Rosie e vice-versa. Eles precisam se aceitar e descobrir que um relacionamento amoroso pode ser diferente e ainda assim, intenso em seu próprio modo.
É difícil, é doloroso, é bonito.

Um livro que faz rir, não chorar, mas que é um drama. É belo, emocionante, tocante e envolvente. A narrativa lógica e até mesmo robótica de Don é capaz de emocionar muito mais que muitas narrativas melodramáticas e apelativas que já li.
Talvez o livro devesse ser classificado como sick-lit, porém vou assumir: Chega de classificações, rotulações. Chega de apontar isso ou aquilo! Este livro é maravilhoso, é como Don: Peculiar.
Quem não enxerga isso, precisa sair desse mundo que nos deixa reféns de condutas sociais onde tudo é catalogado, padronizado e, consequentemente, certo ou errado. Chega de preconceitos.

Comprar: Nas melhores livrarias físicas e on-line.
Vocês podem comprar o livro nas melhores livrarias e lojas online ou diretamente com a Editora Record: Através do e-mail de marketing do Grupo Editorial Record mdireto@record.com.br ou o telefone (21) 2585-2002, de segunda a sexta-feira, das 8: 30 às 18:00 horas.

O autor:
O australiano Graeme Simsion hoje é escritor em tempo integral, mas antes de se dedicar totalmente à Literatura era consultor de tecnologia da informação e professor.
É casado com Anne, professora de Psiquiatria e autora de ficção erótica, com quem tem dois filhos.
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