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8 de junho de 2014

Ressurreição, Jason Mott e Verus Editora (Grupo Editorial Record)

Ressurreição (The Returned)
Livro que inspirou a série de TV produzida por Brad Pitt.
Jason Mott - Verus Editora / Grupo Editorial Record
Tradução: Luiz Augusto da Silveira
336 páginas - Ano: 2014 - R$35,00

Sinopse:
"Harold e Lucille Hargrave perderam o único filho, Jacob, morto tragicamente no dia em que completava oito anos, em 1966. Já na velhice, eles se acomodaram à vida sem o filho, a dor amenizada pela ação do tempo. Até que um dia Jacob reaparece misteriosamente na porta de casa, em carne e osso, a criança meiga e alegre que sempre fora, ainda com oito anos.
O fenômeno é mundial — nos quatro cantos do globo, pessoas estão inexplicavelmente voltando do além para suas famílias. Vistos por alguns como coisa do diabo e por outros como um milagre, a realidade perturbadora é que o planeta, já sobrecarregado, agora precisa suportar um fluxo descomunal de seres que têm necessidades humanas: comida, água, abrigo, saneamento. Individualmente, muitos precisam decidir se estão dispostos a receber de volta os entes queridos que já não fazem mais parte de sua vida.
Conforme o caos irrompe ao redor do mundo, a família Hargrave se vê no centro de uma comunidade prestes a ruir, forçada a encarar essa misteriosa nova realidade e um conflito de proporções épicas. Com sua prosa contida, elegante e intensa profundidade emocional, Jason Mott explora o melhor e o pior da natureza humana numa história inesquecível sobre amor, moral e fé."

Links: Record | Skoob | comprar

Sorteio de 10/06/2014 até 24/06/2014.

Resenha:
Não conheço a série televisiva Resurrection da ABC, portanto não posso apontar as semelhanças entre livro e adaptação. O que realmente me fez ler Ressurreição (The Returned), romance de estreia de Jason Mott, foi a sinopse e a premissa criativa. A ideia de mortos diferentes de zumbis ou fantasmas me atraiu.
Porque estamos rodeados por pessoas retornando da morte na mídia. Então esta já é uma história atraente, pois aqui os mortos retornam como eram em vida, aparentemente como sempre foram: Pessoas comuns.
O livro é vendido / divulgado como thriller. Embora aja suspense e ação, não classificaria o livro desse modo, devido ao desenvolvimento muito lento. Intenso, mas lento.
É uma história dramática e a ação lenta é mais psicológica que física.
Ressurreição é ficção carregada de mensagens básicas sobre as questões íntimas e próprias do ser humano, principalmente com base no medo, no preconceito e na espiritualidade.
Se o leitor não captar todas as insinuações do autor certamente encontrará defeitos na abordagem da história em seu meio.

O fato da imagem da capa estar invertida verticalmente mostra que o mundo está de cabeça para baixo. É por causa do curioso e assustador fenômeno mundial das pessoas estarem ressuscitando sem explicação.
O mundo despreparado para o acontecimento se perde em loucura e desordem. Governos, militares, religiosos, cientistas e civis: Ninguém encontra o padrão de como os Ressurgidos aparecem e nem os motivos. Eles simplesmente surgem. Por que alguns dos mortos retornam, mas não todos?
Jacob vivia em uma cidade pequena do sul dos Estados Unidos, mas em 15 de agosto de 1966, exatamente no dia de seu oitavo aniversário, faleceu. É o menino da capa e o Ressurgido protagonista do livro. Ele retornou misteriosamente quase cinquenta anos após seu falecimento. Com a mesma idade, aparência e lembranças do dia em que morreu.

O livro possui algumas fraquezas, porém o final as encobre (ao menos para mim). Principalmente com o fato de ser uma história que faz sentido quando se fecha o livro. Pensei por horas após termina-lo. Não apenas nas reflexões, mas também nas micro histórias que somente fazem sentido após uni-las ao elo central. É um enredo com vastas mensagens e interpretações.
O clímax não é criado a partir do desenvolvimento da trama, próximo ao término do livro. O clímax já existe desde o princípio, e então cresce exponencialmente - o que pode acarretar uma série de problemas na interpretação, absorção e aceitação do tema e da história. Nem todos gostarão do método utilizado. Não é um livro para todos os leitores, nem para todos os momentos.
Confesso que este livro é muito estranho: Pensei mais nele depois do que durante a leitura! Confesso também que enquanto o lia, principalmente ao alcançar a metade da história, o achei chato e entediante por várias páginas. Então, inexplicavelmente mudei minha opinião. Bastou um encaixe ali, uma resposta acolá e pronto: Eu gostei muito do livro, embora não o recomende para uma pessoa sem conhecê-la.
Sem a união das micro histórias às mensagens centrais, o leitor corre o perigo de perder quase toda a leitura. De certo modo, é uma falha, porque quando as coisas não se encaixam com facilidade, o autor pode ser incompreendido pelo público.
Não recomendo o livro para quem busca apenas ação; leitura leve; explicações fáceis; é uma leitura pesada, às vezes maçante, e para adultos. É uma trama para filosofar, não exclusivamente divertir. É mais complicado que aparenta.

A narrativa é em terceira pessoa e a variação de ponto de vista é tão grande que pode deixar o leitor confuso. São incontáveis personagens, o que deve funcionar muito bem na série televisiva, dando a oportunidade de explorar tantas pessoas e o passado de cada uma delas.
No livro isso também funciona, mas somente se o leitor compreender o porquê de tanta troca de visões; o motivo de tantas histórias! Á primeira vista pode parecer apenas um monte de casos semelhantes utilizados para engrossar o livro. Mas não.
A estrutura é também complexa: São dezenove capítulos e Epílogo. Existem anexos espalhados após cada capítulo, sempre com o nome e sobrenome de um Ressurgido como título.
Muita atenção aos trechos contados. Somente ao final eles são unidos a pergunta: Por que essas pessoas retornaram?
Jacob reencontra os pais Lucille e Harold. Ambos passaram dos setenta anos de idade e precisam reaprender a ser pais, e ainda lidar com o fato do filho ser um Ressurgido. Eles vivem em Arcadia e mudaram muito após a perda. Será um milagre ou uma maldição? Este será mesmo Jacob, o filho do casal? A mesma criança?
Esta é a história principal, a que se refere aos capítulos. Nos anexos acompanhamos histórias secundárias, de outros Ressurgidos.

Conforme o andamento da história de Jacob, as dos demais Ressurgidos seguem a mesma linha temporal. No começo do livro, o autor introduz o fenômeno mundial; como acontece e as dúvidas que trazem. Mostra o aparecimento de Jacob. Logo, vemos outros Ressurgidos sendo encontrados. No meio do livro o autor explora ao máximo as questões existenciais, a instalação do caos, o ápice do problema. No caso de Jacob, a cidade também entra em colapso, uma amostra do que ocorre no mundo inteiro. E no final do livro, o autor resolve todos os conflitos, mostra o destino de Jacob e dos demais Ressurgidos.
Ou seja: Jacob é apenas um exemplo comum. Um caso escolhido pelo autor para ser o principal, mas que representa todos os outros da trama.
Por que Jacob, Lucille e Harold? Porque pais que perdem um filho, ainda mais uma criança, é um drama intenso, pois vai contra a "ordem da natureza" que por tradição seria "os mais velhos morrerem antes dos mais jovens".
Temos várias histórias de luto, algumas ligadas aos moradores da cidadezinha de Jacob, outras pelo mundo afora. O autor concentrou-se apenas em uma para não arriscar se perder.
Jason Mott teve a ideia de escrever Ressurreição após se perguntar o que faria caso pudesse encontrar a falecida mãe por um breve instante. O que fariam? O que conversariam?
Particularmente Ressurreição traz uma história intensa, tocante, sentimental. Perdi minha mãe quando eu tinha quinze anos de idade e meu pai com vinte e um. O que eu faria se eles retornassem do nada?

A questão religiosa e espiritual é o ponto central; o autor desenvolve muito mais esse lado da história que os demais. O que acontece com as pessoas após a morte? Os Ressurgidos podem ter / ser a resposta. Seria a causa do retorno desses mortos uma profecia religiosa? Um castigo divino? Eles possuem alma? São espiritualmente iguais às pessoas vivas?
Outras questões exploradas em menor escala, quase que discretamente:
A questão científica. Será uma nova lei biológica? Como a ciência pode explicar esse novo fenômeno?
Já o caminho que mais gostei é a questão social. Se o mundo já é superpopuloso, o que fazer quando uma quantidade incalculável de pessoas surge no planeta em questão de poucos dias? E que direitos civis os Ressurgidos têm? É quase impossível sustentar tantas pessoas refugiadas do tempo e espaço.
A abordagem política de como os governos e as forças armadas precisam agir é também uma grande questão, mas os grupos prós e contras os Ressurgidos mostram que a população não ficará apenas assistindo a desordem. Eis que surge um dos mais antigos e poderosos conflitos humanos: O preconceito.
A verdade é dura: Ninguém tem a resposta. Nem os Ressurgidos.

Deseja ler a parte da resenha com spoilers?



Este pode ser um livro complicado e entediante; e / ou pode ser muito valioso. Depende do leitor. Para mim, foi um pouco de cada. Foi chato e igualmente incrível.
Depende se você já perdeu uma pessoa muito importante e amada e você tem dificuldade em aceitar ou se pensa que alguma coisa ficou pendente.
Ou se você está com paciência para refletir sobre questões existenciais humanas através de um livro que retrata uma crise global. Uma história que é única e ao mesmo tempo, muitas. Sobre luto, religião, preconceito e medo.

O autor:
Jason Mott é bacharel em escrita ficcional e mestre em poesia, tendo publicado dois livros de poemas. Seus escritos já apareceram em inúmeros jornais literários.
Ressurreição é seu primeiro romance.
Mott vive na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
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