Pesquise no Leitora Viciada

28 de julho de 2014

A Invenção das Asas, de Sue Monk Kidd e Editora Paralela

A Invenção das Asas (The Invention of Wings)
Sue Monk Kidd - Editora Paralela
Tradução: Flávia Yacubian
328 páginas - Ano: 2013 - R$29,90 (impresso) e R$19,90 (e-Book).

Sinopse:
"Sue Monk Kidd apresenta uma obra-prima de esperança, ousadia e busca pela liberdade.
Inspirado pela figura histórica de Sarah Grimké, o romance começa no 11º aniversário da menina, quando é presenteada com uma escrava: Hetty “Encrenca” Grimké, que tem apenas dez anos. Acompanhamos a jornada das duas ao longo dos 35 anos seguintes. Ambas desejam uma vida própria e juntas questionam as regras da sociedade em que vivem."

Links: Editora Paralela | Skoob | comprar | degustação

Resenha:
É clichê, porém inevitável, dizer que não sei resenhar um livro que me comoveu bastante. A Invenção das Asas se tornou um dos meus preferidos ainda mesmo durante a leitura.
É meu primeiro contato com a autora Sue Monk Kidd. Havia apenas assistido à adaptação homônima para o cinema de seu romance A Vida Secreta das Abelhas - sem saber que o filme era baseado em livro. Após ter me apaixonado pela escrita da autora em A Invenção das Asas publicado pela Editora Paralela, espero em breve conhecer mais de Sue Monk Kidd.
É um livro de forte impacto, que conta histórias de mulheres fortes.

A autora, que mora na Carolina do Sul, desejava escrever um romance que contasse a história de duas irmãs. Durante uma visita ao Brooklyn Museum, em Nova York, ela descobriu sobre quais irmãs escrever. Ao ler as centenas de nomes de mulheres que contribuíram para a História na Galeria Biográfica, ela encontrou os nomes de duas irmãs que viveram em Charleston, Carolina do Sul: Sarah e Angelina Grimké. Ao ir embora, Sue Monk Kidd se perguntava: Como viveu tanto tempo na mesma cidade dessas figuras históricas sem conhecer nenhum vestígio delas?
Sarah e Angelina Grimké, duas das primeiras agentes femininas abolicionistas e duas das primeiras importantes pensadoras feministas americanas. Mulheres revolucionárias.

A intenção da autora foi criar uma obra ficcional baseada em fatos reais. Após muita pesquisa sobre a história das Grimké, especialmente a de Sarah, e também sobre a vida pessoal de várias pessoas envolvidas, a autora decidiu escrever um romance firme e convincente como se realmente fosse a vida das personagens, brotando das páginas.
Ou seja: Elas existiram, muitos acontecimentos do livro realmente ocorreram (e a autora explica quais ao final do livro, em um anexo incrível), porém a forma como tudo é mostrado ao leitor, é de invenção da autora. As lacunas e, principalmente, o lado psicológico e emocional, foram tecidos pela imaginação formidável e respeitosa de Sue Monk Kidd, resultando em um romance histórico fictício perfeito! Poderia mesmo grande parte ter sido a realidade.
A realidade impressiona e a ficção emociona: A autora descobriu que Sarah quando criança realmente ganhou uma escrava chamada Hetty de presente para ser sua dama de companhia. Baseada nessa informação, a autora viajou e habilmente criou Hetty "Encrenca" Grimké, a escrava um ano mais jovem que Sarah.
Sinhá e escrava são as protagonistas de A Invenção das Asas, misto de realidade e ficção. Um livro impactante e emocionante, tão bem escrito e crível, que parece um clássico perfeito e atemporal.
Ás vezes parece uma fábula sobre a liberdade; outras vezes, um romance de época. É uma história adulta e excelente, e se me dissessem tratar de um livro clássico, eu acreditaria! Mas The Invention of Wings foi originalmente publicado em língua inglesa em 2014.

A capa é perfeita: Uma menina em um fundo laranja-avermelhado observando pássaros negros voando, livres no céu. Logo no início da leitura já se compreende a escolha da ilustração e essa imagem torna-se cada vez mais querida pelo leitor. O título do livro é magistral. Tantas personagens em busca de suas asas, de suas liberdades.
A trama começa em novembro de 1803 e termina em junho de 1838. O cenário dos Estados Unidos do século XIX é apresentado aos leitores e, lentamente, a autora mostra as tradições da época, a política, as leis, religiões, culturas... É incrível mergulhar em uma sociedade distante, que do mesmo jeito que soa tão diferente, consegue ser ao mesmo tempo tão parecida... Os preconceitos ainda resistem mesmo com a passagem do tempo.
O livro é dividido em seis partes e a narrativa se alterna entre as de Sarah e as de Encrenca. Hábil escolha da autora, contar sob os pontos de vista, confissões e opiniões de duas personagens distintas na sociedade e, ao mesmo tempo, tão semelhantes. Em terceira pessoa jamais teríamos o desenvolvimento da trama tão pessoal e sensível.

A diferença entre elas não é apenas íntima, mas cultural. O modo como cada uma narra os fatos mostra bem o contraste entre elas. Enquanto Sarah sabe (ama!) ler e escrever e, mesmo contra a tradição da época, aprendeu muitas outras coisas, como latim, por exemplo, devido ao irmão que a ensinava, Encrenca sabe apenas se expressar verbalmente e de forma muito básica e precária.
Já Sarah sofre também com suas carências: Por causa de um trauma, ela possui gagueira inesperada e temporária. Se expressa melhor escrevendo que falando. Não possui amigas nem pretendentes românticos.
Diferenças à parte, as duas são inteligentes e mostram, aos poucos, grande bravura. Iniciam o livro meninas e, conforme o tempo avança, as vemos se tornando mulheres resistentes. O desenvolvimento delas é nítido também na forma como narram a história.

As duas estão presas: A avó de Encrenca foi uma africana levada como escrava aos Estados Unidos, portanto, Encrenca é uma negra que nasceu escrava. É considera pela política e religião da época como inferior aos brancos; uma propriedade, objeto de seus donos.
Seu corpo pode estar preso, mas sua mente viaja. Voa longe, nas fábulas contadas pela mãe sobre as tradições de seu povo africano; voa na leitura, palavras que Sarah a ensina clandestinamente; voa junto a seus sonhos de liberdade. Como sua mãe Charlotte sempre a lembra, os espíritos delas não pertencem a ninguém.
Já Sarah é uma branca nascida em uma poderosa família tradicional e rural. Pertence a aristocracia sulista, derivada de uma classe social inglesa requintada.
Seu corpo pode estar livre e, embora inicialmente ela pense ter a mente livre, percebe que está presa. É enganada pela família a achar que tem voz social, mas conforme cresce, suas opiniões passam a ser caladas e ignoradas. Ela precisa baixar a cabeça para os homens e regras da sociedade patriarcal, machista e cristã.
De certa forma, Sarah também está presa, não apenas Encrenca. Suas vidas começam a mudar quando Sarah passa a libertar sua mente e Encrenca tenta libertar seu corpo. As duas precisam, juntas e separadas, criar asas - esse é o ponto principal! Ah, não é fácil. Asas não brotam por magia das costas, mas através de sangue, suor, lágrimas, esforço, planos, ousadia.
A luta de duas mulheres diferentes, mas irmãs de coração, a se libertarem. O livro é lindo, maravilhoso.
As personagens são todas sensacionais e o modo como a autora as desenvolve, formidável.

Ela utiliza dois pares de irmãs para representarem a batalha das minorias ao longo da História. Com duas protagonistas complexas e raras, misturando ficção e fantasia, Sue Monk Kidd utiliza uma escrita rica. Cria um romance impecável que emociona, entretém e remete ao leitor as mais profundas reflexões da verdadeira natureza humana.
Um enredo encantador, cativante e, em certos momentos, chocante, elaborado para relembrar a todos o quanto a escravidão e exploração é abominável; o quanto o preconceito, o racismo e a intolerância são inaceitáveis.
A história de mulheres que enfrentaram suas origens, suas religiões, suas realidades e toda a sociedade contra a barbárie da escravidão e a censura à liberdade, incluindo a da expressão, negada às mulheres e negros. Quantas minorias ainda sofrem censura, exploração e dor?
Um livro para lembrar o quanto se lutou e sonhou com a igualdade em todos os sentidos. O quanto, ainda, há lutas e sonhos tentando levantar voo, caindo, tombando, se reerguendo, criando asas e, finalmente, voando!
Quando as minhas asas falharem, lembrarei de tantas pessoas que batalham / batalharam pela liberdade e igualdade e tiveram seus feitos históricos apagados ou nunca registrados e / ou suas vozes abafadas. Nós sabemos disso, imaginamos e as honramos.

Booktrailer:



A autora:
Sue Monk Kidd mora perto de Charleston, na Carolina do Sul.
Primeiro livro de Sue, A Vida Secreta das Abelhas ficou por mais de um ano e meio na lista de mais vendidos do New York Times e foi adaptado para o cinema em 2008.
Seu segundo romance, O Monge e a Sereia, que alcançou a primeira posição na lista de mais vendidos do New York Times, ganhou o prêmio Quill de 2005 para melhor obra de ficção e foi transformado em um filme para a TV.
Seu livro mais recente, A Invenção das Asas, também foi publicado pela Editora Paralela.

Links: Site | Twitter | Facebook

Instagram @leitoraviciada

Skoob

Online

Siga por e-mail