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14 de novembro de 2014

Mausoléu, de Duda Falcão e Argonautas Editora

O Anfitrião Apresenta
Mausoléu
Duda Falcão - Argonautas Editora
Ilustração: Fred Macêdo
Prefácio: Cesar Silva
336 páginas - Ano: - R$30,00
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Sinopse:
"O Anfitrião apresenta Mausoléu de Duda Falcão: “Seja bem-vindo, leitor incauto! Eu sou O Anfitrião! Fico muito contente que você tenha chegado até aqui para conhecer a arquitetura do my master! Nesta obra sepulcral sua ótica humana será ofuscada por visões grotescas. Folheie as próximas páginas… Abra a porta e entre na cripta dos insanos. Durma na pedra fria do Mausoléu e tenha pesadelos eternos, he, he, he, he”.
336 páginas de horror com bruxas, zumbis, lobisomens, vampiros, fantasmas, alienígenas e monstros bizarros!!!
Prefácio de Cesar Silva. Histórias de horror e aventuras extraordinárias!"

Resenha:
O Anfitrião apresenta: Mausoléu, do autor Duda Falcão, publicado em 2013 pela Argonautas Editora. É uma coletânea com trinta e seis contos de horror. A maioria foi publicada em antologias, porém muitos são inéditos. Abrangem diversas vertentes da Literatura Fantástica e cumprem a promessa de trazer bruxas, zumbis, lobisomens, vampiros, fantasmas, alienígenas e monstros... E mais!
O Anfitrião é a personagem que apresenta a obra, gostaria que o livro tivesse um conto dele, que me lembrou o sarcástico apresentador de Contos da Cripta, série de sucesso dos anos 1990. É esse clima de terror e humor negro que Mausoléu possui.
A capa, as ilustrações e a diagramação combinam com a proposta e com certeza agradam ao público-alvo. As fontes dos títulos dos contos são estilo histórias em quadrinhos, as folhas são levemente amareladas e o trabalho gráfico e de revisão estão perfeitos. Senti falta apenas de orelhas no exemplar. Em cada margem lateral há morcegos; se você passar as folhas rapidamente, o morcego parece que "voa".

O horror é o destaque, mas Duda Falcão é um autor amplo e transporta o leitor em diversas viagens pelo melhor que os gêneros fantásticos podem apresentar.
As histórias estão em formato de microcontos, contos, e noveletas. Gostei da organização, porque, embora sejam histórias diferentes, o conto atual sempre possui algo em comum com o anterior, seja o estilo, uma referência, o mito... Essa ligação faz a leitura fluir! As histórias mais longas são divididas em partes e nomeadas com subtítulos.
Já conhecia o trabalho do autor, justamente por contos em antologias e também resenhei seu primeiro romance (Protetores, 2012, Editora Underworld). Geralmente leio coletâneas temáticas de autores variados, então adorei a rara experiência de ler contos de um único autor.
Este é o melhor livro nacional de contos de horror que já li, muito variado. Mausoléu deve ser apreciado aos poucos, mesmo sendo dinâmico. Aconselho a leitura desse modo para que se absorva melhor as histórias.

É uma homenagem às antigas publicações Pulps, ao período Weird da Literatura Fantástica, ao cinema Trash e aos clássicos e consagrados escritores, como H. P. Lovercraft, Mary Shelley e Edgar Allan Poe. É uma celebração ao horror, a Ficção Científica e a Fantasia em geral, dando ênfase ao sobrenatural e à Fantasia Urbana.
Utiliza a ironia, o sarcasmo, o medo e os sentimentos profundos do indivíduo sobre sua existência e seu papel na sociedade. Ou simplesmente diverte - o leitor escolhe!
O melhor que a Literatura em contos pode apresentar ao leitor fanático pelos gêneros fantásticos, do mesmo modo que introduz leitores novatos nesse mundo diversificado, interessante e de infinitas aventuras.


Conto a conto:
A publicação começa com terror, misturando passado e presente. Um atalho leva a um amaldiçoado Mausoléu (2013), repleto de fantasmas e mortos-vivos. O tom de ironia e a ação prevalecem.

O Museu do Terror (2009) é uma das atrações do parque, mas costuma receber poucos interessados. Dois visitantes observam as relíquias da exposição, itens que parecem ter saído de histórias fantásticas. Porém, a realidade consegue ser mais assustadora que a suposta ficção.

Relíquia (2010) é uma ligação a Museu do Terror, sobre a mesma exibição. O visitante dessa vez conversa com o proprietário dos objetos. Através da Fantasia sombria, a mensagem transmitida é que a mais ampla viagem é a leitura. Museu do Terror e Relíquia poderiam gerar uma série rica sobre o inusitado museu e seu dono.

A Pena de Corvo (2012) também aborda a Literatura, relíquias e, assim como o conto precedente e o seguinte, homenageia o escritor Edgar Allan Poe. O ato de escrever aliado a um objeto mágico transforma o indivíduo, exaurido de criatividade.

Outro corvo extraordinário: Assombração, sacrifício e Asas Negras (2010) carregando a escuridão e o desconhecido sobre a dura realidade de um menino.

Do corvo para gato: Uma casa repleta de gatos é parte da herança do protagonista. No interior, um curioso objeto decorativo, O Totem do Gato Preto (2012). Talvez a herança contenha mais que o protagonista imagina.

Do gato para outro animal: Um mito sobrenatural recebe inovação e ambientação latino-americana em dois contos ligados cronologicamente. Espírito do Totem (2009) mostra a magia e o poder de tribos indígenas que se preparam para a invasão europeia.

Massacre na Caravela (2012), sua continuação direta, mostra bravura e selvageria de uma protagonista que lidera uma tribo resistente à invasão. Espírito do Totem e Massacre na Caravela apresentam uma das mais criativas abordagens do mito em questão.

Em seguida, três contos com vampiros. Com Emplumado (2009), o autor mescla uma série de mitos vampirescos e sinistros para criar uma versão arrojada, exposta aos leitores pela visão de um pesquisador / caçador de seres sobrenaturais.

A história continua em Prole Aprisionada (2013). Dessa vez, o protagonista se une a um aliado, ambos ávidos pela descoberta de informações arqueológicas e fantásticas sobre os vampiros. A criatividade do conto anterior é mantida.

Escravos (2010) apresenta uma distopia original, em que nuvens radioativas bloquearem quase toda a luz solar. Gostaria de conhecer mais desse futuro assustador e sanguinário. Um conto que poderia ser desenvolvido em noveleta ou romance.

Ainda em distopias, Antigos (2012). Reli a história e esta se manteve fresca, causando ainda admiração. A Ficção Científica e filosofia se unem com engenhosidade para mostrar a extinção dos seres humanos, mas não da inteligência. Outros herdaram o planeta e buscam por informações sobre os antepassados. O conhecimento é mais poderoso que a força física.

Outro futuro é apresentado em Moscas, Ratos e Baratas (2010). Um sobrevivente arrependido observa o fim do mundo em meio às ruínas, sangue e desolação. Uma breve história impactante que tem boa carga dramática.

Com Onda Atômica (2009) chega o desespero de outro sobrevivente. Os herdeiros da humanidade são bizarros e ao mesmo tempo em que assustam, entristecem o leitor. O relato do protagonista é a aceitação do fim miserável. Um resgate de um antigo (e ainda possível) medo da humanidade.

A dramática existência humana continua sendo mostrada, também utilizando a Ficção Científica, mas mudando para conspirações, alienígenas e viagem no tempo. Sonda (2009) traz ação e a descoberta frenética do protagonista à respeito sobre uma secreta invasão alienígena. Estaria obcecado?

Seres de outro planeta também se fixam na Terra em Somos (2010). O contato do protagonista com aliens é uma mistura de descobertas e viagem psicodélica; a invasão se dá de modo silencioso.

Fantasmas do Tempo (2013) é um conto incrível sobre viagem no tempo. O protagonista se arrisca ilegalmente em busca de respostas pessoais, mas ligadas ao rumo que a humanidade tomou. Outro conto que poderia ser explorado em formato de romance, cheio de intrigas e questionamentos sobre a existência da humanidade, religião, ética e poder.

Assassinos seriais também têm vez na coletânea nos três contos seguintes. Em Teoria e Prática (2013), a formatura de um serial killer é rodeada de morte, surpresa e desconfiança.

Seguem então dois microcontos: Horror no Espelho (2009), o confronto do assassino com ele mesmo. Uma crítica ao lado ruim que todo indivíduo esconde de si mesmo.

Em Sem Controle (2010), um serial killer confessa suas atrocidades com as vítimas, mostrando que a sede por sangue faz parte de sua natureza.

Outra história que eu já lera: Sem Lembranças daquele Inverno (2010), uma noveleta excelente de Espada e Magia. Num mundo mágico e sombrio povoado por figuras misteriosas e seres exóticos, um mercenário enfrenta uma série de obstáculos assustadores e mortais para cumprir sua missão. Em troca, um gordo pagamento. A trama possui brilhante ambientação semelhante às aventuras de Conan, o Bárbaro, com rixas entre feiticeiros e muita ação.

Mantendo o mesmo clima de fantasia e seres extravagantes, em Os Dragões das Terras de Lhu (2010), um peregrino prestes a se tornar cavaleiro viaja e pausa na moradia de um feiticeiro. Histórias sobre dragões e o passado das Terras de Lhu são discutidas.

Continuando com a Fantasia, mas com acréscimos de itens do horror, Dama do Escuro (2013) surpreende em detalhes. Um feiticeiro é o protagonista ambíguo dessa narrativa criativa e diferente.

Talvez o conto mais fascinante e chocante da coletânea seja Desfile (2012), realmente aterrorizante. Uma pequena cidade interiorana recebe o Circo dos Horrores. Uma criação fascinante, imaginativa e terrível. O sortido grupo bizarro e as ininterruptas surpresas do desfile são incríveis.

Em Máscaras (2013) o terror e horror também prevalecem, assim como o cenário urbano e de espetáculo. Não é um circo, mas sim uma banda de rock. O guitarrista percebe tarde que suas máscaras não são apenas parte da encenação. Uma maldição perversa auxilia o estrondoso sucesso do grupo, que precisa pagar o preço. Definitivamente, Desfile e Máscaras me deixaram inquieta como poucas histórias de horror são capazes.

Outras máscaras assustam e assombram a leitura, que se mantem mais sinistra e temível. O Escolhido (2009) é um conto angustiante que combina feitiçaria e insanidade.

Continuando com bruxaria, a coletânea segura o tom mais macabro com Missa Negra (2011), uma noveleta em partes que eu já havia lido. Uma cidade de interior está sendo arrasada pela seca, miséria e infortúnios. Moradores acusam uma família de bruxaria, mas o protagonista descobre que o mal está bem próximo. Um conto que me amedronta.

O livro volta ao clima menos terrível com uma fértil e sarcástica história de zumbis. Em Rito Necromante: Criar Zumbi (2010) o ocultismo é abrandado e um grupo aperfeiçoa a técnica de regeneração. Eles nem imaginam o que acontecerá.

Anjos e demônios não ficam de fora com Réu (2010), uma espécie de julgamento do protagonista, um pecador que morreu e aguarda a absolvição ou o castigo.

O tema morte tem outro tratamento em Passagem (2010) com a melancólica história de uma alma perdida que vai da tristeza ao ódio. Uma narrativa sutil e primorosa que mostra como o fantasma é vítima e vilão simultaneamente, porque só precisa encontrar seu rumo. Alguém ajudará?

Deixando a morte de lado após os três últimos contos, o autor mistura fantasia e realidade em uma violenta e poderosa partida de Role Playing Game entre amigos. Campo de Marte (2013) não me agradou (fiquei um pouco confusa com a ação e mitologias), mas foi surpreendente acompanhar o desfecho.

Bisão do Sol Poente (2011) é uma noveleta em partes sob a temática do Estranho Oeste. É uma história fabulosa, ricamente ambientada. Mistura ação e sobrenatural, lenda e realidade. Um caçador de recompensas segue um rastro de assassinatos, mas encontra um índio siox excêntrico e cheio de segredos. Uma trama perfeita para quem gosta de faroeste americano, seus mistérios e energia. Sem deixar o sobrenatural de lado; é fator essencial.

O Litro de Diamantes (2013) é uma história sobre fantasmas, maldade, cobiça e vingança dividida em partes. O cenário é uma cidade esquecida no sertão, controlada por um coronel injusto e inescrupuloso. Até suas vítimas prepararem uma emboscada para ele.

No conto mais antigo do livro, O Serviço (2005), e em um dos mais recentes, O Mal Não Tem Rosto (2013), conhecemos duas histórias diferentes sobre seitas, conspirações e maldições. Ambas em cenários urbanos, com a diferença da segunda ser mais longa e ter boa pegada de gênero policial.

A noveleta Humanos, Monstros e Máquinas (2013) mescla ficção e realidade, criadores e criaturas. Um grupo singular de escritores e poetas na Inglaterra do início do século XIX vive uma aventura com um pouco de steampunk. Uma história com um pano de fundo romântico finaliza a obra.


Contos preferidos: Museu do Terror / Relíquia, Espírito do Totem / Massacre na Caravela, Escravos, Onda Atômica, Fantasmas do Tempo, Sem Lembranças daquele Inverno, Desfile, Máscaras, Bisão do Sol Poente e Humanos, Monstros e Máquinas.


O autor:
Desde 2005 Duda Falcão tem frequentado as mais diversas coletâneas temáticas organizadas por editoras brasileiras, com dezenas de contos de Literatura Fantástica publicados, além do romance Protetores (2012, Underworld).
Ao lado de Cesar Alcáar, outro escritor gaúcho, fundou a Argonautas Editora, com o firme propósito de contribuir para o crescimento da Literatura Fantástica Brasileira. A dupla foi além e associou-se a outros escritores para promover o congresso literário Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
É graduado em História, Especialista em Literatura Brasileira e Mestre em Estudos Culturais.
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