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9 de novembro de 2014

O Bem-Amado, de Dias Gomes e Bertrand Brasil (Grupo Editorial Record)

O Bem-Amado
Nova edição.
Dias Gomes - Bertrand Brasil
126 páginas - Ano: 2014 - R$32,00
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Sinopse:
"O autor, responsável por retumbantes êxitos teatrais e cuja obra tem por denominador comum a contestação política e social, fornece ao leitor um irresistível retrato dos costumes da vida de um lugarejo do interior baiano, ordeiro e pacífico, para inauguração de um cemitério – plataforma política de seu ambicioso prefeito, Odorico Paraguaçu. O problema: ele precisava providenciar um morto.
Odorico, o Bem-Amado, é a encarnação, em escala provinciana, de personagens bem mais sinistros da vida política latino-americana, ditadores, caudilhos, demagogos de todos os tipos, e cujo perfil ora cômico, ora patético, a rica imaginação do autor delineia de forma precisa e contundente.
Naturalmente, o protagonista é também um ser humano em crise. O vácuo entre suas pretensões de grandeza, que comicamente se revelam na empolada linguagem, e a triste realidade de uma região, para ele frustrantemente subdesenvolvida, acentuam as contradições de sua existência e da própria política que ele representa e personifica."

Resenha:
A Bertrand Brasil está republicando as obras do brasileiro Dias Gomes em uma nova e moderna coleção. A princípio, os leitores podem encontrar nas lojas as novas edições de O Pagador de Promessas e O Bem-Amado, lançados em setembro de 2014. Em breve, mais títulos estarão disponíveis.
O projeto gráfico é da Oporto Design, trazendo capas em cores alegres com ilustrações de Alexandre Venancio. Já o material é agradável ao toque e o título é em relevo. A diagramação é básica e as páginas, levemente amareladas.
É um livro breve, de narrativa fluida, simples e inteligente, com diálogos ricos, satíricos e dinâmicos. Portanto, não é necessário muito tempo para a leitura, mas as reflexões sociais, culturais e políticas são bem amplas.
Do autor, eu apenas lera O Santo Inquérito em minha época de escola. Sempre gostei de ler e a experiência com Dias Gomes foi positiva e uma surpresa, pois na época pensei que seria entediante. Portanto, fiquei animada para ler novamente o autor e escolhi O Bem-Amado.
Uma obra que deve ser lida por todos os brasileiros. As discussões e observações sobre o cenário político do Brasil e a forma como o poder é exercido são inúmeras. O Bem-Amado é uma boa sugestão de leitura reflexiva: Sem ser chata. Direta e cômica, a história retrata ironicamente o relacionamento dos políticos com o povo, através de críticas e humor negro.

O Bem-Amado: farsa sociopolítico-patológica em nove quadros chega a sua 12ª edição, trazendo uma mini-biografia e nota do autor, informações sobre a história da obra, lista de personagens e o texto da peça. Conforme o subtítulo, o desenvolvimento do enredo é feito em nove atos diferentes.
A narrativa é em terceira pessoa, feita de um modo diferente. Esta poderá ser uma novidade para a maioria dos leitores, raramente acostumados a ler obras em formato de teatro.
Consequentemente, as introduções e descrições das cenas e personagens antecedem a ação e a guiam. É interessante e executada brevemente, portanto, é uma leitura perfeita para quem gosta de textos rápido e diretos, e desgostam de detalhamento. O autor ilustra facilmente os elementos e auxilia o leitor a visualizar a cena, deixando espaço suficiente para a imaginação. O livro funciona como um bom exercício para a criatividade, e será muito fácil para o leitor criar com a escrita simples, mas brilhante, de Dias Gomes. Uma prova de que uma história quando é boa não necessita de nenhum floreio literário para entreter o leitor.
Então, os diálogos são em discurso direto e fundamentais à trama, assim como as indicações de quem entra e sai de cena. É uma experiência espetacular perceber como a fórmula teatral funciona, deixando infinitas aberturas para a obra ser trabalhada em outras mídias. Por isso funciona tão bem em qualquer adaptação, seja na televisão, no teatro, no cinema.... Pode ser ajustado até mesmo para histórias em quadrinhos.
Definitivamente, Dias Gomes era talentoso e genial, além de visionário. Incrível como ele teceu histórias que, décadas depois, ainda se encontram atuais; como suas personagens são icônicas, vivas e representam a realidade brasileira.

A peça teatral Odorico, o Bem-Amado foi escrita em 1962 e publicada em 1963 em uma revista feminina, sob o título Odorico, o Bem-Amado e os Mistérios do Amor e da Morte. Naquela época, era incomum um autor criar uma peça com tantas personagens.
Sua primeira encenação foi em 1969, em Recife. Ganhou nova montagem em 1970 e, a partir de então, diversos estados do Brasil encenaram a peça em diversas montagens.
Com o sucesso de Odorico e a necessidade da dramaturgia brasileira em pesquisar e apresentar cada vez mais a realidade do Brasil e seu povo, Odorico foi adaptado para a televisão nacional. O Brasil passava pela Ditadura Militar (1964-1985) e grande censura às obras culturais. Em 1973, O Bem-Amado foi a primeira telenovela transmitida a cores no país. Fez sucesso durante um Governo repressor, mas popular. A propaganda deste pregava um país em desenvolvimento e tentava construir cidadãos acríticos e ufanistas, priorizando a ordem e se opondo aos trabalhistas e rebeldes. Em contrapartida, a novela popularizou uma caricatura do político brasileiro, um produto do coronelismo, uma afronta camuflada à Ditadura.
Posteriormente teve outras adaptações. De 1980 a 1984, uma série na televisão, baseada na novela; em 2010, um filme nos cinemas; e em 2011, uma minissérie televisiva em 4 episódios.
Dias Gomes nasceu em 1922 e faleceu em 1999 - roteirizou e acompanhou as adaptações.

A ação da peça ocorre em Sucupira, pequeno município de veraneio do litoral baiano. O ponto de partida é uma pracinha tipicamente interiorana com uma grande árvore, uma venda e um coreto. Moradores do local comentam e acompanham o enterro de um conterrâneo. O problema é que a cidade não tem seu próprio cemitério. Imediatamente o leitor nota como a superficial preocupação com o tal falecimento é apenas uma questão secundária perante o quadro social.
Então, Odorico Paraguaçu, homem de grande magnetismo pessoal, teatral e de discurso pomposo, retórico e cheio de neologismo e regionalismo (as falas do protagonista são o destaque do livro!), é eleito Prefeito de Sucupira com a promessa de inaugurar um cemitério municipal: "Vote num homem sério e ganhe seu cemitério."
Ele não é um herói. É a representação da classe dominante, aproveitadora, corrupta e inescrupulosa. É a imagem do político brasileiro, com orientação populista, que assombrava a população por meio de um constante sorriso cínico, falso e persuasivo. Distribui favores, compra o público, desde que seus privilégios sejam mantidos. Tudo, claro, em prol do desenvolvimento que a cidade tanto precisa. Seu discurso e promessas seduzem a todos, desde que sejam beneficiados de algum modo.
A verossimilhança, mascarada pela sátira, mostra como o discurso de Odorico é o mesmo de políticos brasileiros dos anos 1950 e 1960 (e, embora modernizados, utilizados até hoje). Dias Gomes, utilizou-se do material real para criar seu político fictício.

O problema é que em uma cidade sem crimes, acidentes de trânsito e mazelas das grandes metrópoles, ninguém morre para que Odorico possa inaugurar o cemitério. Sem cumprir sua principal promessa, observa a oposição criticando-o frequentemente. Esta é encabeçada por Neco Pedreira, jornalista proprietário de A Trombeta, única gazeta da cidade. Ele utiliza do "cemitério-não-inaugurado" para alarmar o povo de Sucupira à respeito das falsas promessas e mal uso da verba pública pela Prefeitura.
Interessante notar como Odorico e Neco são antagonistas, mas ironicamente ambos concordam com o subdesenvolvimento de Sucupira, cada um a seu modo; e ambos se preocupam com seus próprios interesses. Estar certo ou errado dependerá de cada um de seus conterrâneos.
Mas nessa cidade, as personagens não são tão diferentes do Prefeito. A equipe de Odorico, formada por cidadãos tradicionais e conservadores, assim como o povo que o elegeu, reconhecem as fraudes, as mentiras e a precária administração. Participando direta ou indiretamente, todos sabem, porém fingem não notar, desde que ganhem algo. Chico Moleza, por exemplo, ganhou o cargo de coveiro. Sem mortos, ele não tem trabalho. E tudo bem, ele gosta mesmo da vida mansa. Moleza preocupa-se apenas se recebe ou não o salário, ignorando o fato de ter sido ou não necessário o cemitério em questão.
Dentre as demais personagens, ressalto as irmãs Dorotéa, Dulcenéa e Judicéa; Mestre Ambrósio; Dirceu Borboleta; o Vigário.
Odorico possui eleitores que o aplaudem e o elogiam pela frente, mas o vaiam pelas costas.
A cidadezinha sofre uma reviravolta quando Odorico traz de volta o famoso assassino Zeca Diabo, nomeando-o Delegado de Sucupira. Tudo para a cidade ter um defunto, o primeiro a ter a honra de ser enterrado na inauguração do cemitério.

O autor:
Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido como Dias Gomes, nasceu em Salvador, em 19 de outubro de 1922, e morreu em São Paulo, em 18 de maio de 1999. Foi um dos mais prestigiados dramaturgos e autores de telenovelas brasileiros do século 20. É autor de, entre outras obras, as peças O bem-amado, O pagador de promessas (que, transformado em filme no ano de 1962, foi vencedor da Palma de Ouro do Festival da Cannes) e O berço do herói, adaptada para a televisão como Roque Santeiro, uma das mais famosas e celebradas produções teledramatúrgicas brasileiras de todos os tempos. A Editora Bertrand Brasil publica as obras completas do autor.

A coleção:
A Bertrand Brasil está relançando as obras de Dias Gomes com novo projeto gráfico. O Bem-Amado e O Pagador de Promessas já estão disponíveis nas livrarias. Os seguintes títulos serão publicados em breve: Amor em Campo Minado, Surupira, Ame-a ou Deixe-a, Campeões do Mundo, O Santo Inquérito e O Berço do Herói.




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