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25 de abril de 2015

A Cidade Murada, de Ryan Graudin e Editora Seguinte (Companhia das Letras)

A Cidade Murada (The Walled City)
Ryan Graudin - Editora Seguinte / Companhia das Letras
Tradução: Guilherme Miranda
400 páginas - R$34,90 - comprar
Lançamento: 29 de abril de 2015.

Sinopse:
"Existem três regras para sobreviver na Cidade Murada. Corra muito. Não confie em ninguém. Ande sempre com uma faca.
Hak Nam é uma cidade murada de ruas estreitas e sujas, onde vivem traficantes, assassinos, prostitutas e ladrões. É também onde mora Dai, um garoto cujo passado o assombra e o mantém preso naquele lugar horrível. Para alcançar a liberdade, ele terá de se envolver com a principal gangue ali dentro e formar uma dupla com alguém que consiga entregar drogas muito, muito rápido. Alguém como Jin, uma garota ágil e esperta que finge ser um menino para conseguir sobreviver e continuar a busca por sua irmã, Mei Yee. Confinada num bordel, Mei Yee está mais perto do que Jin imagina. Ela passa os dias sonhando em fugir… até que Dai cruza seu caminho.

Inspirado na cidade murada de Kowloon, que existiu em Hong Kong até os anos 1990, este romance lírico e ao mesmo tempo cheio de adrenalina a luta desses três jovens, que, unidos pelo destino, tentam escapar da Cidade Murada para recomeçar a vida bem longe dali."

Resenha:
A Cidade Murada (The Walled City) foi publicado em 2014 em inglês e rapidamente chega ao Brasil pela Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras. O lançamento oficial está previsto para 29 de abril de 2015, porém tive a honra de receber um exemplar como prova antecipada para fazer esta resenha. Portanto, não avalio o resultado gráfico final, mas sim o conteúdo da obra, que é excepcional.
Primeiramente, é um livro young adult (jovem adulto), mas é um pouco inadequado tentar definir seu gênero literário exato. É uma obra ficcional, no entanto, baseada parcialmente em fatos verídicos, mas muito longe de ser um romance histórico - nem é a intenção da autora. Parece distopia, para quem desconhece a inspiração, contudo, não apresenta todas as características necessárias para receber essa classificação. Além disso, não há como determinar a época exata ou o local da trama, visto que é invenção, ainda que pareça um mundo oriental contemporâneo. Seria uma obra de fantasia urbana? Talvez, mas qual seria o elemento fantástico? Afinal, soa muito realista na concepção. Em alguns momentos, as coincidências e acontecimentos se assemelham a mágica, talvez esse seja o elemento fantasioso: o destino.
A capa é perfeita, porque ao fundo foi colocado um esquema arquitetônico e do cotidiano da cidade murada, cenário e título do livro.

É a cidade de Hak Nam, que fica em Seng Ngnoi (locais fictícios). Ela é viva, pulsa, parece uma personagem. Sua aparência é surreal, pois ocupa uma área de apenas 0,3 km², com uma população que ultrapassa 33 mil habitantes.
É uma área urbana restrita e murada dentro de Seng Ngnoi, porém sem Governo, ou seja, no interior dos muros de Hak Nam, não se aplicam as leis civis e não há polícia ou qualquer outro serviço social, sanitário, médico ou judiciário. É uma cidade sem lei. Uma cidade sem luz solar também. Seus prédios, verdadeiros arranha-céus amontoados e construídos sem controle ou planejamento de engenharia, compõem uma minicidade de arquitetura única. Uma favela vertical, cheia de becos e passarelas, tão alta e apertada que a luz do sol não chega às partes térreas e mal aparece aos moradores.
Prevalece a lei do mais forte, do mais rápido e da Irmandade do Dragão Vermelho.
Ao criar Hak Nam, a autora se baseou em uma cidade que realmente existiu: Kowloon. Exatamente com as mesmas características, foi uma área urbana densamente povoada de Hong Kong. Originalmente era uma base militar chinesa, mas desde o final do século XIX foi sendo ocupada ilegalmente pela população, inicialmente estimada em 700 pessoas. Dentre os anos 1950 e 1970 o local era controlado por organizações criminosas chinesas, portanto, o tráfico e consumo de drogas ilícitas era enorme, assim como a prostituição e jogos de azar. Em 1987 o Governo de Hong Kong decidiu desocupar e demolir a cidade. O processo foi finalizado em 1994 e atualmente no local foi inaugurado um parque que exibe artefatos da cidade apagada. Foi a maior favela vertical da história.
Difícil imaginar um cenário simultaneamente absurdo e real. A autora introduz o leitor a este ambiente com muita facilidade, paixão, naturalidade e de modo muito interessante.

Sua escrita possui tenacidade e transforma um cenário denegrido, sujo e perigoso em um local bonito. Emana beleza e vigor da cidade. Existe algo curioso e admirável nas vidas por detrás dos muros e o segredo está no estilo da autora. De fácil compreensão, particular e, de certo modo, melancólico e belo. Ela mostra como sonhos não podem ser contidos por paredes ou grades. Pessoas podem ser aprisionadas ou sufocadas, mas jamais deixam de ansiar por liberdade e espaço, seja físico ou psicológico.
Uma história que prova como o ambiente está ligado ao indivíduo, como que o local em que este vive pode ser uma extensão de seu corpo. O território influencia o estilo de vida do morador. Entretanto, a luta pela sobrevivência, o desejo pela mudança do mundo a sua volta e pela liberdade, formam uma arma maior que a pobreza, a injustiça e a morte. Sonhar é o que sustenta as personagens de A Cidade Murada.
A narrativa é em primeira pessoa, porém com três vozes e pontos de vista diferentes. A autora entrelaça destinos e cria uma história fabulosa, avassaladora e apaixonante. São três protagonistas carismáticas e, mesmo que o leitor tenha a sua preferida, terminará o livro apaixonado pelas três.
Cada capítulo tem seu narrador, segue ordem cronológica linear e os pontos de vista de alternam de acordo com a necessidade da criação de tensão, suspense ou emoção.
É uma contagem regressiva de 18 dias. Ao iniciar a leitura a curiosidade sobre o que acontecerá quando este prazo acabar atiça o leitor. Portanto, o livro apresenta ação, drama, suspense e romance, em capítulos curtos e trama amarrada.

Dai é um rapaz enigmático, pois tem uma missão importante pendente em Hak Nam. O prazo está se encerrando e muitas vidas estão em risco, incluindo a sua. Ele não pertence ao local, mas se camufla a ele.
Jin é uma menina esperta que finge ser menino para sobreviver nos becos da cidade como apenas mais um marginal morto de fome. Entre corres e roubos, ela procura pela irmã.
É Mey Yee, trancafiada em um bordel, mantido por um dos chefões do crime organizado da cidade. É apenas uma entre tantas moças escravas.
Cada um deles foi obrigado a aprender a viver. Cada um assume um novo papel, se escondendo dentro de uma nova identidade criada para sobreviver ao mundo de Hak Nam e sua falta de regras. Cada um cria seu plano de resistência.
Jin aprendeu a correr, a não confiar em ninguém e a viver agarrada a uma faca. Como nômade, ela vive feito um fantasma, rápida e invisível, se escondendo de marginais valentões.
Dai aprendeu a conviver e a negociar com os maiores criminosos e traficantes. Deixou outra vida para trás ao se infiltrar no crime, carregando junto a si muitos segredos.
Mey Yee aprendeu a se fechar dentro de si mesma, a se calar e obedecer ao Mestre e aos clientes que ele traz. Seu corpo pode ser usado, mas sua mente está livre.
Os três anseiam e necessitam da liberdade. Eles têm apenas 18 dias para conquistá-la em meio a traficantes e ladrões, drogas e prostituição, violência e morte.
Três vidas se cruzam para provar que muros podem ser derrubados através da amizade e do amor, mas para isso, sacrifícios precisam ser feitos e tragédias são inevitáveis. E o tempo corre!

O ponto fraco do livro pode ser a falta de itens da cultura chinesa. Mesmo ciente que é ficção e que o cenário e sua caracterização são invenção da autora, é nítida a tentativa de se aproximar da realidade. Este ponto cultural poderia ter sido reforçado e, até mesmo, adaptado. Já que existe inspiração para fatos, local, nomes e costumes verídicos, a autora poderia ter explorado melhor esses detalhes. Creio que tenha sido o caminho encontrado por ela para homenagear os milhares de pessoas que viveram em Kowloon, portanto, a intenção é admirável! Por outro lado, a caracterização de gueto e de favela é muito convincente e palpável, terminando por se destacar na ambientação.
As mensagens do livro são excelentes, focando na importância da vida e na necessidade da liberdade. O amor fraternal é explorado em vários tons, tanto entre irmãos de sangue quanto entre irmãos por afinidade. O amor e a amizade sinceros recebem belos exemplos através dos relacionamentos entre as personagens, o ponto forte e mais bonito do livro. Amar é fácil, mas confiar pode ser difícil. O livro possui um arco romântico secundário. É importante, mas dispensável.
O ponto mais grave apresentado é o tráfico de vidas humanas, de meninas escravizadas sexualmente. Menores sendo vendidas pelos próprios pais para a prostituição forçada. É um tema pesado e um problema real, mais próximo do que o leitor imagina.
No livro a gangue intitulada Ceifadores compra ou rouba meninas e as vende para a Irmandade do Dragão Vermelho, a organização criminosa de A Cidade Murada. Eles existem na vida real, no mundo todo, embora com outros nomes. A autora chama a atenção para essa violação dos direitos humanos.
Destaque para o fato de duas das três personagens principais serem do sexo feminino. São duas garotas fortes, cada uma à sua maneira e eu adorei a importância de ambas na trama, especialmente no clímax e missão final. Elas não existem para complementar um arco de história masculina e sim o contrário: Dai, embora seja uma personagem masculina incrível, é quem complementa a trama liderada por duas personagens femininas, as irmãs Mei Yee e Jin.
Jin, Dai e Mei Yee são personagens bem desenvolvidas e seu crescimento pessoal é nítido e forte, empolgando o leitor.
Recomendo A Cidade Murada para quem ficou curioso sobre Kowloon, gosta de distopia young adult, admira personagens femininas ou simplesmente adora viajar com um bom livro e busca por uma saga em volume único.

Fotos da cidade de Kowloon:

Foto: Greg Girard.
Foto: Iam Lambot.
Fotos: Livro City of Darkness: Life in Kowloon Walled City.


A autora:
Ryan Graudin nasceu e cresceu em Charleston, Carolina do Sul, Estados Unidos. Em 2009, formou-se em escrita criativa pelo College of Charleston.
Viajou para diversas partes do mundo - deu aulas de inglês na Coreia do Sul, viveu numa fazenda na Nova zelândia, fez um mochilão pelo Peru e observou os leões no Quênia! Também é autora da série All that Glows.
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