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15 de abril de 2015

A Fazenda, de Tom Rob Smith e Editora Record

A Fazenda (The Farm)
Tom Rob Smith - Editora Record / Grupo Editorial Record
Tradução: Janaína Marcoantonio
336 páginas - 2015 - R$40,00 - comprar

Sinopse:
"O novo suspense do autor de Criança 44.
Daniel acreditava que os pais aposentados levavam uma vida tranquila numa fazenda isolada na Suécia. Mas seu mundo vira de pernas para o ar ao receber um telefonema. “Sua mãe... ela não está bem”, diz seu pai. “Ela anda imaginando coisas. Coisas terríveis. Ela teve um colapso psicótico e foi internada num hospital”. 
Antes que Daniel consiga embarcar no avião para a Suécia, recebe outro telefonema, agora de sua mãe: “Tudo que esse homem falou para você é mentira. Eu não sou louca. Não preciso de um médico. Preciso da polícia… Me encontre no aeroporto de Heathrow”. 

Dividido entre duas versões da mesma história, e indeciso sobre em quem acreditar, Daniel se torna ao mesmo tempo juiz e júri do relato desesperado da mãe, que traz à tona segredos do passado, mentiras e a possível conspiração para encobrir um crime que envolve o próprio pai."

Resenha:
Tom Rob Smith ficou famoso com seu romance de estreia, Criança 44 (2008 - Child 44, 2008). A Trilogia Liev Demidov prosseguiu-se com O Discurso Secreto (2010 - The Secret Speech, 2009) e Agente 6 (2013 - Agent 6, 2011) e o sucesso foi tão grande que uma adaptação cinematográfica de Criança 44 estreará em abril de 2015, com Tom Hardy, Gary Oldman e Noomi Rapace. Não li ainda a trilogia, mas quis conhecer o estilo do autor com A Fazenda (2015 - The Farm, 2014), uma história de livro único. Portanto, não posso comparar a performance do autor com seus livros anteriores.
O trabalho gráfico da Editora Record está excelente. A diagramação segue seu padrão básico e perfeito, deixando o destaque para o conteúdo e proporcionando uma leitura agradável. A capa ilustra com maestria o título do livro e impressiona ao vivo, pois apenas os detalhes pretos e sombras são brilhantes, o restante é fosco e a arte de estende para as orelhas.
O livro não possui capítulos nítidos, porém o autor utiliza de pausas, algumas abruptas, outras suaves.

A narrativa é em terceira pessoa e se passa no presente. É Daniel quem tem a vida simples interrompida com dois telefones assustadores: Primeiro, de seu pai, Chris. Ele parece cansado ao contar que sua mãe está louca e fantasiando absurdos. Em seguida, sua mãe, Tilde, entra em contato, dizendo estar sendo vítima de uma conspiração porque descobriu segredos terríveis. Ela está a caminho de Londres, onde Daniel vive.
Essa história inacreditável ocorreu com seus pais na calmaria da fazenda recém-adquirida por eles na Suécia, terra natal de Tilde. Daniel tem seus próprios problemas e adiou por tempo demais uma visita aos pais. Sendo assim, infelizmente, desconhece a fazenda, o local, os moradores, tudo. Parece que tanta coisa mudou, até seus pais, que sempre pareceram um casal pacato e normal.
Então encontramos a narrativa central do livro: A de Tilde. Uma narrativa dentro da narrativa! Tilde encontra Daniel e inicia sua tentativa de convencê-lo de que não está paranoica e possui provas sobre crimes e atos horríveis cometidos por vizinhos à sua fazenda... Provas concretas e relatos impressionantes, sobre a cidade, a fazenda e, até mesmo, sobre Chris.
O que difere A Fazenda da maioria dos romances de suspense é justamente o modo que o autor escolheu para contá-la. Enquanto a narrativa padrão e linear é a de Daniel, esta é interrompida pela narrativa de Tilde, que se retorna ao passado recente, contando os fatos fora de ordem cronológica. Tilde prefere ir mostrando suas provas e correlacionando-as com os fatos, de modo a mostrar sua veracidade.
Portanto, o livro, quase em sua totalidade, é contato por Tilde. Simultaneamente o leitor vai acompanhando o raciocínio de Daniel perante a situação.
Tanto Daniel quanto o leitor estão perdidos e confusos: Em quem Daniel deve acreditar? Como ser imparcial? Estaria sua mãe louca ou seria seu pai envolvido com pessoas erradas? O que fazer?
Até ele nos engana... Estaria acreditando na mãe? Ou ganhando tempo para o pai?

Daniel é mais emotivo e natural em sua narração, porém Tilde é extremamente descritiva e, seu discurso, minucioso. Em alguns momentos, ou para alguns leitores, talvez a narrativa se torne cansativa. Não por ser monótona, mas sim detalhada e, estranhamente, repleta de fatos que, inicialmente, não parecem ter ligação.
Aproximadamente 70% de A Fazenda é um conjunto de retalhos narrados por ela. Estive o tempo todo agarrada à história, mesmo ciente de que Tilde pudesse ser uma narradora não confiável. Ela poderia ser uma mentirosa, ou, como o marido alertou, estar enlouquecida. Porém eu sabia que Tilde não estaria fugindo do marido e da Suécia, indo contar tudo ao filho na Inglaterra, à toa.
O suspense me arrebatou e precisava desesperadamente saber a verdade, descobri-la com Daniel, e presenciar o desfecho, o que ele faria. Os acontecimentos começam a fazer sentido, mesmo com muitas lacunas, e o autor não me deixou sem respostas.
Admirei a sinopse da Editora Record, porque expõe muito pouco a história. Na verdade, quase nada. Mostra apenas o ponto de partida, mas é insinuante. Um conteúdo mais encorpado, complexo e formado de pormenores preenchem as páginas, mesmo que o leitor duvide da veracidade. Esse é o suspense: O que teria mesmo ocorrido? Como Daniel se portará perante a situação?

A rede confusa de acontecimentos criada pelos pais se funde e se choca no filho. Este é o clímax do enredo. Não apenas estar dividido entre uma versão e outra, entre a mãe e o pai. É ter a atitude de conferir pessoalmente cada prova ou encontrar os envolvidos. Daniel passa de observador a protagonista. Porque até então, Tilde foi a protagonista sob meu ponto de vista. É a melhor parte do livro, e esta (infelizmente) representa apenas os 30% finais.
Talvez tivesse sido uma escolha melhor de o autor equilibrar a narrativa: Metade sendo o relato de Tilde e o restante com Daniel tomando suas decisões. Pois Tilde não conta em forma de diário, nem como uma viagem no tempo. É literalmente um relato ao filho. Mesmo estando com a curiosidade no mais alto nível, não me envolvi com a narrativa mecânica de Tilde, mas com a de Daniel, bastante. Precisava terminar o livro, era uma necessidade impressionante. O autor foi incrível, mas poderia ter sido menos técnico e mais fluido nas partes de Tilde. No entanto, reconheço, que é uma manobra literária proposital: Faz parte da composição da personagem.

Destaco a cultura sueca, sobre a sociedade campestre, seu folclore e culinária. Você encontra bastante disso como pano de fundo, como, por exemplo, festas típicas e lendas rodeadas por trolls.
O cenário parece vivo, especialmente a fazenda. Porém todo o ambiente pitoresco da Suécia é gracioso - e assustador - com suas densas florestas e clima frio de noites extensas.
As personagens são variadas, muito intrigantes e diferentes. Todas estão na Suécia, com exceção de a única pessoa que faz parte do núcleo exclusivo de Daniel. O leitor é apresentado a elas sob a visão de Tilde, enquanto ela conversa com Daniel, relatando seus relacionamentos com a vizinhança.
É um livro inteligente sobre crimes, fantasmas do passado e um presente confuso. Um exemplo de como todos têm segredos e que revelações podem assustar. E se ao buscar por determinadas respostas, você encontrar a outras, tão ou mais amedrontadoras?
Gostei do estilo instigante do autor e pretendo ler Criança 44!

O autor:
Filho de uma sueca e um inglês, Smith nasceu em 1979, em Londres, onde mora atualmente. Profissionalizou-se como escritor na Universidade de Cambridge, tendo trabalhado como roteirista para televisão.
Seu romance de estreia, Criança 44, teve os direitos adquiridos para uma adaptação cinematográfica, com Ridley Scott (Blade Runner e Gladiador) à frente do projeto.
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Trailer de Criança 44 / Crimes Ocultos:




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