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7 de maio de 2015

Fique Onde Está e Então Corra, de John Boyne e Editora Seguinte (Companhia das Letras)

Fique Onde Está e Então Corra (Stay Where You Are and Then Leave)
John Boyne - Editora Seguinte / Companhia das Letras
Tradução: Henrique de Breia e Szolnoky
224 páginas - 2014 - R$34,90 (impresso) e R$24,90 (e-Book).

Sinopse:
"Alfie Summerfield nunca se esqueceu de seu aniversário de cinco anos. Quase nenhum amigo dele pôde ir à festa, e os adultos pareciam preocupados - enquanto alguns tentavam se convencer de que tudo estaria resolvido antes do Natal, sua avó não parava de repetir que eles estavam todos perdidos. Alfie ainda não entendia direito o que estava acontecendo, mas a Primeira Guerra Mundial tinha acabado de começar.
Seu pai logo se alistou para o combate, e depois de quatro longos anos Alfie já não recebia mais notícias de seu paradeiro. Até que um dia o garoto descobre uma pista indicando que talvez o pai estivesse mais perto do que ele imaginava. Determinado, Alfie mobilizará todas suas forças para trazê-lo de volta para casa."

Resenha:
John Boyne é um escritor irlandês best-seller mais conhecido por sua obra O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pyjamas, 2006), que recebeu adaptação cinematográfica. Além do famoso livro, a Companhia das Letras já trouxe ao Brasil mais dez obras do autor. Uma delas é Fique Onde Está e Então Corra (Stay Where You Are and Then Leave, 2013), da Editora Seguinte (selo jovem da Companhia das Letras). John Boyne é versátil, porque escreve para crianças, jovens e adultos. Fique Onde Está e Então Corra é um livro juvenil.
A capa original foi mantida, sob uma leve modificação de tons. A arte remete totalmente ao estilo da época em que se passa a história: A Primeira Guerra Mundial (julho de 1914 a novembro de 1918). Um menino olha para um avião de caça biplano britânico. Sempre tenho o sentimento de que este avião não deveria estar ali e o menino deveria estar brincando no campo de flores ou observando as nuvens no céu. Este sentimento me acompanhou durante a leitura.
Quanto mais você lê, mais você tende a perceber que existem livros verdadeiramente marcantes. Um tipo que, em escaladas variadas, nunca desaparece por completo de sua mente ou coração. Este é um livro assim: Difícil de ser apagado da memória. A essência vai permanecer, mesmo que em anos você precise rele-lo para relembrar os detalhes.

É uma obra em volume único e um romance juvenil histórico, pois os acontecimentos históricos e verídicos funcionam não apenas como o pano de fundo para a trama, mas sim como agentes diretos. A Primeira Guerra influencia diretamente a ficção presente. As vidas das personagens são abaladas irremediavelmente com a Grande Guerra. Uma curiosidade: A publicação em inglês ocorreu alguns meses antes do centenário do início da Primeira Guerra Mundial (no Brasil, no ano exato!).
A leitura é muito leve e agradável. Isso é incrível, porque a temática poderia ser extremamente pesada. O autor mantém o tom de seriedade, mas, no entanto, apresenta uma singela doçura ao contar dramas e tristezas sem perder o ponto. Emociona, porém não machuca o leitor.
Além disso, você não precisa ser fã de ficção sobre guerras para apreciar a leitura. Você pode não ser conhecedor de Primeira Guerra Mundial nem de História ou Geopolítica do século XX para se sentir confortável. Assim como interessados ou estudiosos pelo assunto também gostarão do livro, visto que encontrarão detalhes ou referências na trama que os deixarão satisfeitos. Por exemplo, o nome que o menino protagonista dá ao cavalo que puxa a carroça da leiteria ou uma personagem verídica que ele encontra em uma estação de trem ao longo do livro. Quem entende de História britânica perceberá, mas quem desconhece não é influenciado. O autor é irlandês e existe uma manifestação sobre a situação da Irlanda naquele cenário, por exemplo, mas algo quase insignificante.
A sociedade da época é bem retratada, mostrando ao leitor as mudanças que se iniciam, especialmente o papel da mulher. Logo no começo, é mostrado que elas não participavam da política, nem ao menos votavam, e poucas (as mais jovens e mostradas como modernas) estudavam. E então, sem seus maridos, pais e / ou filhos por perto, elas precisaram cuidar da casa e o que restou das famílias sozinhas. Quase todas ingressaram em empregos ou passaram a trabalhar.
Portanto, Fique Onde Está e então Corra é um livro juvenil incrível e comovente, mas pode ser apreciado como uma belíssima ficção sobre um período delicado da realidade.
Outra observação interessante é que o livro consegue ser inteligente e descomplicado ao mesmo tempo, sendo uma obra de apreciação para várias faixas etárias.

O autor vai além das mudanças gerais que a Primeira Guerra causou a população. Fique Onde Está e Então Corra é um livro preciosíssimo se avaliarmos que por trás da História, guerras e política, sempre existem pessoas... vidas. Ao pensarmos em eventos assim, pensamos em números, locais e datas. Mas devemos sempre lembrar que pessoas estão submersas ao caos de uma guerra e este tipo de Literatura, de fácil alcance, pode e deve ser utilizada, além do entretenimento, para este fim: Ressaltar como vidas mudam - além dos livros de História.
Neste caso, o foco é a vida de um menino morador da cidade de Londres, da Rua Damley: Alfie Summerfield, que teve o azar de ver a Guerra começar oficialmente logo no dia de seu quinto aniversário. Através dos quatro anos seguintes acompanhamos sua vida, seus sentimentos, seu ponto de vista sobre a Guerra, a vida e a morte, o "mundo dos adultos" e sobre todas essas mudanças. Como um glorioso bônus, através de Alfie assistimos diversificadas vidas: As de seus vizinhos e muitas outras pessoas que o protagonista encontra. São personagens secundárias e figurantes que esboçam vidas comuns, através de diálogos importantes (mesmo conversas isoladas que Alfie escuta de vez em quando).

Sob um olhar ingênuo e inocente, mas perspicaz, com observações que somente a pureza e esperteza de uma criança são capazes de gerar, John Boyne desenvolve o enredo e narrativa.
Interessante notar a proeza do autor em manter com eficácia esta linha, porque a narrativa é em terceira pessoa e até mostra outros pontos de vista, porém mantendo-se sempre sob a perspectiva infantil. No sentido da inexperiência, não no sentido de imaturidade: O livro é fantástico!
Boyne aborda diversas nuances da tragédia da Guerra: Cidadãos tratados como "espiões", por descenderem das nações oficialmente inimigas; homens objetores, incompatíveis com o serviço militar, tratados como criminosos; ex-combatentes que retornam do front com traumas psicológicos (chamados na época como "neurose de guerra"), tratados como covardes. As perdas, injustiças e mortes. Há ainda a crítica de como meninos menores de dezoito anos simplesmente se alistavam e ninguém os impedia, ninguém verificava a idade.
São muitos pontos dramáticos desenvolvidos com sutileza e, mesmo deixando o leitor a beira de lágrimas, as palavras são carregadas de humor delicado.
É a história de uma criança obrigada a crescer em meio à guerra. Embora o livro se inicie com um Alfie de cinco anos, a maior parte do desenvolvimento e ação ocorrem quando ele já tem nove anos. Sabemos que a Guerra está prestes a terminar, mas as personagens não. A resposta ouvida por Alfie de que "será antes do próximo Natal" não faz mais sentido para o menino.
Há quatro anos Alfie não vê o pai, que se alistou e partiu para treinamento e combate. E o pior: As cartas param de chegar. Sua mãe foi obrigada a conseguir um emprego, além de realizar outras tarefas para os essenciais trocados. Alfie não fica parado: Precisa dar um jeito de ajudar a mãe e, o mais difícil, encontrar o pai! E suas tentativas formam a aventura do livro, emocionam e atingem um maravilhoso clímax, com desfecho inesquecível.
Triste e alegre, o livro é envolvente até a última página. A leitura é rápida, mas saborosa, e termina atingindo o coração do leitor.
O motivo do título ser Fique Onde Está e Então Corra é mostrado em uma cena perfeita, de diálogo entre pai e filho verdadeiramente marcante! Mas este livro contém um trecho (ou quote, como preferir) épico: "— Pela melhor razão do mundo — ele explicou — Por amor."

Por que não li John Boyne antes?

O autor:
John Boyne nasceu na Irlanda, em 1971, e mora em Dublin. Escreveu diversos romances que já foram traduzidos para mais de quarenta idiomas. Seu livro mais célebre, O Menino do Pijama Listrado (2007), lhe rendeu dois Irish Book Awards, vendeu mais de 5 milhões de exemplares pelo mundo e foi adaptado para o cinema em 2008.
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Obras publicadas no Brasil:
A Casa Assombrada (2015);
Fique Onde Está e Então Corra (2014);
O Ladrão do Tempo (2014);
Tormento (2014);
Dia de Folga (e-Book grátis) (2013);
A Coisa Terrível que Aconteceu com Barnaby Brocket (2013);
O Pacifista (2012);
Noah Foge de Casa (2011);
O Palácio de Inverno (2010);
O Garoto no Convés (2009);
O Menino do Pijama Listrado (2007).

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