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2 de outubro de 2015

A Casa das Marés, de Jojo Moyes e Bertrand Brasil (Grupo Editorial Record)

A Casa das Marés (Foreign Fruit)
Nova edição.
Jojo Moyes - Bertrand Brasil / Grupo Editorial Record
Tradução: Maria Heloisa Gonçalves
476 páginas - 2015 - R$35,00
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Sinopse:
"Merham é uma metódica cidade litorânea na década de 1950. Lottie Swift, acolhida durante a guerra e criada pela respeitável família Holden, ama viver ali, mas Celia, a filha legítima do casal, não vê a hora de ultrapassar as regras da cidade.
Quando um excêntrico grupo de artistas se muda para uma velha mansão construída de frente para o mar, as meninas não resistem à tentação de se aproximarem deles. Mas o choque para os moradores de Merham é inevitável e acaba por desencadear uma série de acontecimentos que terão consequências trágicas e duradouras para todos.
Quase cinquenta anos depois, no início do século 21, a mansão começa a ser restaurada, voltando à vida e, mais uma vez, trazendo à tona intensas emoções. E a magia que permeia a mansão faz com que os personagens confrontem suas lembranças e se perguntem: É possível deixar nosso passado para trás?"

Resenha:

Foreign Fruit, publicado em inglês em 2004, é o segundo livro da inglesa Jojo Moyes. A obra chegou ao Brasil em 2007, pela Bertrand Brasil (do Grupo Editorial Record) sob o título A Casa das Marés. Em 2015, a editora traz nova capa e edição e é este o exemplar recebido para avaliação.
A adaptação do título foi uma excelente escolha, mais de acordo que a ideia original. A Bertrand Brasil está fazendo um belo trabalho ao renovar os títulos da Jojo Moyes. Em Busca de Abrigo (Sheltering Rain, seu romance de estreia, de 2003; publicado no ano seguinte no Brasil) e Baía da Esperança (Silver Bay, de 2007; lançado aqui em 2010) também estão com novas edições e o visual compõe uma coleção muito bonita para os fãs da autora. Além disso, diagramação e revisão são de alta qualidade, com papel amarelado e exemplar com orelhas.
Várias pessoas me recomendaram Jojo Moyes por suas obras marcantes e avassaladoras e, embora tenha adorado a premissa e ideia central de A Casa das Marés, o livro me pareceu demasiado longo. É o vencedor do Romantic Novelist's Award e creio ser merecido, pois a trama é melancólica, complexa e até mesmo ousada, porém preferiria que o enredo fosse pouco mais enxuto.
Acredito que por ser a segunda publicação de Jojo Moyes, encontrarei desenvolvimento e evolução no seu trabalho ao conferir obras posteriores. Portanto, talvez leitores acostumados aos livros mais recentes sintam diferença em relação aos primeiros trabalhos - fato observado em quase todos os escritores. Entretanto, A Casa das Marés possui qualidades peculiares.


A estrutura da obra está diretamente ligada à cronologia da trama. São três partes em terceira pessoa, sob vários pontos de vista. Esta divisão é a característica marcante do livro, que causou conflito sobre o quanto gostei e desgostei da obra.
A primeira parte (200 páginas) é excelente, a autora transporta e detalha o passado de um jeito maravilhoso, utilizando os ultrapassados triângulos amorosos para criar uma tocante história de época. As personagens são intrigantes, especialmente o grupo colorido que passa a viver na mansão Arcádia, rivalizando com os moradores monocromáticos de Merham.
A segunda parte (140 páginas) parece ter sido prolongada; se fosse mais resumida e direta, teria me deixado satisfeita. Porém a leitura tornou-se cansativa na metade. Compreendo que a autora estava reapresentando a mesma cidade, décadas depois e através do olhar de uma forasteira, mas foi monótono para mim devido ao tamanho do texto, não dos fatos em si. Ao seu término, uma revelação que fez a leitura melhorar e me animar a prosseguir.
Chegando até a terceira parte (136 páginas), imaginei tantos conflitos, reencontros e sentimentos animando a trama e me deixando emocionada. Mas a terceira parte também começa a sofrer do mesmo problema da segunda e o clímax iminente se arrasta e demora muito para chegar. E quando chega, logo passa e o livro acaba. Confesso que se a autora reescrevesse a segunda e terceira partes, unindo-as em uma só e acelerando mais o ritmo, A Casa das Marés seria memorável, não mediano.

A primeira parte ocorre no período Pós-Segunda Guerra Mundial e foi a minha preferida; esta, por si só, já faz valer a leitura. Em Merham vivem Lottie Swift e Celia Holden, duas jovens criadas como irmãs. Celia é a filha biológica, que conta ainda com dois irmãos mais jovens, Sylvia e Frederick. Seus pais são respeitados, pois Henry é médico e Susan uma senhora que preserva os bons costumes e a cultura da pequena cidade. Além disso, adotaram Lottie em um período conturbado enfrentado pela Europa.
Lottie gosta de Merham e sua simplicidade e natureza, embora nunca se apaixone por nenhum jovem. Se sente deslocada perto de Celia, por não possuir a mesma aparência física tradicional; não enxerga beleza em si mesma, imaginando-se apenas como "exótica" ou "estranha". Já Celia é menos tímida e mostra estar insatisfeita com o cotidiano imutável da cidade, com sonhos de ir para uma cidade grande para estudar e se apaixonar, como Londres - já Lottie, deseja nunca mais voltar para lá.
O relacionamento das duas é complexo e me fez observar muito como amor, ódio, amizade e inveja são sentimentos que podem andar mesclados.
Adeline Armand compra a antiga mansão na beira do penhasco, a Arcádia. Os conservadores de Merham já se sentem intimidados e curiosos sobre os novos moradores da casa litorânea. Aos poucos, ao observarem o modo de vida ousado e estranho, se sentem ameaçados. Exceto Lottie e Celia, frequentadoras secretas de Arcádia; elas conhecem um mundo novo, artístico e rico, bastante diferente do tradicional conservadorismo de Merham. E, amando ou odiando a cidade, as jovens percebem a estagnação local.
Os conflitos e escândalos surgem e o leitor fica cada vez mais íntimo de Lottie e Celia e das barreiras machistas da época.


A segunda parte se passa na atualidade, quase cinco décadas após a primeira, dando um salto temporal que traz curiosidade, mas logo me fez perder interesse parcial sobre a trama. Pode até ser culpa minha, pois estava ansiosa demais para saber o que acontecera com Lottie, Celia e as demais personagens e seus possíveis descendentes. Inicialmente o leitor só tem acesso à mansão Arcádia, a cidade Merham e o que tem acontecido com seus moradores de uma forma geral.
O Senhor Jones comprou a Arcádia para transformá-la em um hotel fantástico a beira mar. Contratou dois designers de interiores responsáveis pela reforma total, Daisy Parsons e Daniel Wiener. O problema é que antes de sócios, eles são um casal. Ou eram. Daisy se encontra em colapso sozinha com sua bebê Ellie, tendo de viajar para Merham e assumir um projeto grande, importante e, pela primeira vez, sozinha.
Chegando ao local, além de vários obstáculos pessoais, descobre que a população é contra a inauguração do hotel; é contra a reforma da casa, é contra a casa. Atônita, Daisy mergulha em uma história que não é dela, de um local desconhecido e estranho. Por que a população parece odiar tanto a mansão e seus ex-moradores? Que segredos o ex-proprietário do imóvel carrega? E por que um painel pintado por baixo do cal grosseiro está trazendo tanta confusão?
É o momento crucial para as personagens, onde passado e presente devem se unir, mas o quebra-cabeça parece cada vez mais estranho para Daisy e Jones.
A terceira parte é continuação direta da segunda, porém com segredos e fatos ocorridos no salto dos quase cinquenta anos sendo revelados. Aqui sim passado e presente se misturam, para contar logo a história completa da Arcádia e do paradeiro dos seus antigos frequentadores.
Amizades perdidas, sonhos apagados, amores desfeitos, histórias incompletas, lembranças doces e amargas. Será que devemos mexer em memórias antigas? Remoer sentimentos escondidos? Buscar por respostas, mesmo que seja doloroso? O final é satisfatório, porém poderia ter emocionado mais.


Interessante observar que os comportamentos sociais são ligados à passagem do tempo, principalmente por tratar-se do mesmo local, a cidade litorânea Merham, na Inglaterra. E mudanças nem sempre são sinônimo de avanço, pelo contrário, algumas coisas se modernizaram enquanto outras pararam no tempo ou regrediram. Nada melhor que conhecer a história de um local pequeno e seus moradores por algumas décadas para observá-la por variados ângulos. Esta é uma das sensações que tive durante a leitura.
É uma história romântica e dramática, mas também sobre a passagem do tempo. A saudade, seja ela de uma determinada época, pessoa ou sentimento, pode guiar, fortalecer ou sufocar um indivíduo por boa parte da vida.
O livro mostra intensamente as mudanças da vida em sociedade ou em família. Além disso, o que mais gostei: os obstáculos enfrentados por diferentes gerações de mulheres, na mesma cidade. O papel da mulher é o destaque. As décadas se passam e as dificuldades continuam as mesmas, como as críticas alheias, o desrespeito pelas decisões particulares e a maternidade. Outro ponto encantador é o envelhecimento e amadurecimento das pessoas, mostrado como natural e belo, apresentando personagens de variadas faixas etárias, sem preconceitos.
Curiosamente o livro tornou-se mais interessante ao término; pensei mais nas personagens e suas atitudes depois do desfecho e em como nunca é tarde demais para colocar mente e coração em ordem.

A autora:
Jojo Moyes nasceu em 1969 e foi criada em Londres. Jornalista e escritora, trabalhou por nove anos para o jornal The Independnet e, desde 2002, dedica-se integralmente à literatura.
Já escreveu doze livros, todos muito aclamados pela crítica, e veneu mais de 3 milhões de exemplares no mundo todo.
A Casa das Marés, Melhor Romance do Ao pela Romantic Novelist's Association em 2003, é seu segundo livro.
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