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11 de outubro de 2015

Querubins: A Sentença da Espada, de Martha Ricas e Talentos da Literatura Brasileira (Novo Século)

Querubins: A Sentença da Espada
Martha Ricas - Coleção Novos Talentos da Literatura Brasileira / Novo Século
240 páginas - 2015 - R$34,90
Comprar: AmazonCasas Bahia | Extra | Livraria Cultura | Livraria da Folha | Livraria da TravessaLivraria Saraiva | Ponto Frio

Sinopse:
"Querubins, a Sentença da Espada é um relato em duas vozes: a da querubim Chaya, enviada a uma vila celta pré-cristã e que não vê no homem um ser especial, mas com um espírito guerreiro que não a deixa fugir de uma batalha, e a de Mary Grace, uma donzela da Inglaterra vitoriana atormentada por visões que não consegue desvendar.
Ambas as tramas se desenlaçam por caminhos intrépidos e podem estar mais ligadas do que imaginam.
Garota e querubim podem e precisam mudar o mundo em épocas diferentes.
Seguindo os mesmos passos por cenários deslumbrantes e segredos cada vez mais profundos, elas o farão querer embarcar nas intrigas palacianas e nas batalhas angelicais.
Recheada de paixão, mistério, ação e intrigas políticas, a trama é tão perturbadora quanto fascinante."

Resenha:

Querubins: A Sentença da Espada foi publicado em agosto de 2015 pela Novo Século Editora, através do selo nacional Talentos da Literatura Brasileira. Sou fã de gêneros fantásticos e épicos, por isso me interessei pela sinopse. Outro item que me atraiu foi o fato de duas tramas se interligarem ao longo de um enredo épico. Então observei a capa contendo uma guerreira e pronto: Comecei a leitura ansiando por mulheres fortes e batalhas.
A imagem é de uma das protagonistas, Chaya, a querubim de cabelos do mais intenso tom de vermelho, quatro asas de anjo e uma espada inseparável. O destaque para seu lado de combatente acima do angelical na imagem é impactante. Então você sabe que encontrará anjos na história, mas lutadores. O fundo preto-e-branco ficou muito bom para realçar o título.
Encontrei errinhos bobos de revisão que passam despercebidos para a maioria dos leitores. A diagramação e trabalho gráfico estão perfeitos, em páginas amareladas e exemplar com orelhas.

Não sei se este é o primeiro romance de Martha Ricas, mas destaco seu talento. O texto é caprichado e demonstra experiência e / ou muito bom planejamento. O vocabulário é amplo, deixando a leitura prazerosa e interessante. Portanto, minha curiosidade e atração por tramas entrelaçadas foram totalmente sanadas; Martha Ricas faz exatamente isso, conta duas histórias em épocas diferentes, mas que se cruzam de modo arrebatador.
O leitor acompanha a querubim Chaya em uma missão divina na Bretanha do século V a. c., em Kernev, uma aldeia celta. A outra protagonista paralela é Mary, uma jovem de família tradicional e culta de Londres, Inglaterra, em 1840 d. c..
É difícil encontrar um livro atual e de trama no passado, porém com texto coeso. Sempre há o perigo da linguagem parecer rebuscada demais, deixando a leitura monótona ou pesada; ou o risco de soar mais moderno do que deveria e perder a essência de época. Principalmente nos diálogos, eles podem ser muito entediantes ou descaracterizados. O mesmo problema pode ser encontrado no figurino, itens domésticos, utilitários ou decorativos, assim como tradições culturais. Mesmo se tratando de ficção, mesmo sabendo que nenhum(a) autor(a) é obrigado(a) a ser especialista ou historiador(a), sempre desejo que me faça acreditar na trama de época. Martha Ricas encontrou o ponto ideal. Me fez crer nos dois cenários, nas duas épocas. Realmente viajei para a Bretanha na antiguidade e para a Londres do início da era vitoriana. A escrita da autora é distinta, mas compreensível, portanto, equilibrada.
A narrativa é em primeira pessoa, alternando entre Mary e Chaya (exceto o último capítulo, que é em terceira pessoa). O livro é composto por prólogo, vinte capítulos e epílogo. É um volume completo, pode ser único. Então se você não gosta de séries ou primeiros volumes inacabados, não se preocupe. Pode ler Querubins: A Sentença da Espada como independente. No entanto, senti ao término que foi plantada a possibilidade de uma continuação, mesmo que indireta, com outras personagens, por exemplo.


Não gostaria de continuações, mas sim de missões de Chaya. Amei a personagem de tal forma que adoraria ler contos ou romances mostrando suas batalhas e vida como querubim. Fiquei com várias dúvidas sobre sua história pessoal. E os demais anjos citados ou que aparecem? Fiquei louca para saber mais deles!
Também gostei de Mary e elogio a autora por ter criado duas protagonistas fortes, cheias de atitudes e inteligentes. Neste sentido o livro é feminista, pois elas possuem suas crenças e bases e não se intimidam com os obstáculos. Têm seus defeitos e os superam.
Chaya é uma querubim e segue ordens de Deus com força, energia e amor. Ao pisar em terra, infiltrando-se como humana, ela não se abala perante ninguém, nem homens, nem guerras. Ela enfrenta demônios em luta corporal. É segura e uma personagem única, admirável. O incrível é ver que ela está na Bretanha em uma missão divina, mas ela também enfrenta uma mudança interior. Ela não compreende os seres humanos e precisa conviver com eles e, aos poucos, descobre porque Deus os ama.
Mary é de família abastada e tradicional do começo da era vitoriana. Ela estudou Artes e teve uma formação culta e artística, mas se sente sempre deslocada. É uma mulher a frente de seu tempo. Não deseja um casamento ordinário sem amor ou seguir o que a família e sociedade exigem das mulheres, submissão. Além disso, ela possui um dom que a enlouquece: Enxerga seres sobrenaturais, tanto malignos como benignos. Precisa lidar com seu poder, compreender que não é uma maldição e descobrir como utilizá-lo. Assim como Chaya, ela enfrenta demônios. Não como querubim, mas como humana. São duas protagonistas incríveis.
Assim como o livro: Chaya e Mary, cada uma em sua época, com missões a cumprir. O enredo de ambas as histórias se misturam e, formam, na verdade, uma única trama. Uma guerra invisível entre anjos e demônios.



O livro funciona muito bem do início ao fim, sem falhas, sem erros. O clímax é impactante e as cenas bem descritas. Há um pouco de romance, mas em segundo plano. E mesmo que o lado romântico não seja o centro, ainda assim é comovente. Além de ação e romance, o leitor encontrará muito mistério. O porquê de Chaya e Mary enfrentarem cada uma suas missões... que na verdade é a mesma... deixa muitas perguntas desde o começo. Por que elas estão interligadas? O que uma querubim e uma humana têm em comum?
Temos personagens secundárias muito boas. São masculinas: Anton e Vougan, essenciais no rumo da trama. Não possuem personalidades compreensíveis perante uma primeira avaliação, pois são misteriosos e o leitor não sabe exatamente quem eles são, quais são as intenções. Engrandecem o suspense.
Portanto, é ficção fantástica, com seres sobrenaturais (anjos e demônios), mas mantém um clima cristão. Não é forçado, porém notei que o enredo é tradicionalmente bíblico e isso faz sentido. Não apenas a parte épica do bem contra o mal, céu contra inferno, anjos contra demônios. Está na caracterização histórica da Bretanha antiga.
Compreendi a necessidade da utilização do paganismo de V a. c. como algo a ser "derrotado", mas senti que mostrar os druidas celtas unicamente como vilões maléficos uma visão preconceituosa para a época em que eles existiram. Em tempos antes de Cristo, onde as crenças se baseavam na natureza, não existiram apenas sacerdotes e sacerdotisas como os que o livro mostrou. Este foi o único item que me incomodou durante a leitura, o estereotipamento das antigas crenças celtas.
Não costumo gostar de romances sobrenaturais com anjos. Geralmente focam ou em lutas deles contra demônios ou em amores impossíveis com humanos. Já Querubins: A Sentença da Espada apresenta uma trama tão bem entrelaçada envolvendo protagonistas femininas interessantes. Realmente gostei da obra, me manteve muito envolvida. Outro motivo que me faz recomendar o livro é o já citado talento para a escrita de Martha Ricas.

Esta é a capa modificada por mim para mostrar como imaginei Chaya e seus cabelos vermelhos.


A autora:
Martha Ricas nasceu e mora em São Paulo. Desde a infância adora a arte em suas mais diversas formas: compunha para a lua, escrevia diários de garatujas e desenhava personagens imaginários. Formada em Letras, leciona Português e Inglês, canta e toca violão nas horas vagas, escreve para o seu blog, além de se aventurar por dança e design de interiores. Vê na escrita uma forma de expressão artística e um passaporte para mundos nem sempre distantes, porém sempre diferentes e incríveis.
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