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12 de novembro de 2015

A Garota Sem Nome, de Marina Chapman e Editora Record (Grupo Editorial Record)

A Garota Sem Nome (The Girl with no Name)
A incrível história real de uma criança criada por macacos (the incredible true story of a child raised by monkeys)
Marina Chapman, Vanessa James e Lynne Barrett-Lee - Editora Record / Grupo Editorial Record
322 páginas - 2015 - R$40,00 (impresso) e R$28,00 (e-Book)
Tradução: José Gradel
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Sinopse:
"Em 1954, em um vilarejo remoto da América do Sul, uma menina de 4 anos foi sequestrada e abandonada no coração da floresta tropical colombiana. Sozinha e com medo, agarrou-se à única companhia que encontrara: um grupo de macacos que a acolheu em sua família.
Em um relato comovente, Chapman revela os detalhes do período ao longo do qual foi pouco a pouco se tornando feroz. O que ela não sabia, no entanto, é que o seu maior teste de sobrevivência não seria na selva.
Depois de anos na floresta, Chapman, já com 10 anos, foi capturada por caçadores e devolvida à civilização. Vendida para um bordel, seria escravizada e espancada diariamente, até escapar – para viver a perigosa rotina de uma criança de rua, e depois a de prisioneira dentro da casa de uma família mafiosa colombiana. Mas havia uma esperança...
A Garota Sem Nome narra esta incrível história de sobrevivência e perseverança — uma demonstração do verdadeiro significado de “humano” e do que nos conecta às pessoas."

Resenha:
Esta obra é o resultado emocionante da tentativa de preservar uma história real e quase inacreditável de uma criança criada por macacos e que buscou incessantemente sua identidade e lugar perante a civilização humana, muitas vezes mais selvagem que os animais. Esta é a biografia de Marina Chapman.
Seu relato ficou conhecido após ter inspirado o documentário Woman Raised by Monkeys, exibido pelo National Geographic Channel. O lucro que Marina obtém com o livro é doado para instituições que combatem o tráfico internacional de pessoas e a exploração infantil na Colômbia. No livro ela recomenda a Substitute Families for Abandoned Children (SFAC). Indica também uma instituição que protege macacos nas Américas Central e do Sul, a Neotropical Primate Conservation (NPC).
Com a ajuda da filha Vanessa James, Marina conseguiu relembrar e catalogar o máximo possível sobre sua vida, baseada quase que totalmente em memórias e pesquisas em viagens de volta à Colômbia. Após coletarem a maior quantidade de informações coerentes, a autora ghost-writer Lynne Barrett-Lee pode adaptar esta biografia. Embora tenha sido publicada no idioma original, o inglês, em 2013, Lynne se encontrava com Marina e Vanessa desde 2011 e, juntas, trabalharam na escrita. O livro chegou ao Brasil em 2015 pela Editora Record (do Grupo Editorial Record).
O título deixa nítido sobre quem é a história: Uma menina sem identidade. Marina foi o primeiro nome que ela pode escolher, porém recebeu vários nomes antes. Ela não sabe seu local de nascimento, provavelmente Venezuela ou Colômbia. Escolheu a Colômbia, pois é o país em que cresceu antes de se mudar para a Inglaterra. Também não sabe sua data de nascimento, provavelmente no início da década de 1950. A capa demonstra como a pequena protagonista se sente. Ela é parcialmente macaca. Por um tempo considerável ela se sentiu assim, tentando agir como macaca. Porém seu instinto de humana nunca deixou de existir, principalmente sua carência em relação à mãe.
O exemplar da Editora Record possui folhas amareladas (papel off-white), orelhas e várias fotografias coloridas sobre a vida de Marina no centro do miolo. A revisão é ótima.


Procurei essa leitura pela curiosidade acerca de uma criança criada por macacos e fui surpreendida por uma história cheia de outros acontecimentos, independentemente de ser verdadeira ou não. Porque duvidei inúmeras vezes de parte da veracidade. Não estou afirmando que é mentira, mas me sinto um pouco cética sobre ela ter vivido somente com macacos-prego dos 5 aos 10 anos de idade exatamente do jeito que ela se lembra. Quase nada é exato para estruturar um período em que ficou com eles. O tempo de convivência com os macacos é quase uma suposição, porque Marina não tem como ser exata em muitas informações, visto que era muito jovem. Sua vida não tinha senso cronológico, mas ao criarem o livro, as escritoras tentaram se aproximar ao máximo da "precisão", costurando lembranças. Acredito que talvez Marina tenha passado um período mais breve com macacos. Ou vivido próxima demais a eles e tê-los tido como o refúgio para uma infância traumática. Não questiono se aconteceu, porém como aconteceu.
No entanto, sendo fantasia ou realidade, estava interessada e não me arrependi, é uma leitura atraente, simples e ousada. É uma história diferente, não inédita, mas atrai. De qualquer forma, deve ter sido muito complicado, difícil e trabalhoso organizar fatos, ideias, lembranças e suposições - se realmente tudo ocorreu como ela lembra. Enfeitaram o resultado em forma de uma biografia interessante e acessível, em formato de romance. Creio que essa seja a ideia, parecer um romance, não uma biografia cem por cento correta. É mais próximo de como Marina enxerga seu passado e de como ela se sentiu do que a pura verdade, esta é impossível de ser resgatada. Fantasia ou não, é uma boa leitura.

Marina foi raptada de seu verdadeiro lar com aproximadamente 5 anos de idade. Ela praticamente não possui lembranças anteriores ao sequestro, apenas que estava ansiosa por seu quinto aniversário. As memórias variam muito de indivíduo para indivíduo, mas Marina não se recorda de mais nada sobre seus primeiros 5 anos. Tenho muitas lembranças, mas como tive uma infância normal, não duvido de Marina. O que me intriga mesmo é que ela não se lembra de seu nome, o de nascimento. Ela diz que se esqueceu da linguagem e de pensar em forma de palavras durante sua permanência com os macacos. São fatos ocorridos há mais de 50 anos. Mas, naquele momento, não compreendo como ela não lembrava do próprio nome. Talvez se lembrasse, mas a informação se perdera, pois ela não se comunicou com outro ser humano por anos.
A explicação é que Marina passou por uma experiência traumática extrema, a de seu sequestro, ainda mais se tratando de uma criança pequena. Foi abandonada na selva e, portanto, perdeu as lembranças, não consegue resgatá-las. Foi uma experiência negativa tão intensa que ela se esqueceu de sua identidade. Perdida na floresta, ela encontra um grupo de macacos e vive com eles por 5 anos. Viveu por anos, não dias. Semanas seria aceitável, mas anos acho impossível. Como apontei, não creio ser mentira, porém como ela sente, como ela se recorda.
A narrativa é em primeira pessoa. Esta parte tenta se aproximar de uma linguagem infantil, mas tenta ser coerente. Deve ter sido exaustivo para Marina transformar suas lembranças em palavras, de uma época em que ela não usava a linguagem nem em pensamento, quando ela mal tinha a consciência de indivíduo ou sociedade e desconhecia o conceito de nomes. Imagino que cada vez que ela reconta a história, encontra dificuldades. Então é neste ponto que sua filha Vanessa deve tê-la ajudado: escreveram um esboço e o enviaram para a escritora Lynne.
Não a culpo por fantasiar sua vida com os macacos; a elogio por compartilhar a experiência com outras pessoas. Por exemplo, um evento que a marcou, como a ajuda de um macaco, é apontado por especialistas em símios como uma agressão. Por isso, o livro é a visão/sensação particular, íntima e única, não uma cópia fiel aos acontecimentos. Dentre várias perguntas a que mais me aflige: Como uma criança tão jovem e frágil sobreviveu aos perigos de uma floresta selvagem, um ambiente hostil e tóxico? Fome, sede, doenças, predadores, ferimentos... Como uma criança sobreviveria sozinha apenas observando macacos?


Mas esta não é apenas a história de uma menina vivendo com macacos. É uma história sobre sequestro, tráfico e exploração infantil. É uma alerta sobre roubo e venda de crianças, abuso de poder, descaso aos direitos humanos básicos. É um grito sobre um período muito sombrio da sociedade e autoridades colombianas. A infância de Marina foi dura, insegura e sofrida. Marina é apenas uma entre tantas crianças desaparecidas que nunca voltaram para a família. Uma entre tantas crianças exploradas.
A segunda parte do livro é o retorno de Marina ao mundo humano e sua luta para pertencer a ele. É tão realista que dói. Posso não acreditar completamente na experiência com os macacos, mas toda a segunda metade do livro é plausível. Acreditando ou não em sua estadia na selva, li o restante levando em consideração que se tratava de uma menina traumatizada e que se sentia macaca. Mesmo assim, jogada sem cuidados ao "mundo real", sem ninguém para protegê-la. Essa é a mensagem da história: A vida civilizada pode ser pior que a selvagem.
Caçadores a levam para a cidade e a vendem a um bordel, onde ela trabalhou arduamente como escrava, sofrendo maus tratos físicos e psicológicos. Marina não era "civilizada" como uma criança de 10 anos, ainda não possuía educação humana nem conceitos como nomes, muito menos ideias sobre direitos humanos. Suas referências eram macacos e instintos naturais (como fome e sede) e de sobrevivência (como se esconder e comer rapidamente seu alimento). No bordel, Marina aprendia lentamente os conceitos de uma criança pequena (a falar, a identificar e utilizar objetos...) já sendo obrigada a trabalhar como adulta. Sem amor, paciência ou apoio, apenas violência. Além do sofrimento e do anseio por uma família (porque ela conhece o conceito de grupo onde um cuida do outro), Marina sofre um processo de desumanização quando tentam civilizá-la de formas humilhantes. Ela começa a perceber que a exploração a qual é submetida é errada; começa a entender que não é como os humanos devem viver.
Em seguida, ela se encontra novamente solitária. Como menina de rua, ela descobre que é essencial fugir, correr, se esconder e roubar. Apesar de se sair "bem" devido às suas habilidades simiescas, e mesmo com sua gangue de meninos de rua, Marina ainda sente uma dor indescritível no peito, de algo que ela nunca teve: Pais, especialmente uma mãe.
Ao trabalhar como doméstica em uma casa de família, ela saiu das ruas de volta aos maus tratos entre quatro paredes. Descobriu que a família era envolvida a crimes e estes não se comparavam aos seus furtos. Marina já tinha experiência sobre certo e errado e descobriu que ela não tinha um emprego normal, ainda estava presa à escravidão.


Não foi neste ponto que Marina ingressou em uma vida feliz. São momentos tensos. Entre acontecimentos dolorosos, o leitor torce pela chegada da "parte feliz". Permaneci o tempo todo em alerta, acompanhando a história, imaginando como seria o momento dela se tornar finalmente "Marina", livre da dor e da violência; da solidão e da insegurança.
Acredito que Marina sofrera traumas durante a infância que a levaram a crer que passou anos vivendo junto a um grupo de macacos. O anseio por uma família e por ser aceita em um grupo e em sociedade demonstra isso. Até mesmo quando auxiliada, sempre enxergava o lado negativo da situação. Parecia impossível encontrar algo positivo, por causa da busca pelo companheirismo que ela "presenciou" entre os macacos e buscava em forma da mãe que perdera - e o sofrimento frequente.
O quanto é verdade ou fuga do sofrimento, provavelmente nem ela é capaz de apontar, pois passara por momentos dolorosos e assustadores. Leia, reflita e tenha a sua opinião.
Memórias são inconstantes, tendemos sempre a remodelá-las e reconstruí-las como precisamos, de acordo com o passar do tempo e de nossas experiências e sentimentos em relação ao ocorrido e ao presente. Memórias podem se mesclar a fantasia.
De qualquer forma, esta é uma biografia de uma menina traumatizada e selvagem, que diz ter sido criada por macacos, sendo obrigada a retornar a civilização bruscamente. Esta é uma história de abuso, exploração e trafico infantil. Marina sofreu choques tão severos que a admiro por prosseguir e não desistir da busca por uma família e um "final feliz". Fiquei tão curiosa que após a leitura procurei por mais informações sobre Marina e sua família.

As autoras:
Marina Chapman nasceu na Colômbia, por volta de 1950. A data e o local exatos são desconhecidos. Vive hoje em Bradford (Inglaterra), é casada e tem duas filhas. Uma delas, Vanessa James, a ajudou no preparo de sua biografia.
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Lynne Barrett-Lee é romancista e sempre escreveu em seu tempo livre. Desde 2007 trabalha também como "ghostwritter". Mora desde 1994 com a família em Cardiff (País de Gales).
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