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2 de maio de 2016

A Amiga Genial, volume 1 da série Napolitana, de Elena Ferrante e Biblioteca Azul (Globo Livros)

A Amiga Genial: Infância, Adolescência (L'amica Geniale: Infanzia, AdolenzaMy Brilliant Friend)
Tetralogia Napolitana (Ciclo L'amica Geniale / Neapolitan Novels) - livro 1
Elena Ferrante - Biblioteca Azul / Globo Livros
336 páginas - 2015 - R$44,90
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Sinopse:
"A série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A Amiga Genial, é narrado por Elena Greco e cobre  da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela. As duas se unem, competem, brigam, fazem planos.
Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes.
Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor."

Resenha:

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana responsável pela tetralogia Napolitana, que, segundo a editora original, prefere se manter totalmente no anonimato. A partir disso, muita curiosidade surgiu sobre a autoria de seus livros, pois, mesmo indicada a prêmios e recebendo elogios da crítica, Ferrante continua sem revelar a identidade. O primeiro volume da saga ambientada na Nápoles (comuna italiana) do período pós-guerra foi originalmente publicado em 2011. Já o último livro da série recebeu indicação ao Man Booker Prize 2016 e embora tenha se tornado um fenômeno literário mundial, Ferrante reafirma sua vontade de se manter em segredo. O conteúdo é denso, forte, cru e extremamente cativante. Os livros se tornaram best-sellers nos Estados Unidos e em vários países europeus. O primeiro, A Amiga Genial (L'amica GenialeThe Brilliant Friend), chegou ao Brasil em maio de 2015 pela Biblioteca Azul, parte da Globo Livros. A editora acaba de publicar sua sequência, História do Novo Sobrenome (Storia del Nuovo CognomeThe Story of a New Name) e completará a tetralogia com os ainda inéditos por aqui Storia di chi Fugge e di chi Resta /Those Who Leave and Those Who Stay e Storia della Bambina Perduta / The Story of The Lost Child.
A Biblioteca Azul está de parabéns pela escolha da série para seu catálogo; não costumo encontrar literatura italiana dentre os lançamentos atuais. Além disso, as capas de A Amiga Genial e História do Antigo Sobrenome são bem mais bonitas que as capas estrangeiras. O exemplar possui folhas amareladas (papel norbrite), orelhas e excelente revisão.



Começa com uma cena no presente: o desaparecimento de Rafaella Cerullo, de 66 anos de idade. Quem narra o livro, dividido em duas partes (Infância e Adolescência) é Elena Greco, amiga de Rafaella, de mesma idade. Então Elena dá um salto ao passado através de suas lembranças mais remotas e começa a contar sua vida e a de sua amiga nos subúrbios de Nápoles da década de 1950, quando elas se chamavam apenas Lenu e Lila. A partir de então, a leitura segue a cronologia direta, sempre em primeira pessoa por Lenu, até elas completarem 16 anos.
É importante observar como a narradora influencia e ajuda a definir o modo como o(a) leitor(a) observa a trama, embora possam existir muitas interpretações sob os ocorridos. O fato de ser Lenu contando não apenas sua própria história, mas também a de Lila (que não está presente e, em muitas vezes, protagoniza mais que a própria narradora) afeta a forma como ambas são apresentadas. Após também retratar a época e o local, ela relata como conheceu Lila e se tornaram amigas. Suas vidas, mesmo quando separadas, sempre estiveram interligadas.
A narrativa é emocionada e densa, sem a preocupação sobre como os fatos são expostos, apenas seguindo o fluxo de memórias, emoções e pensamentos. Foge dos padrões tradicionais de romance contemporâneo, parecendo levemente desordenado, mas é notável que houve muito planejamento de Ferrante e que o caos de lembranças de Lenu é proposital. Ela conquista também ao sempre explicar e exemplificar todo o quadro histórico, social e filosófico existente como base da trama. O relato contém muitos detalhes de como eram as vidas de famílias pobres de Nápoles no pós-guerra, indo além da pobreza, mostrando a violência, a educação precária, o machismo e o cotidiano. Parece uma obra autobiográfica e o fato de não sabermos quem é Elena Ferrante contribui para essa fantasia.

O processo de leitura foi intenso para mim e o começo foi lento, tive um pouco de dificuldade. Porém, após me apegar ao estilo elaborado da escrita, me apaixonei pelo enredo e pelas personagens, mas a admiração pelo estilo da autora cresceu exponencialmente. A narradora é muito honesta, sincera e direta, mesmo quando é perceptível sua manipulação (mesmo não proposital).
Ferrante ganha muitos pontos ao escolher uma mulher madura e experiente para narrar a obra; caso fosse contado em tempo real, ou seja, a parte Infância narrada por uma criança e a parte Adolescência por uma adolescente, não teria o mesmo efeito. Lenu revive sua vida ao contá-la e é essa experiência o ponto forte do livro: Acompanhar os segredos e sensações de décadas atrás sob o olhar firme, racional e veterano da narradora que sabe muito bem lidar com palavras e vocabulário para se expor.
Portanto, como se tratam de lembranças, Lenu refaz todos os seus passos juntos aos de Lila, tentando recompor discursos e diálogos; uma parte destes é indireta e a outra é direta, porém sem uso de travessões, e sim de aspas. Os diálogos são tranquilamente fáceis de acompanhar e, após se habituar a leitura e às personagens realistas, a leitura se tornou viciante. Não conseguia mais pausar e emendei em História do Novo Sobrenome: Juventude, exemplar de prova do livro que recebi como cortesia da editora e que também será resenhado.


A primeira cena relembrada por Lenu é potente, pois pela visão infantil o medo e a curiosidade resumem o turbilhão de acontecimentos e sofrimentos que Lenu e Lila enfrentarão. As bonecas, uma de plástico e a outra de pano, ambas simples e maltrapilhas, diferentes (e parecidas assim como as protagonistas), selam o começo da amizade entre elas e representam infância e adolescência regidas por sonhos e pela perda da inocência. Os desejos precisam enfrentar a realidade e se adaptarem para uma concretização mínima e, quase sempre, deformada. São páginas sobre inveja, ciúmes, união, amor, imaginação, coragem, descobertas, em um cenário pouco amistoso e de pouquíssimas oportunidades justas. Se para todos os pobres de Nápoles a vida é difícil e violenta, para as mulheres ela tem obstáculos extras, como o machismo e o patriarcalismo.
É um ciclo de violência difícil de ser rompido: Os trabalhadores sofrem com o governo e a miséria e espancam suas esposas; pais e mães batem nos filhos e filhas e os colocam para trabalhar desde cedo; as crianças crescem copiando o comportamento violento já batendo umas nas outras. As meninas sofrem em dobro e por isso as protagonistas são geniais: Lila e Lenu não querem ser cópias dos pais, nem aceitam a vida desprezível de Nápoles. Ambas precocemente buscam mudar seus destinos, fugir das surras e dos objetos muito usados. Com a ideia de enriquecerem, mergulham o quanto é possível nos estudos. Selam pactos e mesclam sonhos, que começam a parecer inalcançáveis ou frágeis antes mesmo da adolescência.
Elas encontram um grande obstáculo: Lila é proibida pelos pais em prosseguir com a escola para ajudar o pai na sapataria e a mãe nos afazeres domésticos, enquanto Lenu precisa lutar para se manter nela através de bolsa e doações de uma ex-professora, sempre com o olhar impaciente e recriminador dos pais às costas. Lila ajuda Lenu constantemente, no entanto, à sua estranha maneira. Lenu sofre muitos conflitos: Sem Lila, finalmente ela terá a chance de ser a melhor na escola. Mas imediatamente percebe que sem a amiga competindo ao seu lado, será muito difícil manter o ritmo e as notas. As duas são esforçadas e inteligentes e sobre quem representa o título do livro, ou seja, é a "amiga genial", a autora mostra um diálogo como definição. Como Lenu é a narradora, para ela, Lila é a amiga genial, mas, para Lila, o oposto ocorre.


A série Napolitana expõe numerosas questões existenciais ao mostrar as dificuldades das classes mais pobres no pós-guerra, sob a sombra do fascismo e da corrupção, enfrentando medo, miséria e violência. Circulam pela cidade mafiosos, assassinos e ladrões, e cada adolescente se rebela à seu jeito, até nem todos aguentarem mais a falta de oportunidades. Os perigos e ameaças crescem conforme os anos; tudo se torna cada vez mais insuportável. A parte dedicada a adolescência é muito dolorosa para as moças que sonham em sair da pobreza de Nápoles. Elas buscam dinheiro e reconhecimento, mas não conseguem extrair de si mesmas suas próprias origens de gueto. Por mais que busquem por informação, cultura ou bens materiais, elas não conseguem apagar o passado.
O exemplar traz uma lista de personagens e suas ligações familiares e profissões. Como, por exemplo: "Família Cerullo (do sapateiro) e nomes de esposa e filhos". É muito útil, porque no começo é fácil confundir ou trocar os nomes: Rino, Stefano, Pinuccia, Pasquale, Carmela, Ada, Antonio, Nino, Marisa, Marcello, Gigliola. Com isso não tive dificuldades.
O livro possui muitos pontos altos, todos envolvendo conflitos entre gerações, classes e de gênero.
Esta obra madura é rica, envolvente, arrebatadora e captura uma época e um local, misturando-os a sentimentos atemporais e universais. O final é impactante, me deixou desamparada e literalmente necessitada da continuação. Ainda bem que História do Novo Sobrenome já estava em minhas mãos. Agora é esperar pelos outros dois livros e torcer muito para que Ferrante tenha mantido a qualidade e as emoções naturais e à flor da pele. As protagonistas são geniais, mas a autora é brilhante!


Continuação de A Amiga Genial: História do Novo Sobrenome.

A autora:
Elena Ferrante se recusa a divulgar fotografias e a falar de sua vida pessoal. Acredita-se que tenha nascido na região de Nápoles e que seja mãe. A autora publicou diversos romances, entre eles Dias de Abandono, que será publicado em breve no Brasil pela Biblioteca Azul.
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