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27 de abril de 2018

O Clube dos Oito, de Daniel Handler e Seguinte (Grupo Companhia das Letras)

O Clube dos Oito (The Basic Eight)
Daniel Handler - Seguinte (Grupo Companhia das Letras)
Tradução: Fabricio Waltrick
400 páginas - 2018 - R$ 44,90 (impresso) e R$ 29,90 (eBook) - trecho
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Sinopse:
"Em seu primeiro romance, Daniel Handler nos apresenta Flannery, uma garota que tem algo muito importante para contar: a história de como se tornou uma assassina.
Como um grupo de jovens estudantes bem-educados acabou se envolvendo num escândalo que chocou um país? Por que tantos especialistas em comportamento juvenil têm algo a dizer quando o assunto é o Clube dos Oito? Até quando inúmeras manchetes de jornal e programas de TV sensacionalistas vão explorar o caso nos mínimos detalhes?
Para fazer com que a verdade venha à tona, Flannery Culp, a dita líder do Clube, decide tornar público o diário que manteve ao longo do seu desastroso último ano de ensino médio. Agora que está presa por cometer um assassinato, a garota tem tempo de editar o que escreveu e revisitar a rotina que levava ao lado de seus sete melhores amigos. A narrativa de Flan, permeada de professores da pior índole, um amor não correspondido, aulas complicadas e jantares pomposos, comprova que ela pode até ser uma adolescente criminosa — mas, pelo menos, é uma adolescente criminosa muito inteligente."

Resenha:
Estava num clima sombrio, lendo thriller e suspense, desejando ser surpreendida por uma leitura inteligente. Os livros mais recentes me envolveram em mistérios, crimes e investigações, e foram leituras muito boas, mas, ainda assim, parecia estar faltando alguma coisa mais impactante. Portanto, ao iniciar O Clube dos Oito (The Basic Eight), um Young Adult de suspense, imaginava estar adentrando numa experiência mais leve e provavelmente pouco impressionante. Não imaginei que seria com este livro que minha atual fome de mistério desconcertante seria sanada nem que estaria iniciando um dos livros mais geniais da minha vida! E é um Young Adult, voltado a um público mais jovem, geralmente subestimado por muitos que se consideram intelectualizados. Então aqui está, um exemplo de Young Adult brilhante! Não é exatamente a trama ou as personagens, embora eu tenha gostado de tudo, mas sim a narrativa em primeira pessoa bem esperta e cheia de nuances e diálogos movimentados e a estrutura do texto muito sagaz.
A leitura até pode ser considerada leve se o item avaliado for o estilo de escrita do autor, que é repleto de dinamismo e sarcasmo, o que me deixou entusiasmada e fez a leitura fluir. No entanto, os temas, mesmo sob muita ironia, são delicados e até mesmo incômodos: transtorno psíquico, abuso de álcool e drogas, violência sexual, assassinato. O autor mistura futilidades adolescentes e banalidades cotidianas com acontecimentos sombrios, dramas e situações sérias. A protagonista Flannery Culp matou Adam State simplesmente porque não foi bem-correspondida romanticamente pelo rapaz. Ela se tornou a manchete principal de toda a mídia, que armou um circo para investigar os motivos que fizeram a adolescente aparentemente comum se tornar uma assassina fria e cruel. Todo mundo quer saber o que aconteceu com Flan e "sua seita satanista", o Clube dos Oito — um grupo de amigos adolescentes no último ano do Ensino Médio.


A trama começa exatamente assim: já que Flan foi presa, tem tempo de sobra para escrever um livro com a sua versão dos fatos, a verdadeira. Isso vai depender do quanto você confiará nela. Todavia, como Flan sempre manteve seu diário atualizado, ela aproveita para editá-lo especialmente com essa finalidade. É muito interessante, pois temos anotações originais, enxertos da edição e, ainda, pensamentos e explicações mentais. Complexo, mas muito natural e dinâmico, como se Flan conversasse com quem lê.
Embora siga a cronologia real, o tempo possui tratamento especial, então dentro de uma narrativa tradicional em modo de diário, existem extras, como, por exemplo, explicações sobre os motivos de retirar ou acrescentar tal coisa (como uma conversa importante, mas que não se lembra do dia exato em que ocorreu) ou justificativa para dramatizar ou descaracterizar algum elemento ou manter certo detalhe sob sigilo. Várias coisas são bem originais, como um mesmo diálogo repetido por pessoas diferentes, como uma encenação, mas é para quem lê comparar as situações e se perguntar o quanto pode ou deve confiar na narrativa muitas vezes extravagante.
O excesso de extravagância levanta a questão: o quanto Flan fantasiou? Porque o Clube dos Oito é exclusivo demais, os integrantes são muito inteligentes e cheios de elegância e cultura, fazendo festas inesquecíveis e jantares refinados, debatendo questões que adolescentes pouco se importam. Por exemplo, tem músicos, um chef, quase todos são atores. O fato de Flan apresentá-los como especiais e mais talentosos que a média, aumenta a dúvida sobre a veracidade. Os amigos de Flan constantemente se perdem em tumultos e dramas como se fossem grandes artistas intelectuais incompreendidos e, repentinamente, todos enlouquecem. O quanto que Flan conta é verdadeiro ou apenas floreio? Não apenas no ato de escrita do livro, mas também quando escreveu o diário e, anteriormente, quando vivenciou tudo. O que leva uma pessoa a esquecer de momentos desagradáveis e a bloquear traumas modificando as lembranças? É possível criar novas memórias reinventando o passado e deixando uma biografia muito mais atraente?


Portanto as personagens podem não parecer tão complexas como deveriam, mas é porque é Flan quem conta a história, logo, ela mostra apenas as características e atitudes que importam para ela, para sua versão dos fatos. Na verdade, Flan se aprofunda somente no que deseja, então até mesmo situações que poderiam ter mais foco não são exploradas além do que Flan quer. Sempre tem assuntos que você não gosta de comentar, não é? É mais que o ponto de vista de Flan, é seu plano e, como narradora não confiável, condenada e culpada, ela escreve como quer. Destaque entre os alunos: Natasha, a melhor amiga; Kate, a organizada; V., a rica e fina; Lily, a intelectual; Douglas, o sensível; Gabriel, o apaixonado; Jennifer Rose, a bela; Adam, o sedutor; Flora, a chata; Frank, o burro; Steve, o bad boy.
O livro foi publicado em 1999, então é mais que um romance lançado para provocar nostalgia ou agradar fãs de ficção juvenil situada no final do século XX, é uma história genuinamente de um momento pré-internet, porque os adolescentes não usam celulares, não navegam na internet, não trocam mensagens instantâneas e não existe o online. Sinto falta de histórias assim, com relacionamentos mais cara-a-cara, fofocas sustentadas por conversas ao vivo, cartas escritas à mão ou por telefone fixo, com boatos espalhados através de boca-a-boca. Ir a um encontro e a pessoa nem aparecer, por exemplo, numa época sem mensagens instantâneas, poderia ser mais doloroso. São adolescentes que precisam comprar filme para a câmera fotográfica e levar depois para a revelação das fotos.


O resultado é um Young Adult de suspense e mistério, com narrativa ágil, em primeira pessoa, com narradora não confiável, enredo cheio de surpresas e elenco basicamente jovem. A trama já começa com o crime desvendado e a culpada presa, parecendo um meio de história, como se você pegasse uma sessão de cinema com o filme já iniciado e tentasse acompanhar... até mesmo ao iniciar a leitura do diário você perceberá as coisas já acontecendo, sem explicações de como as pessoas se conheceram, por exemplo, ou como a protagonista se apaixonou. Todavia, o autor logo arrebata e envolve, criando familiaridade com a narradora e criando (e intensificando) muita curiosidade.
Além disso, são inúmeras reviravoltas muito boas ou excelentes. Há uma situação chocante e inesperada na metade, depois um grande clímax, com várias revelações, sendo uma delas fulminante (só percebi após um terço do livro, mas é mais para o final). Então é descobrir e ficar posteriormente analisando trechos lidos e planejar uma releitura urgente para confirmar ou compreender melhor as cenas.
Livro cinco estrelas e favoritado, como um dos mais geniais que já li. Recomendo para fãs de livros de mistério e thrillers surpreendentes, de preferência passados na era pré-internet; para quem gosta de literatura juvenil inteligente; ou simplesmente para quem adora ser surpreendido.
O autor, Daniel Handler, já vendeu mais de 70 milhões de cópias e foi traduzido em mais de 40 idiomas. A Editora Seguinte, selo jovem do Grupo Companhia das Letras, publicou no Brasil Por Isso a Gente Acabou (Why We Go Broke Up), em 2012, e em fevereiro de 2018, finalmente agraciou os fãs do autor com O Clube dos Oito. Ele é mais conhecido pelo pseudônimo Lemony Snicket, com as séries Só Perguntas Erradas (All the Wrong Questions) e Desventuras em Série (A Series Of Unfortunate Events). Esta, em treze volumes, está sendo adaptada pela Netflix em série e já possui duas temporadas.
A Seguinte postou um trecho de O Clube dos Oito em pdf para quem quiser experimentar. Clique aqui. O exemplar segue o padrão da Seguinte, com páginas amareladas, excelentes revisão e diagramação, orelhas e marcador de páginas recortável. A tradução é de Fabricio Waltrick.


O autor:
Daniel Handler nasceu em 1970, em San Francisco, EUA, onde mora até hoje com a esposa e o filho. Estudou na Universidade Wesleyan e trabalhou como crítico literário e de cinema.
Sob o pseudônimo de Lemony Snicket, publicou as séries Só Perguntas Erradas e Desventuras em Série, pela Seguinte, e os livros Lemony Snicket: autobiografia não autorizada e O Pedacinho de Carvão, pela Companhia das Letrinhas. Também é autor de  Por Isso a Gente Acabou.
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