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2 de setembro de 2018

Roteiro Literário: biblioteca para crianças surdas feita de terra no Burundi

Nesta série de postagens (que praticamente se tornou uma coluna) apresento livrarias e bibliotecas variadas pelo mundo. Após conhecer lugares interessantes nas cidades de Veneza (Itália), Oía (Grécia), Tianjin (China), Óbidos (Portugal) e Baiona (Espanha), é a vez da primeira Biblioteca de Muyinga, cidade do Burundi, um pequeno país africano agrícola e montanhoso que se situa entre Ruanda, Tanzânia e Congo. A história de uma biblioteca que vai aquecer o seu coração!



Em 1885, durante a Conferência de Berlim, quando a Europa partilhou as nações africanas entre suas potências, Burundi se tornou colônia da Alemanha. Após a Primeira Guerra Mundial o país foi dado à Bélgica e a independência só ocorreu em 1962. Desde então as etnias hutu, a maioria da população, e tutsi, a elite monárquica que assume o comando do país, entram em constantes conflitos que incluem guerra civil, golpes de estado, massacres e miséria.


Burundi possui o décimo menor IDH do mundo, o que torna esta simples biblioteca de 140 metros quadrados ainda mais admirável. A base da construção é terra local.



O projeto da BC Architects foi iniciado em 2012 com a intenção de se criar a primeira biblioteca de Muyinga, parte de uma futura escola inclusiva para crianças surdas. Construída com blocos de terra comprimida da região e telhas de argila, material usado ou reciclado e com mão-de-obra local, envolvendo estudantes, estagiários, jovens arquitetos e artesãos locais em um ambiente educacional mútuo.


Vídeo com o processo de construção:



Vários workshops foram administrados durante a construção, além de um intenso trabalho de intercâmbio. Produção dos blocos, análise da terra, tecelagem de bambu e de sisal, soluções de fundações, design de móveis foram algumas das oficinas. Da ideia à inauguração se passaram cinco anos.



A entrada da biblioteca é um espaço comum das habitações tradicionais do país, pois funciona como abrigo contra chuvas ou sol intensos. Nesta varanda as pessoas se encontram, conversam ou aguardam, um espaço tipicamente social. Os vidros mostram aos visitantes da biblioteca o cenário natural, as Milles Collines.



Um elemento muito importante na arquitetura burundiana (e, geralmente, africana) é a demarcação das linhas de propriedade, que remonta às práticas tribais de assentamentos familiares. Para a biblioteca o muro foi um processo de construção da comunidade com uma ONG local, mas a vista para o vale foi preservada.


O telhado tem uma inclinação de 35 graus proteger os blocos da construção, além de considerar o clima, criando um interior alto com ventilação cruzada contínua ajuda a afastar o ar úmido e quente. A altura possibilitou a criação de um espaço especial para os pequenos leitores. O espaço aconchegante é composto por uma área de estar de madeira no térreo e encimado por uma enorme rede de corda de sisal como um mezanino.


Com uma cultura muito informal e oral, as crianças surdas são excluídas de histórias, informações e educação. Muitas vezes, são isoladas ou expulsas do convívio social. A biblioteca de Muyinga, ligada ao colégio interno inclusivo para crianças surdas, as possibilita de se sentirem em comunidade por meio de infra-estrutura pública, a primeira desse tipo em Muyinga.


A ideia é que playgrounds e outros itens sejam acrescentados aos poucos, sempre integrados à escola. E à noite, a biblioteca promoverá esporadicamente sessões de cinema para a comunidade. Além da BC Architects, o projeto foi realizado e/ou apoiado pela ONG local, a Odedim (Organisation Diocésaine pour l’Entraide et le Développement Intégral de Muyinga), a Satimo, uma pequena ONG belga, a SHC, uma ONG que ajuda pessoas com deficiências sensoriais na África, além de menção honrasa para Rotary Aalst, Abdijschool Zevenkerke, VOCATIO e VLIR-UOS, dentre outras entidades.


Endereço: Rua sem nome, próxima a R.N.6, Bicunda Guest House e Cathédrale Notre Dame de Lourdes, Muyinga, Burundi.

Direitos autorais das fotos: BC Architects.

Gostou? Além da construção ecológica que aproveita o que o local já possui e feita com intercâmbio, a importância da inclusão de crianças surdas é de alegrar qualquer pessoa. Por mais bibliotecas assim pelo mundo!

Recomendo outras postagens, caso ainda não as tenha visto:
Libreria Acqua Alta, livraria sobre os canais de Veneza - Itália;
Atlantis Books, livraria com vista paradisíaca e caverna recheada - Grécia;
Tianjin Binhai Library, biblioteca futurística gigantesca - China;
Vila Literária Óbidos, a cidade medieval cheia de livros - Portugal;
Archivo Histórico y Biblioteca Pública Municipal de Baiona, hospital do século XVII transformado em biblioteca - Espanha.

Fonte: ArchDaily.com

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