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Quarto, de Emma Donoghue e Verus Editora (Grupo Editorial Record) - O Quarto de Jack

Quarto (Room)
Emma Donoghue - Verus Editora / Grupo Editorial Record
Tradução: Vera Ribeiro
350 páginas - 2016 - R$47,90
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Sinopse:
"A história que deu origem ao filme O Quarto de Jack, com 4 indicações ao Oscar 2016, incluindo melhor filme. *Brie Larson ganhou o Oscar de Melhor Atriz interpretando a Mãe.
Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la.
O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar."

Resenha:

Room, da irlandesa Emma Donoghue, foi lançado em inglês em 2010, recebendo incontáveis indicações a prêmios literários, sendo vencedor em vários. O Grupo Editorial Record trouxe o livro ao Brasil em 2011, pela Verus Editora. O Quarto chega a sua 5ª edição em final de 2015 e foi adaptado para o cinema como O Quarto de Jack. Distribuído pela Universal Pictures, recebeu quatro indicações ao Oscar 2016 (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado) e Brie Larson ganhou o Oscar de Melhor Atriz por interpretar a mãe de Jack.
Logo após terminar a leitura me apressei em assistir ao filme e este é um dos raros casos em que ambos valem a pena. Quase sempre acho o livro melhor, mas aqui confesso ter amado os dois. Merecem classificação cinco estrelas e se tornaram inesquecíveis.
Não sou especialista nem assisti a todos os filmes indicados, porém acho que além de Melhor Atriz, O Quarto de Jack merecia Melhor Roteiro Adaptado. Porque mantém a fidelidade base da trama, o que deve ter sido difícil, por se tratar de um livro de narrativa muito íntima e de visão subjetiva e acrescenta itens à história.
O exemplar da Verus possui orelhas com informações, páginas amareladas e excelente trabalhos de revisão e diagramação (exceto pela falta de uns poucos travessões). A capa é simples, mas traz significado, porque mostra como o Quarto é pequeno, aprisionador e bloqueado, além do título ter apenas quatro cores - exatamente como os lápis de colorir do protagonista.


É dividido em cinco partes: Presentes, Desmentidos, Morrer, Depois e Viver.
A obra é narrada por Jack, um menino que acaba de completar 5 anos. Poderia ser uma narrativa frágil ou falsa, mas é o oposto! Porque escrever em primeira pessoa utilizando a voz e ponto de vista de uma criança pequena não é tarefa fácil. Imagina como deve ter sido trabalhoso para a autora, já que Jack é uma criança nascida e mantida em cativeiro por toda a sua vida sem ter ciência disso?
Ele nunca saiu do "quarto" em que vive com sua mãe, não conhece outras pessoas nem o conceito do mundo real. Sem nenhuma socialização (exceto com a mãe) Jack vê apenas outra pessoa: o captor que os mantêm presos e em situação desumana, a quem ele chama de Velho Nick. Emma Donoghue fez um trabalho de escrita formidável, único, maravilhoso. Nem tenho palavras para descrever como a narrativa é convincente, emocionante e rica. Realmente parecia que eu estava lendo um texto escrito por uma criança; parecia que Jack estava me contando tudo pessoalmente; em outros momentos eu me sentia dentro da mente dele, vivenciando e observando o mundo pelos seus olhos. Emociona até doer o coração acompanhar como a visão de mundo de Jack. Eu queria pegar Jack no colo e abraçar sua mãe!
Na primeira parte, Presentes, descobrimos como é a vida e o Quarto de Jack e Mãe.
O local é um cativeiro em um galpão transformado precariamente em quarto por sua mãe. É um cômodo sem janelas (exceto por uma claraboia no teto) adaptado pelo sequestrador; com porta de tranca digital com senha e revestimento à prova de som. Porém, para Jack é o Quarto, seu mundo inteiro! Onde ele e a Mãe vivem bem e felizes, segundo seu ponto de vista restrito, escasso, doce e inocente. Eles mantêm uma rotina fiel, tanto em horários como em dias da semana, ginástica, faxina, brincadeiras, almoço, banho, leitura, refeições...


A Mãe de Jack faz o (im)possível para protegê-lo do sequestrador e se manter bem, embora esteja em depressão, com problemas dentários e sendo constantemente estuprada e agredida. Ela tenta fazer com que Jack tenha uma vida razoável, priorizando sempre o bem-estar e saúde do menino, se esforçando para brincar e estudar com ele diariamente. Jack é muito inteligente e até mesmo já lê sozinho seus livros infantis. Para Mãe, Jack vem em primeiro lugar.
Do jeito como Jack conta sobre o Quarto, o local parece maravilhoso, mágico e feliz. Isso foi para mim aterrorizante e confortador ao mesmo tempo! Ele descreve todo o conteúdo do quarto, fala sobre a Pia, a Banheira, a Mesa Dobrável, a Colher Derretida e muito mais; ou itens que ele e a Mãe reciclaram para criarem brinquedos e arte, como a Cobra de Ovos, que mora no Embaixo da Cama e foi feita com cascas de ovos furadas. Todas pintadas e desenhadas por eles.
Eles têm um antigo televisor que não funciona direito, mas Jack adora assistir programas, ou como ele pensa: viajar para outros planetas. Porque o mundo todo é o Quarto e fora dele há o Espaço Sideral e quase tudo o que aparece na TV é de mentira, poucas coisas são de verdade, segundo o pensamento de Jack. Ele nem mesmo sabe se o Velho Nick, que leva o lixo e traz comida e outras coisas, é totalmente de verdade, pois ele sai pelo Espaço Sideral e como mágica surge com os itens.
Todas as noites Jack dorme no Guarda-Roupa, exatamente no horário que o Velho Nick pode aparecer e se deitar na Cama com a Mãe. Ele conta quantas vezes a Cama range, mas sem olhar, e depois que para conta seus próprios dedos, seus dentes... até adormecer. Ele não pode, sob hipótese alguma, sair do pequeno Guarda-Roupa enquanto o Velho Nick estiver lá. Portanto, Jack dorme e depois que o abusador vai embora, a Mãe o pega no colo e o leva para a Cama.


A primeira parte é essencial para a construção das personagens, especialmente para que o(a) leitor(a), um adolescente ou adulto, compreenda Jack. É de suma importância tentar se colocar em seu lugar, imaginar como seria crescer na situação apresentada. O mesmo em relação à Mãe; acredito que mães e pais se emocionarão muito mais. Especialmente mães, porque sendo mulheres, sentirão na pele a opressão e violência sexual e o dilema de criar um filho de seu estuprador, dentro do cativeiro. O livro não foca nos abusos e na brutalidade, porque ele é narrado pela criança, que não sabe exatamente o que acontece, mas sente que a mãe sofre de algum modo e que o Velho Nick é mau. Também não foca no sequestrador, porque o importante são as vítimas.
Portanto, a segunda parte faz Jack mudar e me senti assustada e apreensiva. Em Desmentidos, Mãe resolve explicar a Jack as verdades sobre o mundo real, sobre as coisas que ele vê na TV, sobre o Velho Nick, sobre o Quarto e sobre a vida que ela tinha lá fora. A princípio Jack não consegue compreender o Lá Fora. Ele é inteligente, vai entendendo e a verdade dói muito. Se sente traído pela Mãe, quem ele pensava saber tudo e ser totalmente honesta. Após a raiva, vem a negação. Jack não quer mais falar sobre o Lá Fora nem sobre o fato de estarem sequestrados ou sobre ele nunca ter saído do Quarto e visto a realidade. Parece perigoso, diferente... dá medo. É um momento delicado e muito comovente. A Mãe também sofre com esse processo da confissão e demonstra não suportar mais o cativeiro, os estupros e ver seu filho crescendo em condições sub-humanas.
Na terceira parte, subintitulada Morrer, Mãe elabora um plano de fuga do Quarto. Esse é o ponto desesperador do livro, me deixou com o coração acelerado, porque o responsável pela execução do plano é Jack, o menino que nunca saiu do quarto, nunca viu nada além do Quarto e da televisão!


A quarta parte é chamada Depois e é o descobrimento, adaptação, compreensão e aceitação do Lá Fora. É estar no mundo. Jack sofre com a quantidade de informações, incluindo visuais, auditivas, sensoriais, sociais, comportamentais. A mente e a cognição de Jack explodem com o excesso de luz, sons, rostos, imagens, aprendizagem, interpretação, formalidades. É muito difícil para a Mãe tentar voltar a ser uma jovem de vinte e seis anos normal após sete anos em cativeiro. Para Jack, no início, é complicado socializar com tantas pessoas, entender o que aconteceu no Quarto e o porquê de terem saído de lá. No começo da nova vida Jack age como se fosse uma extensão da mãe e não pudesse ficar um segundo sem ela.
Essa parte do livro é incrível, porque compreendi o motivo da autora ter escrito as anteriores. São muitos obstáculos e conflitos, não o "felizes para sempre". Mesmo com suporte médico e psicológico, Jack literalmente está descobrindo o mundo com prazer e medo, enquanto a Mãe tenta se readaptar após o trauma. Tive a impressão de ser mais difícil para Mãe que Jack. Ela chegou ao ápice do esgotamento, ao mesmo tempo em que se sente livre e feliz por ver Jack ingressando em uma vida normal, com um passo de cada vez.
Já a última parte recebeu o subtítulo Viver é de fazer chorar e sorrir, é uma mistura de beleza, drama e um monte de sentimentos. É uma mensagem linda sobre amor e companheirismo entre mãe e filho; sobre extrair positividade da situação mais sombria. Jack é forçado a começar a viver "por conta própria", sem Mãe colada a ele, e isso é mais aterrorador que o mundo inteiro. Jack percebe que ele tem o mundo todo para experimentar e testar. No final, é Jack quem ensina a mãe, é ele que ativa nela a força para enfrentarem juntos a nova vida. Mas foi graças a todo o esforço dela ao criar Jack cresceu assim. Destaque positivo para o apoio importantíssimo da família e dos profissionais da reabilitação; destaque negativo para o assédio abusivo da imprensa e mídia sensacionalistas.
É uma história lindíssima e inesquecível; uma lição de vida maravilhosa, sobre como é importante valorizarmos o que temos, mesmo que seja pouco, pobre ou triste, desde que tenhamos esperança e amor. Jack e Mãe sempre se amaram e por isso o Quarto, mesmo sendo um terror para a mãe, esta não permitiu que fosse o mesmo para o filho. É uma história também sobre como o mundo é vasto e quase infinito para um ser humano e que não devemos, mesmo adultos, parar de desbravá-lo. Valorizemos mais as vidas e não tenhamos medo de ir lá fora e enfrentar o que for necessário para que tenhamos novidades, mudanças, liberdade, conquistas e felicidade.


PS.: Leia o livro e assista ao filme / Assista ao filme e leia o livro. Não importa a ordem, mas desfrute dos dois!


A autora:
Nascida em Dublin em 1969, Emma Donoghue é escritora de ficção contemporânea e histórica. Seus romances incluem Slammerkin, The Sealed Letter, Landing, Life Mask, Hood e Stir-fry. Suas coletâneas de contos são The Woman Who Gave Birth to Rabbits, Kissing the Witch e Touchy Subjects. Ela também escreve história literária e peças para teatro e rádio.
Sucesso de público e crítica, Quarto é sua mais recente criação, publicado em mais de trinta países e eleito melhor livro do ano por diversos meios de comunicação.
Emma mora na cidade de London, na província de Ontário, Canadá, com sua parceira e dois filhos pequenos.
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O trailer do filme:


2 comentários

  1. Boa tarde, acabei de ler seu texto sobre o livro "Quarto" e queria primeiro
    parabenizá-la por suas palavras. A melhor e mais completa resenha desse livro que li, e bem fiel, pois me identifiquei muito com seu ponto de vista. Quando terminei de ler o livro me senti meio órfão do Jack. A gente meio que adota ele depois de algumas páginas, ou é acolhido por ele, em sua sabedoria de pouca idade. Mas pra minha surpresa, no dias que se seguiram ainda podia ouvir a voz dele. Fico surpreso de o livro, tão reconhecido mundo afora, ser tão pouco conhecido no Brasil. Li o livro pela primeira vez em inglês, e encontrei umas pequenas coisas que me pareceram fazer mais sentido, depois, quando li a versão em português. Apenas umas rimas e misturas de palavras de Jack que se perdem um pouco na tradução para o português. Mas isso de forma alguma diminui o livro. Sou tradutor e revisor de livros e por conta da minha profissão digamos que já folheei muitas páginas ao longo da minha vida, mas confesso que nenhum livro tocou a minha alma onde o Jack conseguiu chegar. Quanto ao filme, apesar de não conter tudo o que há no livro, ainda assim emociona e nos faz pensar. O que eu posso dizer é que não consegui dormir aquela noite, ainda revendo tudo mais detidamente. Não sei por que, mas senti uma vontade – não, uma necessidade, de pôr no papel o que tinha visto e descrever o que tinha sentido, o mesmo de quando li o livro (mas que até então tinha ficado apenas guardado). Depois de algumas linhas, me senti compelido a escrever pra minha mãe (É, uma carta mesmo, papel, caneta, selo, essas coisas! É que ela não se dá muito com e-mails e mora em outra cidade). É bem peculiar o que um filme desses provoca nas pessoas – acho que em mim foi uma vívida sensação de familiaridade com as palavras do Jack. Um abraço, Kleber Cruz

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    Respostas
    1. Oi, Kleber, quarto é mesmo um livro peculiar, uma história única! Também fiquei com as palavras de Jack na cabeça até agora, até fico tocando os objetos pela casa e pensando como Jack narra "isto é real" ou 'isto é da TV". Eu chorei com o livro e chorei com o filme. Também achei uma boa adaptação, dentro do possível. Serve para ajudar os leitores que tiveram dificuldade em imaginar o Quarto, pois Jack o embeleza bastante, por ser seu mundo inteiro. Agradeço pelo elogio e pela contribuição à respeito da tradução. Infelizmente chorei e senti muita necessidade de conversar com minha mãe também, mas ela faleceu jovem, em 2000. Você fez muito bem em escrever para a sua. Beijos.

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