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Resenha: Com Sangue, de Stephen King e Suma (Grupo Companhia das Letras)

Com Sangue (If it Bleeds)
Stephen King - Editora Suma / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Regiane Winarski
400 páginas - R$ 59,90 (impresso) e R$ 39,90 (ebook) - ler/baixar um trecho
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Sinopse:
"Do mestre do terror, uma nova coleção de contos que levará os leitores a momentos aterrorizantes da vida… e da morte.
Brilhante em narrativas curtas, King já escreveu alguns contos que viraram sucesso em todo o mundo, como as histórias que inspiraram os filmes Conta comigo e Um sonho de liberdade. Neste livro, assim como em Quatro estações e Escuridão total sem estrelas, ele cria uma coleção única e emocionante, demonstrando mais uma vez por que é considerado um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos.
Este é um livro sobre amor, amizade, talento e justiça… em suas formas mais deturpadas. Em Com sangue, Stephen King reúne quatro contos com protagonistas inteligentes e complexos, que têm sua vida comum transformada por algum elemento inexplicável."

Resenha:
Lançado em setembro de 2020 no Brasil pela Editora Suma, do Grupo Companhia das Letras, Com Sangue (If it Bleeds) é a mais recente obra de Stephen King. O exemplar físico possui o padrão da Suma: orelhas, folhas amareladas e a edição tem excelentes diagramação, revisão e tradução, esta da habilidosa e competente Regiane Winasrki. A obra é composta por quatro histórias: O Telefone do Sr. Harrigan, A Vida de Chuck, Com Sangue e Rato. Mais longas que contos, são noveletas e novelas.



O Telefone do Sr. Harrigan é excelente para começar, pois é um bom exemplo de como King equilibra elementos sentimentais ao suspense em suas histórias curtas. Apresenta itens que costumo gostar nas tramas do Mestre do Terror: uma criança comum, uma amizade inusitada porém sincera, uma situação extraordinária e, claro, horror. Há dúvida sobre a veracidade do sobrenatural. Será que o sobrenatural está mesmo agindo?
Nos anos 2000, quando os celulares começaram a acessar à internet, Craig, o protagonista, é um menino que ajuda o idoso Sr. Harrigan com alguns afazeres simples, como regar as plantas. Ele também costuma ler livros para o senhor excêntrico e solitário. Uma amizade surge entre eles e após ganhar um pouco de dinheiro através de uma raspadinha dada pelo Sr. Harrigan, Craig compra para este um celular. O presenteado estranha a tecnologia no princípio, mas depois se surpreende e não se separa mais do iPhone. O Sr. Harrigan falece e Craig coloca o aparelho no caixão do amigo. Numa noite em que sente saudades dele, acaba telefonando para a caixa postal e se surpreende em deixar um recado. Craig jamais imaginaria como sua vida mudaria com isso. Inacreditavelmente, Craig continua deixando recados para o Sr. Harrigan em variados momentos.
Com narrativa em primeira pessoa, o conto emociona; sobre vida e morte, luto e amadurecimento, e se centra em respeito e amizade entre gerações diferentes e o aprendizado para ambas as partes.

A Vida de Chuck, narrada em terceira pessoa, é dividida em três partes e contada detrás para frente. Ou seja, a primeira parte é o final, onde o protagonista está à beira da morte; no segundo ato, o conhecemos como um adulto comum mas cheio de energia; e por último, o começo, quando o encontramos mais jovem e suas origens. Esta é uma noveleta bastante peculiar, que pode ser confusa para algumas pessoas e que foge do estilo "suspense sobrenatural com terror" que o King costuma escrever, porém a achei belíssima. Acredito que esta seja a minha preferida e notei como King, fã da série de TV Além da Imaginação (The Twilight Zone), certamente se inspirou nela. Este conto poderia facilmente ser um roteiro da criação de Rod Serling ou um episódio mais sentimental e melancólico da série Black Mirror.
É sobre nosso egocentrismo, não no sentido negativo e egoísta de comportamento, mas sim na sensação particular de que não deveríamos morrer; de que nossa consciência deveria ser eterna. Que cada vida é importante, pois para cada um de nós, o mundo não pode existir sem nossa presença e que cada pessoa tem um mundo inteiro dentro de si. King leva isso ao pé da letra ao mostrar como um mundo se aproxima de seu apocalipse, pois compõe uma pessoa e esta está morrendo. E King enaltece o protagonista, valoriza sua vida, comum e, simultaneamente, bela. Acredito que este conto não vá agradar a todos, mas achei singular e inesquecível, me fazendo refletir muito. A história é rica e contém um ar agradável e com uma energia positiva, embora seja triste e sobre morrer e nosso mundo particular chegar ao fim, enquanto a realidade segue sem nós.


A novela que dá título ao livro ocorre em terceira pessoa e se destaca por se ligar ao livro Outsider e à trilogia Bill Hodges, pois é protagonizada por Holly Gibney, personagem que participa destes. Agora, ela foi "promovida" como personagem, pois não é a coadjuvante que apoia o protagonista a solucionar o caso; é ela a estrela que tem apoio de personagens de menor destaque. O conto funciona quase como um posfácio ou sequência de Outsider. Mantém o mesmo clima de tensão e alerta, assim como o suspense e o iminente sentimento de algo muito perigoso é iminente e será intenso e complicado para ser vencido. Quem deseja seguir a cronologia, melhor deixar para ler esta novela após a trilogia Bill Hodges e de Outsider, pois contém grandes spoilers dos livros anteriores.
Criei muitas expectativas sobre esta história e sinceramente curti muito rever Holly, não é à toa que o próprio King sentiu vontade de escrever não apenas mais uma aventura com ela, e sim dela. Inclusive temos acesso a um pouco de sua vida pessoal, o que engradece a protagonista.
Desta vez, Holly acompanha um terrível atentado em uma escola, que, lógico, está tendo uma cobertura massiva da mídia, porque catástrofes e notícias chocantes sempre têm audiência elevada. Mas alguma coisa no primeiro repórter a cobrir a tragédia atrai Holly de uma forma incômoda e paranoica. Como se ele já soubesse o que aconteceria. Ela sente que tem algo muito errado com ele, com toda a situação. Pesquisa e quando percebe, já está envolvida e investigando a situação. O problema é que existem semelhanças com o caso em que ela auxiliou Ralph Anderson. Holly encara o perigo sozinha, e acaba encontrando ajuda de uma forma não imaginada.
Uma crítica feroz à mídia que busca audiência acima de tudo, é uma história muito indicada para fãs de suspense sobrenatural e literatura policial e de investigação puxadas para o terror. Quem curtiu a trilogia Bill Hodges e/ou Outsider, Com Sangue é uma história essencial.
Acho que a novela Com Sangue poderia facilmente ter sido publicada no formato de livreto como ocorreu com A Pequena Caixa de Gwendy e Ascensão. Funcionaria muito bem, especialmente para os fãs de Holly Gibney.

O "espaço" da trama de Holly eu preencheria com Ascensão, porque as outras três histórias do livro Com Sangue têm um ar de contos de fadas sombrios da mesma maneira, com o clima de questionamentos existenciais sobre vida e morte. Não estranharia descobrir que King as escreveu na mesma vibe que Ascensão. Mas esta já havia sido publicada, portanto comento apenas para quem já leu Ascensão imaginar o estilo das três outras histórias do livro Com Sangue, principalmente as duas primeiras histórias. Já Rato, a última do livro, embora mantenha a mesma aura, é bem mais sombria.
Traz um protagonista com uma profissão que King adora retratar: Drew Larson é um escritor. Na verdade, um professor aspirante a escritor, em busca por finalmente conseguir escrever seu romance. Sempre que uma ideia ganha vida, ele procura escrevê-la, mas acaba nunca conseguindo concretizá-la, por causa de bloqueio criativo. Desta vez, o romance de faroeste surge rico em detalhes, como se observasse as personagens e acontecimentos. Precisa, portanto, aproveitar e se isolar no chalé de férias de seu falecido pai para escrever o livro e não deixar a história se perder, mesmo que para isso precise deixar temporariamente de lado sua família e seu amigo que enfrenta um câncer. Após ter coragem para deixar todas as preocupações e responsabilidades para trás, ele se encontra na velha cabana no meio do nada do Maine. Uma série de acontecimentos aparentemente sem seriedade o atinge e ele é capaz de qualquer coisa para conseguir terminar seu livro. Também questionei o quanto o sobrenatural realmente existiu nesta história? Loucura ou sobrenatural?
É sobre o que somos capazes de fazer para atingirmos nossos objetivos, nossos sonhos mais desejados; sobre como podemos nem sempre ter a visão mais racional sobre a situação quando estamos em busca de uma realização particularmente importante.

Quer mais King? O mais recente livro dele no Brasil é, na verdade, um relançamento de uma obra há muito pedida pelos fãs, que estava fora de catálogo, superfaturada em sebos e que era ainda inédita pela Suma: Trocas Macabras chegou em edição de luxo pela coleção Biblioteca Stephen King e com tradução da Regiane Winarski. Seu próximo livro, Later, será publicado em março de 2021 pela Suma.

Stephen King
é autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo. Os mais recentes incluem Outsider, Revival, Mr. Mercedes, Escuridão Total Sem Estrelas, Doutor Sono, Joyland e Novembro de 63.
Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos. Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.
Alguns de seus maiores sucessos são: O Iluminado, It: a Coisa, Carrie, a Estranha, O Cemitério, Misery, e A Dança da Morte.

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