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16 de janeiro de 2015

Mundo Novo, de Chris Weitz e Editora Seguinte

Mundo Novo (The Young World)
Trilogia Mundo Novo - livro 1
Chris Weitz - Editora Seguinte / Companhia das Letras
Tradução: Álvaro Hattnher
328 páginas - Ano: 2014 - R$29,90
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Sinopse:
"Neste mundo novo, só restaram os adolescentes… e a sobrevivência da humanidade está em suas mãos.
Imagine uma Nova York em que animais selvagens vivem soltos no Central Park, a Grand Central Station virou um enorme mercado… e há gangues inimigas por toda a parte. É nesse cenário que vivem Jeff e Donna, dois jovens sobreviventes da propagação de um vírus que dizimou toda a humanidade, menos os adolescentes.
Forçados a deixar para trás a segurança de sua tribo para encontrar pistas que possam trazer respostas sobre o que aconteceu, Jeff, Donna e mais três amigos terão de desbravar um mundo totalmente novo. Enquanto isso, Jeff tenta criar coragem para se declarar para Donna, e a garota luta para entender seus próprios sentimentos - afinal, conforme os dias passam, a adolescência vai ficando para trás e a Doença está cada vez mais próxima."

Resenha:
Mundo Novo (The Young World, 2014) é o volume um da trilogia escrita pelo produtor, roteirista e diretor cinematográfico Chris Weitz. Este é seu primeiro livro publicado e a Editora Seguinte, o selo jovem da Companhia das Letras, o trouxe ao Brasil no mesmo ano do lançamento em língua inglesa, ou seja, rapidez admirável.
A capa brasileira me agrada mais que a original. A ilustração é rica e traz personalidade, além de lembrar histórias em quadrinhos. Ajuda o leitor a já imaginar o visual que os adolescentes da trama apresentam, bastante peculiar. O crédito é do Kakofonia, gostei muito de conhecer seu portfolio. A cor do fundo é fluorescente e nenhuma imagem na web mostra bem o tom (nem a foto abaixo), que causa bom contraste com a ilustração em preto-e-branco. Quando aberta, o desenho fica completamente visível. Simplesmente adorei essa capa, durante a leitura pausava e procurava identificar as personagens.
A diagramação e revisão da Seguinte estão, como sempre, perfeitas. Páginas amareladas e duas fontes diferentes, de acordo com o narrador.


Mundo Novo é um título condizente com a realidade pós-apocalíptica que o mundo criado por Chris Weitz traz aos leitores. Um mundo novo, porque tudo mudou; os adultos e as crianças morreram após um surto mundial causado por um vírus desconhecido. Somente os adolescentes sobreviveram e sabem que assim que seus hormônios amadurecerem, morrerão: Todos estão contaminados! Um mundo novo, pois a sociedade como a conhecemos ruiu e uma nova organização e modo de vida surgiram. Um mundo novo, porque os sobreviventes não sabem o que aconteceu e suas consequências ainda estão sendo descobertas - e confrontadas. Mundo Novo é um bom livro, porém faltou novidade à criação de Weitz. Mundos violentos e desordenados formados exclusivamente por jovens não são inéditos na ficção.
A obra é um Young Adult (Jovem Adulto) pós-apocalíptico, mostrando dramas típicos da adolescência intensificados pela certeza da morte, pela dor do luto e da perda e pela inconstância e insegurança do cotidiano perigoso. Embora uma distopia, as características predominantes são as de Young Adult.
Através de um cenário urbano devastado, sujo e sombrio, adolescentes se organizaram em gangues e grupos complexos e tentam sobreviver sem adultos, leis ou governos. Não chega a ser uma distopia completa, mas apresenta algumas características do gênero.
Possui várias críticas sociais, principalmente sobre a sociedade jovem, e este é seu aspecto mais interessante e inteligente: A crítica ao consumismo desenfreado é excelente!
A opressão da elite sobre a massa popular está disfarçada. Neste primeiro livro não conhecemos um sistema governamental central, apenas líderes das gangues. Na principal, a tribo de Washington Square, a hierarquia é tranquila, os relacionamentos amigáveis e o líder é amado. Mas ao conhecermos outros grupos, percebemos que o abuso de poder existe em variadas formas. E ainda surge o embate entre as tribos, verdadeiras guerras. Faltou a obra alguns itens na construção da distopia, ou ao menos algum reforço. No entanto, a parte que mais valorizo em uma trama distópica, que é a tentativa de quebrar o sistema injusto / desolador pela personagem principal, está presente, mesmo que debilitado, poderia ser melhor. A esperança existe e um dos protagonistas deseja melhorar o mundo e a sociedade; no caso, a busca por respostas sobre o vírus e sua possível cura. Não é uma rebelião contra um governo, mas ainda sim o rompimento de um dos fatores principais que faz o mundo decadente.

A narrativa é em terceira pessoa e alternada pelos dois protagonistas: Jefferson e Donna. A ideia de mostrar dois pontos de vista diferentes em um mundo desconhecido é sempre positiva. Ainda mais se tratando de um Young Adult, onde o íntimo das protagonistas é uma das bases da trama, parece ótimo o leitor usufruir de um olhar feminino e de um masculino. O que deveria ser enriquecedor, para mim, foi um atraso.
Simplesmente a narrativa de Donna não me agradou totalmente, nem o estilo irônico dela, porque não o achei autêntico. Não aguentava mais ler a palavra "tipo" e piadas desnecessárias. O autor não soube encontrar o tom de Donna. Detestei sua forma estereotipada de narração. Ela se acha feminista, mas tem a atitude mais machista do livro.
O contrário aconteceu com o foco narrativo de Jefferson. Este me conquistou e o carisma se manteve por todo o tempo, exceto pelos pensamentos filosóficos forçados. Ele é mais centrado e culto e mesmo assim mantém o jeito jovem em sua narrativa. Seu altruísmo é admirável e algumas de suas frases heroicas chamam a atenção, como "Só é o fim do mundo se você não acreditar que existe um futuro."
De qualquer forma o autor mostra a individualidade de cada um, tanto na caracterização como na voz, apesar de falhas. A variedade cultural e étnica é o ponto forte no grupo protagonista e o autor explorou essa questão. Adorei esse detalhe. As personagens secundárias são mais que acertadas, são fascinantes e curiosas.
Outro problema encontrado por mim foi a narrativa que se dirige diretamente ao leitor. Parecia não se encaixar.
Donna e Jeff se envolvem emocionalmente, gerando o lado romântico da trama. Surge a dúvida se eles formarão um casal ou se continuarão como amigos. Não é meloso, mas achei entediante, visto que as cenas de ação são mais interessantes. Com um pano de fundo pós-apocalíptico construído e premissa de alto potencial, me pareceu dispensável criar, por exemplo, um triângulo amoroso (ou um conflito próximo disso). É claro que em breve todos morrerão e é previsível querer aproveitar um pouco de tudo, mas correndo risco de morte em uma missão quase impossível para salvar a humanidade, cheio de inimigos brutais atrás, você realmente se preocuparia com quem transou com quem?
Destaque de personagem: Minifu. Eu a teria colocado como protagonista no lugar de Donna, o braça direito perfeito para o líder Jeff.

A ideia principal do livro não é original, mas a caracterização é incrível. Visualmente falando, o autor cria personagens e cenários interessantes. Mesmo com falhas, as personagens são boas e agradarão o público-alvo, que é Young Adult. Leitores mais velhos apreciadores do gênero poderão se incomodar com algumas coisas.
O mistério sobre como apenas os adolescentes sobreviveram deveria ser o foco da trama, mas infelizmente não é. O autor aborda mesmo o enigma central mais na reta final. Como se deixasse essa ponta da trama na espera do clímax. O suspense é mantido, mas acredito que uma trama que deveria, provavelmente, ser publicada em um único volume, foi estendida para uma trilogia. Apesar da ação, o enredo parece ter sido desenvolvido devagar. Alguns cortes poderiam ter sido feitos para deixar a ação ainda mais dinâmica. Em certo momento, achei que o autor não me levaria a lugar algum.
Então finalmente a trama foi direcionada ao caos da humanidade, ao vírus, a morte dos adultos e das crianças. Trouxe grandes surpresas e um clímax excelente. Não me surpreendeu, pois pensei na questão desde as primeiras páginas, mas creio que o leitor que não adivinhar a revelação das últimas páginas, ficará satisfeito e até mesmo surpreendido.
A narrativa melhora muito nos últimos capítulos. Estes se tornam curtos e passam a estar em forma de thriller, gerando empolgação e tensão. Se o autor tivesse escrito todo o livro nesse formato, teria sido formidável.
O final deixa um gancho ótimo para termos uma história distópica mais impressionante e completa. Espero mais conflitos no próximo volume para recompensar o término abrupto de Mundo Novo.
Recomendo o livro para os fãs de Young Adult, não necessariamente para os de distopias.

O autor:
Chris Weitz nasceu em 1969 na cidade de Nova York. Formou-se em Literatura Inglesa pelo Trinity College, em Cambridge, e trabalha como produtor, roteirista e diretor de cinema. Junto com seu irmão, Paul Weitz, dirigiu e escreveu o roteiro do filme Um Grande Garoto (2002), baseado no livro homônimo de Nick Hornby e indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Chris também dirigiu A Bússola de Ouro (2007) e Crepúsculo: Lua Nova (2009).
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Capa original.

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