[Leitura do Dia] It: a Coisa, de Stephen King e Suma — Parte 5 (O Ritual de Chüd)

Chega ao final a leitura coletiva de It: a Coisa, do Stephen King! Após mais de um mês seguindo as datas propostas pela Editora Suma, esta é a quinta é última postagem sobre a obra-prima do mestre do terror. Eu assisti nos cinemas It: Capítulo 2; não resisti e fui na estreia, portanto terminei o livro um pouquinho antes do limite, porque sou dessas pessoas que gosta de ler antes de assistir. De um modo geral gostei muito do capítulo final no cinema.




A leitura coletiva #SumaLendoIT foi uma experiência muito legal, pois mergulhei totalmente na trama e praticamente me desliguei de outras coisas da ficção. Estava lendo outro livro paralelamente, mas acabei focando só em It, por ficar extremamente envolvida. Assisti novamente o It de 2017 (ele está à venda no Google Play) e o de 1990 (você o encontra disponível para venda ou aluguel na Microsoft Store), pensei bastante sobre o livro e as diferenças das adaptações. Cheguei até mesmo a sonhar com a história algumas vezes. Foram sonhos cômicos, como um onde Pennywise aparecia no meu banheiro me mandando limpá-lo (?).
Foi ótimo me aprofundar na história, ler sem pressa, refletir sobre as personagens, seus medos e sonhos, os obstáculos e, principalmente, sobre o que é a Coisa e como os Otários a enfrentaram.

A Suma posta no Instagram e no Facebook os debates oficiais para que todos comentem com spoilers. Ah, e com sorteios! Desça ao fim desta postagem para ver as publicações da editora.
Caso tenha perdido as demais postagens do blog, clique nos links: parte 1 | parte 2 | parte 3 | parte 4

Não deixe de conferir a entrevista pequena mas interessante que fiz com a tradutora do livro, a Regiane Winarski. Clique aqui e veja o que ela falou sobre It, King e a carreira na tradução literária.



ATENÇÃO: CONTÉM MUITOS SPOILERS. Se não deseja spoilers, pare aqui.

A quinta parte de It: a Coisa começa na página 869 e vai até a 1.102.

"Parte 5  O Ritual de Chüd
Capítulo 19: Nas vigílias da noite
Capítulo 20: O círculo se fecha
Capítulo 21: Debaixo da cidade
Capítulo 22: O ritual de Chüd
Capítulo 23: Para fora
Derry: Último interlúdio
EPÍLOGO: Bill Denbrough vence o diabo (II)"

Em Capítulo 19: Nas vigílias da noite, os Otários adultos terminam uma conversa e suas cicatrizes antigas os relembram da promessa.

"Aquela foi a última vez que nós sete ficamos juntos... o dia em que Stan fez esses cortes no Barrens. Stan não está aqui; está morto. E esta é a última vez que nós seis vamos ficar juntos. Eu sei, eu sinto."

Beverly se recorda de algo a mais: o dia em que a Coisa possuiu seu pai. Aqui a narrativa se reveza entre Bev perseguida em 1958 com Mike perseguido em 1985.

Acho que o ódio e neurose de Al Marsh sobre Bev serviu como uma porta aberta para a Coisa. Ele descobriu que Bev frequenta o Barrens com os meninos e para ele, Bev é uma "prostituta mirim". Exatamente este o termo. Senti muita, muita raiva dele. É muito injusto. Senti tristeza por ela. Refleti sobre como Bev, além de passar por um monte de coisas ruins que os meninos passam, como bullying e a assombração da Coisa, ela ainda enfrenta o machismo, em casa e dos fofoqueiros de Derry, que espalham que ela é "puta" por andar com meninos. Isso tudo faz de Bev insegura (mesmo sendo a melhor de mira acha que não é capaz de usar o estilingue, por exemplo). O machismo do pai, que acha que é o dono dela, é ainda pior: quem deveria protegê-la e estimulá-la a ser quem ela deseja, a ataca, castra psicologicamente. Fiquei pensando em como isso é muito negativo e assustador para uma menina de apenas 11 anos. O pai diz que "se preocupa muito com ela" e cada vez que ele dizia isso, eu gelava. Especialmente quando ele disse que iria conferir se a virgindade de Bev ainda estava intacta.

"Era... nada. Seu pai tinha sumido. E Beverly entendeu de repente que estava sozinha no apartamento com a Coisa, sozinha com a Coisa nessa manhã tranquila de agosto. Não havia a sensação densa de poder e maldade pura que ela sentiu na casa da rua Neibolt uma semana e meia antes, pois a Coisa tinha sido diluída de alguma maneira pela humanidade essencial do pai, mas a Coisa estava ali, trabalhando através dele."

Se o pai por si só já é uma bomba iminente, imagina a Coisa estimulando-o à violência? Foi uma cena muito tensa, onde torci para Bev se livrar de tudo. É uma personagem que amei muito e desejei de coração por um final feliz para ela. Porque aquele ex-marido dela, o Tom, é uma mistura do pai com o Henry Bowers, ela merece mais, merece uma vida feliz e se for para ter alguém, que seja quem a respeite!
Bev foge numa sequência alucinante de ação e suspense, e quando achei que ela se livraria do pai, Henry, Arroto e Victor a emboscam. Henry já se tornou um psicopata, está sob influência da Coisa e ao avistar Bev, desejar despejar toda a raiva sobre ela.

"A voz não veio da lua, mas do grande bueiro pelo qual eles estavam passando. A voz estava baixa, mas clara.
...
Mate-a, disse a voz do bueiro."

Bev consegue fugir dos rapazes e se esconde na sede do Clube dos Otários. O único que está lá é Ben, lendo gibis. Enquanto o trio está sobre a porta do clube, bem na cabeça deles, Bev diz a Ben que sabe que foi ele quem escreveu o cartão. E com o diálogo deles, pensei em como queria que eles tivessem ficado juntos como casal quando crescessem. Achei a cena fofa. Bev também conta como Henry está se tornando mais ousado, mais perigoso, imparável. E ele ganha uma faca especial da Coisa. Com vozes incitando-o, Henry mata o pai. Pronto, ele é oficialmente mais assustador e perigoso que Patrick foi.

"Houve um clique dentro da faca quando a mola soltou a lâmina, e 15 centímetros de aço entraram no pescoço de Butch Bowers. Entrou com a mesma facilidade que os dentes de um garfo no peito de um frango bem assado."

Em 1985, Mike está na biblioteca e também corre perigo. Pensei que fosse Pennywise, mas era quase... é Henry louco por matança, influenciado pela Coisa. Ele esfaqueia Mike... sinceramente pensei que ele morreria.

"Bem perto da fronteira de Derry, ouvi aquela voz. Larguei o carro em Newport. Bem perto da fronteira de Derry, ouvi aquela voz. Olhei no bueiro. Achei essas roupas. E a faca. Minha velha faca."

Henry pega carona então com um Arroto zumbi e recebe um bilhete de Pennywise com os números dos quartos dos Otários, do hotel onde estão hospedados. Ele ataca Eddie primeiro. Após uma luta corporal, Eddie mata Henry.

Se Bev nas cenas de 1958 corre perigo, nas de 1985 está temporariamente bem, pois ela e Bill transam. Bill trai a esposa, mas Bev não trai ninguém na minha opinião, visto que o marido é abusivo, violento e tóxico, e ela o larga quando vai para Derry. Surge então o vislumbre de que em 1958, Bev transou com todos os meninos. Fiquei de queixo caído e pensando se não tinha entendido errado. Mas nada é explicado ainda.
Achei desnecessário Bill e Bev transarem. Os dois se amavam em 1958, mas não vi muito sentido na cena. Não sei se foi apenas consumação de algo que eles queriam muito, se foi o clichê da possível morte a caminho, no entanto não torci para eles ficarem juntos caso sobrevivessem à Coisa, sabe? Sei lá, se era para Bev ficar com algum deles torci imensamente por Ben. Desde o início, desde 1958, torci para Bev ficar com Ben, não Bill.

Em 1958 Bev e Ben reencontram os demais Otários, que estranham a cidade. As pessoas de Derry, na verdade. Parecem se esconder, não querer testemunhar...

"Ao olhar para Bill, Eddie viu uma expressão preocupada e pensou que o silêncio também o estivesse incomodando. Ele sabia que Richie falou como piada, mas realmente parecia que todo mundo em Derry tinha ido passar o dia em Bar Harbor... ou em algum lugar."

Eles descem ao Barrens, como um enfrentamento ao trio de Henry. Porém há algo a mais no ar. Uma tempestade chegando, um momento crucial. A Coisa. Eles decidem enfrentá-la e vão até a estação de bombeamento. Entram com o trio do terror atrás! Terminei o capítulo pensando em como as próximas páginas seriam meus últimos momentos com o livro. Já deu um aperto no coração... Será que eu curtiria o final?


O próximo, o Capítulo 20: O círculo se fecha, começa meio doido, pois Tom, o ex-marido de Bev, está em Derry e começa a se mesclar às memórias de Henry Bowers, começa como um sonho e se torna um delírio, até ele verdadeiramente se sentir como Henry. Portanto, flasbacks de Henry perseguindo Bev e os Otários no subterrâneo em 1958 se mescla à Tom ensandecido atrás de Bev agora, em 1985. Claro, a Coisa o está influenciando, impulsionando. Audra também tem uma experiência confusa durante o sono. No sonho, ela viaja ao passado e vivencia o mesmo momento que Tom, mas como Beverly. Em seguida, desorientada, tanta falar com Bill pelo telefone do hotel, e ao não conseguir, tenta ir até ele, mas acaba sendo capturada por Tom. E eu pensando: qual será a ligação de Tom e Audra com a trama? Achei que talvez não fosse necessário. Mas não nego que foi curioso.

Enquanto isso, Bill e Bev vão ao quarto de Eddie, onde o corpo de Henry jaz. Bev se lembra de Bill no passado dizendo algo bem sinistro:

"Derry é a Coisa. Vocês me entendem?... Pra qualquer lugar que a gente vá... quando a Coisa pegar a gente, as pessoas não vão ver, não vão ouvir, não vão saber. Vocês não entendem como é?  gente só pode acabar o que a gente começou.
De pé agora, olhando para o cadáver de Henry, Beverly pensou: os dois estão dizendo que nos tornamos fantasmas de novo. Que tudo está se repetindo. Tudo. quando criança. eu conseguia aceitar isso, porque crianças são quase como fantasmas. Mas..."

Bill, Bev, Eddie, Richie e Ben descobrem que Mike está no hospital após o ataque de Henry e decidem ir ao Barrens. Lá encontram a bolsa de Audra e, 27 anos após, entram novamente no subterrâneo. Acho que esta parte de Tom e Audra poderia não estar no livro. E acho que perdi o fio da trama sobre o que fizeram com o corpo de Henry. O colocaram na limusine de Eddie ou o deixaram no quarto dele no hotel? Destaquei apenas um trecho do capítulo 20, e olha que é um trecho original do capítulo anterior.

Mas o próximo, Capítulo 21: Debaixo da cidade, peguei várias quotes, porque achei muita coisa incrível! O começo do capítulo por si só já traz muita informação e reorganização de ideias sobre a origem da Coisa, o que ela é:

"Antes do universo, só havia duas coisas. Uma era a própria coisa e a outra era a Tartaruga."

"Com esse alimento suculento, a Coisa existia em um ciclo simples de acordar para comer e dormir para sonhar. Ela criou um local em sua própria imagem, e olhava para esse lugar com carinho pelos postigos que eram seus olhos. Derry era seu abatedouro, as pessoas de Derry eram as ovelhas. As coisas seguiam em frente.
E então... essas crianças.
Uma coisa nova."

"...porque a única coisa que a Coisa tinha em comum com a Tartaruga velha e idiota e com a cosmologia do macroverso fora do ovinho que era esse universo era apenas isso: todas as coisas vivas precisam se submeter às leis da forma que habitam. Pela primeira vez, a Coisa percebeu que talvez a habilidade que tinha de mudar a forma também pudesse funcionar contra ela."

"e se  Coisa não estivesse sozinha, como ela sempre acreditou?
E se houvesse Outra?
E se essas crianças fossem agentes da Outra?"

Os segmentos seguintes se alternam basicamente entre o que aconteceu nos subterrâneos de Derry em 1958 e o que está acontecendo em 1985. No passado os Otários desceram em sete, fugindo de Henry, Arroto e Victor, mas agora se encontram em cinco, procurando por Audra (pega por Tom). O interessante é que alguns segmentos trazem o que seria o mais possivelmente próximo de ser o ponto de vista da Coisa. A Coisa esperando pelos cinco  Otários adultos. Para o embate final.

"A Coisa odiava o medo, teria se virado contra ele e comido se pudesse..."

"A mulher do escritor agora estava com a Coisa, viva, mas não exatamente viva; a mente dela foi completamente destruída pela primeira visão da Coisa como ela realmente era, com todas as pequenas máscaras e glamoures jogados de lado."



"Mas juntos eles descobriram um segredo alarmante do qual nem a Coisa sabia: aquela crença tem um outro lado. Se houver 10 mil camponeses medievais que criam vampiros por acreditarem que eles são reais, pode ser que haja um, provavelmente uma criança, que vai imaginar a estaca necessária para matá-los. Mas uma estaca é apenas uma madeira idiota; a mente é o martelo que a enfia no lugar certo."

Para não me confundir com passado e presente, fiquei atenta ao horário mostrado antes de cada segmento "Nos Túneis". Quando o horário era à tarde, mostrava o passado; quando era madrugada, estava no presente.
Compreendi finalmente o "biscoito da sorte olho assombroso". Eles haviam sido perseguidos por um Olho gigante nos túneis, como num filme Indiana Jones, porém de terror trash. Achei a cena legal, especialmente eles enfrentando o Olho! Eddie usou o mesmo método que usaram no Lobisomem Adolescente na casa 29: o de usar contra a forma da Coisa o que acreditam feri-la. Tem que ter muita fé mesmo!

"Jesus Cristo, seus covardes estou sapateando na cara dele e ESTOU DE BRAÇO QUEBRADO!"

Foi uma fala incrível de Eddie! Só pensava em como queria vê-la no cinema.
Eles chegam a uma porta com um símbolo. Cada um vê algo diferente ao olhar. Me perguntei se era o tal postigo que a Coisa tanto falava em tom assustador e amaldiçoador. Só pensava em como tinha que ter coragem para ultrapassar a porta da "casa" da Coisa.

"Eles estavam aqui por causa dos donos dos ossos, George e todos os outros, os que tinham sido levados para lá, os que ainda poderiam ser levados, os que foram largados para apodrecer em outro lugares."

Os Otários adultos não se recordavam da verdadeira forma da Coisa. Bev pensa se não seria Tom quem capturou Audra e percebe, assume, que se casou com um homem igual ao seu pai. Achei triste ela dizer aquilo em voz alta para os Otários. Ela se lembra que enfrentaram a coisa com o ritual de chud.
Enquanto isso, Mike corre perigo no hospital, mas os Otários enviam uma ajuda, sem saberem exatamente como, uma força, um poder, uma energia, para protege-lo.
E a Coisa surge, depois de pregar peças. A verdadeira forma da Coisa.

"Ela tinha uns 4,5 metros de altura e era negra como uma noite sem lua. Cada uma das pernas era grossa como a coxa de um halterofilista. Os olhos eram rubis brilhosos e malevolentes, saltados em órbitas cheias de algum fluido da cor de cromo e que escorria. As mandíbulas denteadas se abriam e fechavam, se abriam e se fechavam, pingando espuma."

Ou o mais próximo da verdadeira forma que é possível a um humano visualizar, conforme este pensamento de Ben;

"Mas é outra coisa, tem uma forma final, uma que quase consigo ver da forma como se pode ver a forma de um homem se movendo por trás de uma tela de cinema enquanto o filme está sendo exibido, uma outra forma, mas não quero vê-la, por favor Deus, não permita que eu veja a Coisa..."

Acho que seria impossível recriar o visual num filme. Acho que por mais que você veja uma aranha cósmica gigante e nojenta, há um algo a mais escondido, como um borrão, alguma coisa mais terrível e complexa para ser vista, mais assustadora, por detrás da forma aracnídea. Ao menos é o que eu imaginei, o que eu entendi. Nunca pensaria na cabeça de Pennywise presa a um corpo de aranha enorme (sorry, diretores/produtores de cinema). Jamais. Visualizo algo mais cheio de camadas, como se o segredo não fosse visto cem por cento pela mente humana. Como e uma sombra mutável estivesse por trás, apresentando formas grotescas e medonhas sem que consigamos acompanhar. Nossos olhos veem, mas nossa mente não interpreta. Acho que é isso. Escondido na aranha, a Coisa verdadeira.

"Ele gritou, cambaleou, colocou uma das mãos na cabeça, e seu primeiro pensamento incoerente foi: Não é surpresa Stan ter cometido suicídio! Ah, Deus, eu queria ter feito igual!"

E tem mais: ela é fêmea e tem muitos filhotinhos a caminho.

"Seja lá o que for além do que nós vemos, essa representação é ao menos simbolicamente correta: ela é fêmea e está grávida... Estava grávida na outra vez, mas nenhum de nós sabia exceto Stan,"



Então chega um dos capítulos mais importantes (e também o mais controverso) do livro: Capítulo 22: O ritual de Chüd. Só pensava em finalmente saber o que exatamente é o ritual, como foi feito em 1958 e como eles iriam repeti-lo em 1985. Morder a língua da coisa após um duelo? Como assim? E a droga da Tartaruga, onde está, ela ajuda? Estava muito, muito curiosa!

"E Stan Uris, forçado a se aproximar, compelido a se aproximar apesar de todos os instintos em sua mente e seu corpo, viu que Bill estava olhando para a Coisa, com olhos azuis fixos nos olhos inumanos e laranja da Coisa, olhos dos quais aquela luz horrível de cadáver era emitida. Stan parou e entendeu que o Ritual de Chüd, fosse lá o que fosse, tinha começado."

Aparentemente é uma batalha mental, porém é mais  profunda que isso. É um evento cósmico. Não sei bem o que eu esperava, mas estava certa de que ninguém morderia a língua da Coisa, não literalmente falando. Sabia que seria algo mais rebuscado, espiritual, talvez. Só não fazia ideia de como aconteceria mesmo. Será que veio daí críticas que eu via há anos, sobre o "final de It: a Coisa não ser tão bom quanto seu começo e desenvolvimento"? Voltamos ao passado, quando Bill enfrentou a Coisa.

"O Outro Final era, talvez, o criador da Tartaruga, que só observava, e da Coisa, que só comia. Esse Outro era uma força maior do que o universo, um poder maior do que todos os outros poderes, o autor de tudo que existia."

No vácuo, a Coisa existe como ela é, por isso ela tenta jogar Bill para mais e mais distante do mundo, da realidade.

"Porque a Coisa tinha que livrar seu eu Aranha dele, era por isso. De alguma forma, a Coisa-aranha e a Coisa que a Coisa chamava de postigos estavam ligadas. O que vivia aqui na escuridão podia ser invulnerável quando estava aqui e em nenhum outro lugar.
Bill deslizou pela escuridão, com velocidade ainda aumentando. Por que sinto que tanto da conversa da Coisa é blefe, uma grande enrolação? Por que é assim? Como pode ser?"

Eu gostei dos segmentos "Bill no Vácuo". Temos uma briga física, mas antes uma psicológica, espiritual, energética.

"Bill mordeu. Não com os dentes, mas com os dentes na mente."

Ele segue o conselho da Tartaruga e grita a frase que passou o verão todo tentando, tentando vencer a gagueira, sua maior insegurança:

"ELE SOCA POSTES DE MONTÃO E INSISTE QUE VÊ ASSOMBRAÇÃO"

Acho que nunca vou me esquecer desta frase, nem daqui há décadas. A Tartaruga avisou, mas Bil e os Otários acharam que a Coisa havia sido derrotada.

"eu terminaria com tudo agora; não deixe que a Coisa fuja... o que pode ser feito quando você tem 11 anos nem sempre pode ser feito de novo."

Pensei em como isso pode ser significativo. Quantas coisas você pode fazer quando se tem 10, 15 anos e não pode fazer igual 20 ou 30 anos depois? Mesmo que você seja bem jovem, reflita. Ainda mais se tratando de fantasiar e usar a imaginação.
Por isso refazer o Ritual de Chüd em 1985 não foi mais fácil. Além de Bill, Richie também agarra a Coisa, "mordendo a língua dela".

"Eddie estava parcialmente ciente do que acontecia; ele sentia de alguma forma, via de alguma forma, mas como se por uma cortina fina. Em algum lugar, Bill e Richie estavam lutando para voltar. Os corpos deles estavam aqui, mas o resto deles, a parte real, estava distante."

Na tentativa de resgatar Bill e Richie, Eddie perde o braço atacando a Coisa em sua forma Aranha e morre. Eu fiquei desesperada, foi um susto. Como assim, é a morte do Eddie? Não conseguia acreditar. Me senti triste, pausei a leitura.

Em 1958, Bill pensa:

"Outra coisa o estava incomodando, mas o conceito era grande demais e vago demais para sua mente cansada de garoto compreender. Talvez fosse a mera simplicidade da ideia que a tornava elusiva: eles estavam se afastando uns dos outros. O laço que os uniu durante todo o verão estava se dissolvendo. A Coisa foi enfrentada e destruída. Poderia estar morta, como Richie e Eddie pensavam, ou poderia estar tão ferida que dormiria por cem anos, ou mil, ou 10 mil."

E vem a parte polêmica da obra, a parte que muitos comentam, que realmente dá o que falar: ao estarem perdidos no covil da Coisa, mesmo após sua destruição, mas completamente cansados, os Otários não sabem como sair dos túneis. Eu já havia recebido spoiler desta parte, mas na época, não o considerei verdadeiro. E lá atrás, quando Bev comenta com Bill, continuei sem acreditar. No spoiler que peguei por aí na internet há anos, informavam ser parte do Ritual Chüd, não da Parte 5, mas do ritual propriamente dito. Mas o ritual de 1958 passou e somente depois é que veio a tal coisa tão polêmica.
Beverly sugere algo que os una. Ela decide perder a virgindade com todos os eles. Ela transa com todos os Otários. A cena é contada em terceira pessoa, mas do ponto de vista de Bev. Não há sexualização ou erotização, mas mesmo assim, me senti mal por ler esta parte. São crianças. Crianças de 11 anos que enfrentaram um mal terrível, seus maiores medos, defenderam as outras crianças de Derry. Estavam mais que cansadas, fadigadas, física e mentalmente... Não consegui ficar à vontade com isto. Ainda mais por ser mulher, como uma menina de 11 anos, após isso tudo, propõe perder a virgindade assim? Por livre e espontânea vontade, claro, mas não fez sentido algum para mim.
Achei sofrível, ela sofreu, os meninos não estavam bem com aquilo, não sei porque isto foi mesmo necessário para eles saírem de lá.
Compreendo que encararem a Coisa em 1958, foi enfrentar seus piores medos, seus medos infantis, e crescer, amadurecer, transitar da infância para a adolescência e se preparar para a vida adulta. Assim como depois em 1985 eles fazem o contrário, reaprendem a imaginar, fantasiar e amar como crianças novamente. Enfim, eles já haviam passado por muito, não precisavam passar por este "ritual" de amadurecimento, um ato sexual. Foi desconfortável e se eu fosse da editora, na época, teria sugerido ao King outro ritual que não fosse sexual, pois são crianças de 11 anos. Posso estar sendo bem careta e não deixo de gostar do livro. It: a Coisa é um dos melhores livros que já li, um dos que mais amei, mas tive que retirar meia das cinco estrelas devido à isso. Então, eu teria cortado ou sugerido outra coisa ao King de tudo que ocorre da página 1.049 até a 1.054.


Por isso, no Capítulo 23: Para fora, eu pensei em como venceriam a Coisa de vez em 1985, o que foi que eles não fizeram em 1958; e também me perguntei sobre como sairiam do subterrâneo.
Bev fica com o corpo de Eddie e a esposa de Bill, Audra, que está catatônica e pendurada na teia da Coisa; Ben pisa e destrói todos os ovos da Coisa (com prováveis Coisinhas dentro); Bill e Richie vão atrás do que sobrou da Coisa.

"Bill e Richie viram a Coisa se virar na direção deles, com as mandíbulas abrindo e fechando, o olho bom olhando com raiva para eles, e bill percebeu que a Coisa emitia sua própria fonte de iluminação. como um tipo pavoroso de vaga-lume. Mas a luz estava trêmula e incerta; a Coisa estava muito ferida."

Bill e Richie a atacam com punhos e chutes, literalmente acertando, esmagando, esmurrando a Coisa, até que Bill arranca fora o coração da Coisa e o esmaga.

"E ele ouviu claramente a Voz do Outro; a Tartaruga podia estar morta, mas o que a tinha criado não estava.
Filho, você foi muito bem."

Richie apagou. Pensei "pronto ele morreu e eu morro junto." Mas ele sobreviveu e fiquei aliviada, porque eu ainda estava muito magoada por perdemos Eddie.
Paralelamente aos acontecimentos, temos a narrativa da destruição de Derry. Então quando eles matam a Coisa, algo a mais acontece.

"Ás 10h, as vibrações regulares que percorriam as ruas do centro de Derry aumentaram para um rugido violento. O Derry News mais tarde escreveria que os apoios da parte subterrânea do canal, enfraquecidos pelo ataque selvagem do que foi uma enchente em tempo recorde, simplesmente desabaram."

Algumas pessoas disseram ter sido um terremoto. Cada um naquele dia viu algo diferente e espetacular sobre a destruição.
Os Otários saem do subterrâneo com tudo despencando, guiados por Bill, carregando Audra (abandonando o corpo de Eddie). Acabam saindo no cinema Aladdin, o mesmo da infância deles. O filme em cartaz é De Volta para o Futuro, um dos preferidos da minha infância.
São vários trechos da destruição de Derry, mas não fiquei triste pela cidade. Senti esperança e renovação. Um novo momento chegando, o fim da Coisa em Derry. O ciclo rompido. Como se a cidade precisasse passar por esse processo.

"Um garoto de capa vermelha e galochas verdes estava seguindo um barco de papel que flutuava na correnteza que ia até o bueiro. Ele olhou para cima, viu os quatro olhando para ele e acenou com hesitação. Bill pensou que era o garoto do skate, o que tinha um amigo que viu o tubarão no canal."

Adorei o menino daquela vez, adorei aqui também. Ele continua dizendo que não terá cuidado com o skate. Simples assim. Acho que ele passa uma mensagem muito positiva pro Bill antes, e agora também.
Os Otários veem as cicatrizes das mãos desaparecem completamente. E pensam como nada dura para sempre. Eles se amam muito e são amigos verdadeiros, de uma forma muito rara. Amei isso, a honestidade, o companheirismo, tudo. É mesmo uma história sobre amizade.

"Eles entraram no Town House em meio a gargalhadas, e quando Bill empurrou a porta de vidro, Beverly teve um vislumbre de uma coisa que ela nunca mencionou, mas também nunca esqueceu. Por apenas um momento, ela viu os reflexos deles no vidro. Só que eram seis, não quatro, porque Eddie estava atrás de Richie e Stan estava atrás de Bill, com aquele sorriso no rosto."

Quase chorei com esta imagem. Só acho que faltou Mike. Esta cena seria melhor com todos. Mesmo assim, ela é linda, emblemática! Em seguida, uma cena que já estamos cientes desde sei lá quando na leitura, mas agora é mostrada na íntegra. E este é o momento certo, King acerta. É muita emoção. A promessa feita por eles em 1958.

"E ele os vê, os vê de verdade pela última vez, porque de alguma forma ele entende que eles jamais vão ficar juntos de novo, os sete, não assim. Ninguém fala nada.
...
Ela fecha os olhos e estica as mãos para os dois lados. Bill segura a esquerda; Ben segura a direita. Bill consegue sentir o calor do sangue dela se misturando com o dele. Os outros se juntame eles ficam em círculo, com todas as mãos unidas daquela forma peculiar e íntima."

Eles fazem o juramento de retornar à Derry caso a Coisa volte. Eu quis chorar de novo, Stephen King. Isso é terror ou o quê?

"Nunca mais quero brincar lá embaixo, pensa ele de repente, e fica impressionado ao perceber que o pensamento não é terrível nem perturbador, mas tremendamente libertador."

Com Derry: último Interlúdio, estava realmente chateada por estar nas últimas páginas. Não queria que o livro acabasse. Aqui, Mike continua seu diário, mas agora, o foco é o que aconteceu depois de tudo.
Audra ficou catatônica e enquanto Mike se recuperava internado no hospital, Bill permaneceu na casa dele com a esposa. Ben e Beverly alugam um carro e vão embora juntos para o Nebraska. Mike acha que eles vão ficar juntos. Eu adorei isso, porque é bem raro os casais pelos quais torço ficarem juntos no final. Richie voltou para a Califórnia.
Eles estão se esquecendo de tudo novamente. Não sei se isso é bom ou ruim. Penso nisso até agora. É bom esquecerem os horrores, a Coisa e Pennywise e Lobisomem e Múmia e Leproso e Olho e etc... mas se esquecerem uns dos outros? Da amizade, do amor, de tudo? Não gostei.

"Como Bill disse, no momento são as coisas pequenas, os detalhes. Mas parece o tipo de coisa que vai aumentar. Pode ser que, em um mês ou um ano, este caderno seja tudo que tenho para me lembrar do que aconteceu aqui em Derry. Acho que as próprias palavras podem começar a sumir e este caderno acabar ficando tão em branco quanto era quando o comprei."


Os escritos do diário de Mike realmente começam a sumir e todos a se esquecerem. Tudo isso com a saudade que eu já sentia da história e das personagens, me deixou triste.

"Meu coração está com você, Bill, aconteça o que acontecer. Meu coração está com todos eles, e acho que, mesmo se nos esquecermos uns dos outros, vamos lembrar nos sonhos."

"Eu amava vocês todos, vocês sabem.
Eu amava vocês tanto."

E eu querendo chorar de novo... E só tinha mais uma partezinha para ler: Epílogo: Bill Denbrough vence o diabo (II).
Bill se liberta e resgata um pouco de quem era quando tinha 11 anos. Ele pedala na Silver como fazia na época, com Audra na garupa e isso a liberta também. Ela sai do estado catatônico em que se encontrava desde o encontro com a Coisa.
Acho que este trecho diz muito. Sobre como ao enfrentar a Coisa pela primeira vez Bill usou toda a imaginação, criatividade e insistência que só crianças conseguem ter contra o medo. Ele e os Otários encararam seus medos, e por piores que fossem, eram medos infantis. Se tornaram adultos e precisaram retornar às origens infantis para enfrentarem a Coisa novamente. Bill precisou reaprender a pensar e sentir como uma criança novamente. Os Otários encontraram o equilíbrio, ao menos naquele momento. Ter a energia de viver de uma criança, a fantasia e a imaginação, se arriscar, ousar e se libertar para buscar a felicidade, mas sem medos infantis. O equilíbrio entre ser adulto e ser criança.

O sonho de Bill, talvez o único resíduo do que ele vai se lembrar, me emocionou muito. Ele vai acordar e nem se lembrará exatamente o que sonhou. Mas no fundo vai. Acredito que vá.

"É melhor não olhar para trás. É melhor acreditar que vai haver felizes para sempre o tempo todo. E pode ser que haja; quem pode dizer que não existem finais assim?"

"E, se tiver um último pensamento, talvez seja em fantasmas... fantasmas de crianças de pé na água ao pôr do sol, de pé em círculo, de mãos dadas, com rostos jovens, seguros, mas sofridas... sofridas o bastante, ao menos, para darem à luz as pessoas que elas vão virar, sofridas o bastante para entenderem, talvez, que as pessoas que vão se tornar precisam necessariamente ser as pessoas que eles eram antes de poderem seguir em frente tentando entender a simples mortalidade. O círculo se fecha, a roda gira e isso é tudo que há.
Você não precisa olhar para trás para ver essas crianças; parte de sua mente vai vê-las para sempre, vai viver com elas para sempre, vai amar com elas para sempre. Elas não são necessariamente a melhor parte de você, mas já foram o depósito de tudo que você poderia se tornar.
Crianças, eu amo vocês. Amo muito vocês."



"ele acorda desse sonho sem conseguir lembrar exatamente o que foi, nem nada mais além do simples fato de que sonhou que era criança de novo. ... ele pensa que é bom ser criança, mas também é bom ser adulto e poder avaliar o mistério da infância... suas crenças e desejos. ... Mas é bom pensar assim por um tempo no silêncio limpo da manhã, pensar que a infância tem seus segredos doces e confirma a mortalidade, e que a mortalidade também precisa olhar para trás, e que cada vida faz sua própria imitação da imortalidade: uma roda."

Um livro de terror me fez chorar horrores depois de terminá-lo. Uma sensação positiva de relembrar a infância e de tentar carregar na minha vida adulta essa sensação. Nada de olhar para trás e remoer o passado e sim de me lembrar dele com nostalgia feliz e focar em como a vida AGORA pode ser tão boa quanto os melhores momentos que já tive.

Finalizo com uma quote lá de antes da história começar, onde Stephen King dedica o livro aos seus filhos Naomi, Joseph e Owen:

"Crianças, a ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bem simples: a magia existe.
S. K."

Agora está sendo muito difícil me desconectar e dar adeus aos Otários. MUITO. Ao menos por um tempo. Obrigada, Stephen King.

(Como ficou meu exemplar após muitas marcações com post-its; estas postagens foram trabalhosas.)



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