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16 de dezembro de 2013

A Sociedade Cinderela, livro 1, de Kay Cassidy e Galera Record

A Sociedade Cinderela (The Cinderella Society)
Série A Sociedade Cinderela - livro 1
Kay Cassidy - Galera Record
Tradução: Viviane Diniz
308 páginas - Ano: 2013 - R$35,00

Sinopse:
"Aos 16 dezesseis anos, Jess Parker se acostumou a ser invisível. Depois de mudar de escola várias vezes por conta do trabalho do pai, ela se conformou com o status de eterna garota nova. Mas agora Jess tem a chance de uma vida: um convite para participar da Sociedade Cinderela, um clube secreto das garotas mais populares da escola, onde makeovers fazem parte do pacote. Mas há mais a ser uma Cindy que apenas reinventar o visual. E Jess está prestes a descobrir."

Links: Galera Record | Skoob | comprar por R$29,70 | degustação

Resenha:
Um livro que atrai pela capa simples e ao mesmo tempo bonita. O sapatinho de cristal, famoso símbolo dos contos de fadas está diretamente ligado ao título do livro, A Sociedade Cinderela. Este dá ênfase à palavra Cinderela, mais enfeitada e cor de rosa. Cor que se intensifica e vai além, presente de forma viva nas orelhas do livro. Nota-se claramente o público-alvo do livro: Feminino e adolescente. Ponto positivo, pois já facilita com informações básicas logo ao primeiro contato com o leitor/comprador.
A sinopse, mais longa que a divulgada na internet está nas orelhas. Atrás do livro contém um trecho sobre o convite: "Abri o cartão, com as mãos tremendo de medo e sentindo o leve vestígio do que eu costumava chamar de esperança, quando um pequeno broche de sapato de salto alto prateado caiu em minha mão". Além disso, uma citação de Becca Fitzpatrick (autora da série Hush Hush): "Girl Power, baby! Esse é o livro perfeito se quer acreditar que você pode conseguir qualquer coisa."
Analisando as informações superficiais, ponto positivo para as da capa e orelhas e ponto negativo para as detrás do livro. A capa realmente combina com a história e o texto da orelha define bem o que esperar dela. No entanto, a citação de Fitzpatrick não me convenceu totalmente, mesmo após ler a última página. O trecho extraído do livro referente ao broche é do começo - uma das melhores partes.

Embora eu não seja adolescente - ou seja, não sou o público-alvo - eu adoro histórias feitas para essa faixa etária, e falou em feminismo ou Girl Power (Bons tempos das Spice Girls) eu corro para ler. ainda mais se a história for divertida, leve e com a coragem feminina, mesmo que discreta, estampada nas páginas. Personagens femininas fortes, que se superam, não desistem de suas metas e sabem a linha do quanto devem ou não depender de um rapaz.
Imaginava que A Sociedade Cinderela fosse muito engraçado, dinâmico e divertido, um contos de fadas moderno, mostrando como as mulheres dominam o mundo de modo secreto, praticando o bem e formando uma rede internacional gigante, complexa e forte. A autora acertou bem na ideia central, a base do enredo é exatamente essa, mostrar como as mulheres são subestimadas e podem utilizar dessa máscara para disfarçarem o enorme poder que detêm.
O problema do livro está na narrativa e no desenvolvimento do enredo. Creio que os ingredientes presentes são perfeitos para uma grandiosa história chick-lit, porém a autora errou na receita.

Foi um acerto a narrativa em primeira pessoa da protagonista Jess. Ela é engraçada, gostei da linguagem simples, bastante irônica e cheia de comparações e observações engraçadas. Interessante porque como ela não sabe nada sobre a Sociedade Cinderela, o leitor acompanha o seu ponto de vista, suposições e surpresas e aos poucos vai se consumindo por uma crescente curiosidade.
O erro é que, embora seja uma história fantasiosa, a autora peca quando tenta criar um ar de autenticidade, tenta convencer o leitor de que essa grande rede feminina existe. Ela poderia ter alcançado esse objetivo, se não tivesse se perdido.

Em primeiro lugar, o livro seria mais interessante se fosse mais curto. Sem cenas desnecessárias, situações que não acrescentam nada ao desenvolvimento das personagens ou da trama. Os capítulos também deveriam ser mais curtos, porque mesmo sendo um chick-lit, creio que capítulos menores e com finais com ganchos curiosos sobre os próximos causariam mais vontade de o leitor não pausar a leitura e ficar louco por prosseguir.
O começo do livro é muito interessante, verdadeiramente me senti curiosa sobre a Sociedade Cinderela e suas integrantes, as Cindys. Fiquei morrendo de vontade de descobrir como tudo funcionava e o porquê de Jess ser uma das Escolhidas. Termos básicos como Cindys, Malvadas, Encantados, Vilões e Joviais são apresentados. Realmente são classificações ao mesmo tempo infantis e primordiais para a compreensão. Depois a autora apresenta explicações críveis do motivo desses nomes bobos e faz sentido. Vamos descobrindo que muito mais está escondido e outras siglas e nomes surgem, principalmente ligadas às elites envolvidas no projeto, que possui uma organização oposta e rival.
As personagens são apresentadas, os núcleos aos quais pertencem. Dentre os principais temos a paixão de Jess, Ryan; a irmã do rapaz Lexy - justamente a arqui-inimiga de Jess! - uma das mais populares da escola; Heather, uma aluna que sofre bullying constante das meninas malvadas; e Sarah, a Fada-Madrinha (ou Irmã) de Jess. (Sim, outro termo bobo, mas que se enquadra perfeitamente.)
Até este ponto tudo flui, mesmo com capítulos longos.

Passado o suspense inicial sobre como as coisas funcionam, o livro mergulha na mesmice. Grupos e tribos comuns formadas por góticos, nerds, atletas, patricinhas, intelectuais, etc são mostrados, assim como a interação entre eles. Detalhe para como Jess não se enquadra em nenhum deles. Entretanto, a autora tentou deixar boa parte das explicações do meio para o final, mas até o leitor chegar nesse ponto, a leitura torna-se cansativa e os capítulos parecem ficar cada vez mais longos.
A rivalidade entre as Cindys e as Malvadas me passou a ideia de um conflito infantil, sem ação, morno e sem importância. Depois descobri que algo maior está por trás, um conflito fantástico e que de certa forma, pode mudar sociedades e até o mundo. Grandioso demais. Seria melhor se a autora tivesse explorado mais esse ponto, em vez de basicamente focar em rixas entre adolescentes que jogam bebidas umas nas outras.
A briga entre Jess e Lexy, que é muito mais que uma implicância entre garotas, poderia ter sido o auge do livro, porém suas discussões e disputas caíram no marasmo e não inova em nada.
O romance entre Jess e Ryan demora a engatar e a princípio pareceu divertido, e até trouxe conflitos adolescentes interessantes - já que o rapaz possui um drama no recente passado. No entanto, chega a um momento em que eu senti falta de algo.

Gostei muito, bati palmas para quando Jess mostrou ter Girl Power de verdade! Em relação a ela mesma, repensando suas atitudes, ativando a força e coragem que ela já possuía, mas desconhecia! Por que a autora perdeu tanto tempo mostrando como moda, autoestima elevada, cabelos estilosos e bom visual são importantes para a mulher se sentir bem? Concordo totalmente com isso, que cada mulher precisa buscar pelo que gosta, criar um estilo próprio, estar sempre em dia com uma boa aparência para se sentir poderosa e pronta para as outras áreas da vida. Porém a autora perdeu tempo demais com a Transformação, algo que deveria ser ligeiro, explicando a importância e pronto.
Depois, quando chega ao que realmente interessa, o significado da Sociedade Cinderela e seu papel fundamental na vida dos jovens de todo o mundo, a narrativa pesa e cansa.
Adorei ver Jess criar atitude perante a vida e enfrentar e refletir sobre Ryan, os grupos da escola, sua personalidade, sonhos e até mesmo sobre seu papel no núcleo familiar e na própria Sociedade Cinderela.
Suas questões existenciais típicas da idade se juntam ao quanto ela deve participar da Sociedade, e como deve desempenhar suas funções, que crescem ao longo do livro. Jess mostra-se poderosa.

Então eu esperava por um conflito realmente fabuloso entre as Cindys e as Malvadas, entre Jess e Lexy... Mas parece que tudo ficou para depois, para a continuação da série. Me decepcionei nesse ponto, porque realmente, um primeiro livro não deve mostrar "a batalha final". Mas eu aguardava por uma preliminar ou fatos chocantes.
Ponto negativo para o desenvolvimento do romance da Jess com Ryan. Quando eu pensei que seria uma série adolescente inovadora nesse requisito (sem spoilers! E sim, não gostei do Ryan, ele me pareceu um Sapo, não um Príncipe Encantado.), o romantismo ressurge como um pouco mais do mesmo. Outro ponto negativo, é que embora Jess não seja ligada à família, fica chato o quanto ela desdenha da mãe, parece sem afeto e paciência. O pai, então, sem comentários.
O ponto positivo dos relacionamentos? Sobra para a amizade entre as garotas. Gostei de ver amigas normais (mesmo algumas sendo Cindys). A interação entre elas vai além do profissional dentro da Sociedade Cinderela e vai para um nível de amizade verdadeira e sincera, como se fossem irmãs. Mesmo quando se desentendem ou discordam notei como se tornaram amigas verdadeiras.
A relação entre Jess e Sarah vai se fortalecendo e engrandecendo a história. O mesmo, porém de modo diferente, ocorre com Jess e Heather.

O final do livro reaviva a história que estava a ponto de morrer (ou melhor, se suicidar) e reativa a curiosidade, interesse e atenção do leitor. Descobrimos o mundo secreto por detrás das Cindys e Malvadas e aí sim a coisa fica séria. A autora nos apresenta a super-heroínas de verdade, o futuro das Cindys e em como a discrição é mesmo fundamental. Nesse momento sim me senti dentro de uma teoria de conspiração totalmente Girl Power.
Esse final na verdade é o começo para o próximo livro e se continuar seguindo essa linha, uma boa história poderá vir, se a autora focar mais nas Sociedades apresentadas, o conflito entre elas e feminismo de verdade.

Observação final: A série possui todos os fatores para crescer, incluindo um pano de fundo diferente e incrível, assim como uma protagonista que evolui, porém a autora precisa focar mais nesses pontos fortes e ir direto ao ponto. Ou pontos, pois na verdade A Sociedade Cinderela e o mundo criado pela Cassidy contem grande potencial e diversos itens interessantes a serem desenvolvidos e explorados. Faltou um pouco mais do essencial: Girl Power e, talvez, orientação editorial.
É uma boa história que mostra às garotas como possuir autoestima é essencial, como bullying é prejudicial e como a base formadora dos contos de fadas realmente existe, porém não exatamente como sonhamos.
Espero que na continuação a autora explore mais o relacionamento de Jess com sua mãe, afinal, a protagonista não é mais uma menina deslocada; agora é uma Cindy e precisa dar mais atenção para a mãe. Como ser uma "super" Cindy, ajudar a "salvar" o mundo e não auxiliar a mãe em casa?

PS.: De certa forma, não sei exatamente os motivos, mas A Sociedade Cinderela me lembrou do antigo seriado Barrados no Baile (grupos diferentes na escola), o filme com Lindsay Lohan Meninas Malvadas e o filme com Alicia Silverstone As Patricinhas de Beverley Hills (adolescentes tentando moldar seu mundo ao redor).

A autora:
Ex-líder de torcida universitária e ex-integrante de uma república de garotas, Kay é também fundadora do programa nacional de laitura para crianças e adolescentes Great Scavenger Hunt Contest e anfitriã do inspirador projeto de internet Living Your Five.
Ela espera que A Sociedade Cinderela, seu primeiro romance, venha a inspirar leitoras a seguirem sua Cindy interior.

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