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11 de agosto de 2014

a cor do leite, de Nell Leyshon e Bertrand Brasil

a cor do leite (the color of milk)
Nell Leyshon - Bertrand Brasil
Tradução: Milena Martins
368 páginas - Ano: 2014 - R$25,00

Sinopse:
"indicada aos principais prêmios literários do planeta, tendo grande repercussão na mídia norte-americana e na europeia, nell leyshon surpreendeu a todos com a cor do leite. a protagonista mary apresenta uma história sensível de superação e de coragem, com um final que vai chocar até o mais frio dos leitores.
1831. uma menina de 15 anos decide escrever a própria história. mary tem a língua afiada, cabelos da cor do leite, tão brancos quanto sua pele, e leva uma vida dura, trabalhando com suas três irmãs na fazenda da família. seu pai é um homem severo, que se importa apenas com o lucro das plantações. contudo, quando, mesmo sem querer, é enviada ao presbitério para cuidar da esposa do pastor, mary comprovará que a vida podia ainda ser pior.
escrito em primeira pessoa e todo em letras minúsculas, o texto possui estrutura típica de quem ainda não tem o pleno controle da linguagem. a jovem narradora intercala a história com suas opiniões – considerados por alguns críticos os trechos mais angustiantes da obra."

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Resenha:
Ao ler a sinopse, senti atração pelo livro; queria lê-lo imediatamente. Logo que recebi o exemplar, gostei muito mais em mãos. A capa é acolchoada, com título em relevo, e a imagem é um vislumbre da protagonista. Possui o mesmo artifício do conteúdo: Não mostrar tudo, esconder fatos, segredos do leitor. Assim como Mary não possui rosto na capa, o livro guarda um suspense discreto e simples. Por que Mary conta a sua história? Por que tanta urgência?
Decidi experimentar o livro, ler só um pouco, pois estava curiosa com a sua estrutura. Não resisti e li toda a história de uma vez.
Perceberam como o título do livro e a sinopse estão apenas em letras minúsculas? É proposital. Todo o livro é grafado desse jeito, e não incomodou a minha leitura. Quase escrevi a resenha assim, mas alguém poderia achar que "esqueci" das maiúsculas. Além disso, não existe organização nos diálogos, estão sem aspas ou travessões. A narrativa em primeira pessoa é uma das mais íntimas e diferentes que já li.
A diagramação do miolo segue o padrão da Bertrand Brasil. É básica, sem enfeites, com foco no texto. O livro mostra a história de Mary percorrendo um ano.
Ela escreve em 1831 tudo o que ocorreu em 1830 para mudar a sua vida. O relato é formado por reflexões pessoais e descrições dos fatos.

A protagonista é Mary, ou como ela escreve, "mary (m. a. r. y.)". Ela faz questão de enaltecer, como além de saber ler, escrever e soletrar, a importância de seu nome. É a necessidade de solidificar sua visão sobre si mesma, como pessoa, é uma autoafirmação. É repetitivo, mas ela tem justificativas para fazer isso: Desespero. Embora tenha sofrido tanto, não deixa de lembrar-se de que ela é Mary e é importante.
"meu nome é mary e eu aprendi a soletrar ele. m. a. r. y. é assim que escreve ele."
a cor do leite (the color of milk) é narrado por uma moça de 15 anos de idade. Ela foi alfabetizada recentemente e nunca frequentou a escola, ou teve acesso a qualquer tipo de informação ou conhecimento diferente da cultura rural e doméstica. Portanto, Mary não escreve bem. Ela possui uma língua afiadíssima, não consegue ficar calada, escondendo suas opiniões. Porém tem dificuldade em passar para o papel a confusão, o conflito e todo o caos que é agora sua cabeça. Um turbilhão de pensamentos sendo transcrito por uma moça recém-alfabetizada.
"eu levantei a voz e percebi que estava lendo mais rápido e nem precisava mais botar o dedo debaixo das letras."

Ela precisa contar tudo a alguém, então escreve para si mesma, na tentativa enlouquecida de desabafar, colocar para fora tudo que sempre guardou. A escrita é sua única liberdade.
"mas eu prometi pra mim mesma que eu ia escrever a verdade e as coisas que aconteceram, eu vou cumprir. e o meu cabelo é da cor do leite."
Então, como ela fala muito, mas não escreve direito, o livro possui uma narrativa peculiar, especial, marcada pela desordem gramatical e centralizando nas ideias, sentimentos e pensamentos da Mary. A falta de vírgulas é intensa, simbolizando não apenas a alfabetização recente, mas também a correria para narrar / escrever a história.
Pensei que teria problemas para me adaptar aos "erros" e linguagem frágil. Mas ocorreu o contrário: Ao começar a compreender o ponto de vista de Mary, sua personalidade, e a sua situação social, me comovi. A forma como ela escreve, a precariedade, a intensidade, e todos os acontecimentos... Mas seus pensamentos e lembranças voam. Como passar rapidamente para o papel tanta coisa, tanto sentimento? É mais fácil pensar e falar do que escrever.
A escrita da moça, além de fraca, é desesperada e emocionante. Ela não tem tempo. Precisa escrever muito rápido, está muito nervosa e precisa soletrar e pensar bem em todas as letras, palavras, frases. Então, esses são os motivos da desordem.
Tudo se une e contribui para criar um elo forte entre leitor e narradora, de carisma irresistível.

Para uma "garota da fazenda" de 1830, na Inglaterra, a vida não era fácil. A sociedade era extremamente preconceituosa, machista e patriarcal. Seu pai era intolerante e violento. A mãe, sempre omissa, submissa e frustrada. Não criei afeição por eles, mas sei que, embora não justifique, ambos carregam o histórico sociocultural rural padrão da época. Na verdade, todas as demais personagens.
"a bíblia está lhe dizendo para abrir o seu coração e se doar. mas eu não tenho mais nada pra oferecer, eu respondi.
eu dei tudo que eu tinha."
"faz ele parar com isso, eu gritei pra mamãe. não, a mamãe respondeu. de quem é essa fazenda? quem é o homem aqui?"
Mary, a menina com cabelos e pele da cor do leite, não sabe como é viver fora da fazenda e nem como seria ficar um minuto sem trabalho. Ela e as três irmãs mais velhas são superexploradas pelo pai no serviço pesado da propriedade. As moças não são tratadas como pessoas, e sim, mão-de-obra. São escravas da vontade e ordens do pai. Elas não têm voz. Mas a menina da cor do leite, tão diferente, não se cala. E sofre por isso.
A ironia do avô e a simplicidade do campo distraem a vida restrita de Mary. Com um mundo tão pequeno, a natureza e as poucas conversas com o avô inválido, iluminam o cotidiano sofrido de Mary.
Sem relógio e com muitas regras sufocantes, Mary descobre que sua vida está mudando drasticamente.
"a empregada deles foi embora e eles não conseguiram outra. ele me perguntou se eu não podia dar uma de vocês.
e o senhor disse que sim."
Se guiando pelo clima, Mary conhece apenas o ano. Então o livro é dividido em partes, apenas nomeadas como as estações climáticas. É assim que o tempo passa para Mary. Então o livro não possui capítulos, apenas pausas. A cada início de estação, Mary repensa o motivo de contar a história e acrescenta mais suspense.
"esse é o meu livro e eu estou escrevendo ele com as minhas próprias mãos. é o ano do senhor de mil oitocentos e trinta e um."

Destaque para duas coisas: Mesmo "o livro da mary" tendo  uma "escrita frágil", é notável a evolução literária de Mary; mesmo sem estudo, ela é esperta, então consegue criar artifícios que surpreendem ao término da leitura - mesmo sem ser intencional. O importante é conseguir transmitir seus pensamentos e concluir o objetivo de escrever seu próprio livro.
Ela é uma das protagonistas mais sinceras, naturais e verdadeiras que já encontrei na ficção. É realista, direta e muito simples. Essas características influenciam diretamente a narrativa, tornando-a crua, singela e, apesar do sofrimento e da dor, incrivelmente delicada.

Com uma narrativa única e fiel à protagonista, o leitor é o ouvinte de confissões secretas e de um relato dramático. Com simplicidade, sinceridade e delicadeza, Mary conta todo o sofrimento de ser mulher, inferiorizada e controlada pela sociedade machista. Mary se supera e demonstra uma força inabalável contra as injustiças e castigos. Aos poucos seus horizontes se ampliam e ela se sente deslocada.
A menina da cor do leite que jamais se cala, consegue sua última chance de relatar os abusos sofridos e se libertar da dor. A liberdade vem através do poder da escrita.
O livro começou interessante, aparentemente lento. Cenários campestres, vidas simples... Mas sem perceber, a história tornou-se envolvente. Eu consegui me sentir como a Mary. Eu sofri por toda a censura, as restrições, a desvalorização, a inferiorização... Maltratada, desiludida, presa e obrigada a pensar como a culpa é dela, por ser... mulher, por ser... Mary. Uma moça com o potencial desperdiçado.
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Sufoquei e desejei com tamanha intensidade um "felizes para sempre" para Mary. Senti tristeza pelo tratamento tão desumano e injustificável.
O livro possui um final avassalador, realista e imprevisível. O grande segredo é preservado até a última página. Vale a pena esperar!
Conheça Mary, a menina simples e inocente, que carrega nos cabelos e pele a cor do leite, e mesmo sem saber como, escreveu um livro emocionante com as próprias mãos. Letra a letra. Dor a dor.
Não me esquecerei jamais dela: m. a. r. y.

A autora:
Nell Leyshon nasceu e vive atualmente em Dorset, na Inglaterra. É romancista e dramaturga. Seu primeiro romance, Black Dirt, publicado em 2004, foi indicado ao Orange Prize e ficou entre os finalistas do Commonwealth Book Prize.
Entre suas peças, estão Comfort me with Apples, que ganhou o Evening Standard Award, e Bedlam, que em 2010 fez com que se tornasse a primeira mulher a escrever uma peça para o Shakespeare's Globe, um programa internacional de incentivo à disseminação da obra de Shakespeare.
Nell Leyshon escreve para a BBC Radio 3 & 4 e ganhou o Richard Imison Award por sua primeira peça escrita para o rádio.
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