Pesquise no Leitora Viciada

22 de agosto de 2014

Nosferatu, Joe Hill e Editora Arqueiro

Nosferatu (NOS4A2)
Joe Hill - Editora Arqueiro
Ilustrações: Gabriel Rodríguez
Tradução: Fernanda Abreu
624 páginas - Ano: 2014 - R$49,90 (impresso) e R$24,99 (e-Book).

Sinopse:
"Victoria McQueen tem um misterioso dom: por meio de uma ponte no bosque perto de sua casa, ela consegue chegar de bicicleta a qualquer lugar no mundo e encontrar coisas perdidas. Vic mantém segredo sobre essa sua estranha capacidade, pois sabe que ninguém acreditaria. Ela própria não entende muito bem. 
Charles Talent Manx também tem um dom especial. Seu Rolls-Royce lhe permite levar crianças para passear por vias ocultas que conduzem a um tenebroso parque de diversões: a Terra do Natal. A viagem pela autoestrada da perversa imaginação de Charlie transforma seus preciosos passageiros, deixando-os tão aterrorizantes quanto seu aparente benfeitor.
E chega então o dia em que Vic sai atrás de encrenca... e acaba encontrando Charlie.
Mas isso faz muito tempo e Vic, a única criança que já conseguiu escapar, agora é uma adulta que tenta desesperadamente esquecer o que passou. Porém, Charlie Manx só vai descansar quando tiver conseguido se vingar. E ele está atrás de algo muito especial para Vic.
Perturbador, fascinante e repleto de reviravoltas carregadas de emoção, a obra-prima fantasmagórica e cruelmente brincalhona de Hill é uma viagem alucinante ao mundo do terror."

Links: Arqueiro | degustação | Skoob | comprar

Resenha:
A origem da palavra "nosferatu" é incerta. O público a conhece como título de um filme alemão (1922, refilmado em 1979), baseado no livro Drácula , de Bram Stoker (1897). A teoria mais aceita é que a expressão veio do leste europeu e com o passar do tempo serviu para designar "vampiro", "morto-vivo" ou "portador de praga".
Joe Hill se apodera da ideia complexa da palavra para recriar o mito de mortos que vivem eternamente, sustentados por combustível humano. Ao mesmo tempo, ele homenageia os primórdios da ficção vampiresca moderna, tanto Drácula como Nosferatu.
Neste livro, NOS4A2, expressão diretamente ligada ao vilão Charlie Manx e seu valioso Espectro. Esqueça vampiros que vivem de sangue humano; neste livro, eles vivem da mistura de felicidade e inocência.
Atualmente, parece que a ficção e mitologia relacionada aos vampiros entraram em colapso, com tantas histórias repetitivas e sem criatividade. Para muitos admiradores dos vampiros, o ideal é manter os clichês e a tradição para uma obra ter boa qualidade. Porém, assim como eu, muitos leitores estão entediados com o tema. Tanto que estou fugindo de tramas com vampiros. Mas Joe Hill foi ousado e cem por cento inovador. Então eu dei uma chance ao seu livro Nosferatu e tive uma das melhores leituras dos últimos tempos. O autor reformulou tanto que nem parece ser um livro com o vampirismo como base, pois esta está bem escondida.

É uma obra de ficção fantástica, especificamente sobrenatural. Em nenhum momento o autor perde a ironia, com um leve bom-humor, mesmo nos momentos mais sinistros (maioria) e sentimentais (sim, tem sensibilidade).
De início, pode parecer confuso classificar como terror ou horror. A perspicácia de Joe Hill recria o nosso mundo, construindo pontes mentais e labirintos psicológicos que interligam tempo, espaço e percepção. Ele consegue transformar o surreal e bizarro em algo perfeitamente normal e cotidiano; convence o leitor que seu mundo imaginário é palpável.
As dimensões não parecem paralelas, parecem reais. Invenção ou realidade?
A fantasia passa a existir quando concretizada. Se alguém imagina ou sonha com uma ideia e a escreve, desenha, pinta, esculpe, etc... Ela passa a existir, não é mesmo? A fantasia de alguém pode ser publicada em forma do livro, tornando-se objeto sólido. Um prédio imaginado por um engenheiro (fantasia) se torna real após a construção (realidade). E por aí vai...
É esse o princípio do enredo: Se uma coisa é capaz de existir no pensamento, ela pode vir a existir também na vida real. Outro fator importante é que muitas pessoas possuem válvulas de escape para fugir um pouco da realidade e rotina e mergulhar na fantasia. Pode ser algo que se faz ou um objeto que leva à ação.
Algumas pessoas podem ser tão criativas e intensas ao ponto de transportar suas ideias do imaginário ao real e fazê-las concretas. Mas até onde é criatividade e não loucura? A divisa entre a imaginação e insanidade é estreita.

Vic é uma criança que se sente melhor ao escapar da realidade problemática. Ela sobe na sua bicicleta e pedala para esvaziar a cabeça das brigas dos pais. Alcançando velocidade pelo bosque de pinheiros, ela consegue atravessar uma ponte e encontrar sempre o que procura. É misterioso, inexplicável, mas funciona. O problema é que ninguém mais consegue ver essa ponte e após o retorno, seu olho esquerdo dói e ela fica febril. A menina não entende como isso é possível e não sabe o que é sonho, invenção ou real.
Manx é um homem com idade indecifrável que viaja com sua relíquia, um Rolls-Royce, o carro da capa do livro. Ele domina a habilidade de criar pontes, estradas e mundos mentais. Molda a realidade e leva crianças sofridas para seu próprio mundo, a Terra do Natal, onde a felicidade é a lei. O problema é que as crianças se tornam felizes demais, ao ponto de perderem a personalidade. E Manx também tem um efeito colateral, mas diferente do de Vic.


Veículos são poderosos para transportar mentes e corpos. Saem do lugar, carregam coisas e pessoas; uma ótima forma de fugir da rotina. Mas as pessoas podem concentrar o poder de fantasiar em outros objetos, não apenas veículos. É um dos pontos mais legais do livro.
Um dia, Vic sai à procura de encrenca e encontra Manx, o homem que rouba as crianças para seu mundo interior. A Raleigh de Vic cruza com o Rolls-Royce de Manx. A protagonista descobre que a Terra do Natal é tão real quanto a sua ponte e viajar entre locais psicológicos é mais perigoso que qualquer outra coisa.
Todas as personagens são incrivelmente moldadas. O Homem da Máscara de Gás e a Bibliotecária são tão fascinantes, pois foram criados para trazer incontáveis sentimentos ao leitor. Wayne e Lou enriquecem o livro. Ah, e o Espectro - ele é personagem também!

A estrutura do livro é brilhante e contribui com a organização da história e da criação do clímax. Interliga pessoas, detalhes e lugares. Assim como as viagens em pontes ou estradas, os locais são muito importantes. A Casa do Sono, a Casa do Sino, a Terra do Natal, a casa do lago... O lugar em que a história se desdobra é tão importante que quase sempre dá nome ao capítulo ou é a primeira palavra dele.
O livro é dividido em partes, conforme a data; e os capítulos em locais. Lugar, tempo, movimento. É uma história ágil. Os anos se passam e Vic cresce. Sua transformação é radical, mas gradual, e o leitor acompanha. Por isso o livro pode parecer extenso, mas os acontecimentos não param e a leitura é dinâmica.
Destaque para as incontáveis referências e homenagens pops, cults, nerds. Vai desde Supermáquina até Game of Thrones. Fãs mais atentos encontrarão até mesmo itens de Stephen King, pai de Joe Hill, e de A Estrada da Noite, de sua própria autoria. Uma personagem leva o nome de sua mãe.
A trilha sonora é obviamente natalina, deixando os clássicos de Natal muito assustadores.
O final é arrepiante e me deixou muito satisfeita. Foi uma mistura de felicidade e tristeza, e merecedor de aplausos.
Joe Hill mostra que, assim como o pai, entrou para a lista de melhores escritores da ficção sobrenatural da atualidade.

Meu ingresso: Visitei a Terra do Natal!
Quem gosta de histórias de vampiros, lerá uma versão revolucionária; quem não gosta, apreciará esta singularidade. Fãs de surrealismo ou horror provavelmente classificarão Nosferatu como favorito.
O medo é um dos sentimentos mais poderosos, talvez o mais instintivo. Não me impressiono fácil com histórias de terror sobrenatural. O que me assusta mesmo é a realidade, então, não senti medo durante a leitura. Tenho medo é das pessoas, portanto histórias que me lembram do sofrimento real me deixam assustada, não histórias de vampiros ou zumbis.
Mas Joe Hill induz qualquer leitor a criar cenas e imagens espantosas, bizarras, estranhas. É formidável quando o escritor introduz a mente do leitor a utilizar as ferramentas textuais para criar e desenvolver cenários, personagens, fatos. Algumas cenas que criei ficaram gravadas na minha mente, impressionante. A criatividade do leitor viaja junto à obra do autor.
As ilustrações do livro são de XX, estão presentes no começo, no final e na abertura de cada nova parte.
É uma obra para quem aprecia histórias densamente psicológicas, complexas e inteligentes. Um livro em que a ação física e a mental estão intimamente unidas. Para leitores que fogem do comum e possuem a mente aberta.


Curiosidade:
O livro foi adaptado pela IDW Produtions em minissérie de histórias em quadrinhos. A arte é de C. P. Wilson III e o roteiro, claro, de Joe Hill. As ilustrações dessa resenha foram retiradas das HQs.

O autor:
Joe Hill já ganhou diversos prêmios por seus contos, incluindo dois Bram Stoker, o mais importante da literatura de horror. É autor de A Estrada da Noite e O Pacto e da coletânea de contos Fantasmas do Século XX, todos publicados no Brasil pela Arqueiro. O Pacto está sendo adaptado para o cinema e será protagonizado por Daniel Radcliffe.
Hill mantém um blog, além de escrever de forma muito ativa e inspirada no Twitter. Ele mora na Nova Inglaterra com a mulher e os filhos.


Instagram @leitoraviciada

Skoob

Online

Siga por e-mail