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5 de janeiro de 2016

Confissões de Inverno, de Brendan Kiely e Editora Arqueiro

Confissões de Inverno (The Gospel of Winter)
Brendan Kiely - Arqueiro
Tradução: Vera Lucia Ribeiro
224 páginas - 2015 - R$29,90
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Sinopse:
"À medida que sua família se desintegra, Aidan Donovan, um adolescente de 16 anos, procura consolo em estimulantes químicos, no estoque de bebidas do pai e nas atenções do padre Greg, o único adulto que realmente o escuta.
O Natal chega e seu mundo entra em colapso quando ele reconhece o lado obscuro do afeto que o padre Greg lhe dedica. Enquanto tenta dar sentido à própria vida, Aidan conta com o apoio de um grupo de amigos desajustados: Josie, a garota por quem se apaixona; a rebelde e espontânea Sophie; e Mark, o carismático capitão da equipe de natação.
Confissões de inverno mostra as formas pelas quais o amor pode ser usado como uma arma contra a inocência – mas também pode, nas mãos certas, restaurar a esperança e até a fé.
O corajoso romance de estreia de Brendan Kiely expõe o mal que os segredos mais profundos que guardamos podem causar e prova que a verdade liberta e abre caminho para o amor."

Resenha:
The Gospel of Winter (2014), livro de estreia do autor Brendan Kiely, foi publicado pela Editora Arqueiro em outubro de 2015. O exemplar nacional mantém a imagem original de capa, traz boas revisão e diagramação, orelhas, fonte simples e páginas amareladas.
Classificado internacionalmente como Young Adult (Jovem Adulto), aborda temas sérios envolvendo relacionamentos abusivos, ausência dos pais, pedofilia, dependência química, homossexualidade, primeiro amor e relação sexual, religião e vida social. Entretanto, não ultrapassa as barreiras de um livro juvenil. Sempre de modo delicado, mas profundo quando necessário, Confissões de Inverno pode ser sim uma publicação para os jovens. Porém acredito que a obra vá além: é um livro mais adulto, de questões pesadas e de linguagem mais madura que a da maioria de YA costuma apresentar. Por ser narrado em primeira pessoa, pelo protagonista de 16 anos, encontrei um estilo que parece pertencer mais a um narrador adulto que o adolescente mostrado na trama, que acompanha os noticiários com mais afinco que a maioria das pessoas e detém um vocabulário vasto e recheado de filosofia.


Aidan Donovan compartilha sua opinião sobre sua família e a sociedade que o rodeia, assim como seus sentimentos e dúvidas acerca de acontecimentos dolorosos. Solitário, carece de afeição; não possui amigos íntimos e seus pais ricos são recém-divorciados. O pai é duro e totalmente ausente, enquanto a mãe, mesmo sob erros, procura um rumo para sua nova condição.
Aidan possui voz melancólica, sarcástica e inteligente - e deve ser por isso que o rapaz aparenta ter mais idade, pois é maduro. Cansado da falsidade diária com que todos ao seu redor convivem, ele se questiona como conseguem sustentar máscaras conforme as situações cotidianas pedem.
Necessitado de atenção e carinho, Aidan os procura em Elena, governanta que trabalha há anos para sua família. É sua babá e uma presença materna mais forte que sua própria mãe. Outra pessoa que tem sido importante em sua vida nos últimos meses é o padre Greg, quem Aidan ajuda na contabilidade e afazeres gerais na Igreja Preciosíssimo Sangue.
Perdido em meio ao caos, abusa de drogas e álcool e aparenta ser o típico "pobre menino rico"; o adolescente problema, rebelde e inconformado. Isso foi o que pensei no começo da leitura. O início não parecia muito empolgante e quase pausei o livro. Não desisti porque é uma obra de poucas páginas. Não me arrependi e minha opinião mudou drasticamente após os primeiros capítulos. O autor sacude tudo, transformando a dor de Aidan em um trauma complexo e verdadeiramente triste.
Além disso, Aidan possui voz peculiar, de forte verdade emocional, diferenciando Confissões de Inverno dos muitos YA atuais.


É no inverno, durante uma festa de Natal, que Aidan passa a integrar um grupo de amigos, formado por seus colegas de escola Josie, Sophie e Mark. Josie é carismática e o interesse romântico de Aidan; Sophie é agitada e a melhor amiga de Josie; Mark, o capitão da equipe de natação, torna-se o melhor amigo de Aidan, mas logo o autor mostra conflitos intensos corroendo o rapaz, acrescentando muito à trama. São personagens que dão suporte ao protagonista.
Aidan seria um adolescente comum descobrindo amizades e o amor se não enfrentasse a ausência do pai e o vício em drogas e bebidas. Ele passa por um momento trágico, agregando mais dúvidas às suas questões existenciais. Aidan percebe que o afeto e o conforto dados pelo Padre Greg não são exclusividade sua e que seu conceito de amor está errado.
Busca então equilíbrio psicológico no conforto que seus novos amigos trazem, nas festas e bebidas (e drogas) de fim de ano; tenta fingir que nada negativo aconteceu; que ele não presenciou nem viu nada ruim na igreja. Ele tenta interagir mais com a mãe, demonstrando interesse em seu novo empreendimento. Procura frequentar a escola naturalmente, a estudar e a finalizar todas as lições de casa. O que fazer quando você ou alguém bem próximo sofre calado, sem poder se abrir? O que fazer quando o que parece certo pode ser humilhante e trazer ainda mais dor? Será que ignorar o problema faz dele inexistente? Se ninguém souber, pode significar que nunca ocorreu?
Até perceber que seu segredo sufocante não é exclusividade local, vai além de sua comunidade. Há mais casos, mais sofrimento, em diversos locais diferentes. A quem pedir ajuda, quando você se sente em total solidão e sem amor? Quando o problema vem de quem mais deveria ampará-lo e guia-lo? Alguém acreditará em você caso tenha acusações sobre uma pessoa respeitável, popular e querida?
As tentativas de Aidan de lidar com a dor são tristes. A negação, a vergonha, o medo, a procura por ajuda. E quando se descobre que as pessoas não podem fazer nada? Pior ainda é descobrir que não querem.


Esta foi uma leitura diferente e incrível. Começou um pouco monótona, mas imediatamente se mostrou comovente, questionadora e inquietante. É para fazer pensar, abrir o coração e criar empatia. É para tentar se colocar no lugar do protagonista, tentar enxergar e sentir o mundo sob sua perspectiva. E acima de tudo: Treinar essa empatia na vida real - a lição mais importante que a ficção provoca. Fiquei revoltada com os acontecimentos abusivos, principalmente por saber que estão por todo lugar.
O assunto principal de Confissões de Inverno é muito difícil de ser abordado, quanto mais desenvolvido em um livro de fácil acesso. Brendan Kiely, além de cativar, utiliza de sutileza e boa escrita ao expor o assunto em um livro agradável. Sofri e senti grande esperança, torci muito por um final feliz. A possibilidade de restaurar o amor, a confiança e a fé se faz presente.
O maior elogio é sobre a exposição do problema central. O autor foca no estrago psicológico, nas consequências, sem explorar o ato em si. São efeitos sociais, emocionais, físicos.
Confissões de Inverno apresenta um escândalo sem menosprezar as vítimas ou diminuir o problema; mostra como culpados e cúmplices são desumanos.
O livro deixa a mensagem de que devemos estar sempre atentos aos detalhes. Um sinal de mudança de comportamento, de silêncio ou de revolta, pode ser o iceberg de uma gravidade; nenhuma mudança surge à toa. O diálogo e a confiança devem ser praticados diariamente.
O autor foi ousado e corajoso na escolha do tema e habilidoso em seu desenvolvimento.

O autor:
Brendan Kiely é mestre em escrita criativa pela City College e seus artigos já apareceram em diversas publicações especializadas em ficção. Nascido em Boston, ele é professor do ensino médio e vive com a esposa no Village, em Nova York.
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