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4 de julho de 2016

A Rebelde do Deserto, de Alwyn Hamilton e Seguinte (Grupo Companhia das Letras)

A Rebelde do Deserto (Rebel of the Sands)
A Rebelde do Deserto - livro 1
Alwyn Hamilton - Seguinte / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Eric Novello
288 páginas - 2016 - R$34,90 (impresso) e R$23,90 (e-Book)
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SORTEIO de 11/07 a 02/08

Sinopse:
"O destino do deserto está nas mãos de Amani Al’Hiza — uma garota feita de fogo e pólvora, com o dedo sempre no gatilho. 
 O deserto de Miraji é governado por mortais, mas criaturas míticas rondam as áreas mais selvagens e remotas, e há boatos de que, em algum lugar, os djinnis ainda praticam magia. De toda maneira, para os humanos o deserto é um lugar impiedoso, principalmente se você é pobre, órfão ou mulher.
Amani Al’Hiza é as três coisas. Apesar de ser uma atiradora talentosa, dona de uma mira perfeita, ela não consegue escapar da Vila da Poeira, uma cidadezinha isolada que lhe oferece como futuro um casamento forçado e a vida submissa que virá depois dele.
Para Amani, ir embora dali é mais do que um desejo — é uma necessidade. Mas ela nunca imaginou que fugiria galopando num cavalo mágico com o exército do sultão na sua cola, nem que um forasteiro misterioso seria responsável por lhe revelar o deserto que ela achava que conhecia e uma força que ela nem imaginava possuir."

Resenha:
A Rebelde do Deserto é uma das grandes apostas de 2016 da Editora Seguinte, selo jovem do Grupo Companhia das Letras. É o primeiro volume da trilogia homônima e a obra de estreia da canadense Alwyn Hamilton. Em inglês, Rebel of the Sands foi publicado em março e chegou às livrarias brasileiras em final de abril, graças a rapidez incrível da Seguinte. A sequência, ainda inédita em inglês, é prevista para março de 2017. O título é Traitor to the Throne e torço para que chegue logo em seguida ao Brasil, porque A Rebelde do Deserto é maravilhoso e empolgante.
Além de publicar tão rapidamente, a Seguinte mantém o padrão de boa qualidade, com capa, contracapa e orelhas com detalhes metálicos em dourado, excelente revisão e diagramação (e creio que de tradução). O marcador destacável está na segunda orelha, conforme os colecionadores adoram. O miolo do livro possui páginas amareladas.
É um livro Young Adult (Jovem Adulto) de ficção especulativa; um épico de magia e aventura com protagonista feminina intensa. Esta é uma história de fantasia que foge do padrão eurocêntrico, apresentando ares da Arábia: Povos nômades, desertos intermináveis, oásis impressionantes, lendas de seres das areias.
A autora se inspirou de leve em mitologia árabe e crenças pré-islâmicas e as transformou em universo próprio: gênios poderosos (aqui seres como djinnis, demdjis e buraqis), lâmpadas mágicas (o ferro), ghouls (os carniçais), e os contos das Mil e Uma Noites. Acho que ela poderia ter explorado muito mais esse aspecto folclórico na ambientação de seu mundo, sem o receio de causar estranheza; poderia ter sido mais ousada.


A parte fantástica, embora surja desde o princípio, somente domina a trama e se expõe amplamente no último terço. Por isso será difícil esperar pela continuação; estou muito curiosa para saber o quanto a autora utilizará de um universo tão rico e pouco explorado nos livros atuais.
No princípio há buraqis e o uso do ferro para abrandar e reter a magia de modo geral. Aproximadamente após a metade da obra é que a autora deixa claro que a magia está espalhada e que pessoas aparentemente comuns possuem magia, superpoderes! Estes podem se tornar verdadeiras armas. Algo bem interessante como os X-Men da Marvel.
Os djinnis são seres primordiais imortais, feitos do fogo de Deus, com habilidades super-humanas como metamorfose física e manipulação mental; os demdjis são filhos de djinnis com mortais que herdam habilidades, tornando-se pessoas ligadas ao poder e calor das areias do deserto e carregando uma característica diferente na aparência. Não podem mentir, precisam tomar cuidado com o que dizem, pois profecias podem terminar em catástrofes e, principalmente, precisam preservar seus nomes verdadeiros ou correm o risco de sofrer controle por outras pessoas; os buraqis são também seres primordiais imortais, porém compostos por areia e podem ser transformados em carne e osso caso sejam capturados através do uso do ferro; os carniçais são filhos da Destruidora dos Mundos, monstros aterrorizantes que atacam a qualquer um na escuridão, podendo ser pesadelos, andarilhos.
Não é apenas de magia e lendas de que este livro é feito. Muitas armas de fogo, espadas e cimitarras complementam o cenário rodeado de perigos e ação. Em meio aos seres fantásticos, encontramos pessoas comuns armadas e guerreando em busca de poder, utilizando de violência e terror.


A narrativa é em primeira pessoa e sob o ponto de vista da adolescente Amani Al’Hiza. Ela é órfã e vive na casa de tios na Vila da Poeira, em condições áridas em uma área desértica isolada de tudo, menos das lendas e monstros noturnos. As areias do deserto já fazem parte de Amani. Vivendo em uma sociedade patriarcal e extremamente machista, desde cedo tornou-se uma garota do deserto com arma em punho, cultivando mira imbatível e coragem e ousadia em erupção. Sua válvula de escape é se disfarçar de garoto para participar de concursos de tiro ao alvo. Até chegar o dia em que encarará a realidade: Será entregue em casamento forçado a algum homem desprezível, portanto, Amani explode em rebelião e em uma situação não planejada e inusitada, parte para uma aventura perigosa e sem retorno.
Ao ingressar no Deserto de Miraji em companhia do desconhecido Jin, Amani descobre que lendas são reais, belas e assustadoras... e mortíferas. Ela percebe que muitas são histórias reais. Algumas até integram o cenário político. Figuras míticas são verdadeiras e lutam por seus ideais.
Amani penetra em um mundo desconhecido fascinante, porém prestes a eclodir em uma grande guerra. O sultão impõe um regime totalitário e feroz sobre os mirajins, se aproveitando dos poucos recursos e enriquecendo. Se alia aos vizinhos gallans fornecendo armas produzidas em fábricas e minas de ferro de seu povo sofrido.
Amani descobre que o mundo é maior do que jamais fora capaz de imaginar e se envolve com os rebeldes do deserto, liderados pelo príncipe herdeiro exilado Ahmed. A protagonista sofre mudanças psicológicas e experiências únicas, que a fazem amadurecer e a mudar seu jeito autoprotetor e egoísta. Ela percebe que a rebelião pessoal e seu espírito contestador e aventureiro se mesclam à causa dos rebeldes ("Uma nova alvorada, um novo deserto!"), transformando-a de Garota do Deserto a Bandida dos Olhos Azuis, a Rebelde do Deserto  e a... descubra!


As personagens impressionam, mesmo quando aparecem pouco. Destaque às personagens femininas Shazad, Delila e Hala. Espero que nos próximos volumes a autora as explore melhor, principalmente Shazad, de grande potencial. Cada uma à sua maneira rompe com imposições machistas e medo da sociedade. O elenco masculino também agrada e vai além de Jin e Ahmed, temos Noorsham e os gêmeos; mas os vilões Naguib e Dumas não demonstram muita personalidade.
As personagens são interessantes e causam muita curiosidade, porém o foco do livro paira sobre Amani e Jin. Existe uma faísca romântica, mas é apenas um ponto pequeno. Achei o romance descartável, por isso imagino que a autora provavelmente o explorará lentamente, para se tornar convincente, mas sem ofuscar a trama de ação e aventura.
Das demais personagens há pouco desenvolvimento, a maioria é apresentada no último terço do enredo. O lado positivo é que ainda há muito para ser mostrado nos próximos volumes, no entanto, as apresentações rumo à reta final são apressadas.

Suas motivações em busca de liberdade e justiça são nobres, mas será que todos os rebeldes continuarão com boas intenções?
Acho que faltou intrigas ao livro. Muitas coisas estão em jogo, muito poder, armas e magia e, por isso, esperei por conspirações, mentiras, sabotagens. A trama apresenta boas reviravoltas, especialmente quando se tem em mente que é juvenil e apenas o primeiro volume de uma série. A Rebelde do Deserto funciona como livro único, com trama completa, porém com ligações para a sequência.
Altamente recomendado para fãs de fantasia juvenil que desejam fugir do padrão europeu / norte-americano e buscam por protagonistas fortes e feministas. Amani é excelente; badass, resistente e rebelde por natureza, sempre humanizada. O centro da saga (com itens da Jornada do Herói) é seu desenvolvimento, como super-heroína e pessoa. São muitas surpresas!
Recomendado para quem leu e gostou de livros como Uma Chama Entre as Cinzas (Sabaa Tahir), Trono de Vidro (Sarah J. Maas) e A Rainha Vermelha (Victoria Aveyard).
Com certeza lerei a sequência!

A autora:
Nasceu em Toronto, no Canadá, e já morou na França e na Itália. Estudou história da arte no King’s College, em Cambridge, e atualmente vive em Londres, onde trabalha numa casa de leilão.
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