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5 de junho de 2015

Red Queen, volume 1: A Rainha Vermelha, Victoria Aveyard e Editora Seguinte (Companhia das Letras)

A Rainha Vermelha (Red Queen)
Red Queen - livro 1
Victoria Aveyard - Editora Seguinte / Companhia das Letras
Tradução: Cristian Clemente
424 páginas - 2015 - R$34,90
Lançamento: 16 de junho de 2015.
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Sinopse:
"Uma sociedade definida pelo sangue. Um jogo definido pelo poder. 
O mundo de Mare Barrow é dividido pelo sangue: vermelho ou prateado. Mare e sua família são vermelhos: plebeus, humildes, destinados a servir uma elite prateada cujos poderes sobrenaturais os tornam quase deuses.
Mare rouba o que pode para ajudar sua família a sobreviver e não tem esperanças de escapar do vilarejo miserável onde mora. Entretanto, numa reviravolta do destino, ela consegue um emprego no palácio real, onde, em frente ao rei e a toda a nobreza, descobre que tem um poder misterioso… Mas como isso seria possível, se seu sangue é vermelho?
Em meio às intrigas dos nobres prateados, as ações da garota vão desencadear uma dança violenta e fatal, que colocará príncipe contra príncipe — e Mare contra seu próprio coração."

Resenha:
Red Queen é o romance de estreia da Victoria Aveyard (primeiro volume da série homônima), publicado em inglês em fevereiro de 2015. A Editora Seguinte publicará a obra no Brasil dia 16 de junho e tive o prazer em receber um exemplar de prova antecipada, pois estava muito ansiosa pela leitura. Não incluo, portanto, itens gráficos e de revisão em minha avaliação. Porém posso elogiar a escolha da Seguinte em manter a capa original, ela emana significado, mesmo aparentando simplicidade.
Sob o título A Rainha Vermelha aqui, o livro também chegou excepcionalmente rápido a outros países e idiomas, mas por quê? Este young adult (jovem adulto) estreou em 1º lugar na lista do New York Times e permanece na lista até agora. Além disso, os direitos para os cinemas foram adquiridos pela Universal, com roteiro de Gennifer Hutchison (Breaking Bad) e produção de Benderspink (Efeito Borboleta) e Pouya Shahbazian (Divergente). É um fenômeno! E garanto que a obra vale tudo isso. Superou minhas expectativas.
A Rainha Vermelha é ficção especulativa voltada ao público jovem, mas recomendada para leitores de faixas etárias acima, desde que gostem de distopia contemporânea. É também fantasia sombria e épica, cheia de ação.
Possui itens de obras que eu adoro: Superpoderes (e preconceito) iguais aos em X-Men (Marvel Comics), intrigas e disputa pelo poder como em As Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones, George R. R. Martin) e uma pitada de A Seleção (The Selection, Kiera Cass). Encontrei ainda leve similaridade a Fúria Vermelha (Red Rising, Pierce Brown). Pensei que provavelmente A Rainha Vermelha me agradaria, mas iniciei a leitura um pouco receosa. Tive medo de sentir ausência de originalidade. Mesmo não muito inovadora na criação, porque é necessário observar sinceramente este fato, a autora é incrivelmente talentosa, com frases impressionantes e facilidade em escrever cenas de ação. A movimentação é, além de rica, cheia de vida. A trama é verdadeiramente contagiante e surpreendente, porque a autora pegou itens excelentes já existentes e os apresentou na melhor forma possível!

Me lembrei de Fúria Vermelha, que também é uma distopia, por causa dos dois grupos de humanos presentes em A Rainha Vermelha: Os vermelhos e os prateados. Fúria Vermelha apresenta castas divididas por cores e os ouros (como são chamados os integrantes da casta dourada, superiores fisicamente) estão no topo da hierarquia social, assim como os vermelhos formam a classe mais baixa. Em A Rainha Vermelha, os vermelhos são pessoas comuns, de sangue de coloração vermelha e capacidades físicas e mentais exatamente iguais as nossas. Já os prateados são diferentes. Possuem o sangue na cor prata, então, mesmo com tons de pele como os dos vermelhos, eles parecem visualmente frios, porque o sangue influencia na aparência. Eles literalmente sangram prateado e quando fazem esforço ou ruborizam, não ficam avermelhados.
A diferença principal não é a cor do sangue: os prateados possuem habilidades que os vermelhos não têm: Superpoderes! E se acham superiores.
É a parte inspirada em X-Men. Como se os prateados fossem os mutantes e os vermelhos, os humanos. Porém, o inverso ocorre; em X-Men os mutantes sofrem preconceito da humanidade que os teme, mas aqui são os vermelhos os excluídos socialmente. Na verdade, escravizados, humilhados, controlados... Desumanizados, enquanto que os prateados se endeusaram. Prateados controlam os vermelhos, vivendo no mais puro luxo, mantidos pelo trabalho ininterrupto dos desvalorizados e oprimidos vermelhos. "... aquela vastidão do mundo além do nosso país. Tudo dominado pelos prateados. Não há lugar para onde correr."
Prateados formam a elite, e as famílias mais nobres (e com poderes mais fortes) são divididas em Casas, cada uma com seu nome, cores e poderes. A autora classificou-os de acordo com as habilidades. Murmuradores (telepatas, leem e controlam mentes, se comunicam mentalmente), cantores (murmuradores mais fracos, porém de alto controle mental), telecs (o dom da telecinésia, ou seja, movem objetos através do pensamento), ninfoides (manipulam água), lépidos (super-rápidos), forçadores (superfortes), verdes (manipulam plantas), clonadores (se multiplicam), magnetrons (manipulam metais), ardentes (controlam o fogo), curandeiros (de dois tipos, curam feridas alheias ou se autoregeneram) e outros!

O mundo mudou, assim como as nações. A humanidade, antes de tudo, está separada em vermelhos e prateados. Entretanto, os humanos mergulharam em guerras e destruição, e impérios e nações colidem entre si, com a maior guerra já vista, iniciada há mais de um século. "É da nossa natureza. ... Destruírmos. É a constante da nossa espécie. Não importa a cor do sangue, os homens sempre cairão."
Poder, violência, conspirações, controle. A sede por conquistas rege os governantes prateados. Dentro da própria elite existe disputa e hierarquia. Reviravoltas fascinantes acontecem na maior parte do livro. "Todo mundo pode trair todo mundo" - frase que a heroína repete como um mantra mental é o lema da trama. E mesmo ciente disso, cai em armadilhas. Fui surpreendida pela autora! É isso que A Rainha Vermelha traz de As Crônicas de Gelo e Fogo.
O cenário é a nação monárquica Norta. No vilarejo vermelho Palafitas vive a protagonista Mare, uma jovem de dezessete anos. Ela é uma ladra, não uma aprendiz, portanto não tem a perspectiva de se tornar uma trabalhadora essencial quando se tornar maior de idade. Dessa forma, será obrigada a ir para a Guerra, como seus irmãos mais velhos. Vermelhos são usados pelos prateados no front como iscas, cobaias e escudo humano. Mare tem a companhia da família humilde e seu melhor amigo, o órfão Kilorn, a quem ela vive protegendo.
A família real está próxima, em sua casa de veraneio, o Palacete do Sol. De uma forma inusitada, Mare consegue um emprego, se torna criada do rei e conhece os prateados mais de perto, além do que viu nas arenas das Efemérides. São assustadores, terríveis e fabulosos, especialmente rei, rainha e príncipes com a frase "Força e poder!"Mare os odeia mortalmente.
Ocorre a Prova Real, a magnífica seleção onde jovens se apresentam e disputam a vaga de futura rainha. Impossível não pensar em A Seleção nessa parte. Mas prepare-se: É a escolha da noiva do príncipe herdeiro, contudo, a semelhança para nesse ponto. A princesa será escolhida de modo estarrecedor!
Nesse cenário político já confuso, surge a Guarda Escarlate, grupo terrorista rebelde vermelho que começa a atacar a elite prateada inesperadamente. Eles querem liberdade, mesmo que através de atos violentos ou imprudência. Essa parte da trama, também é fascinante: "Vermelho como a aurora". A rebelião realmente existe, o povo vermelho enfrenta e ataca a elite prateada e a nobreza responde com brutalidade. Os dois lados verdadeiramente se enfrentam. A ação é dramática.
E tem mais: Mare descobre que possui poderes. Sim, poderes como os prateados. Ela é vermelha, seu sangue é vermelho, como isso é possível? O mistério é lançado: O que é Mare? "Você agora é vermelha na cabeça, prateada no coração. ... até o fim dos seus dias, você precisa mentir."

O ponto de vista é completamente de Mare, a narradora da trama. Portanto, o leitor se perde junto a ela em um jogo fatal, desconhecendo as verdadeiras faces por trás de tantas máscaras.
A autora apresenta personagens complexas. Realmente gostei delas, particularmente do elenco principal: Mare, Cal, Maven, Farley, Evangeline, Julian, Kilorn, Elara. O livro possui uma lista respeitosa de personagens.
Temos dois príncipes interessantes na trama: "o fogo e sua sombra." Eles surpreendem bastante!
Um triângulo amoroso existe, assim como uma paixão proibida, mas é um fator leve e jamais prevalece no desenvolvimento da história. "Um dia ele saberá que sou sua inimiga e tudo isto não passará de uma lembrança do passado distante. Mas ainda não." Na verdade estou entediada com distopias juvenis com relacionamentos e triângulos amorosos. Estou cansada da questão sobre qual parceiro romântico a heroína escolherá, quando ela possui coisas bem mais importantes com as quais se preocupar. Em A Rainha Vermelha, a questão é mais em quem ela pode confiar do que com quem ela ficará! Não espere cenas românticas açucaradas.
É feminista, principalmente se pensarmos em obras de fantasia. A protagonista é humana, comete erros, mas é forte; e não prioriza se apaixonar, e sim, mudar seu mundo, revolucionar. Você pode alegar que já temos muitas distopias protagonizadas por heroínas assim (Jogos vorazes, Divergente, Legend) e é verdade. Contudo, A Rainha Vermelha apresenta um diferencial: As mulheres lideram a trama e os homens são secundários. Temos quatro mulheres arrasadoras em um só livro: Mare, a vermelha com poderes de prateada; Evangeline, a magnetron imponente; Elara, a rainha de Norta manipuladora; e Farley, a vermelha rebelde.

Mare nasceu vermelha, foi criada como tal e possui sangue vermelho. Então, por que ela tem agora poderes que apenas prateados apresentam? Obrigada a abandonar a família e o lar, ela passa a viver uma mentira atrás da outra para se manter viva, proteger seus entes queridos, ajudar a modificar a vida dos vermelhos e a derrubar a opressão e a desigualdade. Lutando contra adversários impressionantes e desconfiando dos aliados, Mare está em um mundo desconhecido. Sem saber se é prateada ou vermelha, ela descobre ser indefinível, diferente, a rainha vermelha.
Quando penso em Rainha Vermelha, logo a figura da personagem de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll) surge. Existe uma frase dela no livro Alice Através do Espelho: "Aqui neste país, Alice, você precisa correr o máximo que puder para permanecer no lugar." (tradução livre). Descobri que a Biologia possui uma teoria evolutiva intitulada A Rainha Vermelha, fundada por Leigh Van Valen em 1973. É uma metáfora que propõe que duas espécies na natureza coevoluem em situações de competição. Por exemplo, a presa precisa evoluir para escapar do predador e não ser extinta, portanto, corre mais rápido; mas o predador evolui juntamente, passando também a correr com maior velocidade. Elas evoluem, porém simultaneamente, então permanecem "empatadas". Por isso o nome Rainha Vermelha, elas "correm o máximo que podem sem sair do lugar, mas evoluindo". É uma teoria muito complicada e com várias subdivisões, mas achei interessante apresentá-la aqui, porque o livro de Victoria Aveyard, trata de evolução (Mare, vermelha e prateada ou algo mais?), competição entre subespécies (prateados e vermelhos) e mutação (superpoderes, sangue prateado...). Será que a autora conhece essa hipótese biológica baseada em antagonismo entre espécies?
Reflexões a parte, Victoria Aveyard apresenta uma história sobre preconceito, autoconhecimento, superação, violência, opressão e conspiração. É um entretenimento excelente, mas após o término da leitura reflita sobre como o preconceito é capaz de destruir vidas e mundos... e em como o poder e a ganância regem nossa História. Esqueça os superpoderes, o sangue prateado, o mundo fictício de A Rainha Vermelha e repare, por um momento, como a essência humana pode assustar e surpreender.
Ler o volume seguinte é minha prioridade, espero que a autora o publique em breve.
Essa série tem tudo para ser adorada pelos brasileiros. A Seguinte acertou novamente, ao acrescentar A Rainha Vermelha ao seu catálogo.

A autora:
Victoria Aveyard cresceu numa cidadezinha em Massachusetts e frequentou a Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles. Ela se formou como roteirista e tenta combinar seu amor por história, explosões e heroínas fortes na sua escrita.
Seus hobbies incluem a tarefa impossível de prever o que vai acontecer em As Crônicas de Gelo e Fogo, viajar e assistir Netflix.
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