Pesquise no Leitora Viciada

21 de maio de 2014

PDM, Stephen Wallenfels e Bertrand Brasil

PDM (POD)
PDM - livro 1
Sobreviver a um cerco alienígena é um feito. Sobreviver à humanidade é outra história.
Stephen Wallenfels - Bertrand Brasil
Tradução: Catharina Epprecht
280 páginas - Ano: 2014 - R$32,00

Sinopse:
"Megs é uma menina de 12 anos que nunca viu o mar. Esperta, com uma família complicada, ela mora na Pensilvânia e está indo para a Califórnia com a mãe para finalmente realizar seu sonho de conhecer a praia.
Josh está prestes a fazer 16 anos e vive com a família em Washington. Ele é um adolescente comum que não imagina o quão incomum sua vida poderá subitamente se tornar. 
Quando alienígenas invadem a Terra, Megs está sozinha, presa no estacionamento de um hotel em Los Angeles. Do outro lado do país, Josh está confinado em casa apenas com seu pai, um obsessivo-compulsivo, e Dutch, seu cachorro preguiçoso. 
A comida, a água e o tempo estão acabando. Será que Megs sobreviverá por tempo suficiente para encontrar sua mãe? Será que Josh e seu pai sobreviverão um ao outro?"

Links: Record | Skoob | degustação

Resenha:
PDM (POD) é o livro de estreia de Stephen Wallenfels e o primeiro da série em que ele trabalha no momento. O segundo possui o título em inglês Monolith (Monólito).
O título é uma sigla; não foi criada por algum governo, por alguma força militar, pela mídia ou por cientistas. É criada por um dos protagonistas pela sua ideia pessoal do que são as centenas (milhares!) de naves alienígenas que se espalham pelo céu. E é assim que o livro é: O ponto de vista de pessoas comuns, despreparadas e desinformadas sobre a invasão de naves negras assustadoras. Que cidadão estaria?
A capa da Bertrand Brasil é uma mistura de desolação e mistério, com destaque a uma das naves e... um ser humano. Não é um extraterrestre que assombra a capa, é a silhueta de uma pessoa.
A diagramação é dinâmica, com dois grupos de fontes diferentes - cada um para seu narrador.

É um livro jovem, mas não de tema fácil. PDM é uma trama carregada de pressão psicológica, drama e desespero. Mantendo um texto simples, cru e direto, o autor consegue expor a complexidade da natureza humana exposta a uma catástrofe totalmente sem explicações. Como os humanos reagem a um ataque alienígena?
Como a capa destaca: "Sobreviver a um cerco alienígena é um feito. Sobreviver à Humanidade é outra história." Se em PDM você já é sortudo, abençoado e vencedor (como preferir) por não morrer em um primeiro instante, será que sobrevive aos demais obstáculos? As outras pessoas, você mesmo, fome, sede, medo, violência... Tudo pode ser mais terrível que os alienígenas.
Assim como tem ocorrido com outros temas apocalípticos, principalmente zumbis, a questão como foco especial é sempre as atitudes das pessoas. O caos psicológico e a ética colocada em prova, assim como conflitos de razão versus emoção e a dúvida de se colocar em primeiro lugar para sobreviver mesmo atropelando os antigos princípios e leis de uma civilização que parece não mais existir. Aqui Stephen Wallenfels escolheu seres extraterrestres para ser o estopim dos conflitos pessoais e de relacionamentos.

A narrativa ocorre em primeira pessoa, porém sempre se alterna entre os protagonistas Josh e Megs. Cada capítulo possui um título dado pelo respectivo narrador e funciona como um relato do dia-a-dia após a chegada das naves invasoras. Ás vezes um acontecimento de grande impacto é brevemente contado sob as duas perspectivas.
Como Josh está prestes a completar dezesseis anos e Megs tem doze, a visão do livro é juvenil e leve, com boas doses de ironia. Uma ideia excelente do autor, projetar o peso da temática do livro em visões adolescentes e frescas. Não perde a importância, mas cria vigor e traz energia através dos relatos.

Não é o tipo de história de ação desenfreada e contatos de terceiro grau. Ironicamente a colisão de humanos com os aliens (ou os próprios) não é o eixo da trama. Parece uma contradição um livro sobre invasão extraterrestre não centralizar seu desenvolvimento nos atacantes, mas não é. O que faz de PDM uma história incomum é exatamente priorizar os sentimentos humanos e suas observações e pensamentos sobre a invasão e a luta pela sobrevivência.
O início do livro já apresenta a invasão. Com o ponto de partida alcançando a promessa da sinopse, o autor ganha pontos com o leitor, por não enrolar com introduções e apresentações. As naves já estão dominando todo o céu visualizado pelos protagonistas. Não os conhecemos e, aos poucos, o escritor vai nos familiarizando com os dois de modo prático e genuíno.
Não acredito que uma boa história necessite começar apenas após infindáveis explicações de quem é quem. Quase toda história realmente válida, em minha opinião, traz as respostas e explicações espontaneamente, devagar. E PDM é assim: Começa sem pretensões aparentes e encaminha o leitor a páginas cada vez mais autênticas abordando temas cada vez mais fortes.

O leitor observa semelhanças e contrastes entre as situações vividas por Josh e Megs e torce pelos dois.
Megs está em Los Angeles, Califórnia, enquanto Josh se encontra em casa, em Prosser, Washington. Eles não se conhecem.
Naves alienígenas chegam aos céus do planeta; ao menos nos locais em que os protagonistas estão, pois temos acesso apenas às informações deles, ao que eles veem! Adorei essa característica.
Todos que estavam nas ruas desaparecem em feixes de luz lançados pelas naves. O que acontece com essas pessoas? Quem tenta sair ao ar livre some dessa forma. Então as pessoas ficam presas em suas casas ou sob a proteção de outros locais.
À princípio Megs parece estar em uma situação pior: Ela está no carro com a mãe viajando a caminho da praia. Após um imprevisto, sua mãe a deixa sozinha no carro em um estacionamento de um hotel. As naves chegam e Megs precisa encontrá-la.
Josh está em casa com o pai e seu cachorro, o que logicamente deveria ser uma situação melhor, mas não é isso que acontece. A mãe não estava em casa e agora eles não sabem onde ela está.
Tanto Megs quanto Josh não sabem se suas mães estão vivas.

Megs sofre em solidão, sempre se escondendo e tendo que sobreviver por conta própria. É uma menina esperta e de família confusa, então ela não pensa muito no futuro, ela apenas age conforme a necessidade. É uma pré-adolescente forte e, no entanto, meiga.
Josh também sofre, mesmo com a companhia de seu pai e seu labrador. Ele não está por conta própria como Megs, mas isso não significa que seu drama é menor. Os conflitos que surgem entre pai e filho são essenciais para a história cativar o leitor, assim como a solidão de Megs.
Ambos sofrem por infinitas coisas, especialmente pelos desejos simples que não realizaram.
Apenas a base de "não poder sair de onde estão" já é uma situação horrível. Josh e seu pai não podem sair de casa; Megs não pode sair do hotel. Na verdade, ela se esconde nos carros do estacionamento, por medo do que possa vir a encontrar no edifício.
Dutch, o cão de Josh demonstra a calma e a inocência perante os fatos. Já as pessoas possuem preocupações exorbitantes.
Como agir sob a ameaça de uma invasão de naves espaciais desconhecidas e sinistras lançadoras de lasers apavorantes? Aonde foi parar a segurança, a polícia, o exército? Estaria isso acontecendo no mundo todo? Quando, como e por quê? E dúvidas mais imediatas e urgentes: Será possível uma próxima refeição? E quando a água acabar? Por quanto tempo será possível viver preso dentro de casa? Como sobreviver sem leis?
Algumas cenas, por mais descomplicadas que sejam, trazem momentos incríveis, mensagens profundas e encantamento literário. É admirável a forma como o autor cria e desenvolve os conflitos sem alarme e ainda assim consegue impactar o leitor. O silêncio pode ser mais desesperador que o barulho.

A história terá continuação, mas este livro é por si só uma etapa completa. Adorei o final, porque Stephen Wallenfels consegue encaixar várias surpresas e finalizar de modo inteligente. Estou muito ansiosa para ter a oportunidade de ver o volume dois publicado, é uma obra promissora.
Recomendo o livro para leitores que apreciam uma boa história sobre valores humanos, com toque muito leve de ficção-científica e com mensagens profundas. Ser fã ou não de histórias com extraterrestres não importa; é um livro para um público mais amplo e que aprecia a exploração das inúmeras reações psicológicas do ser humano quando colocado ao perigo máximo.
PDM é um livro de abordagem simples e estilo modesto, mas que contem drama, medo, desespero e morte. A trama é tensa, cruel e doce ao mesmo tempo.
Sob a visão de dois adolescentes o leitor acompanha o caos, a insegurança e o medo de um provável iminente fim da Humanidade.
Personagens perfeitas em seus papéis. Não é necessário contar dezenas de histórias paralelas para mostrar como a Humanidade reage e sofre. Com apenas dois protagonistas, Stephen Wallenfels consegue atingir e até mesmo ultrapassar essa meta: Mostrar os mais intensos temores e sonhos das pessoas.
O autor traz um dos mais firmes e antigos temores do ser humano: A dominação por outra espécie, o pânico e o receio de sofrer uma invasão alienígena e estar incapaz de se defender.
Com uma abordagem reciclada, PDM mostra a apreensão, a paranoia e o conflito de manter ou não a esperança. O maior terror pode não ser exatamente o que está no céu, mas sim quem está ao seu lado - ou você mesmo.

Booktrailer:



O autor:
Stephen Wallenfels nasceu em New Hampshire, Estados Unidos, e formou-se na Alliant International University, em San Diego. É diretor de marketing de uma grande academia de ginástica, mas sempre gostou de escrever. Começou sua carreira publicando artigos bem-humorados nas revistas Club Business International e National Racquetball. Mora em Washington com a mulher e, em seu tempo livre, gosta de acampar, escalar e praticar esportes.
PDM é seu livro de estreia, e o primeiro de uma série em que Stephen está trabalhando.
Site

Instagram @leitoraviciada

Skoob

Online

Siga por e-mail