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5 de maio de 2014

Splintered 1: O Lado Mais Sombrio, de A. G. Howard e Novo Conceito

O Lado Mais Sombrio (Splintered)
Bem-vindo ao verdadeiro País das Maravilhas.
Splintered - livro 1
A. G. Howard - Novo Conceito
Tradução: Camila José dos Santos
368 páginas - Ano: 2014 - R$29,90

Sinopse:
"Alyssa Gardner ouve os pensamentos das plantas e animais. Por enquanto ela consegue esconder as alucinações, mas já conhece o seu destino: terminará num sanatório como sua mãe. A insanidade faz parte da família desde que a sua tataravó, Alice Liddell, falava a Lewis Carroll sobre os seus estranhos sonhos, inspirando-o a escrever o clássico Alice no País das Maravilhas.
Mas talvez ela não seja louca. E talvez as histórias de Carroll não sejam tão fantasiosas quanto possam parecer.
Para quebrar a maldição da loucura na família, Alyssa precisa entrar na toca do coelho e consertar alguns erros cometidos no País das Maravilhas, um lugar repleto de seres estranhos com intenções não reveladas. Alyssa leva consigo o seu amigo da vida real – o superprotetor Jeb –, mas, assim que a jornada começa, ela se vê dividida entre a sensatez deste e a magia perigosa e encantadora de Morfeu, o seu guia no País das Maravilhas.
Ninguém é o que parece no País das Maravilhas. Nem mesmo Alyssa..."

Links: Novo Conceito | Skoob | degustação | comprar | entrevista com Alyssa

Resenha:
Sempre gostei da obra de Lewis Carroll. A cada etapa de minha vida eu interpretei o clássico O País das Maravilhas / Alice No País do Espelho de uma nova forma, sob um novo olhar. No entanto, apenas muito tempo depois pesquisei sobre a vida de Carroll e as origens de sua inspiração. Foi um choque descobrir que Alice Liddell realmente existiu. Inicialmente o livro fora intitulado Alice Embaixo da Terra - bem de acordo com a versão em O Lado Mais Sombrio onde o País das Maravilhas é povoado de seres intraterrenos psicodélicos.
Quando criança eu assistia a versão do longa animado da Disney. Me empolguei bastante com o filme do Tim Burton e novamente visitei esta terra fantástica. Gosto de cada uma dessas versões por motivos diferentes.
Então quando li a sinopse de O Lado Mais Sombrio, o primeiro volume da série Splintered da autora A. G. Howard a chegar no Brasil em abril pela Novo Conceito, instintivamente me animei muito!

O título é instigante (fiquei muito animada com a ideia de ler uma versão sombria do País das Maravilhas) ainda mais com o slogan "Bem-vindo ao verdadeiro País das Maravilhas." - como não imaginar o visual exótico do filme de Tim Burton aliado a esta premissa? É esse o clima tecido pela autora.
Criei enormes expectativas em relação ao livro, tentando imaginar os caminhos a serem seguidos... Imaginei uma versão mais adulta e moderna e, óbvio, sombria.
A capa é linda, eu adorei Alyssa se fundindo às plantas e insetos, com um olhar discretamente insano em um rosto jovem. Foi essa a ideia que tive ao ver a capa.
A diagramação do livro está muito bonita. A cada início de capítulo uma página parcialmente desenhada, com detalhes que combinam com a malha de plantas emaranhadas da capa. Em todas as páginas há um desenho pequeno na marcação numérica das páginas.

A narrativa é em primeira pessoa, feita pela protagonista Alyssa. A princípio me encantou o fato de Alyssa ser uma adolescente com características marcantes: Ela possui um estilo alternativo; um visual gótico e grunge, é skatista e trabalha em uma loja / brechó com roupas e acessórios diferentes. Ela possui um visual incomum, prendendo apliques coloridos ao cabelo platinado (o pai não deixa que o pinte), maquiagem pesada e roupas um tanto chamativas. É uma artista plástica, criando painéis bizarros com cenários estranhos. Cenas montadas com material artístico mesclado à insetos e plantas mortos. É mórbido, mas bonito. São cenas extraídas de seu subconsciente / sonhos.
Pensei que Alyssa seria uma moça curiosa e rebelde, mesmo sendo melancólica devido ao problema familiar. Na sinopse diz que "ela ouve os pensamentos de animais e plantas", mas na verdade o correto é "insetos e plantas". Esse dom ou maldição está presente em todas as descendentes diretas de Alice (sempre do sexo feminino). Ela é a tataraneta de Alice e sua mãe, Alison, está internada em um sanatório.
Achei meio sem sentido a família manter os nomes semelhantes ao de Alice, já que consideram esse dom uma maldição terrível (Alice - Alicia - Alison - Alyssa). Por que manter o padrão de nomes se elas não se orgulham dessa loucura?
Como Alyssa decide por conta própria buscar a Toca do Coelho, mesmo sem alternativa, pensei que assim seria a protagonista: Cheia de atitude. Para salvar a mãe da insanidade total (e a si mesma, já que ela prevê que sua vida será igual), ela procura a entrada para o País das Maravilhas baseada em frágeis pistas dadas pela mãe.
Ela é uma protagonista manipulável, submissa e passiva. Se deixa levar pelos acontecimentos e todos ao seu redor. É salva constantemente pelo amigo. Não é firme nas decisões e não me conquistou, mesmo tendo uma atitude nobre.
Pois até isso é questionável: Ela quer quebrar a maldição pela mãe ou somente por temer seu futuro? Fiquei em dúvida sobre sua real postura.

A autora desenvolve a parte visual e gráfica da ambientação, figurino e personagens de modo magnífico, mas não é tão forte no desenvolvimento da personalidade. A. G. Howard não mantém o perfil criado para cada personagem.
Os figurantes e personagens secundárias no mundo real só existem porque precisam estar lá; já as do outro mundo são bem mais interessantes, porém mais por seu visual que por si próprias. Ou seja: São interessantes porque são exóticas em seu aspecto físico.
Jeb, o melhor amigo de Alyssa é a personagem mais desinteressante do livro. O livro melhora incrivelmente quando ele sai de cena. Todo o tempo sem o rapaz permitiu um desenvolvimento mais amplo e agradável da história.
Ele é inconstante e insuportavelmente superprotetor, chegando a sufocar o destaque que Alyssa merecia ter como protagonista. Se eu fosse a autora nunca o teria levado junto de Alyssa ao mundo intraterreno. Por que achar que a heroína precisa de um romance? Por que seguir esse padrão Young Adult? Em O Lado Mais Sombrio isso seria dispensável.
Até porque temos Morfeu, nativo do País das Maravilhas que sempre esteve presente nos sonhos de Alyssa, treinando-a para sua missão. Uma personagem enigmática. Não se sabe se ele é herói ou vilão. Talvez um meio-termo? Me interessei instantaneamente por ele e torci para ser um ponto forte do livro. Até certo ponto, ele é. Sedutor, atraente, exótico, misterioso e até mesmo sinistro.
Mas a autora peca ao transformá-lo em uma caricatura. Eu o imaginava mais firme e perigoso.

Outro erro é a perda de tempo com um triângulo amoroso descartável, enquanto a história já possui uma premissa fabulosa.
Os cenários são incríveis. A ideia de maldição passada de geração para geração também. A missão a ser cumprida por Alyssa é supercriativa. Por que perder tempo com um triângulo amoroso clichê e previsível se a autora tem uma história por si só tão fantástica? Por que cair na mesmice quando se tem a mágica do inusitado e diferente em mãos?

O ponto positivo do livro: A escrita da autora. Ela possui uma qualidade poderosa: Consegue descrever ambientes e seres como poucos autores conseguem. A riqueza nos detalhes é incomum, maravilhosa. A criatividade dela parece ilimitada! O visual das personagens, principalmente dos habitantes do País das Maravilhas é um tesouro literário. É uma reinvenção desse mundo bizarro que parecia defasado.
A autora consegue recriar tudo e manter-se fiel a ideia sombria. Sim, ela repagina personagens clássicas, acrescenta outras muito interessantes visualmente e cria os melhores cenários que o País das Maravilhas sombrio poderia ter. Ela mostra que esse reino pode ser assustador e belo ao mesmo tempo. É povoado por monstros e seres deformados encantadores. A loucura é marcante, desde "o tempo que corre para trás" assim como os banquetes insanos onde o prato principal quer ser devorado!
A autora tem o dom natural de passar para o papel o que sua magnífica imaginação cria. Precisa apenas arriscar mais. Ela pode ser mais ousada e espero que tenha feito na continuação (Unhinged).
Alyssa melhora como protagonista na parte final do livro e eu torço para que a autora a tenha mantido assim no segundo volume. E Morfeu é uma personagem que pode acrescentar muito a trama.
A autora é criativa e ousada no visual e ideias, porém parece ter se prendido ao comum na hora do desenvolvimento. "Comum" é uma palavra que não deve existir no País das Maravilhas.
O destaque fica para a reviravolta sobre o motivo da maldição de Alice - Alyssa e o histórico familiar. É chocante descobrir a verdade. Esse mistério sinistro é o clima que eu tanto esperava encontrar na história.

O Lado Mais Sombrio traz uma ambientação ousada, diferente e muito bem executada pela autora de escrita supercriativa. É uma Fantasia Urbana surreal e gótica, recheada de cenários de tirar o fôlego. Uma reinvenção de um clássico muito utilizado em incontáveis versões. Uma inovadora e fresca recriação do País das Maravilhas com descrições ricas. No entanto, a autora não traz personagens fortes e não aproveita o poder que sua ideia original e premissa carregam. Ela desenvolve o enredo em uma sequência de erros e acertos que no fim deixa a balança equilibrada.

Booktrailer:



A autora:
O Lado Mais Sombrio é seu primeiro livro. O escreveu enquanto trabalhava em uma biblioteca escolar. Sua intenção é que seu tributo intrigante e psicodélico a Lewis Carroll inspire os leitores a se interessarem pelas histórias que ela aprendeu a amar na infância.
Anita é casada e mãe de dois adolescentes. Reside em Amarillo, Texas, Estados Unidos. Quando não está escrevendo, gosta de patinação, esquiar na neve, andar de bicicleta, de jardinagem e de estar em férias com a família.
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A série:
Unhinged é o segundo livro da série. Antes dele existe um e-Book (The Moth in the Mirror), que é o volume 1.5. O terceiro livro (ainda inédito em língua inglesa) possui o título Ensnared.





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