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20 de setembro de 2014

O Peculiar (The Peculiar #1), de Stefan Bachmann e Galera Record (Grupo Editorial Record)

O Peculiar
The Peculiar - livro 1
Stefan Bachmann - Galera Junior / Galera Record / Grupo Editorial Record
Tradução: Viviane Diniz
272 páginas - Ano: 2014 - R$32,00 - juvenil

Sinopse:
"Parte romance gótico, parte mistério e aventura steampunk. Após a invasão do mundo pelos seres mágicos, as fadas foram aceitas entre os mortais, mas os mestiços não têm lugar. Os irmãos Barthy e Hettie vivem com medo. Tudo piora quando Peculiares são encontrados, ocos, boiando no Tâmisa. Mas eles estão seguros em Bath, não? Talvez... Se não fosse pela misteriosa dama em veludo ameixa que aparece na vizinhança. Quem é ela? E o que quer?"

Links: Galera Record | degustação | Skoob

Resenha:
Acerto da Galera Record em manter a capa original, porque além de linda mostra o cenário da história e um pássaro mecânico, utilizado na trama. A imagem representa a Londres steampunk, que embora seja mágica, é totalmente mecanizada. As penas negras também são importantes, mas poucos animais sobrevivem nesse cenário.
O autor começou a escrever o livro com apenas 16 anos, mostrando-se um escritor promissor de juvenil fantástico. O Peculiar possui mais acertos que erros, o músico Bachamann pode ser um autor com boa carreira a caminho. Curiosamente, ele é dos Estados Unidos e reside na Suíça, mas sua história se passa na Inglaterra. Me parece que suas descrições de locais são bastante acuradas.

A ambientação é perfeita, definida. Três itens se fundem para criar o panorama de O Peculiar: Steampunk, magia e estilo gótico. A classificação ideal é: Fantasia urbana.
Os pontos clássicos do steampunk (subgênero da ficção especulativa) estão presentes: Era vitoriana, motores a vapor e aparelhos mecânicos. A sociedade é extremamente mecanizada e industrialmente desenvolvida. Londres está sobrecarregada, com o espaço disputado e o ar bastante poluído e cinzento. Dirigíveis, engrenagens, vapor e animais mecânicos compõem o painel.
O visual traz ainda uma pitada do gótico, principalmente na arquitetura e na aparência romântica da cidade. Além das sombras da metrópole movimentada e suja, O Peculiar carrega ainda um sentimento melancólico e triste.
A magia existe como coadjuvante no livro, porque seres fantásticos dividem o espaço com os humanos. As fadas, completamente diferentes do padrão tradicional, estão presas no mundo das pessoas, vindas de um portal em um tempo remoto. O termo fada se estende a vários tipos, como também gnomos.
Nesse meio, temos ainda os medonhos, metade-humanos e metade-fadas. São mestiços que ficam à margem de toda a sociedade - seja humana ou fada. Geralmente ficam escondidos e vivem como párias. Além de existir um clima de rivalidade e hostilidade entre pessoas e seres mágicos, os medonhos são discriminados. Não pertencem a espécie alguma, e, além disso, são considerados feios e exóticos.
O autor capricha nas descrições, deixando o leitor bem a vontade para compreender a trama e imaginar cenários e objetos. Acredito que o autor deva melhorar apenas na composição psicológica das personagens. Não que seja precário, mas se compararmos a habilidade natural de Bachamann em tecer locais, cenas e itens inanimados, os seres de carne e osso se tornam carentes.


O Peculiar é o primeiro volume da série infanfojuvenil The Peculiar, publicado no Brasil em maio de 2014 pelo selo Galera Junior, da Galera Record (Grupo Editorial Record). A diagramação, capa, revisão e toda a composição do exemplar estão em muito boa qualidade.
A história é dividida em 18 capítulos, com títulos numerados em algarismos romanos, que combinam com a época em que se passa a trama.
Embora seja um livro de classificação etária livre, ele não é bobo, é inventivo e com caracterizações criativas.
A narrativa é em terceira pessoa e se alterna entre duas personagens e seus pontos de vista: O protagonista Barthy e o co-protagonista Jelliby.
Barthy vive com a mãe e a irmã em um dos cortiços de fadas em um bairro pobre de Londres. Além de desfavorecidos financeiramente, eles não são bem-vindos na sociedade, porque Barthy e Hettie são filhos de mãe humana e pai fada. As crianças sofrem preconceito, como todas as outras mestiças. Hettie é notavelmente medonha, com visual extravagante e estranho. Por exemplo, de seu couro cabeludo não nascem cabelos, e sim, brotam plantinhas. Barthy ainda consegue ser visualmente um pouco mais "normal", mas qualquer um percebe que ele é meio-sangue, mesmo que não tão bizarro como a irmã.
Ele é o protagonista, que não é humano, nem fada, nem medonho. Ele é... Peculiar! Uma criança inquieta e inconformada com a situação das fadas e medonhos que vivem nos cortiços imundos e superexplorados pelos humanos.
Jelliby é adulto, humano. Casado, político e integrante do lado oposto da sociedade, vivendo relativamente em luxo e participando de diversos eventos importantes.

Inicialmente a narrativa mostra Barthy e Jelliby separadamente, cada um em sua classe. Ambos se deparam com situações estranhas e inusitadas, que não parecem ter ligação. Até que os caminhos deles se cruzam e os dois desconhecidos, que nada têm em comum, precisam interagir em uma grande aventura. Crianças medonhas estão sendo misteriosamente assassinadas e ambos se envolvem na procura pelo serial killer.
O vilão é bom, curioso e temível. As personagens secundárias deixam um pouco a desejar e Hettie merecia maior destaque (espero que aconteça no próximo volume). Os figurantes são fascinantes e significativos, ajudando a trama e os ambientes a se tornarem ainda mais envolventes e vivos.
A história começa muito bem e o enredo é desenvolvido de modo atraente e curioso. Somente a ação final não me agradou por completo. Não sei se o autor realmente planejou O Peculiar como uma série logo que começou a escrever, ou se foi uma ideia posterior. Portanto, o gancho deixado no final, para emendar na continuação, não me pareceu natural. Ele deixa o leitor curioso sobre o próximo livro, mas não senti ansiedade. Lerei a continuação, mas não é um sentimento desesperador.
A introdução e começo são excelentes, o meio é muito bom, mas o clímax e desfecho têm qualidade inferior. Não estou dizendo que o final é ruim, apenas que não é tão bom quanto a apresentação e desenvolvimento da trama.

O ponto forte do livro certamente é a capacidade de criação do autor e suas ideias, especialmente sobre aspecto, exterioridade e cenários. A parceria de magia com steampunk e uma pitada de estilo gótico é uma formidável combinação, ainda mais com o leve suspense a cerca dos assassinatos. Gostaria de ter encontrado só mais um pouquinho de magia, mesmo sabendo que o destaque é o steampunk.
Barthy é um protagonista encantador, curioso e corajoso. Hettie é a personagem secundária que gostei, tanto na aparência quanto na inocência e doçura. Já Jelliby poderia ser melhorado. A princípio eu o imaginei de uma forma, mas me surpreendi quando o autor finalmente o mostrou visualmente. Percebi que criei uma imagem drasticamente incorreta. Não gostei dele, senti inconsistência em sua personalidade. Já o vilão é bom, com intenções e motivações coerentes.
O desejo profundo de Barthy lutar para salvar Hettie é lindo, ele nunca imaginara que seu amor pela irmã fosse tão intenso. Assim como a amizade improvável que nasce entre Barthy e Jelliby, duas pessoas que provavelmente jamais teriam se conhecido, sob outras circunstâncias.
Algumas abordagens do livro são muito boas, como o preconceito, o medo do diferente e as divergências entre as classes sociais. Espero que o autor explore mais esse ponto, com melhores explicações sobre o porquê dos medonhos serem tão temidos.
O livro é uma boa escolha para leitores que desejam conhecer o steampunk, mas temem uma leitura pesada e complicada, pois O Peculiar é o oposto disso. Também recomendo o livro para leitores mais jovens que gostem de leitura especulativa, aventura e histórias diferentes.

A capa original do segundo volume:


O booktrailer (em inglês):



O autor:
Stefan Bachmann é escritor e músico. Nasceu no Colorado, Estados Unidos, e agora vive com sua família na Suíça. Ele está atualmente estudando composição na Universidade de Artes de Zurique, e escrevendo seu quarto livro.
Seu livro de estreia é O Peculiar, publicado quando ele tinha 19 anos de idade.

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