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27 de outubro de 2014

A Vida Secreta das Abelhas, de Sue Monk Kidd e Editora Paralela

A Vida Secreta das Abelhas (The Secret Life of Bees)
Sue Monk Kidd - Editora Paralela / Companhia das Letras
Tradução: Maria Ignez Duque Estrada
232 páginas - Ano: 2014 - R$29,90
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Sinopse:
"A adolescência de Lily Owens tem sido complicada. Ela não se lembra da morte da mãe, há mais de dez anos, e sua relação com o pai é mais que difícil. Em 1964, quando completa catorze anos, ela decide fugir junto com sua babá Rosaleen. Lily sai a caminho de Tiburon, a cidade que parece esconder alguma resposta sobre a vida de sua mãe. Chegando lá, ela e Rosaleen são acolhidas por três irmãs.
Aos poucos, Lily descobre um mundo mágico de abelhas, mel e da Madona Negra. Com a ajuda das irmãs Boatwright - August, May e June -, Lily tenta desvendar sua história. Será que ela conseguirá enfrentar os demônios de seu passado e se tornar uma jovem independente?

Resenha:
Após ter me apaixonado por A Invenção das Asas (The Invention of the Wings), publicado no Brasil em 2014 pela Editora Paralela (Companhia das Letras), me interessei pela obra mais famosa da autora. Sue Monk Kidd publicou (em inglês) em 2002 A Vida Secreta das Abelhas (The Secret Life of Bees). Em 2008 foi lançado o filme baseado no romance, com Queen Latifah e Dakota Fanning nos papéis principais. Em 2014 uma nova edição brasileira foi publicada, com a capa seguindo o mesmo padrão de A Invenção das Asas.
Pode soar fútil, mas adorei ter as capas combinando. Ambas possuem material acolchoado, mesmas fontes e silhuetas das personagens em primeiro plano. Embora simples, as imagens se adequam perfeitamente aos conteúdos dos livros, com delicadeza.
Meu primeiro contato foi com o filme, assistido por acaso e sem estar ciente de se tratar da adaptação de um livro. Após alguns anos afirmo que é uma boa versão, fiel à história original. Além disso, funciona por si só, é um filme válido, com excelentes atuações.
Por conhecer a trama, o livro não trouxe surpresas, mas mesmo assim foi uma leitura encantadora e especial. A obra é centrada em personagens femininas fortes e críveis,  a mesma característica principal de A Invenção das Asas.
Basicamente os mesmos aspectos são encontrados em ambos os livros, portanto, quem gosta de um certamente também apreciará o outro. A principal diferença é que achei A Vida Secreta das Abelhas uma leitura mais leve que A Invenção das Asas, não pela temática, mas pela própria escrita da autora. Talvez seja o resultado de uma narrativa de uma adolescente. Escolher contar a história em primeira pessoa trouxe frescor e suavidade ao drama presente, pois o ponto de vista jovem da protagonista transforma o sofrimento em esperança.


Também é uma história de época, ambientada na cidade sulista Tiburon, (Estados Unidos), do início dos anos 1960. O pano de fundo possui abordagem social, cultural e política. A autora não precisa retornar muito no tempo para mostrar a intensidade do racismo. Ela provoca reflexão no leitor sobre o quanto e o que mudou da metade do século XX para a atualidade. Além dos temas de preconceito e segregação racial, a autora apresenta a luta de negras. Ou seja, além da batalha pela igualdade racial, o fato da trama focar em personagens femininas ressalta que elas sofrem preconceito em dobro, não apenas pela cor de pele, mas também por serem mulheres.
Os negros eram considerados inferiores aos brancos e até mesmo em locais públicos a interação não era bem-vinda. Restaurantes, trens, praças, escolas... Em todos os locais brancos e negros eram separados, incluindo nas igrejas.
Interessante ressaltar que o mundo passava por constante mudança social, como o andamento de revoluções feministas e o movimento dos direitos civis. Além das mulheres e negros estarem em busca de igualdades, existia ainda grupos de mulheres pós-coloniais, livres na teoria e marginalizadas na prática. As negras propunham feminismos adicionais.
Então imagine o choque causado por brancos e negros vivendo normalmente na mesma casa, ainda mais se tratando de uma menina branca morando com mulheres que não são suas familiares. Mulheres solteiras, independentes e... negras. E o que pensam os moradores da pequena cidade ao perceberem que um rapaz negro anda frequentemente junto dessa adolescente branca? É o que ocorre em A Vida Secreta das Abelhas. Porém o livro traz mais.

Lily completou catorze anos de idade e uma década sem a mãe. Quase não tem lembranças dela e carrega a dúvida sobre como sua mãe faleceu. Embora presente durante a tragédia, Lily não se recorda dos detalhes.
Seu pai não é atencioso, amoroso e nem compreensivo. É o contrário, e bastante impaciente, machista e violento.
Na escola, Lily é inteligente, porém desanimada com o ambiente, pois não possui amigos. Deslocada, a jovem se apega a fantasiar sobre a mãe que não tem mais e sonha em se tornar professora ou escritora. Cria em seus pensamentos um mundo à parte, tentando superar a melancolia.
Mudanças ocorrem quando Rosaleen, a negra que trabalha para o pai de Lily, decide se registrar como eleitora. Uma sequência de acontecimentos levam ambas em fuga para o inesperado encontro com três irmãs negras que vivem na cidade onde a mãe de Lily vivera. A protagonista parte então esperançosa em descobrir quem a sua mãe foi de verdade.
August é criadora de abelhas e a dona de uma próspera produção de mel e itens derivados da colmeia, como velas e cera de abelha. June toca violoncelo e não pretende se casar. April perdeu a irmã gêmea e desde então não aguenta presenciar sofrimento ou desentendimentos. Juntas, as mulheres mudarão a vida de Lily para sempre.


Cada início de capítulo possui frases informativas sobre como as abelhas vivem e se organizam, fatos mostrados na prática durante algumas cenas. Muito interessante e discreto.
A autora apresenta ainda o culto a Virgem Maria de modo próprio. As mulheres, claramente excluídas tanto pelo sexo quanto pela cor de pele, voltaram sua fé para um símbolo feminino no decorrer das últimas gerações. Alguns leitores podem se entediar com a devoção delas à Maria, mas esta se encaixa perfeitamente no contexto e é importante para a compreensão das personagens e à necessidade delas. Apoiando-se umas nas outras, as mulheres tentam formar uma resistência inconsciente e se rebelam contra tabus sociais, enfrentando regras ultrapassadas e preconceituosas; buscam liberdade e igualdade.
É uma história bonita, curiosa e inspiradora, expondo o drama em níveis variados, prevalecendo o mais brando. Não faz chorar, mas comove o leitor de forma suave.
Possui uma singela e doce pitada de romance e de descoberta, tanto própria quanto do mundo. Lily presencia como o preconceito é prejudicial e, simultaneamente, como a injustiça quase sempre está presente no cotidiano. Ela descobre um novo mundo, mais amplo e real. Aos poucos, a menina entende que não deve desistir dos sonhos, mas precisa viver a realidade para conquistá-los!

Lily foi atrás de respostas sobre sua mãe e sobre que rumo dar a sua vida. Encontrou amor, fé, autoestima e o sentido verdadeiro da amizade. Descobriu que a cor da pele não importa; que as pessoas deveriam enxergar umas às outras do seguinte modo: Incolores.
Observando as abelhas, a adolescente aprendeu como a vida é repleta de sacrifício, dificuldade e muita, muita felicidade. Para se atingir um objetivo é necessário bastante trabalho.
O passado pode sempre pesar nas suas atitudes e pensamentos, mas jamais deve escolher por você. Em meio à dor e tristeza, sempre há um caminho doce como o mel, mesmo que uma abelha pique você.
Lily foi atrás de uma mãe, encontrou várias!

Confira também a resenha de A Invenção das Asas.

O trailer do filme:



A autora:
Sue Monk Kidd mora perto de Charleston, na Carolina do Sul.
Primeiro livro de Sue, A Vida Secreta das Abelhas ficou por mais de um ano e meio na lista de mais vendidos do New York Times e foi adaptado para o cinema em 2008.
Seu segundo romance, O Monge e a Sereia, que alcançou a primeira posição na lista de mais vendidos do New York Times, ganhou o prêmio Quill de 2005 para melhor obra de ficção e foi transformado em um filme para a TV.
Seu livro mais recente, A Invenção das Asas, também foi publicado pela Editora Paralela.

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