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14 de junho de 2015

A Curiosidade, de Stephen P. Kiernan e Verus Editora (Grupo Editorial Record)

A Curiosidade (The Curiosity)
Stephen P. Kiernan - Verus Editora / Grupo Editorial Record
Tradução: Paulo Ferro Junior
392 páginas - 2015 - R$39,00 - comprar

Sinopse:
"Um homem congelado há 100 anos volta a viver. Um thriller que mistura ficção científica, romance e os dilemas entre ciência e ética.
A cientista Kate Philo e sua equipe, em um projeto revolucionário de criogenia, fazem uma descoberta impressionante no Ártico: o corpo de um homem enterrado no gelo. O ambicioso chefe do projeto ordena que o homem seja levado para o laboratório, em Boston, e reanimado — o que é feito com sucesso. À medida que o homem começa a recuperar a memória, a equipe descobre que ele foi — ou melhor, é — Jeremiah Rice, um juiz, e a última coisa de que ele se lembra é a queda no oceano Ártico em 1906.
Unidos por circunstâncias além de seu controle, Kate e Jeremiah se tornam próximos. Mas o tempo está passando, e Jeremiah percebe que sua vida está mais uma vez em risco. Muito em breve Kate deverá decidir até onde está disposta a ir para proteger o homem que aprendeu a amar."

Resenha:
The Curiosity, publicado em inglês em 2013, é o primeiro romance do jornalista Stephen P. Kiernan, mestre em redação e em ficção com vinte anos de carreira, quarenta prêmios e dois livros de não ficção publicados. A Curiosidade chegou ao Brasil em abril de 2015 pela Verus Editora (do Grupo Editorial Record).
A capa apresenta um homem de costas, com roupas antigas, caminhando em meio a uma vastidão gelada e solitária. Esta, aliada a pergunta "E se você descobrisse que o amor da sua vida morreu décadas antes de você nascer?" provoca curiosidade acerca do enredo. Verifiquei a indicação da Verus como "thriller científico e romântico". O mais importante é que a história é emocionante e repleta de questionamentos sobre ética, amor, vida e morte.
No entanto, a base científica, embora mostrada e explorada pelo autor, não é sólida para A Curiosidade ser considerado um livro de thriller tecnológico, tampouco de ficção científica. As informações e detalhes que Stephen P. Kiernan traz não chega a igualá-lo a Michael Crichton ou Robin Cook, por ter um estilo mais leve. Então podemos observar que este não é um livro exclusivo para fãs de ficção científica. O público-alvo é formado por leitores apreciadores de histórias românticas, porém cientes de que o livro possui leve tom metódico e bom questionamento existencial. Abandonando rótulos e classificações, a obra é comovente, especialmente quando analisada sob o ponto de vista de Jeremiah Rice, o homem deslocado no tempo.
A premissa lembra um pouco o livro A Mulher do Viajante do Tempo (Audrey Niffenegger), a série literária Outlander (Diana Gabaldon) e o super-herói dos quadrinhos Capitão América (Marvel Comics). Em todos os exemplos encontramos personagens deslocadas no tempo, com dramas pessoais, suas adaptações e um envolvimento romântico atípico. No caso do Capitão América, ele também esteve congelado como o protagonista de A Curiosidade. Há ainda uma pitada de Frankenstein (Mary Shelley). Podemos apontar superficialmente que o Dr. Frankenstein é Carthage e o "monstro" é Jeremiah. Uma das personagens em A Curiosidade frequentemente se refere à Jeremiah como "Frank".

O livro é estruturado em cinco partes (interessante notar como se ligam diretamente ao estado do projeto) e poderia ser mais enxuto, de forma a deixar o texto mais ágil. O autor estica um pouco a trama, perdendo o clima de thriller em alguns momentos.
A narrativa é em primeira pessoa e se alterna entre as personagens principais; além de Jeremiah, o homem descongelado, temos capítulos narrados por Kate Philo, a Ph.D. em biologia molecular; Daniel Dixon, o jornalista especializado em publicações científicas; Erastus Carthage, o cientista e pesquisador criador do Instituto Carthage de Pesquisa Celular e, posteriormente, do Projeto Lázaro.
O revezamento de pontos de vista forma uma história linear e a intenção do autor é mostrar e justificar as atitudes e opiniões de cada uma das personagens a respeito do Sujeito Um. É uma alternância positiva para a trama e também muito dinâmica. Desse modo é possível para o leitor tentar compreender cada um dos envolvidos.
O autor apresenta ainda as personagens secundárias: Billings, pesquisador e biólogo de plantas; Gerber, matemático e programador; Thomas, pós-doutorando e assistente de Carthage. Outras personagens importantes incluem um jornalista rival de Dixon e o líder dos manifestantes contra o Projeto Lázaro. O autor peca em estereotipa-las.

Kate é a única mulher no Projeto Lázaro. O autor pode ser perdoado porque esta é a realidade observada nos campos científicos mais avançados. Porém, não há mais nenhuma mulher envolvida no projeto, nem como assistente. A narrativa grosseira e irritante de Dixon me incomodou também, pois trata as mulheres como objetos sexuais, incluindo a própria Kate.
Ela é genial e uma das melhores pesquisadoras em seu ramo, com apenas 35 anos de idade. É linda, independente, com boa autoestima e corajosa para enfrentar os homens ao redor. Inicialmente, ela era o cérebro do empreendimento, ao menos na prática. Até o homem congelado ser reanimado. A partir desse ponto, Kate não é mais tratada pelo autor como a mulher incrivelmente inteligente e revolucionária que ela é. O autor demonstra tê-la criado apenas para usa-la como o interesse romântico de Jeremiah. Gostei do romance, muito doce e belo. Mas o potencial de Kate como protagonista é desperdiçado.
Gostei mais de Jeremiah. Ele é coerente, consistente e carismático. Sua narrativa também é a melhor, pois é muito poética. Por pertencer ao final do século XIX, ele descobre como o mundo mudou drasticamente e se sente perdido, tanto pela reanimação de seu corpo e consciência, como pela absorção de informações frenéticas surgindo de todos os lados.
Ele é sortudo por ter uma segunda chance? Um homem de boa índole, o típico herói trágico, outra caricatura, mas esta no sentido positivo. Ser descongelado, reanimado e o primeiro sucesso total na área da criogenia faz de Jeremiah famoso mundialmente.
É inteligente e sensato, mas sente saudades de sua época e de sua vida. Esse item da trama me comoveu e foi a parte mais interessante: Verificar como Jeremiah reagia às novidades; como ele aceitava e procurava com racionalidade se acostumar com a nova vida - mesmo esta sendo frágil e delicada. A saudade irreparável em seu coração. As dolorosas e preciosas memórias.

Carthage trata Jeremiah como cobaia, experimento, propriedade do Projeto Lázaro. Apenas Kate o trata como indivíduo, sendo acusada de ser uma mulher tola e apaixonada, não uma cientista profissional. Precisa estar apaixonada (e ser mulher) para ver que Jeremiah é humano e deve ser tratado com igualdade, sem importar o experimento? Isto faz de Kate menos profissional?
Entramos na questão da ética científica. Visualizei com muita importância o direito de Jeremiah viver como qualquer outra pessoa, deixar de ser objeto de estudo. Ele deveria ter o direito de escolher se continua ou não cooperando com o Projeto Lázaro (e o quanto). Será que ele se sente em dívida? Ele é um juiz, então o que ele pensa?
Fiquei chocada com a aceitação natural da maioria das pessoas e do narcisismo de Carthage. O experimento não é secreto, pelo contrário, é acompanhado quase como um reality show.
Manifestações contra o Projeto Lázaro aparecem desde o princípio. Seus integrantes são contra a reanimação por considerá-la antinatural. Segundo eles, baseados na religião cristã, somente Deus tem o poder de vida e morte. Ao reanimarem alguém congelado, os cientistas estariam indo contra a natureza divina. Não aceitei esse argumento, porque ao ser congelado e reanimado, o procedimento, embora inédito, não me pareceu muito diferente de uma ressuscitação cardíaca, por exemplo. Todavia, tenho certeza de que se o caso fosse real, grupos assim surgiriam.
Jeremiah também possui fãs, assim como Carthage tem defensores do experimento. Não compreendi o porquê do autor não explorar mais essas opiniões públicas.
O livro me provocou com muitas reflexões sobre vida e morte; ciência e religião; as variadas interpretações da ética. O autor traz em um texto inteligente as diversas nuances da curiosidade, elemento sempre presente na trama, seja a científica ou a sentimental.
Kate sente curiosidade sobre um homem resgatado do século XIX. Jeremiah sente curiosidade sobre um novo mundo, um novo tempo, uma nova chance. Todos, mesmo com variadas opiniões, têm curiosidade sobre o homem congelado; o homem que retornou da morte.

O autor:
Stephen P. Kiernan é jornalista, com mestrado em redação pela Universidade de Johns Hopkins e em ficção pelo Programa de Redação Criativa da Universidade de Iowa.
Em mais de vinte anos de carreira, ganhou quarenta prêmios, incluindo o Prêmio de Liberdade de Informação do Brechner Center, o Prêmio Scripps Howard por Contribuições Notáveis à Primeira Emenda e o Prêmio George Polk.
Violonista desde os dez anos de idade, gravou três discos e compôs músicas para espetáculos de dança e teatro, documentários e especiais de TV.
Ele já publicou dois livros de não ficção. A Curiosidade é seu primeiro romance. Kiernan mora em Vermont, nos Estados Unidos, com os dois filhos.
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