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8 de junho de 2015

Escuridão Total Sem Estrelas, de Stephen King e Suma de Letras

Escuridão Total Sem Estrelas (Full Dark, No Stars)
Stephen King - Suma de Letras / Editora Objetiva
Tradução: Viviane Diniz
392 páginas - 2015 - R$44,90
Comprar: Submarino | Saraiva

Sinopse:
"Na ausência da luz, o mundo assume formas sombrias, distorcidas, tenebrosas. Em Escuridão Total Sem Estrelas os crimes parecem inevitáveis; as punições, insuportáveis; as cumplicidades, misteriosas. 
Em 1922, um agricultor e seu filho precisam decidir do que é mais fácil abrir mão: das terras da família ou da esposa e mãe.
No conto Gigante do Volante, após ser estuprada por um estranho e deixada à beira da morte, uma autora de livros de mistério, elabora uma vingança que vai deixá-la cara a cara com um lado desconhecido de si mesma.
Já em Extensão Justa, um homem com câncer terminal faz um pacto com um estranho vendedor. Mas será que para salvar a própria vida vale a pena destruir a de outra pessoa?
E, em Um Bom Casamento, uma caixa na garagem pode dizer mais a uma esposa sobre seu marido do que os vinte anos que eles passaram juntos."

Resenha:
Publicado pela primeira vez em inglês em 2010, Full Dark, No Stars, chega ao Brasil pela Suma de Letras (Editora Objetiva) em 2015. Escuridão Total Sem Estrelas é do mestre do horror e suspense Stephen King. Acho que quase todo leitor sabe quem ele é: Nascido em 1947, o norte-americano possui mais de 50 livros best-sellers no mundo inteiro, além de inúmeros prêmios literários importantes como o Bram Stoker e o Britsh Fantasy. Muitas de suas obras já foram adaptadas para o cinema e televisão, portanto, é improvável que você, mesmo que não tenha lido algo dele, desconheça seu trabalho.
Mesmo com uma carreira sólida e premiada, além de enorme experiência, King confessou não ter sido fácil escrever Escuridão Total Sem Estrelas. São quatro contos chocantes. Na verdade, três das quatro histórias são extensas para que eu as classifique como contos. Considero-as noveletas.
É uma excelente obra para quem nunca leu nada do King, um excelente ponto de partida para quem tem receio de conhecer o autor através de um livro grosso. Já os fãs se sentirão completamente satisfeitos, com o melhor que King saber fazer: Instigar e impressionar.
O exemplar da Suma de Letras é muito caprichado e ao ser observado pela primeira vez, é todo preto. Escuridão total, conforme o título. A capa é preta e o nome do autor e título quase passam despercebidos, porque são apenas levemente mais claros que o fundo, mas de textura diferente. O corte dianteiro do miolo também é todo preto. Portanto, olhando para o exemplar fechado, ele parece uma caixa totalmente escura. Mas as páginas são amareladas, com fonte em tamanho padrão. O livro possui orelhas, ou seja, trabalho gráfico de personalidade.


King cita no posfácio que como escritor e leitor tem mais interesse em ficção composta por "pessoas comuns em situações incomuns" do que o contrário. Sua intenção é provocar reação emocional.
Ele consegue mais que isso: Após cada história, você se abala, reflete, se inquieta. Não consegue tirar da cabeça o efeito psicológico. Você pode cair em uma ressaca literária ou sentir necessidade de conversar e debater com outras pessoas o que terminou de ler. Quase sempre são tramas que permanecerão para sempre com o leitor.
Algumas pessoas dizem que King não é um autor para leitores fracos ou medrosos. Acho que o mais correto é dizer que King não escreve para leitores acomodados. Você precisa pensar, não apenas ler. Através do horror, do suspense, do fantástico, ele mostra a mais pura verdade sobre as diversas faces que o ser humano pode assumir, por pior que pareçam. Quando li Escuridão Total Sem Estrelas não me assustei com o irreal, presente em todas as histórias, mostrando itens sobrenaturais ou não. O que me chocou foi a realidade. As atitudes e ideias terríveis que as personagens têm, justificáveis ou não. E isso sempre depende de cada leitor.
King mascara o verdadeiro terror em meio ao fantástico. Então quando as pessoas dizem que não leem King por medo de encontrar coisas bizarras ou sanguinolentas, não compreendo o temor completamente. O perigo que sempre encontro ao ler King está na verdade por debaixo da ficção. Ele explora e escancara a loucura, a brutalidade, a ganância, o medo... sentimentos e reações intensas, arrebatadoras. É algo impossível de ser ignorado. Ele expõe o ser humano em sua forma mais complexa, crua e visceral. Quem tem medo das personagens de King na verdade tem medo das pessoas reais.
Os quatro contos possuem várias semelhanças, além do "estilo King". São histórias sombrias, mostrando o lado obscuro das personagens. Todas estão recheadas de crimes. E estes acontecem após o pôr-do-sol. Durante a noite, na escuridão, é quando situações sinistras acontecem. E aqui não são encontradas estrelas, nem um ponto sequer de luz, de brilho. Encontre criminosos, psicopatas, assassinos e justiceiros, mas prepare-se: São pessoas comuns - ao menos perante a sociedade e o cotidiano.

A primeira história é intitulada 1922 porque os fatos principais ocorrem neste ano. A narrativa é interessante, pois é uma confissão em formato de carta. É a forma encontrada pelo protagonista para libertar-se de si mesmo e de personalidades que se sentiu obrigado a assumir. Portanto, quase cem por cento é em primeira pessoa. No discurso, entre declarações e justificativas, o narrador fala diretamente com o leitor, de modo a explicar a sequência inacreditável de fatos que partem de um crime cometido em 1922 e o levam a uma situação dramática oito anos após.
Wilfred é um fazendeiro simples que deseja apenas descansar com seus livros após um dia exaustivo de trabalho ao lado do filho adolescente Henry. É uma época de depressão e as terras do meio-oeste dos Estados Unidos não geram lucro aos fazendeiros. É uma época também em que as mulheres começam a ser menos submissas aos homens.
Arlette é a esposa de Wilfred. Insatisfeita com a vida pacata e sem luxo aproveita a herança que seu pai deixou para mudar de vida. Proprietária de terras vizinhas à fazenda do marido, porém maiores e mais valorizadas, ela planeja vendê-las a uma grande empresa. Marido e filho entram em conflito com ela, quando Arlette propõe que a família venda tudo e se mude para a cidade.
A partir de então a história sobre ganância e violência se torna arrepiante e misteriosa. Wilfred poderia estar amaldiçoado ou se sentindo culpado... ou seriam as duas coisas? Ele destrói vidas e chega ao fundo do poço. E você, leitor, é o cúmplice!
Você nunca mais olhará para seu vizinho do mesmo jeito após as primeiras 148 páginas do livro.

A história seguinte também é longa, com 113 páginas: O Gigante do Volante. Aqui a protagonista é uma mulher, o cenário é o estado norte-americano Massachusetts e a época é contemporânea. O conto anterior não possui capítulos, e sim pausas. Desta vez encontramos 48 capítulos. A narrativa muda para a terceira pessoa, sob um único ponto de vista: o da protagonista Tess, uma escritora de sucesso mediano. Além de ter escrito uma série de detetives, ela participa de eventos literários, desde que possa ir de carro (na companhia de seu fiel GPS) e que seja razoavelmente bem paga. Ela não gosta de deixar seu gato sozinho por muito tempo.
Ela não nega uma oferta de palestrar em uma biblioteca próxima de sua cidade e após finalizar seu trabalho, é orientada a dirigir por um atalho atraente. Porém sua vida muda radicalmente nesta estrada bizarra: Um caminhoneiro estupra Tess e abandona seu corpo numa vala. A escritora agora usa sua mente criativa e lembranças de variadas pesquisas feitas para seus romances de mistério para planejar uma vingança cruel, que acaba se transformando em uma odisseia brutal e angustiante.
Se o protagonista de 1922 assume várias personalidades, Tess também encontra um artifício psicológico para descarregar o ódio e justificar seus atos.
Uma empolgante trama sobre punição fria e calculista; da força bruta contra a inteligência. Você vai refletir sobre até onde uma pessoa machucada e humilhada é capaz de tentar ir.

A terceira história é Extensão Justa e a mais curta de Escuridão Total Sem Estrelas, tendo "apenas" 33 páginas. A diferença não está apenas no tamanho, mas também na qualidade. Com premissa cheia de potencial, King parece ter deixado a história apenas em formato de esboço. Não parece uma versão finalizada. É também a única história em que o crime não é explícito. Ainda assim a ideia é genial e a narrativa, em terceira pessoa, é singular. Alternando os acontecimentos do conto em si com os da vida real, o leitor facilmente identifica a passagem do tempo. A aparente intromissão constante dos fatos verídicos no meio dos criados por King serve para enfatizar: Desgraças, mortes e muitas situações ruins podem estar acontecendo no mundo, com pessoas desconhecidas e, por mais que você sinta pena ou empatia, não é a mesma coisa se o problema ocorresse diretamente com você. São essas verdades assustadoras que King joga na cara que realmente abala.
No caso do protagonista, serve para observamos como seu egoísmo é anormal e extremo, assim como a inveja. Streeter é um homem com câncer terminal, vida modesta e família comum, mas feliz. Ao encontrar um misterioso e exótico vendedor de "extensões" ele negocia a ampliação de seu tempo de vida. Para isso, ele precisa pagar e apontar um alvo: A pessoa que receberá seu infortúnio em seu lugar. Assim como em 1922, Extensão Justa mostra uma sequência de vidas destruídas e uma única pessoa que desencadeia tudo. Até onde você realmente se importa com a vida de desconhecidos?

A última história traz mais uma mulher como protagonista. Darcy está casada com Bob há 27 anos, acredita que eles realmente se amam e possuem confiança mútua. E algo raro: Uma ligação íntima que somente uma vida juntos é capaz de criar, entre altos e baixos. Por isso o título Um Bom Casamento.
Quando o marido viaja a negócios, acidentalmente Darcy encontra segredos obscuros na garagem de casa. Darcy descobre que não conhece o próprio marido. Todo mundo tem seus segredos, mas Bob esconde coisas assombrosas. Mais uma história em que uma personagem possui um ângulo secreto.
A estrutura se assemelha a de O Gigante do Volante: Terceira pessoa, ponto de vista da protagonista e divisão em vinte capítulos. No entanto, Darcy não é a vítima como Tess. Porém, talvez, seu marido possa ser um monstro pior que o caminhoneiro que Tess enfrentou.
Este é meu conto preferido de Escuridão Total Sem Estrelas. Assim como os dois anteriores, é contemporâneo. Me abalou emocionalmente. Senti angústia por Darcy, pela situação em que ela encontrou. Pela decepção, medo, sufoco, por tudo o que ela pensou e sentiu. Darcy pode não parecer tão criativa e rápida quanto Tess, mas é obrigada a tomar uma iniciativa.
É uma história com mensagem aparentemente clichê, sobre como jamais conhecemos verdadeiramente alguém, por mais que amemos essa pessoa. Tempo e laços não são suficientes para que conheçamos uma pessoa. A verdade dolorosa que King passa é que talvez não conheçamos nem a nós mesmos, quanto mais aos outros.

Livro incrível para quem gosta de ser sacudido pelo autor e de destrinchar as mensagens e debates escondidos no texto. Uma viagem pelas profundezas da mente humana, pelas inesperadas atitudes e posições assumidas por desespero, inveja, vingança, amor. Não importam os motivos nem as consequências; nem a ética ou a justiça, apenas os instintos, vontades e ponto de vista particular.
Um livro de crimes, sombras, terrores e os pontos mais críticos que mente humana pode chegar para justifica-se.
E se você é fã de King e ainda não leu Escuridão Total Sem Estrelas pense: O que é melhor que uma história do grande Stephen King? Quatro histórias do King em um só livro!
Prepare-se para deixar personagens comuns, metidas em situações bizarras, abalarem você drasticamente. Na escuridão total. Sem estrelas.

O autor:
Stephen King é autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo inteiro. Os mais recentes incluem Revival, Sr. Mercedes, Doutor Sono, Sob a Redoma (que virou uma série de sucesso na TV) e Novembro de 63 (que entrou no TOP 10 dos melhores livros de 2011 pelo New York Times Book Review e ganhou o Los Angeles Times Book Prize na categoria Terror/Thriller e o Best Hardcover Novel Award da organização International Thriller Writers). Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos.
Ele é casado com a Tabitha King, tem três filhos (Naomi Rachel, Joe Hill e Owen Phillip) e quatro netos.
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