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15 de fevereiro de 2016

Holy Cow: Uma Fábula Animal, de David Duchovny e Editora Record (Grupo Editorial Record)

Holy Cow: Uma Fábula Animal (Holy Cow: A Modern-day Dairy Tale)
David Duchovny - Editora Record / Grupo Editorial Record
208 páginas - 2016 - R$35,00
Tradução: Renata Pettengill
Ilustração: Natalya Balnova
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Sinopse:
"Uma aventura irreverente e itinerante com muita personalidade, e uma heroína quadrúpede que você não vai esquecer tão cedo.
Elsie Bovary é uma vaca muito feliz em sua bovinidade. Até o dia que resolve sair sorrateiramente do pasto e se vê atraída pela casa da fazenda. Através da janela, observa a família do fazendeiro reunida em volta de um Deus Caixa luminoso – e o que o Deus Caixa revela sobre algo chamado “fazenda industrial” deixa Elsie e tudo o que ela sabia sobre seu mundo de pernas para o ar. A única saída? Fugir para um mundo melhor e mais seguro. Assim, um grupo para lá de heterogêneo é formado: Elsie; Shalom, um porco rabugento que acaba de se converter ao judaísmo; e Tom, um peru tranquilão que não sabe voar, mas que com o bico consegue usar um iPhone como ninguém. Munidos de passaportes falsos e disfarçados de seres humanos, eles fogem da fazenda e é aí que a aventura deles alça voo – literalmente. 
Elsie é uma narradora marrenta e espirituosa; Tom dá conselhos psiquiátricos com um sotaque alemão um tanto forçado; e Shalom, sem querer, acaba unindo israelenses e palestinos. As criaturas carismáticas de David Duchovny indicam o caminho para um entendimento e uma aceitação mútuos dos quais esse planeta tanto precisa."

Resenha:
Holy Cow: A Modern-day Dairy Tale foi lançado em inglês pela primeira vez em janeiro de 2015 e já foi publicado em diversos idiomas e países. Chegou ao Brasil em ano depois (janeiro / 2016) pela Editora Record (do Grupo Editorial Record) e ganhou o título Holy Cow, uma Fábula Animal.
O exemplar possui orelhas largas, páginas brancas (papel off-seft) e nove ilustrações internas. A diagramação e a revisão estão perfeitas e imagino que a tradução também.
A capa linda original foi mantida com leves modificações: Acrescentaram "uma fábula animal" (para ninguém ter dúvidas sobre a leitura), as fontes foram suavizadas (deixando o efeito final mais dinâmico) e embaixo do nome do autor, complementaram com "astro da série Arquivo X" (para quem não lembra o nome dele associar o livro à pessoa).
Na contracapa há uma grande foto dele e biografia, para os mais distraídos. Além de ator e escritor, Duchovny é também produtor, roteirista, compositor e cantor. Ele ganhou dois Globos de Ouro, um pelo papel de Fox Mulder no seriado Arquivo X (The X-Files) e outro como Mank Moody na série Californication. Possui Mestrado em Literatura Inglesa.


Holy Cow, ou Vaca Sagrada, é uma fábula literária pseudoinfantojuvenil, pois é um livro para adultos. O livro "finge" ser para crianças e pré-adolescentes, mas na verdade, o público-alvo é o adulto, isso já o torna interessante.
A obra é divertida, sarcástica, irônica e muito inteligente e é, antes de tudo, uma fábula em modo de prosa que utiliza: ilustrações, narrativa em primeira pessoa, diálogos diretos ou em formato de roteiro com um discurso onde a narradora fala com o leitor. É como se o(a) leitor(a) acompanhasse a produção do rascunho do livro da "narradora" e seus devaneios sobre o que realmente contar e como, incluindo observações acerca da censura, dicas e avaliações da "editora" sobre o que seria "melhor ou mais vendável".
O(a) leitor(a) precisa estar ciente que o livro é uma fábula, onde animais, objetos inanimados e todo o tipo de "coisa inumana" pode se tornar personagem e ter personalidade, atitudes, trejeitos, pensamentos e discurso humano, por mais irreal que a situação pareça. Ou seja, as personagens apresentam características antropomórficas e isto é utilizado para abordar com ironia e / ou diversão temas de cunho ético ou moral, chegando às críticas sociais, religiosas e culturais. São vários questionamentos sobre o estilo de vida e comportamento humano de modo geral ou específico. Ultimamente, encontramos este tipo de ficção voltada para crianças com lições de moral ou ensinamentos ao término ou em histórias de gêneros fantásticos (para todas as idades), porém a fábula é mais utilizada em desenhos animados e histórias em quadrinhos.


Por isso o trabalho de Duchovny é incrível! Além de escolher uma vaca como protagonista e narradora, as personagens principais são animais - e todos criticam hábitos, pensamentos e atitudes humanas. E vai além, simula que a vaca está preparando o esboço de seu livro ou roteiro autobiográfico infantojuvenil. Nessa parte há a crítica sobre até que certo ponto os editores podem / devem intervir na abordagem e desenvolvimento da obra e o quanto uma biografia é fiel à realidade.
Outro aspecto exposto é que a protagonista e a editora cogitam vender o livro como roteiro para uma adaptação animada estilo Disney Pixar, causando linhas literárias politicamente corrigidas muito hilariamente. Porque no fim a obra teria que ser bastante dilapidada para tal finalidade.
"Minha editora também disse que minha história deveria ser escrita ' mais como roteiro que como livro porque é aí que está o grande público - não mais nos livros, e sim nos filmes. ' ... Vamos ver se Hollywood liga. Vou precisar perder uns quilinhos. ... Também tenho algumas ideias bem claras sobre o elenco e sobre quem deveria representar meu papel, ... Jennifer Lawrence."
A trama é absurda, criativa, interessante e insanamente atraente. Então se você quer ver uma vaca, um porco e um peru se metendo em encrencas, viajando e se disfarçando de seres humanos (e ninguém percebendo), este é o livro. Se você não curte histórias malucas e ilógicas, talvez uma fábula adulta não seja recomendada para você. Todavia, o enredo possui ótimo desenvolvimento, a escrita do autor é cheia de personalidade e, após mergulhar na loucura da fábula e entrar no clima do livro, você percebe os paradoxos, as críticas, e que a história possui na verdade coerência e seriedade nas entrelinhas.
A vaca é Elsie Bovary, muito feliz em sua vida bovina em uma velha fazenda caseira nos Estados Unidos. Ela possui uma melhor amiga, Mallory, que está decidindo por quais dos touros da fazenda se apaixonar. Elas questionam o sumiço / abandono por parte das mães, porém creem fazer parte do ciclo da vida da Mãe Terra na bovinidade. Elsie tem muita personalidade, opiniões e crenças, que ela vai expondo no começo do livro (e por todo ele), enquanto deixa o(a) leitor(a) completamente a par do cotidiano regido pelas matriarcas da fazenda e seu dia a dia como vaca (segundo ela, gosta de divagações).
Elsie é uma narradora espetacular. É engraçada, irônica, moderna e muito honesta e sincera. E criativa, porque conta até mesmo como deveria ser a trilha sonora ou a fotografia de tal ou tal cena. Ela é educada, mas não pensa em agradar: fala e critica em todos os sentidos sem censura.
Acidentalmente escapa da cerca do pasto e ao espionar a família do fazendeiro, descobre como veneram o Deus-Caixa (a televisão) e percebe que são várias caixas, com muito conteúdo diferente. Em algumas noites, Elsie já conhece bastante sobre o Deus-Caixa, até ver cenas que mostram uma "fazenda industrial" e como as vacas são tratadas, abatidas e mutiladas. É um choque terrível, uma revelação assustadora. Imediatamente Elsie entende que sua mãe e a de Mallory, jamais as abandonaram. Ela fica em dúvida sobre contar suas descobertas aos outros animais, especialmente para Mallory. Elsie não quer morrer para virar bife, hambúrguer ou qualquer outro pedaço de carne para que os humanos a comam. Então decide ir para o melhor lugar do mundo para uma vaca: a Índia, onde são animais sagrados.
Como nenhum segredo permanece assim em uma fazenda, logo Jerry / Shalom, um pouco recém-convertido ao Judaísmo, procura Elsie para anunciar que planeja viajar com ela. Mas para Israel, onde nenhum judeu comerá sua carne. Ele teme virar linguiça e bacon nos próximos tempos. Tom, um peru magricela com discurso psicanalítico, também deseja se juntar a eles em viagem. Ele não aguenta mais a anorexia por medo de ser escolhido como o próximo prato principal no Dia de Ação de Graça (onde os americanos têm o hábito de comer peru). Ele quer ir para Turquia (*em inglês peru significa turkey = Turquia, então ele acha que lá será um lugar seguro para ele).
Então com as habilidades de cada um o trio rouba cartões de crédito e passaportes da família dos fazendeiros, roupas e acessórios, (Elsie e Shalom andam sobre as patas traseiras) e compram online suas passagens aéreas. Tom consegue um iPhone e é um perito em utilizá-lo com o bico. A aventura começa!
Holy Cow ou Vaca Sagrada apresenta conclusão moralizadora sobre o estilo de vida da humanidade despreocupada com o meio ambiente e sua preservação; sobre o abuso e desrespeito aos animais; onde a maioria da população acredita culturalmente que eles existem apenas para servir às pessoas, como alimento, vestuário, decoração, diversão, cobaias... de modo desenfreado e sem dignidade.
Em Holy Cow os animais se tornam exemplos para o ser humano, sugerindo que devemos respeitar mais a ecologia, não maltratar à toa os seres vivos, mesmo os criados para abate e consumo.
São muitas reflexões intensas de ordem moral, porque o livro critica também o fato do ser humano não respeitar o outro que possua diferenças (especialmente religiosas). Reprova o preconceito, guerras e disparidades entre os humanos, que vivem em guerra. Como respeitar os animais e a natureza se não há respeito entre a própria humanidade? Como respeitarmos as diferenças de gênero, etnia, opção sexual, opção alimentar ou de outros estilos de vida, situação econômica ou social, padrões estéticos, profissão, religião ou crença... se não respeitamos à nós mesmos?
Holy Cow também repreende nosso estilo de vida exageradamente consumista, (que desperdiça um pouco de tudo, até alimento) incluindo o tipo de entretenimento que as pessoas ingerem, veneram e raramente selecionam ou questionam.
"Os humanos não só nos comem, mas também jogam muitos de nós fora sem nos comer. Nos jogam fora como lixo desprezível. Se vou ser morta para virar comida, pelo menos me coma e me cague e me deixe reingressar no ciclo da natureza. Não me mate sem motivo. E foi aí que vi - um hambúrguer pela metade."
Duchovny utiliza de uma vaca, um porco e um peru para passar todas essas mensagens em uma fábula moderna, brilhante, absurda, sagaz e muito louca. Ele é ex-vegetariano (atualmente consome carne de peixe), dirige um carro elétrico e tem uma casa ecológica, então não é surpresa os temas abordados, destacando os direitos dos animais e os efeitos do consumo de carne no planeta.


PS.: Me diverti tanto com a leitura, pena que seja curta, como a maioria das fábulas. Eu lia alguns trechos para o meu marido, porque são tão hilários que eu precisava compartilhá-los, até que algo um pouco inusitado ocorreu: numa dessas vezes, um vizinho me ouviu pelo vão da área de serviço do prédio e começou a rir. Perguntou o nome do livro e se interessou.

O autor:
David Duchovny é ator, roteirista, produtor, diretor, escritor, compositor e cantor. Ele é mais conhecido por seu papel como o agente Fox Mulder no seriado de TV Arquivo X, e como o escritor HankMoody na série Californication, ambas atuações premiadas com o Globo de Ouro. Ele é bacharel em Literatura Inglesa pela Universidade de Princeton e mestre em Literatura Inglesa pela Universidade de Yale.
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