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9 de maio de 2016

As Gêmeas do Gelo, de S. K. Tremayne e Bertrand Brasil (Grupo Editorial Record)

As Gêmeas do Gelo (The Ice Twins)
S. K. Tremayne - Bertrand Brasil / Grupo Editorial Record
Tradução: Verônica Radulescu
362 páginas - 2016 - R$44,90
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Sinopse:
"Um thriller psicológico aterrorizante perfeito para os fãs de A Garota no Trem.
Um ano depois de Lydia, uma de suas filhas gêmeas idênticas, morrer em um acidente, Angus e Sarah Moorcroft se mudam para a pequena ilha escocesa que Angus herdou da avó, na esperança de conseguirem juntar os pedaços de suas vidas destroçadas. Mas quando sua filha sobrevivente, Kirstie, afirma que eles estão confundindo a sua identidade — que ela é, na verdade, Lydia — o mundo deles desaba mais uma vez. Quando uma violenta tempestade deixa Sarah e Kirstie (ou será Lydia?) confinadas naquela ilha, a mãe é torturada pelo passado — o que realmente aconteceu naquele dia fatídico, em que uma de suas filhas morreu?"

Resenha:

As Gêmeas do Gelo (The Ice Twins, 2015) é um romance do jornalista Sean Thomas, sob o pseudônimo S. K. Tremayne. Ele também já publicou muitos livros utilizando o pseudônimo Tom Knox. Premiado autor best-seller, que escreve sobre viagens para jornais e revistas do mundo todo, compôs um suspense de arrepiar, em formato de thriller e que realmente abala o psicológico do(a) leitor(a).
Sua experiência com turismo o ajudou a compor o cenário do livro de forma impecável, com descrições cinematográficas e ambientação perfeita. Eu imaginava cada local com muita facilidade, criando até mesmo sons e cheiros em minha mente. O autor é tão habilidoso na construção do ambiente que fui capaz de sentir frio estando fisicamente no calor; imaginar a névoa me envolvendo, aves e focas quebrando o silêncio das águas escuras e a ventania atingindo as janelas. Não é exagero, o autor cria um cenário rico, frio e assustador e você não precisará pesquisar muito sobre as Terras Altas da Escócia para sentir a atmosfera bela e imponente do local.
O autor se inspirou em um local real: Eilean Sionnach, ao longo de Isleornsay, em Skye. Modificou o nome da ilha para Eilean Torran e criou sua própria versão, porém mantendo o farol e a velha casa com pinturas antigas. O cenário é importantíssimo para auxiliar no suspense e sustos ao longo da trama, tanto a parte exterior (a ilha) como a interior (a casa).


Algumas cenas são perturbadoras e inquietantes. No começo não parecia que o livro seria tão marcante. Então, repentinamente, me vi em um labirinto de segredos e perturbações de uma família vivendo solitariamente em uma casa velha mas imponente e um tanto sinistra, em um local inóspito e belo.
Há uma dosagem de drama e melancolia também. Vários temas psicológicos são abordados como a forma íntima e única de cada pessoa lidar com a perda de um ente querido. Cada uma reage de um modo e enfrenta o seu tempo de luto. Em As Gêmeas do Gelo encontramos uma família abalada e destruída pela morte de um de seus membros; uma família que antes era considerada exemplar e digna de capa de revista de família feliz e bonita; a família perfeita.
Muitas questões são levantadas, muitas dúvidas surgem — juntamente com o receio de se descobrir a verdade. Me senti gelada acerca de certas revelações e pistas, julguei diversas vezes as personagens (até mesmo a criança de 7 anos!) e senti um misto de medo, de empatia e de tristeza por cada uma. São pensamentos e sentimentos muito complexos envolvendo as personagens e atingindo o(a) leitor(a).
O autor também merece elogios pela construção das personagens. São poucas e, ainda assim, movimentam muito a trama. Quando você pensa já conhecer cada uma, percebe que é apenas impressão e, entre julgamentos e suposições, tudo muda e sua opinião também. É uma sequência chocante na parte final, portanto, prepare-se!


Angus é arquiteto e Sarah é jornalista. Após um namoro românico eles se casaram e tiveram duas filhas gêmeas idênticas: Lydia e Kirstie. O dia fatídico que mudou para sempre a vida da família ocorreu quando as gêmeas tinham 6 anos de idade. Lydia morre inesperadamente e Kirstie sobrevive. Deste ponto em diante pai e mãe desmoronam e a filha sobrevivente se sente perdida, solitária e sem uma parte de si. Angus se afunda cada vez mais no alcoolismo, enquanto Sarah se sente catatônica e incapaz de fazer a vida volar ao normal. O pai perde o emprego, a mãe não consegue mais os trabalhos como freelancer; e Kirstie faz uma revelação assustadora a eles: Ela não é Kirstie, é Lydia! Kirstie está morta! A menina estaria ficando louca? Com problemas de personalidade? Ou o fantasma da irmã falecida a acompanha? Ou a ligação entre gêmeos monozigóticos pode ser tão forte que sobrevive a morte de um deles?
Angus herda uma propriedade muito antiga na Escócia da avó recém-falecida e o casal aproveita a oportunidade de mudança para melhorar o estado psicológico e sentimental de todos, especialmente da filha. O relacionamento entre os três não vai bem, o casamento de Angus e Sarah está por um fio e a vida financeira está no vermelho. Manter a moradia em Londres está cada vez mais cara, portanto a ilha herdada com os velhos casarão e farol parecem a solução perfeita, especialmente porque a localidade é isolada de grandes centros urbanos, é calmo e possui poucos moradores, todos afastados. Kirstie (ou será Lydia?) ingressará em uma nova escola, com novas amizades, para poder superar a perda da irmã e a confusão mental que isso causa a ela. E eles terão a própria ilha, sossegada, com um cenário lindo e focas espreitando a costa.


O exemplar brasileiro é uma publicação da Bertrand Brasil, do Grupo Editorial Record, e possui orelhas, folhas amareladas (papel off-white) e excelentes revisão e diagramação em fonte superconfortável. Espalhadas entre algumas pausas entre os capítulos encontramos fotografias em preto-e-branco dos cenários da trama, incluindo detalhes do interior do casarão, o farol e a ilha. As imagens incrementam ainda mais a capacidade do(a) leitor(a) em visualizar as cenas e algumas me causaram um pouco de incômodo inexplicável.
Quase que cem por cento do livro apresenta duas narrativas: uma em primeira pessoa, contada por Sarah; a outra em terceira pessoa, porém sob o ponto de vista de Angus. Não é confuso, é dinâmico, interessante e envolvente. Esse formato é responsável por boa parte do suspense!
São muitos elementos surpresas e o autor manipula habilmente os acontecimentos e as reflexões do(a) leitor(a). Fiquei totalmente desnorteada durante o clímax e final da obra, porque realmente não imaginava o rumo exato do desfecho. Imaginei vários "finais" diferentes e não acertei cem por cento, embora estivesse sentindo a todo instante que muitas coisas não haviam ainda sido decifradas. Sentia a falsa sensação nas entrelinhas e sabia, portanto, que o autor preservara para a reta final inúmeros abalos e espantos.
O final é concreto e muito inteligente, porque deixa várias opções para quem lê. Não é um "final em aberto", daqueles que o(a) autor(a) joga vários segredos desvendados sem entregar a resposta para tudo. Não, porém existem alguns rumos que dependem do apego do(a) leitor(a) com a história, deixando possibilidades que variam de acordo com a interpretação de cada um(a). Você optará por revelações totalmente concretas ou ligadas ao sobrenatural. De qualquer forma, é tudo crível e sensato, além de surpreendente; satisfaz a curiosidade e a necessidade de suspense e mistério. É raro encontrar uma obra de suspense com final verdadeiramente impressionante, principalmente quando se lê muito esse gênero literário. Um suspense digno de ser adaptado ao cinema; já está pronto para gerar um roteiro tenso, empolgante e assustador na medida certa.


O autor:
S. K. Tremayne é o pseudônimo do londrino Sean Thomas, jornalista e escritor. Nasceu em 1963 e estudou Filosofia na University College London.
Como jornalista escreveu para o Times, o Daily Mail, o Sunday Times e o Guardian.
Vive em Londres e tem duas filhas.

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