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17 de junho de 2016

Na Estrada Jellicoe, de Melina Marchetta e Editora Seguinte (Grupo Companhia das Letras)

Na Estrada Jellicoe (On The Jellicoe Road)
Melina Marchetta - Editora Seguinte / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Guilherme Miranda
296 páginas - 2016 - R$39,90
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SORTEIO de 11/07 a 02/08

Sinopse:
"A pequena cidade de Jellicoe, na Austrália, vive uma guerra territorial travada entre três grupos: os estudantes do internato, os adolescentes da cidade e os alunos de uma escola militar que acampa na região uma vez por ano.
Taylor é líder de um dos dormitórios do internato e foi escolhida para representar seus colegas nessa disputa. Mas a garota não precisa apenas liderar negociações: ela vai ter que enfrentar seu passado misterioso e criar coragem para finalmente tentar compreender por que foi abandonada pela mãe na estrada Jellicoe quando era criança.
Hannah, a única adulta em quem Taylor confia e que poderia ajudar, desaparece repentinamente — e a pista sobre seu paradeiro é um manuscrito que narra a história de cinco crianças que viveram em Jellicoe dezoito anos atrás…"

Resenha:
Alguns livros são capazes de marcar, se tornam realmente inesquecíveis. Histórias que, de um modo ou de outro, sempre estarão em sua memória. Outros podem te mudar. Quando isso ocorre, eles passam a integrar você, porque essa mudança, por mais sutil que seja, nunca mais te abandonará. É muito satisfatório quando um livro emociona, causa reflexão ou impacto, mas, e quando o livro parece que nunca mais abandonará o seu coração? Como prosseguir com o cronograma de leitura se você não consegue prestar atenção em nada ficcional? Estou passando por isso e a "culpa" é da autora australiana Melina Marchetta e sua obra Na Estrada Jellicoe (On The Jellicoe Road, 2006), publicada no Brasil em abril de 2016 pela Editora Seguinte, do Grupo Companhia das Letras. É um fenômeno raro. Amar um livro é fácil, agora o livro se agarrar a você, nem sempre.
Na Estrada Jellicoe é um Young Adult (Jovem Adulto) contemporâneo com a Austrália como cenário. As personagens, o cenário e os acontecimentos são comuns, pessoas e coisas que você pode encontrar por aí, então, o que aconteceu? Melina Marchetta escreveu um dos mais poderosos YA que já li. Porque em Na Estrada Jellicoe, há muitas emoções, mistérios e revelações apresentados e desenvolvidos por uma das mais belas escritas que já encontrei; não é apenas para um YA, mas para literatura de um modo geral. É brilhante, única, doce e marcante.


A protagonista é Taylor Markham, uma jovem estudante de 17 anos de idade que foi abandonada dentro de uma loja de conveniência por sua mãe. Esta nunca mais retornou e Taylor não sabe nada sobre seu pai. Desde os 11 anos tem vivido nos alojamentos da Escola Jellicoe, internato a 600 km de Sydney, sendo criada pela misteriosa Hannah.
Aos 14 anos, um eremita sussurrou em seu ouvido e, em seguida, uma catástrofe ocorreu. Taylor possui muitos lapsos de memória em relação a sua infância, porque parece que antes de abandoná-la, a mãe não morava por muito tempo no mesmo local. Mas Taylor se lembra de um casal cuidando dela, deveria ser seus pais, então, por que não se lembra deles juntos? Quem era o gigante que a colocava nos ombros quando pequena, se ela vivia só com a mãe? Para completar, Taylor tem sempre sonhos parecidos, na mesma árvore, onde conversa com um menino que parece conhecê-la. A sensação deixada é intensa e inexplicável, mas Taylor nunca se lembra de tudo.
Quando os cadetes chegam ao local, o internato entra na tradicional guerra territorial contra eles e os citadinos. Cada alojamento da escola forma uma Casa e esta tem um líder, além do chefe geral de todas as Casas. Nessa guerra de temporada estudantes do internato defendem seu território da invasão pelos alunos da escola militar e pelos próprios adolescentes da cidade, estes de outras escolas. Do modo como os estudantes de Jellicoe os nomeiam (cadetes e citadinos) e agem, parece até uma história de fantasia, porém é mais como uma guerra muito séria entre acampamentos. Eles seguem as regras do misterioso caderno de capa roxa.
Taylor já fugiu do internato com um dos cadetes e ninguém jamais se esqueceu desse fato. Taylor o culpa pela fuga fracassada. O que esperar do inimigo? Jonah Griggs é o chefe dos cadetes. Agora ela precisa negociar com ele e também dialogar com o líder dos citadinhos, Chaz Santangelo. Para isso, ela contará com o apoio de todas as Casas do internato. Ou não, porque parece que um golpe de estado está prestes a acontecer. A disputa começa e Taylor só confia mesmo na colega Raffaela, visto que Hannah, a mulher que toma conta dela e mora na casa do rio, foi embora. Taylor encara a todos, rapazes, moças, adultos.


Essa é a premissa do livro. Você se surpreenderá o quanto esta história traz de informações e sensações, o quão misteriosa e emocionante ela passa a ser quando Taylor começa a desbravar o passado da Estrada Jellicoe; onde outros jovens, antes dela nascer, já travavam a guerra territorial. Taylor tenta descobrir o verdadeiro significado da disputa e, com uma avalanche de revelações, se vê totalmente envolvida, abalada e unida a tudo. Ela também quer saber: Aonde Hannah foi? E será que Taylor pode descobrir o paradeiro dos pais?
Embora a narrativa seja em primeira pessoa e siga a cronologia a partir deste ponto, Taylor a faz de modo fragmentado, misturando sonhos, devaneios e reflexões, ao que ocorre fisicamente. Além disso, ela encontra parte de um manuscrito que desconfia ser mais que ficção. Parece estar ligado à Estrada Jellicoe, seu rio e a esse grupo de adolescentes misteriosos. Este manuscrito é apresentado em terceira pessoa e sem uma ordem concreta, pois ao ser encontrado por Taylor não possui marcação de páginas e estas estão embaralhadas. Ao longo da leitura todos os trechos começam a fazer sentido, por isso atenção a eles. O que aconteceu aos membros desse grupo com o passar dos anos? Será que eles existiram, como Taylor desconfia, ou o grupo seria apenas ficção? É uma história muito interessante, com texto formatado em itálico, contribuindo para o(a) leitor(a) se sentir ainda mais atraído pelo livro.
São duas histórias interligadas: a de Taylor, que desconhece o próprio passado; e a que Taylor tem no manuscrito inacabado, dos adolescentes esquecidos. A semelhança é que ambos se passam na Estrada Jellicoe e estão aos pedaços. Taylor precisa se recompor, colocar a vida em ordem e, ao que parece, fazer o mesmo com as páginas do manuscrito.


As personagens são vivas, intensas e críveis. Assim como a trama, são complexas, repletas de camadas, pormenores e segredos. Nem tudo (e todos) é o que parece ser; é necessária uma observação mais profunda. As crianças e adolescentes do internato têm problemas, mas não são superexplorados. Você observa e sente nas entrelinhas ou em detalhes coadjuvantes. Do mesmo modo, é na simplicidade e nas coisas implícitas que você encontra o lado mais poderoso do livro. São diálogos espontâneos e cenas singelas com as quais você se enternece, se comove, sorri e chora. A obra é delicada e comovente, sem ser melodramática.
É o melhor tipo de história que existe: a que não apenas toca o coração, mas sim, penetra e se instala nele. O texto é brilhante, as descrições são sagazes, especialmente as voltadas à construção psicológica. Na Estrada Jellicoe pode parecer um quebra-cabeça literal, no entanto, eu prefiro rotulá-lo como uma pintura. Onde as cenas são pinceladas aos poucos e o artista testa diversas cores até compor a imagem final, mas sempre com o mesmo espírito, a mesma paleta de cores e sempre surpreendendo a cada forma. Melina Marchetta faz isso com palavras. Ela conta a história de Taylor e da Estrada Jellicoe, mesclando presente e passado, usando de sonhos, fatos e lembranças.
Doce, lírico, melancólico, forte.
Foi uma de minhas melhores leituras e a prova de que o gênero Young Adult pode conter escrita extremamente rica e natural, satisfazendo o gosto de leitores jovens e adultos; do público feminino e masculino. Possui diversas demãos, várias camadas entrelaçadas e em algum momento de sua vida este livro vai agarrar você. Você ficará parado na Estrada Jellicoe, nos galhos de uma árvore e não desejará sair de lá.
Obrigada, Editora Seguinte, por trazer esta bela história ao Brasil, em um exemplar de capa linda (de Carlo Giovani, a mais bonita do mundo!), orelhas e folhas amareladas (papel pólen soft).


A autora:
Melina Marchetta vive em Sydney, na Austrália, e começou sua carreira literária em 1992, quando publicou Looking for Alibrandi. Foi professora de inglês e história até 2006, quando resolveu se dedicar exclusivamente à escrita. Em 2009, Na Estrada Jellicoe recebeu o Michael L. Printz Award, o principal prêmio de literatura jovem adulta dos Estados Unidos.
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