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5 de março de 2018

A Pérola que Rompeu a Concha, de Nadia Hashimi e Arqueiro

A Pérola que Rompeu a Concha (The Pearl that Broke It's Shell)
Nadia Hashimi - Arqueiro
Tradução: Simone Reisner
448 páginas - 2016 - R$ 49,90 (impresso) e R$ 29,99 (eBook) - trecho
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Sinopse:
"Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Sua única esperança é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar.
Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre.
Contudo, Rahima não é a primeira mulher da família a adotar esse costume tão singular. Um século antes, sua trisavó Shekiba, que ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul.
A pérola que rompeu a concha entrelaça as histórias dessas duas mulheres extraordinárias que, apesar de separadas pelo tempo e pela distância, compartilham a coragem e vão em busca dos mesmos sonhos. Uma comovente narrativa sobre impotência, destino e a busca pela liberdade de controlar os próprios caminhos.
“Uma história maravilhosa de resistência em uma cultura que não valoriza as mulheres. A escrita de Nadia Hashimi evoca a de Khaled Hosseini.” – Book Reporter.
“Nadia Hashimi nos agracia com uma história familiar sensível e bela. Seu cativante relato é um retrato do Afeganistão em toda a sua desconcertante e enigmática glória e um espelho das lutas ainda atuais das mulheres afegãs.” – Khaled Hosseini, autor de O Caçador de Pipas."

Resenha:

Nadia Hashimi é médica e escritora e mora em Washington. Filha de afegãos, nasceu e foi criada nos Estados Unidos. Como afegã-americana, se interessou por suas origens e, assim como muitos afegãos, deseja mostrar ao mundo que o que sabemos sobre seu país não é uma história completa, que a cultura foi roubada, que as afegãs tiveram seus direitos brutalmente massacrados e que uma nação antiga e outrora próspera e de belas paisagens sofreu com décadas de guerras, ocupações e regimes fundamentalistas. Após viajar ao Afeganistão, decidiu escrever sobre sua cultura e história.
O resultado é o belíssimo A Pérola que Rompeu a Concha (The Pearl that Broke it's Shell, 2014), seu livro de estreia publicado no Brasil em 2017 pela Editora Arqueiro. É uma história ficcional baseada na realidade que, infelizmente, muitas mulheres enfrentam no Afeganistão: ausência de direitos civis, violência doméstica e casamento infantil. Por isso, é um romance dramático e triste, mas de prosa agradável que consegue informar sem ser cansativo ou exagerado. Possui descrições interessantes, que me levaram a imaginar aromas, sabores, cenários e cores, e a tentar construir uma realidade bem diferente da minha. É um grito de alerta à ausência dos direitos civis de meninas e mulheres e o desejo de mudanças para o futuro.
Além de maravilhosamente bem escrito e com várias surpresas, o livro vale por dois, pois são duas histórias que mostram diferenças e semelhanças nas vidas das afegãs, em duas épocas diferentes, porém nos mesmos lugares, mas que contêm uma ligação: as duas protagonistas, as rebeldes Rahima e Shekiba, além do parentesco, passam por uma prática cultural oculta e muito antiga de regiões do Afeganistão e Paquistão: bacha posh, que significa literalmente "menina vestida como menino".


Sendo uma bacha posh, a menina ao menos tem a chance de ir para a escola ou de trabalhar e ajudar sua família. É isso o que acontece com Rahima. Seu pai é viciado em ópio e não permite mais que ela e as irmãs mais velhas, Shahla e Parwin, frequentem a escola. Elas têm ainda duas irmãs mais jovens e a mãe passa por dificuldade em manter a casa, pois não pode trabalhar e o marido quase não traz dinheiro para sustentá-las. É a irmã mais velha da mãe, Khala Shaima, que sugere que Rahima se torne uma bacha posh. É também através da tia que as meninas descobrem que a trisavó, Shekiba, também passou por uma situação semelhante.
Um século antes, Shekiba perdeu os pais e os irmãos em uma epidemia de cólera e, seguidamente, as terras da família, mesmo provando que poderia mantê-las sozinha. A família paterna a considera inútil, pois não vão conseguir um marido para ela: metade do rosto de Shekiba tem uma enorme cicatriz, pois sofreu uma queimadura grave. Ela enfrenta muitos obstáculos até se tornar uma das guardas do harém do rei, sempre vestida como homem, exatamente como os soldados - o rei não confia em homens para vigiarem suas concubinas.
Interessante ressaltar o período em que elas agem como meninos. Rahima passa a ser Rahim e Shekiba assume o nome Shekib. Ao trocarem do vestuário feminino para masculino, se sentem mais livres. Não apenas para se movimentarem, mas principalmente para fugirem do assédio e olhares masculinos. Rahima troca o xador na cabeça por cabelos curtos, e o vestido por calça e túnica. Pode então andar livremente pelas ruas, ir para a escola, brincar com os meninos ao ar livre, comprar os itens de mercearia para a mãe, trabalhar como auxiliar numa oficina de eletrônicos. Shekiba, que sempre se escondeu na burca, pode abandoná-la e assumir seu jeito rústico antes criticado por todos por não ser delicado e feminino o suficiente, segundo regras impostas a todas as afegãs.


Elas sofrem muito quando são obrigadas a reassumirem a identidade feminina. Rahima, com apenas 13 anos, é dada pelo pai em casamento a um homem com idade para ser seu avô. Ela será a quarta esposa de um perigoso senhor das armas. Shekiba, apenas um pouco mais velha, também é obrigada a se casar para escapar da morte. Se qualquer menina em uma situação assim sofre, imagine uma que experimentou a liberdade, mesmo que incompleta, de ser tratada como menino, ou seja, ter mais respeito que uma menina tem. Elas sofrem com a solidão, porque perdem as famílias e não são bem acolhidas pelas novas. Sofrem de depressão, essencialmente pela falta total de perspectiva e de autoestima. Sofrem de medo, sobretudo da violência psicológica, física, sexual. Elas pertencem aos homens, primeiro ao pai, depois ao marido, e, nessa sociedade patriarcal, elas não tem voz nem controlam as próprias vidas. Infelizmente poucas mulheres agem com sororidade, devido a tanta repreensão, censura e castigo. A desigualdade de gênero é exorbitante e as protagonistas são muito carismáticas, portanto, a cada cena de injustiça ou sofrimento, quem lê se comove e torce por um final feliz, porque a esperança surge e Rahima e Shekiba não se dão por vencidas.
A forma como a trama se desenvolve é arrebatadora. Destaco novamente como são duas histórias no mesmo livro. As narrativas se alternam e contam a história de cada uma. Antes de cada capítulo há o nome da protagonista em questão: Rahima, com narrativa em primeira pessoa, e Shekiba, contada em terceira pessoa; é como se Khala Shaima contasse a história de Shekiba para Rahima, como se ela soubesse dos detalhes. Entretanto, ela não sabe de tudo, mas é uma forma fascinante que a autora encontrou de contar a vida de Shekiba. Emocionante notar como Rahima tem Shekiba como inspiração. Certamente sua trisavó nunca imaginou que seria exemplo ou orgulho para uma descendente.


Rahima vive no interior do atual Afeganistão. Shekiba também mora em uma aldeia pequena distante de Cabul, cem anos atrás. Nas áreas mais remotas do país, meninas e mulheres jamais tiveram acesso à liberdade que as de Cabul, portanto, quando Rahima e Shekiba visitam a capital, mesmo em tempos diferentes, notam a diferença. Embora os períodos históricos sejam distintos, ambas vivem momentos de esperança. No Afeganistão em transição pós-Talibã, Rahima e a população de modo geral sentem que a vida pode melhorar. O mesmo ocorre com Shekiba e as demais pessoas no Afeganistão do começo do século XX. Ao acompanharem a ascensão do novo rei, acreditam nas promessas sociais e de desenvolvimento e progresso. Triste notar que o Afeganistão poderia ter prosperado bastante, mas infelizmente ruiu. Mas o pensamento positivo e o desejo por melhoras das personagens é o modo da autora mostrar como a população afegã é resistente e enfrentou e enfrenta muitos obstáculos como colonização, guerras, corrupção, tráfico de drogas, desigualdade de gênero, desvalorização da mulher, casamento infantil, violência doméstica, evasão escolar, falta de saneamento básico.


Me fez refletir sobre como sou afortunada por ter liberdade e acesso a um conhecimento que nem todas as mulheres têm.
Leitura super recomendada para quem adora ficção ambientada em outras culturas. Sob medida para fãs de autores como o afegão Khaled Hosseini, a indiana Thrity Umrigar e o nigeriano Chigozie Obioma. Esse livro é lindo, comovente e inspirador. Triste mas motivador e conscientizador. Mostra que de tempos em tempos as pessoas precisam quebrar regras e tradições, que a sociedade precisa estar em constante mudança.
Parabéns para a Editora Arqueiro, por publicar um livro tão belo, esclarecedor e necessário ao debate sobre a valorização da mulher e a igualdade de gênero. O exemplar tem excelente revisão, tradução de Simone Reisner, páginas amareladas e orelhas.
Gostei tanto da autora que desejo ler seus outros livros, ainda inéditos no Brasil: When the Moon is Low, A House without Windows, One Half from the East e The Sky at our Feet.


A autora:
Nadia Hashimi nasceu em Nova York, nos Estados Unidos. Seus pais deixaram o Afeganistão nos anos 1970, antes da invasão soviética, mas ela cresceu cercada por uma família numerosa, que manteve a cultura afegã como parte importante do cotidiano. Em 2002, visitou o Afeganistão pela primeira vez com os pais, e o passado e o interesse pela cultura e pela realidade das mulheres afegãs a motivaram a escrever histórias ligadas ao país. Nadia é pediatra e mora nos arredores de Washington com o marido, quatro crianças curiosas e roqueiras, dois peixinhos dourados e um papagaio-cinzento.
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