[Resenha] Cinzas na Neve de Ruta Sepetys e Arqueiro

Cinzas na Neve (Between Shades of Gray)
Publicado originalmente como A Vida em Tons de Cinza
Ruta Sepetys - Arqueiro
Tradução: Fernanda Abreu
240 páginas - R$ 39,90 (impresso) e R$ 24,99 (ebook)
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Sinopse:
"Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história.
Lina Vilkas é uma lituana de 15 anos cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de junho de 1941 muda para sempre seus planos.
Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria.
Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.
Cinzas na neve conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags durante o reinado de horror de Stalin."

Resenha:

Publicado pela Editora Arqueiro originalmente como A Vida em Tons de Cinzas, foi adaptado para o cinema em 2018 e, agora ganha nova edição e capa sob o título Cinzas na Neve. Venceu o prêmio Golden Kite e foi escrito pela autora de ficção histórica Ruta Sepetys, uma estadounidense filha de um refugiado lituano. Seu avô paterno foi oficial militar e fugiu com a família da Lituânia para campos de refugiados na Alemanha. Muitos de seus parentes foram deportados e presos, enquanto viam a nação ser destruída e queimada, incluindo igrejas, teatros, hospitais e bibliotecas. A escritora viajou mais de uma vez para a Lituânia para entrevistar sobreviventes e suas famílias e para pesquisar sobre o período, incluindo conversas com especialistas como historiadores e psicólogos peritos em traumas e comportamentos relacionados a guerras. Portanto, muitos acontecimentos e situações do livro são baseados em histórias reais e experiências compartilhadas por muitos deportados espalhados pela Sibéria. Com o respeito à sua família e ascendência, aliado a uma pesquisa extensiva e profunda, a autora tece uma trama histórica dramática sobre um genocídio pouco comentado mas extremamente doloroso. Um romance marcante e inquietante narrado por uma adolescente que é obrigada a amadurecer em um campo de trabalho forçado.

"Seja com Hitler ou com Stalin, esta guerra vai acabar com todos nós. A Lituânia está presa no meio da briga."

Em 1939 a União Soviética ocupou os países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) e em seguida, listou pessoas consideradas antissoviéticas ou "inimigas do povo". Estas seriam assassinadas, deportadas ou presas. Mesmo civis como médicos, advogados, professores, escritores, comerciantes, artistas, entre tantos outros, foram destinados ao genocídio. As primeiras deportações aconteceram em 1941 e as pessoas consideradas criminosas pelo governo soviético foram enviadas aos gulags, campos de trabalhos forçados na Sibéria. Privados da liberdade, passavam fome e frio extremos, sem direito a cuidados básicos de higiene e de saúde. O NKVD, o ministério do interior da URSS, responsável pela segurança, serviço secreto e controle do tráfego e fronteiras, administrou as deportações e o sistema carcerário. Calcula-se que Josef Stalin tenha matado mais de 20 milhões de pessoas durante seu reinado de terror. As repúblicas bálticas perderam mais de um terço de sua população nesse período e as deportações chegaram a atingir os finlandeses.
A protagonista de Cinzas na Neve, Lina Vilkas, é uma jovem lituana de classe média. Aos 15 anos de idade, planeja seguir carreira artística, pois além de admirar arte e pintores, desenha e pinta com muito talento. Mora com os pais (Kostas e Elena) e o irmão de 10 anos (Jonas) em uma casa confortável. Está sempre acompanhada pela melhor amiga e prima mais velha (Joana), que sonha em ser médica.
Mas sonhos são destruídos ou interrompidos em 1941, quando a NKVD invade a residência da família no meio da noite e arrasta Lina, Elena e Jonas para um trem repleto de pessoas comuns, mas tratadas como criminosas pela NKVD. Sem saber onde Kostas está, os três supõem que ele está em outro vagão.

"O homem da NKVD empurrou nós dois para o chão. Começou a brandir o fuzil diante de nossos rostos, berrando em russo."


"Dois soviéticos vinham arrastando um padre pela plataforma. Suas mãos estavam amarradas, a batina estava suja. Por que um padre? Mas, pensando bem... por que qualquer um de nós?"

"O padre ergueu os olhos, aspergiu óleo e fez o sinal da cruz enquanto nosso trem se afastava. Estava nos dando a extrema-unção."


Inicialmente, quando sua mãe ordena para prepararem as malas, Lina e Jonas nem imaginam o que está acontecendo. Mesmo após serem colocados no trem lotado, Lina desconhece o verdadeiro motivo da deportação e pensa que será um episódio breve. Ela é a narradora do livro e, portanto, quem lê sabe pouca coisa e se pergunta o porquê de sua família e as demais estarem passando por este momento horrível.
Não somente fatos e locais são mostrados pelo olhar da jovem, mas também as demais personagens, como o jovem Andrius, filho de oficial militar; a mãe dele, a Sra. Arvydas; o Homem Careca; o Homem do Relógio; a professora Sra. Grybas; Janina, a Menina com a Boneca; Ona, mãe de Janina; o jovem oficial da NKVD Kretszky; o comandante russo Komorov; a altaina Ulyushka; o Repetidor. Você vai descobrindo aos poucos quem são aquelas pessoas pelo ponto de vista de Lina e isso é uma das melhores coisas do livro. Tanto pela visão ainda inocente porém não infantil de uma adolescente, como por ela ter olhos de artista e notar detalhes despercebidos pelos outros ao redor.
Em meio ao desespero, terror e tristeza, Lina enxerga beleza na vida, mesmo tudo parecendo horrível. E da mesma forma que ela não perde as esperanças de estar novamente livre e reunir a família, incluindo o pai e a prima, ela não abandona seus planos e sonhos. Em meio à depressão, fraqueza, humilhações, medo e melancolia, Lina se apega à saudade do pai e memórias alegres para jamais se esquecer de sua verdadeira vida. Focando no futuro, ela tenta suportar as dores do presente desesperador. Sempre que possível, desenha e escreve, retratando o cotidiano e codificando informações, fazendo muitas vezes seus desenhos circularem entre os deportados, certa de que caso algum chegue às mãos do pai, ele reconhecerá a mensagem e ao menos saberá onde esposa e filhos estão. Através da arte precária às escondidas, Lina mantém-se conectada ao seu país, origens, família e cultura; é também uma forma de resistência particular.

"Embora estivesse escuro, a neve branca clareava a paisagem cor de grafite. Mas isso era tudo o que víamos — cinza por toda parte."

"Em breve voltaremos para casa. Quando o resto do mundo descobrir o que os soviéticos estão fazendo, vão pôr fim nesta situação. Iriam mesmo?"

Outros destaques da trama são Elena e Jonas. Elena é uma mulher muito inteligente e perspicaz e igualmente bondosa. Por falar russo fluentemente, atua como intérprete não oficial, fazendo o diálogo entre oficiais da NKVD e prisioneiros fluir, dentro do possível, visto que os deportados não têm nenhum direito a nada nem de voz. Ela organiza e assume a liderança entre os prisioneiros por diversas vezes, sempre sendo gentil e se preocupando com todos. O clichê sobre uma criança obrigada a amadurecer muito rapidamente não foi tão profunda como em Cinzas na Neve. Jonas começa o romance com a ingenuidade e doçura de um menino de 10 anos e logo parece um adolescente e até mesmo um adulto perante tantas provações. Ele assume responsabilidades e dificuldades extremas para ajudar a mãe e a irmã, sendo engenhoso e resistente em alguns momentos. Sem a figura paterna de Kostas, Jonas se identifica com Andrius, um jovem da mesma faixa etária da irmã mais velha. Enquanto isso, há uma possível semente amorosa entre Lina e Andrius, mas o que deveria ser um romance juvenil e o primeiro amor de Lina, tem muitos obstáculos para geminar, devido à situação desesperadora onde a sobrevivência é uma batalha diária.
Os cenários da história são tão gélidos quanto as atitudes dos oficiais da NKVD. Em meio à neve e sem aquecimento mínimo, os deportados enfrentam fome, doenças e frio extremo. O grupo é remanejado e obrigado a viajar algumas vezes, o que se torna cada vez mais torturante. Eles parecem rumar cada vez mais para áreas desoladas e inóspitas e, dessa forma, ficam cada vez mais distantes da terra natal, todos separados de entes queridos.

"— Eles estão... — Ela se calou. — Estão o quê? — insistiu a Sra. Rimas. — Eles estão nos vendendo — sussurrou ela."

"Estávamos nos aperfeiçoando rapidamente na arte de roubar migalhas. Jonas saía de fininho todas as noites para pegar restos de comida no lixo da NKVD."

"Mamãe estava se matando de fome para nos alimentar. O vento uivava enquanto caminhávamos em direção ao prédio da NKVD. Cada respiração fazia minha garganta arder. O sol não apareceu. A noite polar havia começado."


Muitos flashbacks de Lina surgem adequadamente para que você possa comparar a situação atual à vida normal da família Vilkas e descobrir melhor quem a adolescente realmente é. As lembranças doces, coloridas e cheias de vida que Lina mantém para aquecer seu coração em meio às cinzas na neve contribuem muito bem para a construção de personagens. Você se apega muito, ainda mais mantendo em mente que milhares de pessoas sofreram aquilo.
Sinceramente, me emociono muito com histórias de sobreviventes de guerras ou desastres. Quando algo enorme chega e destrói vidas e comunidades, sempre de forma arrasadora e imparável, me sinto muito inquieta, pensando em como somos pequenos perante a destruição que a própria humanidade é capaz de gerar. Por isso, o livro me comoveu, me fez pesquisar melhor sobre o episódio e alguns detalhes históricos e verídicos. Fiquei pensando nos horrores, sofrimento e injustiças da guerra, da tortura e do desrespeito aos direitos humanos; em como nunca, jamais, deveríamos permitir que coisas assim se repetissem.
A autora me passou sensações muito verdadeiras e intensas com as personagens, quase como se fosse uma biografia. É um romance histórico inesquecível e magnífico, muito dramático e voltado ao público adulto. O recomendo para quem também gosta de se inquietar, refletir e se emocionar com fatos reais e sentimentos universais.

"Espero que levem você a fazer alguma coisa, a contar a alguém. Somente então poderemos ter certeza de que esse tipo de mal jamais voltará a se repetir."

Minha leitura foi através de um ebook cortesia cedido pela Editora Arqueiro, portanto não posso avaliar o exemplar físico, mas o digital está perfeito, incluindo revisão. A tradução é de Fernanda Abreu.

“Poucos livros são lindamente escritos. Pouquíssimos são realmente relevantes. Este romance é ambos.” – The Washington Post.

“Um forte soco no estômago.” – The New York Times Book Review.

A capa antiga:



A Arqueiro publicou também de Ruta Sepetys a obra O Sal das Lágrimas, com as histórias de 4 refugiados durante a Segunda Guerra Mundial. Será resenhado no blog, fique de olho!



A autora:
Nascida e criada em Michigan, nos Estados Unidos, é filha de um lituano refugiado. Em Cinzas na Neve, vencedor do prêmio Golden Kite e adaptado para o cinema em 2018, Ruta pôde dar voz às centenas de milhares de pessoas que, de alguma forma, foram atingidas pelo genocídio perpetrado por Stalin contra os povos bálticos.
Suas ficções históricas já foram publicadas em mais de 60 países. O Sal das Lágrimas, também publicado pela Editora Arqueiro, teve os direitos cinematográficos adquiridos pela Universal Pictures, venceu o Goodreads Choice Awards e recebeu a Carnegie Medal em Literatura.
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Dicas de leitura para quem se interessou ou gostou de Cinzas na Neve (clique no título para saber mais):


A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak, Intrínseca); Uma Constelação de Fenômenos Vitais (Anthony Marra, Intrínseca)O Rouxinol (Kristin Hannah, Arqueiro); Somos os que Tiveram Sorte (Georgia Hunter, Record)A Chave de Sarah (Tatiana de Rosnay, Suma)Fique onde Está e então Corra (John Boyne, Seguinte); O Diário de Anne Frank (Anne Frank, Record); A Garota do Casaco Azul (Monica Hesse, Rocco Jovens Leitores)Um Amor Perdido (Alyson Richman, Bertrand Brasil).

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