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27 de abril de 2013

Filhos do Fim do Mundo, Fábio M. Barreto, Fantasy - Casa da Palavra

Filhos do Fim do Mundo
Fábio M. Barreto - Fantasy Casa da Palavra
288 páginas - Ano: 2013 - R$34,00

Sinopse:
"Quando as crianças do mundo param de nascer, um repórter se prepara para sua última matéria sobre o começo do fim do mundo.
É meia-noite quando a humanidade é surpreendida pela notícia: todas as crianças nascidas nos últimos 12 meses morreram misteriosamente. Descobrem também que plantas e filhotes também morreram. Um repórter responsável por cobrir os eventos preparativos para o fim do mundo, deixa sua esposa grávida em casa, partindo para uma perigosa missão investigativa, em que terá de enfrentar grandes desafios para proteger aqueles que ama.
Em Filhos do fim do mundo, acompanhamos a saga de um repórter tentando se equilibrar entre sua função de pai e jornalista em meio ao caos pré-apocalipse. As catástrofes se misturam com a tensão psicológica do personagem em um envolvente romance que vai encantar os amantes de ficção."

Links: Fantasy - Casa da Palavra | Skoob

Resenha:
Esta é mais uma publicação nacional da Fantasy - Casa da Palavra. Além do belo trabalho gráfico e capa inquietante (uma rua de classe média tipicamente estadunidense vazia), o livro atrai pelo tema de apocalipse. Uma Ficção Científica nacional que aborda um tema delicado e o recicla de modo bastante humano, realista e abrangente.

Mesmo possuindo uma premissa já muito utilizada, Fábio M. Barreto consegue ser original, pois escreve Ficção Científica sem o peso que o gênero costuma trazer ao texto. Não se perde em descrições cientificamente pomposas nem em explicações excessivamente entediantes. O autor possui uma escrita simples, direta e cheia de ação.
A história é feita tanto para os fãs do gênero que buscam por uma boa e leve Ficção Científica ou para leitores que costumam deixar de ler esse tipo de história por medo de se perder em detalhes chatos. O livro não possui a intenção de tentar fazer a história ser cientificamente correta demais, didática demais. E ao ignorar certos floreios literários característicos da Ficção Científica o livro torna-se acessível para qualquer tipo de leitor; acaba apresentando uma trama realista e humana, pois o foco está nas reações e emoções das pessoas, no desenvolvimento psicológico que o problema avassalador de fim do mundo eminente e irrefreável causa à todos.
É tentando não ser explicativo demais que o autor consegue trazer realismo no desenrolar no enredo, uma grande (e excelente) ironia.

O livro é narrado em terceira pessoa e dividido em longos capítulos. Eu os considero mais partes que capítulos. No entanto existem diversas pausas entre uma cena e outra. Além disso, existe um prefácio e um epílogo.
A narrativa é direta, linear e repleta de ação. A principal característica do livro é certamente a impessoalidade dada às personagens. Sinceramente, adorei completamente essa estratégia. A tática deu certo, está perfeita.
Não existem nomes, mas existem representações profundas. No entanto as personalidades não deixam de existir. O que aparentemente poderia ser perigoso, ou seja, tornar as personagens meros símbolos caricatos e sem graça é a melhor parte do livro, porque traz diversas interpretações. O autor não erra.
Embora cada uma das pessoas nos seja apresentada segundo sua profissão, aparência ou qualquer outra característica explícita, percebi a clara intenção de não criar uma caracterização robótica. Interpretei como o modo de mostrar ao leitor que mesmo as ações sofridas por cada uma daquelas personagens, mesmo o foco estando naquelas pessoas, os fatos poderiam estar acontecendo com qualquer um; na verdade, o fim do mundo está afetando a todos. As reações são diversas, porém o medo, desespero e dúvida são os mesmos enfrentados por cada ser humano. Por isso as personagens não possuem nome, nem o protagonista.

Ele é o Repórter encarregado de buscar uma resposta para o fato de todas as crianças nascidas nos últimos doze meses terem falecido exatamente ao mesmo tempo, sem explicação alguma. Não apenas os bebês, mas todos os seres vivos, pois o mesmo aconteceu com plantas e animais. Nada mais parece conseguir nascer e sobreviver. O Repórter possui, além da motivação profissional e humana, outra pessoal: sua Esposa está grávida e seu primogênito próximo do nascimento. O mundo está por um fio e o Repórter se desespera por respostas, guiado pelo instinto e responsabilidade da profissão e desejo de manter a família intacta e salvar seu filho.
O Repórter não esperaria acabar se envolvendo mais ainda nesse caos. Ele acaba descobrindo revelações bombásticas e fica dividido entre divulgar ou não tais descobertas. Ele sofre um dilema pessoal e ético.

As principais personagens são representações da sociedade bastante profundas.
O Governador e a Primeira Dama simbolizam claramente como os chefes de Estado poderiam estar agindo perante o fim do mundo e confusão épica causada pelo apocalipse.
Como a elite do governo reage, como tenta apaziguar a catástrofe, como chega ao ponto onde a ética entra em conflito com a segurança de toda uma nação.
A ética é constantemente questionada no livro, em vários momentos e em diversos setores. Seja o Repórter refletindo se deve ou não publicar descobertas e ideias, os governantes e militares escondendo informações para não causar maior alarde público... Ou integrantes do povo que não sabem se devem pensar cada um em si ou na sobrevivência de todo o povo.
O Padre representa a questão da fé, outro tema muito bem explorado pelo autor. Ele mostra as pessoas que conseguem em sã consciência manter o foco através da fé em Deus e se mostram calmas e seguras diante do implacável problema. Outros infelizmente seguem a fé de modo desenfreado e exagerado, beirando a loucura e fanatismo. Existem também os que perdem sua fé por causa da situação irreversível, além dos que nunca tiveram fé. Com fé ou não o autor mostra diferentes pontos de vista.

Os militares estão bem representados, acho que ocupando até um espaço grande demais na história, com exemplos diferentes como o Major e o Comandante. Porém é justificável, eles são a proteção da população, logo ganham destaque nesse momento do mais alto risco.
A mídia informal e a população curiosa e não apenas espectadora estão representadas por pessoas como o Blogueiro e o Radialista, que em meio a tanto caos possuem diferentes preocupações e reações. Através deles é introduzido o povo revoltado, perdido e despreparado. Outro assunto delicado que o autor aborda é a censura e seu oposto: O excesso de informações e seu uso descuidado, assim como notícias duvidosas e fantasiosas.
Temos ainda o exemplo de um breve ponto de vista infantil, que eu acho que poderia ter sido mais explorado pelo autor, que é a Filha do Governador. A menina não compreende o que de tão terrível está acontecendo, sendo logo superprotegida pelas pessoas próximas.
O Diretor do jornal onde o Repórter trabalha também possui seu papel na história, mostrando um profissional que não desiste, mesmo sendo abalado pessoalmente.
O Médico e a Senhora (sua esposa) fecham o núcleo principal de personagens, trazendo a incansável crença médica de que algo sempre pode ser feito, uma solução concreta pode existir - com certeza uma explicação plausível.
Diversas vidas, opiniões e pessoas.
Gostei do final, é tão inquietante quanto a premissa e talvez mais complexo. As últimas páginas talvez não sejam tão simples para todos.

Recomendo o livro para diversos tipos de leitores. Como citado anteriormente, qualquer um pode lê-lo, mesmo quem não gosta de Ficção Científica. Eu recomendo para quem gosta de histórias que possuem variadas interpretações, todas ligadas à humanidade, à civilidade, ao papel do ser humano e da existência da vida.
Um livro de linguagem simples, capaz de introduzir qualquer pessoa à reflexões profundas, caso ela se deixe mergulhar na história. No entanto, também cumpre seu papel de objeto de entretenimento para os leitores que buscam por uma história interessante. Isso depende de quem lê. O autor não força ninguém a se aprofundar, mas convida.
 Algo que não costumamos parar para refletir é trazido à tona: Por que de fato existimos? Com teorias científicas ou religiosas, pensem bem: Por que existimos? Por que existe a vida? E o que aconteceria a cada ser vivo se simplesmente, de uma hora para outra, nenhum novo ser pudesse existir e tudo fosse deixando de ser renovado? Uma reflexão de como pensamos apenas no "eu" e nos esquecemos do "nós"; no "presente" e não imaginamos o futuro à longo prazo.
A vida é o maior mistério que existe e ela é frágil.

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O autor:
Fábio M. Barreto é escritor, jornalista e cineasta. Criado nas redações de O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, dedicou a carreira à indústria do entretenimento.
Trabalhou e publicou conteúdo em grandes veículos de imprensa como Sci-fi News, CNN e Brainstorm #9.
Entrevistou dezenas de grandes nomes da indústria de Hollywood, de J.J. Abrams a Neil Gaiman, e foi responsável pela criação da JediCon e do SOS Hollywood.
Hoje é membro de um dos podcasts de cultura pop mais famosos da internet brasileira, o Rapaduracast. Atualmente, reside em Los Angeles, Califórnia.

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De 27/04/2013 até 19/05/2013.



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