Pesquise no Leitora Viciada

22 de dezembro de 2014

As Crônicas Híbridas, volume 1: O que Restou de mim, de Kat Zhang e Galera Record

O que Restou de mim (What's Left of me)
As Crônicas Híbridas - livro 1
Kat Zhang - Galera Record
Tradução: Joana Faro
320 páginas - Ano: 2014 - R$35,00
+ informações | comprar

Sinopse:
"Eva e Addie nasceram como todas as outras crianças: duas almas entrelaçadas no mesmo corpo. À medida que cresciam, começavam os olhares de censura e os questionamentos: Por que elas não estão se definindo?
Definindo. Todo ser humano se define ainda na infância, o que significa que a alma recessiva deve partir para que a dominante possa ter uma vida normal.
Mas isso nunca acontecia e Eva, a alma recessiva, continuava lá... escondida no próprio corpo. Eva e Addie eram híbridas.
Considerados instáveis e perigosos, os híbridos foram perseguidos e eliminados das Américas. Por isso, Addie e Eva vivem da forma mais discreta possível. Mas Eva descobre que há uma chance de voltar a andar, falar e sorrir por conta própria, e agora está disposta a tudo para conseguir isso. O problema é que não estará arriscando apenas a própria vida. Afinal, ela nunca está sozinha."

Resenha:

A Galera Record, do Grupo Editorial Record, é a editora responsável por trazer ao Brasil a série As Crônicas Híbridas (The Hybrid Chronicles). O primeiro volume foi publicado em inglês em 2012 e chegou ao Brasil em outubro de 2014: O que Restou de mim (What's Left of me) é uma obra distópica e Young Adult (Jovem Adulto).
A capa traz o rosto parcial de uma garota, como se metade tivesse sido apagada. O título do livro sobressai-se, destacando a palavra "mim". A imagem original foi mantida e a Galera Record acertou na escolha.
Após ler a sinopse e observar a capa novamente, ela torna-se intrigante: A face em tons frios representa não uma, mas duas meninas: Duas almas compartilhando o mesmo corpo. Essa é a ideia incrível da autora Kat Zhang, que por si só já faz o livro valer a pena. Original, diferente e instigante - É como resumo o conceito criativo do livro. A exploração do enredo é excelente, porém poderia ser ainda melhor. Acho que poucos perceberão alguns furos pequenos na construção de algumas cenas, porque todo o restante positivo se sobrepõe.

É uma Ficção Científica que apresenta um conceito que, inicialmente, pode parecer confuso, mas de rápida assimilação: Todas as pessoas nascem com duas almas, duas consciências em apenas um organismo. Durante a primeira infância, ambas as mentes convivem juntas e compartilham igualmente o comando do corpo e todas as ações, juntas e se alternando. É meio complicado imaginar o funcionamento prático, porém a autora introduz com eficiência esse mundo diferente e em momento algum o leitor fica confuso.
Aos poucos, a pessoa vai se definindo, ou seja, uma alma passa a ser predominante. Todos passam pela Definição, momento em que a alma recessiva se desvaneia. Um humano só é considerado saudável quando se define, portanto, é essencial que uma criança se defina na idade certa. Se uma criança demora a se definir, preocupa a todos, pais, educares e médicos. O Hibridismo é uma doença gravíssima.
As protagonistas são Eva e Addie, duas consciências ocupando um só corpo. Seria uma só mente? Elas são irmãs ou a mesma pessoa? O que acontece com a alma recessiva depois que a pessoa se define? Morre ou permanece para sempre nas profundezas da mente?
Esses e outros questionamentos acompanham o leitor por todas as páginas, tornando a leitura uma experiência apreciável, porque é interessante tentar imaginar e se colocar dentro dessa ficção.
Os conceitos de "personalidade", "alma", "consciência", além de "eu", "você" e "nós", é bem complexo e eu adorei. Parabéns para a autora por essa invenção ousada. Ignorei o conceito tradicional de indivíduo e interpretei os híbridos como algo novo, único. Não adianta se apegar ao padrão, mergulhe no desconhecido e fantástico.
Outro fator importante é como todos lidam com isso. Os pais, por exemplo, ficam na expectativa durante a espera. O que parece bem estranho, saber que você tem duas crianças em um único corpo e, após alguns anos de amor, carinho, apego, cuidados e etc, uma delas simplesmente precisa desaparecer, para enfim, ter uma só pessoa no corpo. E a alma que fica, ainda uma criança, como lida com a perda da alma companheira? Porque é difícil compreender, mas ao menos eu as vejo como duas pessoas únicas, mas que formam um ser completo - é como se você perdesse sua própria metade!
Depois que a dominante fica e a recessiva some, todos agem como se a desaparecida nunca houvesse existido. Me impressionou ver a naturalidade com que todos lidam com isso, e esse é um ponto positivo da obra.
Porque na ficção especulativa, seja mais científica ou mais fantástica, o importante é a segurança e confiança que o autor passa ao apresentar e desenvolver a base de sua criação. Com poucas ou muitas explicações, seja como for, o autor precisa convencer o leitor de que aquele mundo fictício existe, ao menos durante a leitura. E Kat Zhang consegue.

Todos pensam que Addie se definiu e Eva, a alma recessiva, se foi. Mas as duas continuam unidas como sempre, compartilhando o mesmo físico. Duas consciências diferentes dividindo a mesma mente, os mesmos sonhos, ideias, sentimentos e pensamentos. Addie é quem comanda as ações físicas, fala, olha, anda... Mas ela não está sozinha, ela ainda tem Eva dentro de si. Esta é psicologicamente tão ativa quanto Addie. Duas personalidades distintas, apenas uma no controle! Como coexistir desse jeito?
A existência. Este é o grande segredo delas. Ninguém sabe, nem a família. Uma não consegue viver sem a outra, Addie não quer perder Eva e esta não quer ir embora: Elas não querem ser mutiladas. No entanto, é perigoso ser um híbrido. É uma doença física, psicológica e social. Todos devem se definir e os fatos mostram isso. O pano de fundo cultural e histórico é brando, um pouco superficial, mas existe. Talvez a autora mostre isso nos próximos livros, pois parece enriquecedor. Se não se aprofundar, também não será problema.
A narrativa é em primeira pessoa, sempre por Eva. Adorei a escolha da autora, contar a história através da voz da alma recessiva, a que não controla o corpo. Portanto, é uma leitura excepcional, ter dois pontos de vista tão íntimos, mas contados por uma dessas pessoas. É magnífico acompanhar a narrativa oficial em primeira pessoa do singular, mas alternando também entre primeira pessoa do plural! Então Eva fala "Eu pensei", ou "Addie chorou", ou, simplesmente "Nós corremos" - Excelente. E, embora seja Eva a narradora, temos muito de Addie. Não apenas porque elas ocupam o mesmo corpo, mas porque Eva tem acesso a maioria dos sentimentos da irmã / alma gêmea.

Após a fase inicial de adaptação do leitor aos conceitos, que é feita de modo natural e tranquilo, a autora nos apresenta parcialmente o mundo de Eva e Addie, seu círculo de relacionamentos, histórico pessoal e rotina. Depois, ao descobrirem que híbridos não são tão raros quanto parece, a história se torna um pouco parada, ao menos para o meu gosto. Continua sendo uma trama ótima e válida, mas senti uma desaceleração. O ritmo intenso chega com tudo na metade do livro, e ao se encaminhar para o último terço da história, a trama ruma para o modo de thriller, trazendo ação e suspense.
O clímax é exímio, mas o contrário acontece: Tudo fica rápido demais. Muitas informações são apresentadas; algumas delas poderiam ter sido encaixadas aos poucos. Personagens surgem na reta final e eu não me senti apresentada a elas. De repente algumas pessoas de suma importância aparecem na vida de Eva / Addie e a autora não mostra nada sobre elas, além da função. Personagens precisam mais do que ter um papel na história, precisam existir, ter personalidade. A autora caprichou tanto na construção de Addie, Eva e o núcleo principal, especialmente o dos híbridos, mas correu no final e se esqueceu de outras personagens. O mesmo ocorreu com os "vilões". Não foram bem fundamentados, exceto uma médica que recebeu uma boa base e princípios pessoais. Então, torço para que posteriormente a autora mostre mais dessas personagens, tanto quanto mostrou dos híbridos.
Outro problema que tive em relação ao final desse primeiro volume, foi a forma corrida como Addie e Eva começam a interagir com os rebeldes e aderir à causa. Parecia que a autora estava pulando cenas, acelerando o tempo cronológico e deixando de mostrar algo importante.
Resumindo: O conteúdo e premissa da trama são fantásticos, o começo do desenvolvimento é excelente, depois fica um pouco lento, para finalmente acelerar demais. Os híbridos são as personagens interessantes; a construção e o crescimento dessas são mais que satisfatórias, enquanto das demais (especialmente o grupo antagonista e o grupo aliado), sofrem carência. Mas no fim, parece ser uma manobra da autora de não mostrar tudo no primeiro volume e ter muitos pontos a serem explorados na continuação.

O que Restou de mim é atraente, novo, inteligente e criativo. Apresenta uma premissa muito diferente das distopias atuais, mostrando que Ficção Científica pode ser simples e interessante e contendo as questões típicas de livros Young Adult.. Uma trama que levanta inúmeros questionamentos sociais sobre o padrão criado pela autora, levando o leitor a refletir sobre preconceito, personalidade, consciência e os conceitos de sociedade e indivíduo. Aborda também temas como testes médicos em cobaias e liberdade psicológica e pessoal. A opressão da massa sobre o ser, dos fins justificarem os meios e da censura em sua forma mais opressiva possível: Controlar quem o indivíduo deve ser perante os padrões sociais.
Os próximos livros já foram publicados em inglês: Once We Were (2013) e Echoes of Us (2014). As capas parecem mostrar o desenvolvimento de Eva e Addie e estou muito curiosa para prosseguir com a leitura. Espero que a Galera Record não demore muito em trazê-los aos brasileiros.



A autora:
Kat passou a maior parte de sua infância viajando pelo mundo maluco de suas histórias e jogos. Aos 12 anos ela começou a escrever seu primeiro romance e a fazer planos de ser escritora de verdade. Seus planos só deram frutos sete anos depois quando vendeu sua trilogia As Crônicas Híbridas.
Quando não está explorando o mundo de seus personagens, está explorando o seu próprio. Ela já teve o prazer de conhecer cinco países, incluindo mais da metade dos Estados Unidos. Ela espera continuar escrevendo e viajar por muito, muito tempo.
Site | Twitter

Instagram @leitoraviciada

Skoob

Online

Siga por e-mail