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23 de fevereiro de 2015

Futilidade ou O Naufrágio do Titan, de Morgan Robertson e Vermelho Marinho

Futilidade ou O Naufrágio do Titan (Futility or The Wreck  of the Titan)
Morgan Robertson - O Melhor de Cada Tempo / Editora Vermelho Marinho
Tradução: Carlos Daniel S. Vieira
112 páginas - 2014 - R$20,00
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Sinopse:
"Futilidade ou O Naufrágio do Titan conta como o maior navio do mundo naufragou, em sua primeira viagem, após bater em um iceberg, exatamente como viria a acontecer com o malfadado Titanic. Quem poderia imaginar que uma novela do final do século XIX se tornaria célebre por ter praticamente previsto o maior acidente náutico de todos os tempos?
Mais do que o livro que profeticamente previu o naufrágio do Titanic, Futilidade é a história de John Rowland, um ateu convicto que embarca como marinheiro no navio, e Myra Selfridge, uma jovem cristã que foi o grande amor de sua vida. Os problemas só aumentam quando um capitão trapaceiro tenta colocar tudo a perder.
Myra e Rowland encarnam, assim, os conflitos científicos e religiosos da virada do século, quando a ciência, mais do que nunca, se sobrepôs à religião. Ao leitor, resta a dúvida - teria sido coincidência ou providência?"

Resenha:
O maior e mais imponente navio já criado pela humanidade naufraga drasticamente após colidir com um iceberg em sua viagem inaugural da Inglaterra para os Estados Unidos. O aparentemente indestrutível navio carrega ainda, uma história dramática em destaque.
Você certamente responderia que conhece a história do Titanic, uma tragédia verídica ocorrida em 1912 e transformada em 1997 em uma das maiores obras cinematográficas (Direção de James Cameron, estrelado por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet). Porém esta não é a história do Titanic e sim do Titan.
Futilidade ou O Naufrágio do Titan (Futility or the Wreck of the Titan) foi escrito em 1898, pelo autor de uma série de contos e novelas marítimas Morgan Robertson (1861 - 1915). 14 anos antes da catástrofe do Titanic, Robertson escreveu uma obra fictícia, mostrando exatamente o mesmo acidente, com o navio Titan, praticamente idêntico ao Titanic.
Outra curiosidade é que este livro nunca havia sido publicado no Brasil. A Editora Vermelho Marinho o lançou em 2014 sob seu selo O Melhor de Cada Tempo, uma coleção com a proposta de publicar grandes clássicos da literatura mundial, há tempos não mais editados, esquecidos ou, ainda, inéditos para o público brasileiro, como Futilidade.
O exemplar é pequeno (18 x 12,5 cm), leve e prático. A equipe da editora fez um excelente trabalho, pois imagino como deve ser sempre complicado traduzir um clássico, ainda mais do século XIX. A revisão e a diagramação estão ótimas e o leitor tem notas de rodapé que auxiliam muito a compreensão de termos náuticos ou da época. A imagem da capa (ilustração de Dandi) representa a colisão e declínio do fantástico navio, assim como o desespero do protagonista.

A história é curta e direta. Se parece mais com uma noveleta ou conto longo que com um romance padrão. A trama é dinâmica, porém recheada de grandes questões humanas. Aparentemente simples, mas é uma história que guarda certa complexidade nas entrelinhas. São conflitos sociais, éticos e religiosos.
A narrativa é em terceira pessoa e em vários trechos o leitor tem acesso aos pensamentos do protagonista, dando ênfase em seus conflitos interiores.
Como quase todo clássico, a compreensão textual pode parecer um pouco diferente das obras contemporâneas, e talvez também levemente mais complicada. Por outro lado a escrita é rica e muito interessante quando o leitor, antes de tudo, tenta se projetar àquela época. No caso, o final do século XIX, quando o mundo ainda se acostumava às consequências deixadas pela Revolução Industrial. Sempre que lemos uma obra, devemos refletir sobre quando, como e para qual público ela foi escrita. E para se tornar um clássico, não basta ser "antigo", mas precisa ser atemporal e ainda ser importante, de alguma forma, para as gerações seguintes.

O autor era filho de capitão e também marinheiro, portanto, perito em navegação, trazendo um incrível realismo a sua criação. Não me perdi com os termos e costumes náuticos devido às notas de rodapé.
O início apresenta o grande Titan, mostrando-o como uma máquina superpotente e inigualável, um organismo vivo formado por complexas partes sustentadas pela inteligência e força humanas. Ele parece uma personagem tamanha vivacidade empregada as suas descrições e importância. Os trabalhadores que mantêm o Titan em funcionamento parecem integrar não apenas um navio, mas um ser poderoso.
E o simbolismo de toda a fortuna e dedicação investidas no Titan pode traduzir a futilidade humana em exibir seu poder e controle. Se observado aos olhos de um cidadão comum da época, o Titan poderia exibir uma crítica ao excesso e desperdício empregados em uma única construção, assim como a ainda desconfiança e fascínio em relação aos inovadores transportes e máquinas surpreendentes.

Somos apresentados não apenas ao Titan, mas também às personagens principais: O marinheiro ateu e alcoólatra John Rowland e a religiosa jovem mãe Myra Selfridge, o amor de sua vida. O protagonista é um anti-herói, porque não se enquadra nos padrões da época de exemplo de cidadão bom e correto. Ele bebe uísque demais, não possui família nem residência, e, além disso, é ateu declarado, um choque para a sociedade. Parece um homem de caráter duvidoso, mas possui enorme carisma perante o leitor e durante sua trajetória mostra ser um homem justo, simples e ético. Um herói que não procura por este título, embora o seja.
Myra é seu oposto e fica claro o motivo do relacionamento amoroso deles nunca ter dado certo. John trabalha como simples marinheiro, enquanto Myra embarca no Titan com sua família como uma das passageiras mais ricas e importantes. É gritante o contraste social e cultural entre eles.
Inicialmente o livro me pareceu interessante, mas não empolgante.
Então o Titan colide com um iceberg, e um dos motivos é essa demonstração de poder do homem através do grande navio. John fica ilhado em meio ao gelo e além de tentar sobreviver, precisa ser o herói, que ele nunca desejou. A partir daí o livro se tornou mais atraente para mim, pois comecei a me apegar pelo protagonista e a perceber que o enredo possuía muito mais que apenas a história do acidente. Na verdade a colisão do navio é apenas a introdução a uma série de conflitos morais e políticos. A corrupção é uma das vilãs da trama, que a partir deste ponto melhorou muito para mim e a leitura foi mais que interessante e curiosa, passei a torcer contra as injustiças e a favor do sucesso do protagonista.

Este é um bom livro para os apreciadores de clássicos, interessados pela sociedade do final do século XIX ou por navegações. Fãs do Titanic precisam conhecer esta história. Parece coincidência o autor ter escrito uma ficção tão semelhante a fatos que ocorreriam 14 anos após a publicação? Ao conferir a biografia do autor e seu conhecimento marítimo imagino como ele simplesmente mostrou algo possível - tanto que ocorreu.
Este livro é rápido e simples, uma dica para leitores que desejam ler um clássico, mas temem livros pesados, grossos e complicados. Futilidade ou o Naufrágio do Titan é um bom começo para adentrar nos clássicos, por ser quase um conto.



O autor:
Morgan Robertson nasceu em 30 de setembro de 1861, em Oswego, pequena cidade do Estado de Nova York, EUA. Filho de capitão, muito jovem iniciou carreira na marinha mercante, demonstrando o amor pelo Oceano.
Amor que, anos depois, se traduziu em uma série de contos e novelas marítimas dentre as quais a mais célebre foi Futilidade ou O Naufrágio do Titan. Morgan ainda é conhecido por ser o suposto inventor do periscópio e por sua novela Para além do Espectro, publicada em 1914, na qual contou, novamente de maneira profética, a história de uma grande guerra náutica entre os EUA e o Japão.
Robertson foi encontrado morto, em 14 de março de 1915, em um hotel de Atlantic City, no estado de Nova Jersey.



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