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15 de julho de 2015

O Príncipe de Westeros e Outras Histórias, organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, de vários autores e Saída de Emergência Brasil

O Príncipe de Westeros e outras Histórias (Rogues)
Organização: George R. R. Martin e Gardner Dozois
Autores: Neil Gaiman, Gillian Flynn, Joe R. Lansdale, David Ball, Scott Lynch, Paul Cornell, Phyllis Eisenstein, Connie Willis, Patrick Rothfuss e George R. R. Martin - Saída de Emergência Brasil
Tradução: Eric Novello, Ana Death Duarte, Marina Boscato, Ivan Jr., Taíssa Reis, Carol Chiovatto, Ana Resende, Débora Isidoro e Petê Rissati
480 páginas - 2015 - R$49,90 (impresso) e R$29,99 (e-Book)
Sorteio até 02/08/2015.

Sinopse:
"Se você é fã de literatura fantástica, irá se deliciar com esta antologia de contos organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois.
Obras inéditas dos melhores autores do gênero irão surpreendê-lo com enredos ardilosos e reviravoltas intrigantes. O próprio George R. R. Martin apresenta uma nova história do apaixonante e violento mundo de A Guerra dos Tronos, introduzindo um dos personagens mais canalhas da história de Westeros."
O livro traz contos que não são preto e nem branco, contos com todos os tons de cinza. 21 histórias com reviravoltas astutas e deslumbrantes nessa galeria de histórias de vilões que vão saquear seu coração e ainda deixá-lo mais rico a cada história."

Resenha:

Rogues é uma antologia recheada de contos de ficção especulativa organizada e editada por Gardner Dozois e George R. R. Martin. Foi publicada em inglês em 2014 e chegou aos leitores brasileiros pela Saída de Emergência Brasil em 2015 como o 14º livro da coleção Bang!, composta por publicações de literatura fantástica para o leitor "fugir da rotina".
Recebeu o título O Príncipe de Westeros e outras Histórias, devido ao conto escrito por Martin, uma noveleta passada no universo de As Crônicas de Gelo e Fogo, sua série de livros de monumental sucesso, adaptada como seriado televisivo pela HBO - A Guerra dos Tronos (Game of Thrones). Martin também é roteirista e produtor e trabalhou em vários projetos como Além da Imaginação. Vencedor de incontáveis prêmios como Hugo, Nebula e World Fantasy, entrou para a história da literatura fantástica. Além disso, publicou outros livros e antologias (Ruas Estranhas, Dangerous Women e Wild Cards). Não apenas seu conto se tornou o título no livro na versão brasileira, como seu nome foi destacado na capa. Já o outro organizador do livro, Dozois, não fica para trás no currículo: Ganhou dois prêmios Nebula como escritor e quinze prêmios Hugo como editor! Já editou e organizou mais de cem livros, além de ter sido editor da Asimov's Science Fiction por vinte anos.
Nenhum fã de ficção fantástica duvida do talento da dupla, portanto as expectativas sobre o livro são altas. Ainda mais com uma lista de autores consagrados formando atraente time.
A capa e o design da edição brasileira estão lindos. Mas vamos ao mais importante: O conteúdo também é de primeira linha. Mesmo nos contos que você menos gostar, encontrará algo de valor.

A proposta da antologia é servir ao leitor contos especulativos de boa qualidade, que vão da fantasia clássica ao steampumk, passando pelo suspense e aventura. Cada autor parece ter seguido o seu estilo, enquanto outros arriscaram sair da zona de conforto, mas respeitando a temática: Canalhas! Toda história presente tem isso em comum, apresenta personagens patifes. Protagonistas de índole duvidosa perante padrões sociais. Podem ser vigaristas, ladrões, malandros, impostores, golpistas...
Martin explica logo na introdução Todo Mundo Ama um Canalha "embora, às vezes, a gente sobreviva para se arrepender." Este texto inaugura o livro explicando a origem da ideia da antologia e a base do próprio Martin sobre anti-heróis e personagens numa "zona cinzenta". Ele usa este termo para demonstrar como pode ser mais interessante para o leitor (e para ele) uma história em que não se consegue classificar as personagens como "bons" ou "maus". Estas "costumam ficar num ponto intermediário, personagens numa zona cinzenta... e cinza tem sido minha cor preferida há tempos. É muito mais interessante que o preto ou o branco." Martin prossegue citando suas referências; explica como antologias com textos diversificados proporcionam uma viagem única ao leitor; se manifesta como romper convenções sociais, estéticas (e literárias) é importante; prova como todos os gêneros literários possuem famosos e irresistíveis canalhas, fenômeno que se espalha para o cinema e quadrinhos.


O único problema do livro é que não possui todos os vinte e um contos presentes na publicação original Rogues pela Bantam Books. Faltam onze contos: Tough Times All Over, a Red Country story (Joe Abercrombie); The Inn of the Seven Blessings (Matthew Hughes); Tawny Petticoats (Michael Swanwick); The Roaring Twenties (Carrie Vaughn); Bad Brass (Bradley Denton); Heavy Metal (Cherie Priest); The Meaning of Love (Daniel Abraham); I'll Seen in Tyre (Steven Saylor); A Cargo of Ivories, a Sir Hereward and Mister Fitz story (Garth Nix); Diamonds From Tequila, a Dagmar story (Walter Jon Williams); e The Curious Affair of the Dead Wives (Lisa Tuttle).
Não sei se a Saída de Emergência fez esse corte por questões de direitos autorais, se pretende publicar os demais contos em outra antologia ou se, simplesmente, os retirou para encurtar o livro, selecionando as melhores histórias voltadas ao público brasileiro.
São (obviamente) histórias independentes, mas fiquei um pouco decepcionada quando notei que a edição brasileira tinha apenas dez dos vinte e um contos.
Entretanto, a seleção é magnífica e a leitura foi maravilhosa. Existe uma biografia supercompleta de cada autor ou autora antes do referido conto. Alguns deles não são conhecidos do público brasileiro, então isso é interessante, para se ter uma ideia da importância do trabalho e estilo de cada um.
(A resenha ficou longa porque são 10 noveletas.)

O primeiro conto: Como o Marquê Recuperou seu Casaco (How the Marquis Got His Coat Back,, a Neverwhere story) de um dos mestres da literatura fantástica contemporânea, vencedor dos prêmios Hugo, Nebula (dois), World Fantasy, Locus (seis), Stroker (quatro), Geffens (três), Mythopoeic (dois) e Medalha Newbery. Trata-se do criador de Sandman (dos quadrinhos) e Caroline (que ganhou animação), o Neil Gaiman. Ele traz uma história na Londres de Baixo, de seu romance Lugar Nenhum. É fantasia urbana com características muito peculiares. Gaiman é especialista em utilizar fatores absurdos para ilustrar o ser humano. Com narrativa em terceira pessoa e seres e situações exóticos, o Marquês de Carabas precisa recuperar seu incrível casaco. É um conto sobre preservar sua personalidade acima de tudo; sobre não deixar lhe retirar suas características. É uma crítica a quem prefere a segurança do comum e de seguir a massa que a ousadia de ser único. A tradução é do Eric Novello.

O segundo conto é do David W. Ball, traduzido por Ana Death Duarte. Não conhecia Ball, mas ele já viajou por mais de sessenta países e usou suas experiências para escrever os épicos Ironfire e Empires of Sand. Em Proveniência (Provenance) ele mistura arte, história e violência para contar a trajetória de pinturas. O conto envolve ladrões, golpistas, traficantes de arte e armas, guerras e nazismo. É interessante, porém um pouco excessivo nas explicações, mas, ainda assim, de alta qualidade. A narrativa é em terceira pessoa e mostra como crimes e grandes esquemas podem ser feitos em prol de dinheiro, quero dizer, da beleza das artes.

Gillian Flynn é autora dos best-sellers Garota Exemplar, Lugares Escuros e Objetos Cortantes (os dois primeiros ganharam filmes). Com tradução de Marina Boscato, Qual É a sua Profissão? (What Do You Do?) é um thriller surpreendente. Ela sustenta seu talento em escrever grandes suspenses. Dessa vez a narrativa é em primeira pessoa e o discurso da protagonista prende o leitor desde o primeiro parágrafo, pode apostar! A protagonista narra sua trajetória profissional, de prostituta a médium, e como foi parar em uma casa aparentemente mal assombrada. Ela precisa exorcizar o local - ou ao menos fingir que está tentando. Final imprevisível e chocante. Um dos melhores contos!

Paul Cornell escreve ficção científica e fantasia em mídias diversas: livros (de fantasia urbana, London Fall e The Severed Streets), quadrinhos (DC Comics e Marvel Comics) e televisão (Doctor Who). Um Jeito Melhor de Morrer (A Better Way to Die, a Jonathan Hamilton story) é uma história única e incrivelmente criativa; um steampunk ousado, apresentando a Europa do século XIX com tecnologia inacreditável. O protagonista é um espião em meio ao Grande Jogo e enfrenta adversários estranhos em uma corrida perigosa envolvendo viagens no tempo e espaço. A narrativa é em terceira pessoa e a tradução é de Ivan Jr. Pode parecer complicado para leitores não acostumados a ficção científica. O conto é excepcional e agradará aos leitores mais experientes no gênero!

Os dois próximos contos são de tradução de Taíssa Reis.
Um Ano e um Dia na Velha Theradane (A Year and a Day in Old Theradane) do Scott Lynch é meu conto preferido nesta antologia. Ele é famoso por Nobres Vigaristas e, devido a excelente experiência que tive com o conto, procurarei ler mais do autor. Esta história é estonteante e uma combinação sensacional de magia, fantasia e steampunk. Na trama, um grupo de ladrões aposentado precisa voltar a ativa. A dificuldade está no item que precisa ser roubado: Uma rua inteira! Se não bastasse a criatividade, a escrita maravilhosa e a ambientação incrível, o autor apresentou um fator decisivo para tornar sua história diferente: Com exceção de um robô, os membros do grupo são mulheres ousadas. Adoraria que a equipe tivesse seu próprio romance.

Em seguida vem A Caravana para Lugar Nenhum, com Alaric, o Bardo (The Caravan to Nowhere, a Tales of Alaric the Minstrel story) de Phyllis Eisenstein. Ela escreveu histórias com o protagonista deste conto, reunidas em Born to the Exile e In the Red Lord's Reach, além da série Book of Elementals e, ainda, outros dois romances. Em terceira pessoa a autora mostra como o bardo incomum acompanha uma caravana por um deserto misterioso, recheado por lendas estranhas. Ele é contratado para entreter os viajantes durante a jornada e logo desconfia que talvez magia e insanidade estejam espalhadas pelo caminho. É uma história preciosa, especialmente para quem gosta de tramas envolvendo terras curiosas, tavernas e habilidades especiais.

Galho Envergado (Bent Twig, a Hap and Leonard story) foi traduzido por Carol Chiovatto e escrito por Joe R. Lansdale, detentor de um invejável currículo. Ganhou os prêmios Edgar, British Fantasy, American Horror, International Crime writter e Bram Stoker (nove!). Publicou histórias de terror e thriller, a popular série de mistério de Hap Collins and Leonard Pine (os protagonistas deste conto), romances de faroeste e muitas publicações diversas, incluindo graphic novels, quadrinhos e contos, até mesmo como organizador. A narrativa é em primeira pessoa, do Hap. Ele precisa resolver um grande problema de família, envolvendo o desaparecimento de sua enteada viciada. Achei o conto realista para a antologia e infelizmente não gostei dele comparando-o aos demais, embora possua bastante sarcasmo e pancadarias divertidas.

A Árvore Reluzente é uma história de A Crônica do Matador do Rei (The Lightning Tree, A Kingkiller Chronicle story). A noveleta do best-seller Patrick Rothfuss e com tradução de Ana Resende é a mais longa do livro. Infelizmente não li a série, embora tenha vontade. Assim como ocorreu com os demais contos desta antologia pertencentes a universos já existentes, senti leve receio de me perder, mas isso não aconteceu. Fiquei bem a vontade com a leitura, maravilhada e curiosa. Em terceira pessoa acompanhamos a rotina de Bast, fora e dentro da Hospedaria Marco do Percurso. São vários encontros, lições e diálogos interessantes (e travessuras), exibindo um mundo de fantasia atraente, convidando o leitor que desconhece a série a lê-la! Espero que a noveleta também agrade aos fãs.

O penúltimo conto, traduzido por Débora Isidoro, é Em Cartaz (Now Showing). Outra autora que eu não conhecia: Connie Willis. Parece que apenas raros contos da autora foram publicados no Brasil em antologias antigas. O que parece absurdo, pois ela é uma autora de ficção científica notável, especialmente nos anos 1980 e 1990. Ao pesquisar perdi a conta de quantos prêmios Hugo e Nebula ela recebeu. O conto é em primeira pessoa, dinâmico, divertido e lotado de referências nerds e pops. É uma história de ficção científica passada em um futuro onde o entretenimento e o comportamento social mudaram. O cinema tornou-se ainda mais poderoso, de um jeito diferente. Lindsay é a protagonista que vai com algumas amigas ao Cinedrome, mas acaba se encontrando com o ex-namorado, enfrentando uma odisseia para conseguir assistir ao filme escolhido e se metendo em uma conspiração. É um conto mais profundo do que aparenta, com mensagens sobre como as pessoas são controladas através do consumo desenfreado.

O Príncipe de Westeros ou O Irmão do Rei, uma história de As Crônicas de Gelo e Fogo (The Rogue Prince or A King’s Brother, a Song of Ice and Fire story) é deixado para o final por ser certamente o conto mais esperado pela maioria dos leitores. George R. R. Martin traz a história do protagonista Daemon Targaryen, o príncipe que nunca se tornou rei, e se passa um pouco antes do conteúdo de O Cavaleiro dos Sete Reinos. Com narrativa em terceira pessoa e tradução de Petê Rissati, a trama apresenta todos os itens que fizeram da série sucesso total: Guerra, intrigas, conspirações e personagens que fazem de tudo para atingir seus objetivos. Tópicos amorais que transformaram a série em uma das mais comentadas e ousadas se fazem presentes, especialmente envolvendo sexo, crianças e traições. O mais interessante é que a narrativa é um conjunto de relatos, boatos e fatos, tudo documentado em ordem cronológica por Martin, como se ele tivesse coletado as informações e escrito o conto. Portanto, muitas ocorrências possuem mais de uma versão, enquanto outras podem ser duvidosas. Incrível, épico e essencial para os fãs de Martin!

Gostei muito do livro, por causa da temática (anti-heróis, golpistas, mentirosos, ladrões...) e gêneros literários. São noveletas variadas e reconheço a qualidade até mesmo das que não gostei muito. Minhas preferidas são as escritas por Gillian Flynn, Scott Lynch, Connie Willis e George R. R. Martin. Uma antologia para fanáticos por literatura fantástica que adoram mais os anti-heróis e vilões que os heróis típicos. Histórias de fantasia que exploram a realidade da natureza humana.


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