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7 de agosto de 2017

Ciclo Terramar, livro 1: O Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin e Arqueiro

O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of  Earthsea)
Ciclo Terramar (Earthsea) - livro 1
Ursula K. Le Guin - Arqueiro
Tradução: Ana Resende
176 páginas - 2016 - R$ 34,90 (impresso) e R$ 24,99 (e-Book) - trecho
Comprar: Amazon | Cultura | Saraiva

Sinopse:
"Há quem diga que o feiticeiro mais poderoso de todos os tempos é um homem chamado Gavião. Este livro narra as aventuras de Ged, o menino que um dia se tornará essa lenda.
Ainda pequeno, o pastor órfão de mãe descobriu seus poderes e foi para uma escola de magos. Porém, deslumbrado com tudo o que a magia podia lhe proporcionar, Ged foi logo dominado pelo orgulho e a impaciência e, sem querer, libertou um grande mal, um monstro assustador que o levou a uma cruzada mortal pelos mares solitários.
Publicado originalmente em 1968, O Feiticeiro de Terramar se tornou um clássico da literatura de fantasia. Ged é um predecessor em magia e rebeldia de Harry Potter. E Ursula K. Le Guin é uma referência para escritores do gênero como Patrick Rothfuss, Joe Abercrombie e Neil Gaiman."

Resenha:

Adaptações cinematográficas de livros de fantasia, como as franquias O Senhor dos Anéis e Harry Potter, consagraram o gênero literário. Fantasia se tornou muito popular. Isso impulsionou o mercado editorial na última década, que tem lançado cada vez mais séries de fantasia longas, com enormes expectativas de vendas. Muitas sagas são publicadas já pensando em potenciais adaptações. Antes, lá na década de 1960, a escritora americana Ursula K. Le Guin compôs o primeiro volume da série Earthsea (traduzido como Terramar). Numa época em que poucos leitores consumiam fantasia (considerada infantil); quando não se publicava um livro fantástico pensando em produções grandiosas para cinema, TV ou streaming, Ursula, uma das mais importantes autoras de ficção científica e fantasia da atualidade, foi convidada por um editor a escrever um "romance para crianças mais velhas".
Ela aceitou o desafio de escrever fantasia juvenil, num momento em que o máximo de fantasia não infantil era O Senhor dos Anéis, obra que sempre admirou. Precisava seguir o tradicional e pensou nos magos clássicos como Gandalf ou Merlim e os imaginou jovens. Como eles eram quando inexperientes e imaturos? Será que erraram antes dos acertos? Quem eram antes dos poderosos guias de heróis? Ursula criou seu mago, o Gavião, e decidiu escrever sobre como ele se tornou poderoso, o que fazia, quem conheceu, quais obstáculos encontrou.
O cenário de uma história de fantasia também é importante, portanto Ursula criou Terramar, um Arquipélago com dezenas de ilhas rodeado por mares desconhecidos. Ela havia escrito um conto em 1964 que serviu como esboço da ideia, mas foi em 1968 que A Wizard of Earthsea foi publicado pela primeira vez.
Somente em 2016 essa obra-prima da fantasia, já considerada um clássico no gênero, chegou ao Brasil. O Feiticeiro de Terramar é o primeiro volume do Ciclo Terramar, pela Editora Arqueiro, traduzido por Ana Resende, em exemplar com o mapa de Terramar no interior, orelhas, páginas amareladas, boa diagramação e linda capa (com ilustração de Ursula "Sulamoon" Dorada).


A obra é juvenil e simples, mas leitores somente acostumados a fantasia young adult talvez encontrem dificuldade inicial. O livro é excelente, com narrativa em terceira pessoa, muito bem escrito, mas passa longe da linguagem geralmente muito rebuscada da alta fantasia. Portanto, é um livro acessível e provavelmente agradará muitos que tiveram dificuldade com outros livros de fantasia. Esse é um dos pontos fortes: é simples, mas inteligente; é complexo sem ser cansativo.
O resultado é uma obra atemporal, cativante e recheada de elementos fantásticos tradicionais como dragões, magos, feitiços, artefatos mágicos e uma jornada — contém vários itens da Jornada do Herói, mas seria muito limitador apenas observar isso, porque foge da fórmula da eterna guerra do bem contra o mal. Não há uma guerra envolvendo povos ou nações. A autora não se restringiu ao herói bondoso e altruísta que enfrenta em combate inimigos malvados, nem seguiu o militarismo que tem crescido cada vez mais nas histórias de fantasia populares. É uma história sobre autodescoberta e desenvolvimento, não guerra. Mesmo assim, apresenta um lado sombrio muito interessante e trama dinâmica e empolgante. Existe aventura, emoção e perigos, assim como coragem, heroísmo e sacrifício, mas sem a mecânica de exércitos e "alguém contra outro alguém" para salvar o mundo e sem personagens em preto-e-branco, nem bons, nem maus; são mais profundas e isso foi incrível para 1968; é moderno até mesmo para 2017.
Sempre me perguntei o porquê de o herói da fantasia tradicional ter que enfrentar a maldade (ou sombras ou demônios) que destruirá o mundo. Porque ele é bom e tem a obrigação de ser o herói. Aqui é diferente, até porque o protagonista é rebelde, um pouco egoísta e arrogante. Ele precisa saber quem é para poder vencer; precisa criar responsabilidade, assumir seus defeitos, medos e falhas e a desenvolver ética e moral. É uma história sobre a formação do herói, sobre enxergar seus erros e aprender a ser humilde. O que faz do indivíduo um herói? O Feiticeiro de Terramar é sobre como o menino pobre pastor de cabras Ged descobriu suas habilidades com a magia, se sentiu muito poderoso com isso, se corrompeu e errou drasticamente. E ao ponto de quase se tornar um vilão, tornou-se o herói: Gavião, o Senhor dos Dragões e arquimago mais poderoso de Terramar. Descubra como Ged se tornou o lendário Gavião navegando até o fim do mundo conhecido.

Fonte: visualaide.blogspot.com.br
Ursula K. Le Guin é famosa por suas tramas incríveis e por sempre estar a frente de seu tempo. Segundo a própria, O Feiticeiro de Terramar foi "convencional o suficiente para não assustar aos críticos", mas trouxe originalidade e rompeu barreiras. Ainda sobre: "seus elementos subversivos chamaram pouca atenção, porque fui deliberadamente furtiva em relação a eles" — ela escreveu no recente posfácio.
Na maioria das histórias de fantasia, o núcleo principal é formado predominantemente por caucasianos. Quase todas (senão todas) as personagens são brancas. Etnias não brancas quase não têm destaque ou se reduzem a escravos ou bárbaros, quase sempre povos inferiores nas tramas. E os brancos costumam ser as personagens heroicas. Em O Feiticeiro de Terramar ocorre o inverso, mas a autora foi discreta, pois senão seu livro não seria bem aceito. O protagonista tem a pele marrom-acobreada e todos os povos do Arquipélago têm peles em tons de cobre e marrom até o negro mais escuro. Ogion, Vetch e Milefólio, — personagens importantes — não são brancos. As personagens com peles claras são estrangeiras, como os invasores selvagens de Kargad.
O mesmo papel inferior geralmente se dava (ou dá) às mulheres, nunca protagonistas, sempre a donzela passiva em perigo, o objeto de desejo ou a inspiração romântica. Uma mulher ativa só poderia ser malvada, como uma bruxa, por exemplo. Neste livro, a autora não destacou mulheres, pois seria muito visível, já que uma fantasia tradicional na época deveria ser sobre o heroísmo masculino. Isso foi uma lástima, porém compreendo o que a autora enfrentou ao já ser ousada com a questão racial. Entretanto a autora não superexplorou os estereótipos femininos, mesmo sem fazer nada diferente.

Os dois primeiros livros, lançados em 2016 e 2017.
O Feiticeiro de Terramar é acima de tudo uma história de fantasia cheia de aventura, com universo rico e incontáveis locais fascinantes. O protagonista viaja por diversas terras e mares, encontrando povoados e culturas diferentes. É uma odisseia de autoconhecimento em um volume curto e leitura encantadora. Há uma escola de bruxos, dragões assustadores (sim, o enorme dragão da capa está na trama!), criaturas exóticas e feitiços poderosos, como o de transformação, além de artefatos mágicos. A magia, seu equilíbrio e a filosofia dos magos são outros pontos positivos e curiosos. A história também pode trazer à tona relações de poder. Uma regra importante é: Para saber o verdadeiro nome de algo ou alguém, precisa conhecer sua natureza.  A sombra e tudo o que ela representa é a questão reflexiva. Você pensará sobre quem você é como ser humano e sua relação com seu lado sombrio e as demais pessoas ao seu redor. O ponto fraco é que a história acaba rapidamente.
Estou ansiosa para prosseguir com a série e saber o que mais de encantador e criativo há para encontrar, visto que é uma saga que marcou gerações. Patrick Rothfuss, Joe Abercrombie e Neil Gaiman são alguns dos escritores que se maravilharam e se inspiraram ao ler a obra de Ursula K. Le Guin, numa época em que poucas mulheres conseguiam ser publicadas na ficção especulativa.

Fonte: visualaide.blogspot.com.br
Curiosidade: Os dois primeiros livros foram adaptados em 2004 por Gavin Scott em um filme americano-canadense, Legend of Earthsea, com os atores Shawn Ashmore e Kristin Kreuk. Ursula K. Le Guin não aprovou o resultado, pois ficou muito distante da Terramar criada por ela, especialmente com o Whitewashing em suas personagens. Foi produzido pela Hallmark Entertainment em associação com a Bender-Brown Productions e exibido pelo canal televisivo Syfy como uma minissérie em duas partes. No Brasil foi lançado em DVD com o título O Poder das Trevas. Certamente a obra merece uma adaptação fiel.


Fan art encontrada em http://visualaide.blogspot.com.br

A série:
2. As Tumbas de Atuan (original de 1968, publicado no Brasil em 2017)
3. The Farthest Shore (1971)
4. Tehanu: The Last Book of Earthsea (1972)
5. Tales from Earthsea (contos, 2001)
6. The Other Wind (2001)

A autora:
Ursula K. Le Guin nasceu em outubro de 1929 em Berkeley, na Califórnia, e é filha do antropólogo Alfred Kroeber e da escritora Theodora Kroeber.
Estudou na Radcliffe College e na Universidade de Columbia e se casou, em Paris, com o jovem historiador Charles Le Guin.
A autora tem uma vasta obra, que inclui poesia, contos e romances, publicada e traduzida no mundo todo. Foi vencedora dos mais renomados prêmios da literatura fantástica: Hugo, Nebula, Locus, Asimov, Lewis Carroll, Shelf, World Fantasy, entre outros. Por O feiticeiro de Terramar, recebeu ainda o prêmio Horn Book, do jornal The Boston Globe.
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