[Resenha] A Pequena Caixa de Gwendy de Stephen King, Richard Chizmar e Suma (Grupo Companhia das Letras)

A Pequena Caixa de Gwendy (Gwendy's Button Box)
Stephen King e Richard Chizmar - Editora Suma / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Regiane Winarski
168 páginas - R$ 49,90 (impresso) e R$ 29,90 (ebook) - trecho
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Sinopse:
"A pequena cidade de Castle Rock testemunhou alguns eventos estranhos ao longo dos anos, mas existe uma história que nunca foi contada... até agora.
Viaje de volta a Castle Rock nesta história eletrizante de Stephen King, o mestre do terror, e Richard Chizmar, autor premiado de A Long December. O universo misterioso e assustador dessa pacata cidadezinha do Maine já foi cenário de outros clássicos de King, como Cujo e A Zona Morta, e deu origem à série de TV da Hulu.
Há três caminhos para subir até Castle View a partir da cidade de Castle Rock: pela rodovia 117, pela Estrada Pleasant e pela Escada Suicida. Em todos os dias do verão de 1974, Gwendy Peterson, de doze anos, vai pela escada, que fica presa por parafusos de ferro fortes (ainda que enferrujados pelo tempo) e sobe em ziguezague pela encosta do penhasco.
Certo dia, um estranho a chama do alto: “Ei, garota. Vem aqui um pouco. A gente precisa conversar, você e eu”. Em um banco na sombra, perto do caminho de cascalho que leva da escada até o Parque Recreativo de Castle View, há um homem de calça jeans preta, casaco preto e uma camisa branca desabotoada no alto. Na cabeça tem um chapeuzinho preto arrumado.
Vai chegar um dia em que Gwendy terá pesadelos com isso."

Resenha:

Original de 1999, A Pequena Caixa de Gwendy (Gwendy's Button Box) é uma parceria de Stephen King e Richard Chizmar. Foi republicada nos Estados Unidos em 2017, chegando ao Brasil em outubro de 2018 pela Editora Suma, do Grupo Companhia das Letras, que enviou um exemplar cortesia para esta resenha. A edição impressa possui capa dura, páginas amareladas e diagramação bonita e a edição, traduzida por Regiane Winarski e com excelente revisão, traz ilustrações de Keith Minnion e capa de Ben Baldwin.
É uma pequena grande história, uma noveleta, especial para fãs do Kingverse. Curta e aparentemente simples, mas de conteúdo profundo para variadas interpretações e, para Leitores Fiéis de King, um vislumbre de uma personagem que aparece em outras histórias do Mestre do Terror e um pequeno passeio pela Castle Rock da década de 1970.
É uma obra de fantasia sombria que soa como um conto de fadas terrível com grande dilema moral. A protagonista é quase uma princesa contemporânea, com um objeto mágico que realiza suas fantasias, deixando-a mais talentosa, inteligente e bonita, abençoando todos ao seu redor. Mas o poder é perigoso e pode corrompê-la, e a menina precisa resistir à tentação de colocar em prática seus desejos mais sinistros, pois nenhuma pessoa é perfeita, por mais bondosa e ética que seja. O ser sobrenatural que entrega a caixa poderosa para ela é enigmática, uma figura igualmente encantadora e assustadora, ora aparentando ser um amigo, ora flertando com a vilania, mas sempre impondo respeito e também medo. Repito que os fãs de King vão adorar encontrá-lo!


No verão de 1974, em Castle Rock, no estado do Maine, Gwendy Peterson, uma garota de 12 anos de idade, decide perder peso durante as férias após ter sofrido com apelidos maldosos no ano letivo anterior. Para isso, ela sobe e desce pelo zigue-zague da Escada Suicida diariamente. Até que um dia encontra um homem vestido de preto, incluindo um chapéu, sentado em um dos bancos próximos ao parque infantil. Ele a aborda e a entrega uma caixa de mogno, composta por oito botões e duas alavancas nas laterais. Seis botões de cores diferentes representam continentes: América do Norte, América do Sul, Europa, Ásia, África e Austrália (não tem Antártida e é Austrália no lugar de Oceania, assim mesmo). Os outros dois, um vermelho e um preto, não têm explicação detalhada, o homem apenas diz a Gwendy que o vermelho pode ser usado repetidamente para o que ela desejar e o preto é o mais perigoso, fazendo tudo o que os outros seis fazem, só que ao mesmo tempo. Já as alavancas trazem pequenas recompensas quando acionadas: chocolates mágicos e únicos esculpidos perfeita e detalhadamente em formato de animais e moedas de dólar de prata Morgan. Ela não pode mostrar a caixa nem os itens para ninguém.
Nos dias posteriores, Gwendy come um chocolatinho por dia e fica admirada ao perceber que se sente ótima, mais saudável e o melhor: saciada. Nada de querer comer demais. Com os chocolates mágicos e o exercício diário, ela emagrece bastante antes das aulas começarem. E mais outra descoberta: os chocolates não apenas aumentam sua performance física, mas também mental. É quase como se fossem superpoderes. Gwendy passa a colecionar notas perfeitas no boletim, a participar com o melhor desempenho possível em todas as tarefas e atividades extracurriculares e a se tornar uma atleta impressionante, com uma saúde e aparência invejáveis. Ela vai guardando as moedas, pois descobriu que são valiosas e poderá pagar seus estudos na faculdade após vendê-las. Mas e os botões? E o homem de preto de chapéu, vai voltar para buscar a caixinha? Como mantê-la secreta e protegida?



"Segredos são um problema, talvez o maior de todos. Pesam na mente e ocupam espaço no mundo."


Estas são algumas questões do livro: responsabilidade, o peso do poder, caráter, autocontrole e resistência à tentação. Gwendy se torna viciada nos benefícios incríveis dos chocolates mágicos e na segurança de um futuro financeiro estável da bolsa cada vez mais pesada de moedas. E quem não ficaria, visto que tudo isso traz apenas benefícios? Até mesmo para os pais de Gwendy. Mas conforme ela cresce, as coisas se tornam cada vez mais complexas e apertar os botões para fazer qualquer coisa se torna irresistível, especialmente quando parece muito necessário... e fácil. A caixa vai se tornando uma maldição, um dever inegável, um fardo. E se ela cair em mãos erradas? E se Gwendy apertar algum dos botões? E as consequências do uso?
Achei a premissa incrivelmente criativa e o desenvolvimento muito bom, mas preferiria muito mais se a trama fosse mais explorada, que fosse realmente um romance longo. Muitas pessoas se queixam das prolongações do King em suas obras, mas particularmente eu amo e aprecio muito este estilo dele. Os capítulos são bem curtos e o enredo mantém ótimo ritmo. A narrativa é em terceira pessoa sob o ponto de vista da Gwendy e foi bem executada, pois começa com uma menina de 12 anos e termina com uma mulher adulta. O desfecho é daquele tipo que abre todo um universo, que deixa o leitor desejando mais, porém não agradará a todos, não os que gostam de tudo explicado.
O funcionamento da caixa é interessante e também assustador e eu queria saber mais, gostaria de mais histórias com ela e seus guardiões. São tantas possibilidades! Pensei na Psicologia e me questionei sobre o verdadeiro motivo de Gwendy ser a guardiã temporária da caixa de botões. Pensei nas recompensas secundárias que ela ganha e no que acontece caso os botões sejam acionados. Não o efeito do botão em si, mas o que acontece com a Gwendy em seguida. Fora que a responsabilidade e a tentação em tê-la me trouxe pensamentos sobre ética e moral. Como nasci em 1984, me lembrei de quando era criança e ouvia os adultos dizerem que chefes de estados, como os dos Estados Unidos e da Rússia, possuíam um botão na mesa de trabalho e que 'era só apertar e explodir locais específicos pelo globo, acionarem bombas nucleares', enfim, eu achava aquilo terrível e este foi um dos meus pensamentos durante a leitura.


"— Que bom que um botão assim não existe de verdade.
— Mas existe — diz Gwendy. — Nixon tem um. Brejnev também. E algumas outras pessoas."


É uma história bastante curta de pouquinhas horas de leitura, especialmente se analisada nos padrões do King, famoso por escrever frequentemente contos que são noveletas e romances que são verdadeiros calhamaços. Ainda mais por se tratar de uma parceria, pois quando vi que Richard Chizmar escreveu junto de King, imediatamente imaginei um livrão como Belas Adormecidas, que King compôs com seu filho Owen, ou A Casa Negra, escrito com Peter Straub. Talvez tenha sido influencia de Richard Chizmar? (Adoraria conhecer o trabalho dele.) A capa dura é sempre bem-vinda para mim (mas encarece o produto) e certamente esta escolha aqui é para justificar o valor do exemplar impresso, visto que o livro é breve. As ilustrações internas e da capa são um complemento bem legal.
Bacana que além do exemplar físico ser mais durável, o fato de não ser volumoso faz com que leitores novos ou leitores mais jovens sejam mais facilmente atraídos pela trama curta e de linda edição, mas os fãs do King provavelmente vão concordar que A Pequena Caixa de Gwendy poderia facilmente estar em uma coletânea; ou deveria ser apenas a primeira parte de algo maior. É uma noveleta muito boa e fiquei desejando saber mais da caixa e ler mais sobre outros guardiões!
Quer mais Stephen King? Prepare-se para as novidades de 2019 no Brasil. Além de Elevation, o mais recente livro de King, publicado nos Estados Unidos em outubro do ano passado e ganhador do Goodreads 2018 na categoria Horror, a Editora Suma vai ampliar a coleção de clássicos em capa dura Biblioteca Stephen King com Trocas Macabras e A Metade Sombria, ambos fora de catálogo.

Os autores:



Stephen King é autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo. Os mais recentes incluem Outsider, Revival, Mr. Mercedes, Escuridão Total Sem Estrelas, Doutor Sono, Joyland e Novembro de 63. Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos. Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.
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Richard Chizmar, nascido em 1965 nos Estados Unidos, é escritor, editor e roteirista. Teve suas obras traduzidas para diversos idiomas e ganhou dois prêmios World Fantasy, quatro prêmios International Horror Guild e o prêmio Horror Writers Association Board of Trustee. Sua terceira coletânea de contos, A Long December, foi publicada em 2016 e recebeu críticas excelentes.
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Os artistas:

Ben Baldwin é um artista e ilustrador que trabalha com uma variedade de meios, desde fotografia e arte digital até desenho e técnicas de pintura. Já criou capas de livros e ilustrações de revistas para diversos clientes ao redor do mundo, como também pinturas feitas por comissão.

Keith Minnion vendeu seu primeiro conto para a Asimov's SF Adventure Magazine em 1979. Depois disso, vendeu mais de vinte história, duas noveletas e um livro de arte com suas melhores ilustrações publicadas, além de um romance. Ilustra profissionalmente desde 1990 para escritores como William Peter Blatty, Gene Wolfe e Neil Gaiman, e fez muitos trabalhos gráficos de design para o departamento de defesa dos Estados Unidos. Vive no Shenandoah Valley, na Virginia, Estados Unidos.


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