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25 de agosto de 2012

Clube da Insônia, de Tico Santa Cruz, Belas-Letras

Clube da Insônia
Tico Santa Cruz - Belas-Letras
Ilustrações: Carlinhos Muller
104 páginas - Ano: 2012 - R$22,90

Sinopse:
"Na noite, a fúria e a paixão se encontram. O submundo emerge às ruas, evocando gente esquecida que não tem vez nem voz e perambula pela cidade em busca de luz. A noite também é a casa da diversão sem hipocrisia, da embriaguez, da luxúria, das angústias e das reflexões de quem não consegue adormecer antes de a loucura se recolher novamente aos seus abrigos diurnos. De olhos bem abertos, o músico Tico Santa Cruz, líder da banda Detonautas Roque Clube, leva o leitor a um mergulho na escuridão para compartilhar seus medos e seu inconformismo, em textos viscerais que pulsam do início ao fim, madrugada adentro, até o sol nascer."

Links: Skoob | blogue Belas-Letras

Resenha:
Este é o primeiro livro de Tico Santa Cruz, mas ele não é iniciante como escritor; além de ser compositor e poeta, não apenas nos projetos musicais, ele publica seus textos no blogue Clube da Insônia.
Sempre gostei muito de sua banda Detonautas e sempre admirei seu lado de ativista social. Porém, ao analisar seu livro, tentei me desvincular totalmente da imagem que tenho do Tico Santa Cruz famoso para mergulhar apenas no mundo do Tico Santa Cruz escritor.
Não obtive sucesso total. Por culpa do próprio Tico. Sua forma de escrever fez com que a todo o momento parecesse que eu o estado ouvindo, não apenas lendo suas palavras. Acho que por tanto conhecer a sua voz, foi difícil separar a imagem pré-estabelecida por mim do autor do livro. Ler Clube da Insônia foi como se estivesse ouvindo o escritor.

São vinte e dois textos bastante variados divididos em duas partes: crônicas, contos e poesias. Na primeira parte do livro encontramos textos mais emotivos e íntimos; na segunda parte textos mais críticos.
Algumas crônicas são reflexões, pensamentos, confissões e desabafos. Os contos são textos claramente por ele utilizados para apontar a realidade do brasileiro. E as poesias emanam os mais diversos sentimentos. Alguns trechos parecem diários, outros parecem recados e mensagens escritas diretamente aos leitores. Notavelmente são páginas de um escritor, compositor e poeta - tudo misturado.
Ao mesmo tempo em que ele mostra seu lado rebelde, inquieto, contestador, também demonstra seu lado sensível, sentimental e sonhador. Ele contesta, aponta e denuncia falhas sociais que a maioria da população tenta ignorar e pouco faz para modificá-las. Ele também expõe sua pessoa, opiniões e pensamentos íntimos, mostrando que ninguém é perfeito (nem ele). No entanto relembra o leitor que todos nós somos culpados pela sociedade em que vivemos.

O mais admirável é que embora seja curto e de breve leitura, o livro é extremamente marcante e inquietante. Porque  você encontra diversos avisos, broncas e mensagens. Enquanto Tico conversa com si próprio ou diretamente conosco, nos sentimos abalados pelas falhas óbvias que nossa sociedade tem, assim como as questões pessoais e íntimas de cada ser humano.
São 104 páginas muito atraentes visualmente, excelente e diferenciada diagramação e várias ilustrações tribais bonitas e enigmáticas. O livro possui um sumário, páginas pretas com letras brancas que se alternam com o oposto e uma capa com simbolismo. Sentado na mesma forma da escultura de Rodin, O Pensador um ser que me parece uma mistura de anjo e demônio, de homem e animal a refletir.

O livro começa com textos leves e introspectivos, como se fosse uma autobiografia poética, onde ele comenta sobre sua infância e adolescência, sua vida pessoal, familiar e amorosa. Encontramos textos sobre a busca do sentido da vida.
Depois ele aponta as falhas da sociedade brasileira, dos problemas socioculturais à política.
As reflexões vão ficando mais profundas e as críticas explícitas. Ele não poupa a sociedade, os políticos e nem a imprensa. Existem também alguns contos fictícios utilizados para exemplificar a violência e o descaso com a população e eu também gostei muito desses textos - estes eu não esperava encontrar no livro e foi uma boa surpresa!
Embora Tico seja claro e direto, utilizando uma linguagem cotidiana sem poupar palavras duras, seu texto não perde o ar poético e sensível, muito menos as ideias nas entrelinhas. Achei isso simplesmente fantástico e me pareceu ser a forma natural dele escrever.

Um pouco da parte um, onde Tico mergulha em si próprio:
Somos nós a madrugada é uma boa introdução e saudação ao leitor. "Não vou ficar para ver o dia nascer. A noite me basta."

Eu e ela é a conversa de Tico com sua própria consciência. "Sou um estúpido sem você e você não existirá sem mim."

Com Nosso sagrado antídoto, Sou um pouco de mim e Viagem ao fundo do universo Tico mostra seu lado pessoal através uma retrospectiva da vida e de reflexões profundas que servem de guia para o leitor. "Abrir os olhos às vezes é complicado. A luz pode cegar, mas se tiver coragem, logo, logo estará vendo o mundo por um ângulo mais interessante."

Em Eu vi você ele fala sobre o amor e pessoas especiais e em Cosmos sobre a solidão e autoconhecimento. "Para ser feliz com alguém, é preciso se suportar."

Com Carta a mim mesmo, Tico escreve lembretes que servem de motivação para qualquer pessoa. "Não se cale." 

Sonho de astronauta é uma poesia que contém o desejo mais sincero de uma sociedade sem desigualdades e cheia de paz. "não existem regras, nem leis. Não existem plebeus, nem reis."

Mais desabafos e reflexões com Uma colagem em segredos, Das coisas que mudam o mundo e O agora não pode ser depois. "Não há mocinho, nem vilão. Apena há!"

Com Ooooooooooooooooooooo o escritor se mistura ao poeta num interessante resultado. Como se estivesse compondo uma canção e parando para conversar consigo mesmo sobre ela. "O sol é vermelho. Sou de carne, osso e coração. Chamo-me determinação."

Um pouco da parte dois, onde Tico critica sem censuras:
Com Aperte o verde, pensei logo nas eleições, numa urna eleitoral e nas eternas dúvidas sobre quem escolher, o que escolher. "De onde vem a verdade? Da Igreja? Do Congresso? Da Constituição? Do progresso? Do capitalismo? Podemos, de fato, ser iguais? É espiritual? Está no comunismo? Onde está o manual?" Certamente um dos textos mais poderosos do livro.

Com Agraciado estava e Paz.exe Tico escreve contos fictícios, que na verdade mostram a dura realidade do povo brasileiro. Um cidadão correto é o protagonista do primeiro e um menino de rua do segundo. Ambos escritos de forma única. Não imaginava que o Tico utilizaria de contos para nos lembrar o quanto o cotidiano esconde a triste realidade de muitas pessoas. "Queria ser como o Ronaldinho, que vira ser celebrado como um deus, nos jogos que passavam no boteco da favela. Mas não tinha o que comer."

A visão do gato, como já diz o título, o texto foi escrito por um gato; é a visão do gato sobre os humanos. Lúdico e ao mesmo tempo realista. Um gato que possui um lar e donos que cuidam dele, mas que gosta de escapar para a rua, estar em contato com o mundo e outros gatos. Ele não fica relaxado em seu mundinho confortável. "Vocês são esquisitos, têm vergonha de fazer amor, de ver os outros fazendo amor, mas não têm vergonha de matar, de agredir seus semelhantes e a nós, animais."

Memórias de um mundo careta é um texto explícito, que critica as desigualdades sociais, o egoísmo do indivíduo em relação à sociedade, ao descaso. "As redes sociais potencializaram o narcisismo exagerado. Tudo por seguidores; qualquer coisa para ostentar um grande 'número de amigos'. A matemática do reflexo na lama."

Direto da redação é a dura e podre realidade sobre a mídia e a imprensa, do controle que possuem sobre a sociedade (que se deixa controlar facilmente), do povo que acredita em tudo que é noticiado e sobre a preferência por notícias fúteis sobre celebridades (muitas vezes caçadas pelos paparazzi, em outras implorando atenção!) em vez de notícias que realmente importam, como escândalos políticos. Um texto simples, que mostra também o quanto jornalistas formados em boas faculdades acabam escrevendo essas futilidades. Outro texto excelente! "– Aquela moça que estava grávida, vai passear logo mais no shopping com os filhos dela. A assessoria me pediu uma nota. Como não conseguimos flagrar aquele casal da novela que estava no show ontem, achei que pudéssemos aproveitar esta deixa."

Circo fantástico é um desabafo sobre o rumo que a juventude está tomando. Os jovens, que deveriam ser os mais interessados e ativos na sociedade se perdem em consumismo, aparências e besteiras, além de não se preocuparem com o mundo a sua volta, eles parecem aceitar tudo que lhes é passado. "Que porra de juventude é essa? Só estão felizes quando estão comprando e consumindo tudo o que lhes aparece na frente como gafanhotos nas plantações?"

Plástico é um dos que mais gostei. Seria o plástico o grande problema ambiental - ou social? O plástico é uma das substâncias que mais afeta a ecologia do planeta, assim como o ser humano também está se tornando de plástico, falso, vazio, sem vida nem coração, poluente. Este texto é um poema que fala sobre um futuro feito de plástico, genial! "O plástico será o futuro. De plástico estaremos entupidos. Porque o plástico é eterno e nós, homens, não."

Finalizando o livro está o texto Senado finado. Uma visão geral da sociedade brasileira, em poucas páginas, um discurso poético sobre a nossa realidade - e nossas ilusões. O melhor texto do livro. Adorei esse trecho, pois é exatamente o que penso. Parabéns ao Tico por expor: "E que futuro um povo omisso como o brasileiro merece? Uma copa do mundo? Uma cerveja no botequim?" 

Pão, circo e... cegueira - recomendo o livro para os que ainda enxergam, mesmo que pouco. Ajuda a melhorar a visão. Ler ajuda muito, ainda mais um livro que possui textos feitos para sacudir o leitor; um livro completamente diferente das modinhas literárias.
Tico Santa Cruz começa com um livro prazeroso, cria intimidade com o leitor e joga na cara muitas verdades pesadas. Você fecha o livro, mas as reflexões não terminam. Apenas começam!


O autor:
Tico Santa Cruz nasceu no Rio de Janeiro em 30 de setembro de 1977 sob o signo de libra. Cursou Ciências Sociais na UFRJ, Comunicação e Educação Física, mas não concluiu nenhuma das três faculdades, resolvendo se dedicar integralmente a sua banda, o Detonautas Roque Clube, criada em 1997. Compositor, escritor e poeta, é idealizador do grupo de performance social chamado Voluntários da pátria, que tem como objetivo levar música, poesia e debates sócio-políticos em escolas, universidades públicas e particulares e penitenciárias. Clube da insônia é seu primeiro livro.
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