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11 de março de 2014

A Casa do Céu, Amanda Lindhout e Sara Corbett, Novo Conceito

A Casa do Céu (A House in the Sky)
Amanda Lindhout e Sara Corbett - Novo Conceito
Tradução: Ivar Panazzolo
448 páginas - Ano: 2013 - R$34,90

Sinopse:
"Quando criança, Amanda escapava de um lar violento folheando as páginas da revista National Geographic e imaginando-se em lugares exóticos.
Aos dezenove anos, trabalhando como garçonete, ela começou a economizar o dinheiro das gorjetas para viajar pelo mundo. 
Na tentativa de compreendê-lo e dar sentido à vida, viajou como mochileira pela América Latina, Laos, Bangladesh e Índia. Encorajada por suas experiências, acabou indo também ao Sudão, Síria e Paquistão. Em países castigados pela guerra, como o Afeganistão e o Iraque, ela iniciou uma carreira como repórter de televisão. Até que, em agosto de 2008, viajou para a Somália — “;o país mais perigoso do mundo”;. No quarto dia, ela foi sequestrada por um grupo de homens mascarados em uma estrada de terra.
Mantida em cativeiro por 460 dias, Amanda converteu-se ao islamismo como tática de sobrevivência, recebeu “;lições sobre como ser uma boa esposa”; e se arriscou em uma fuga audaciosa. Ocupando uma série de casas abandonadas no meio do deserto, ela sobreviveu através de suas lembranças — cada um dos detalhes do mundo em que vivia antes do cativeiro —, arquitetando estratégias, criando forças e esperança. Nos momentos de maior desespero, ela visitava uma casa no céu, muito acima da mulher aprisionada com correntes, no escuro e que sofria com as torturas que lhe eram impostas.
De maneira vívida e cheia de suspense, escrito como um excepcional romance, A Casa do Céu é a história íntima e dramática de uma jovem intrépida e de sua busca por compaixão em meio a uma adversidade inimaginável."

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(*Conforme data da postagem.)

Resenha:
Á primeira vista a capa parece simples demais, mostra: Da prisão ao céu.
O contexto é intenso conforme o leitor vai compreendendo o seu significado durante a leitura. Simboliza a mistura do sofrimento, vazio e peso com a esperança e a fé que Amanda sofreu durante seus quinze meses de confinamento.
Os detalhes representam uma transformação. Como criar barreiras e blocos íntimos para se blindar, tentar sofrer o mínimo possível e sempre focar na libertação; construir seu mundo interior, independentemente dos abusos e dores que flagelam seu corpo e mente; tecer seu lugar privado, mesmo quando a realidade exterior é a pior possível; resistir à tentação de enlouquecer e se perder para sempre. Amanda reinventa seu mundo e a si própria para voar para a liberdade: A sua Casa do Céu, a sua liberdade mental enquanto seu corpo é preso.

Ponto positivo para a diagramação linda, com enfeite no alto da página de cada capítulo.
O livro não possui um sumário e existe o aviso de que não é uma obra de ficção.
Sempre inicio a leitura de não ficção com receios. Já que é uma história verdadeira, penso se realmente é. Imagino o quanto ocorre de modificações, adaptações, cortes e reorganização. É muito preconceituoso começar assim, já que estou ciente que é biografia e que sempre existem mudanças. Concluindo este pensamento, é impossível uma história ser contada ao pé da letra, como acontecera com perfeição. A Casa do Céu é um trabalho fabuloso e o preconceito logo desapareceu.
Todos os quarenta e quatro capítulos possuem títulos e nesse caso eu gostei. Ainda mais quando se referiam às "casas-cativeiros" como a Casa Elétrica. Os nomes são incríveis: a Casa dos Construtores de Bombas, a Casa Cafona, a Casa da Fuga. Mas eu tive medo, chorei e sofri com Amanda mesmo foi na Casa Escura.
Temos o Prólogo que explica em poucas linhas a ideia e proposta do livro. E também o Epílogo, porque temos tantos pensamentos, reflexões, perguntas... Como Amanda (e também Nigel - o capturado junto a ela) continuaram suas vidas após todos os horrores.

O livro é um pouco grosso, mas leitores que temem muitas páginas não se sintam inseguros! A linguagem e narrativa são bem simples e realmente soa como um relato.
Amanda parece estar contando diretamente a você o que aconteceu. A narrativa em primeira pessoa cria intimidade com o leitor. Em alguns momentos ela é mais didática e preocupada com a ordem das coisas, em nos mostrar o funcionamento dos locais por onde ela viajou, por exemplo. Em outros momentos (os melhores e também os mais pesados do livro), ela é mais lúdica e sentimental.
O livro é instrutivo e curioso quando ela nos narra sua visão sobre culturas distintas da dela. Depois se torna um terror psicológico tão grande que eu chorava e pausava a leitura imaginando como ela conseguiu ser forte para sobreviver àquele pesadelo infindável, violento e real.

Ela introduz o essencial explicando de onde surgiram as ideias de viajar pelo planeta, de conhecer outros locais e pessoas. Como isso evoluiu para estar em zonas de conflitos ou regiões consideradas perigosas, principalmente assoladas por guerrilhas e conflitos. Como começou com um sonho infantil, uma idealização de um mundo vasto, exótico e cheio de descobertas esperando pela jovem exploradora sem preconceitos e ávida por aventuras. Muitas pessoas adorariam viajar e viajar... Sempre existe um lugar especial que adoraria visitar, não é?
Com Amanda foi assim: das páginas de velhas revistas National Geographic ela imaginava como deveria ser emocionante estar além do Canadá. A riqueza como ela narra seus desejos e devaneios - e isso vale para todo o livro - cativa e envolve o leitor, fazendo com que se imagine na pele dela. Amanda faz o leitor sonhar com ela.
Ela parte para a ação corajosamente. Juntando cada centavo ela se torna mochileira praticamente profissional. São muitas aventuras (e perigos) por ela vivenciados, mas nada muito grave. Ela vive intensamente e coleciona tantas viagens que começa a se sentir perita em áreas de "zona vermelha".
Cria então uma nova meta: Sustentar suas viagens... viajando. Ela observa os jornalistas ao redor e inicia tentativas de ser fotógrafa, repórter, jornalista. Assim conhece Nigel, fotógrafo da Austrália.

A primeira parte do livro equivalente a um terço é dedicada a mostrar todo o desenvolvimento das viagens de Amanda e suas experiências anteriores ao sequestro. Não teria sentido já começar o livro com o rapto. Não é um livro de ação, é uma história real. Precisamos compreender a motivação da viagem para a Somália. Talvez alguns leitores achem um pouco monótono, mas eu que adoro turismo realista, me liguei à história.
Por um momento até julguei Amanda como ousada demais. Ir para tantas regiões perigosas? Com idiomas e religiões diferentes? No caso da Somália, onde a maioria é muçulmana extremista e trata a mulher de forma inferior... Parece loucura uma ocidental branca passear pela linha de conflitos - muito complexos.
Depois que Nigel e Amanda são sequestrados percebemos como os envolvidos têm base no Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos) e como existem tantas interpretações nessas escrituras que funcionam como guia social, religioso e cultural. O papel da mulher, as justificativas da Jihad (tanto a pessoal como a geral) e o tratamento dado aos prisioneiros.

O leitor deve se preparar para os dois terços restantes do livro. O Alcorão faz diversas referências aos cativos escravos, à mulher e aos não. Não devemos generalizar, e sim respeitar todas as religiões. Eu sou assim, desde que ela seja praticada sem ignorância e seus fiéis sejam respeitados e tratados como iguais.
Achei a seguinte expressão antiquada e maldosa: "Aqueles a quem tua mão direita possui." - Ou seja, se a pessoa pertence a você, se é prisioneira, você pode fazer o que quiser com ela. Mesmo que determinadas coisas sejam erradas / proibidas às tradições muçulmanas, essas regras não são aplicadas aos escravos.
Amanda sofre abusos, torturas, privações e as ações mais chocantes por parte de seus sequestradores. É desesperador, humilhante, doloroso e cruel para qualquer ser humano. Não tenho palavras.
Nigel era muito maltratado, porém não como Amanda, por ser homem. Ao menos segundo o relato dela. Ele também publicou um livro sobre sua experiência.
Uma palavra que me marcou dentre tantas foi Inshallah, que a princípio, parecia "amanhã" ou "em breve". Porém é muito mais complicada, significa futuro, mas não se sabe quando. Deve-se esperar calmamente pela chegada do desejo, que no caso de Amanda era a liberdade.
Com este livro o leitor aprende muito sobre a cultura dos muçulmanos. Temos diversos exemplos, dos mais brandos aos mais extremistas. Vemos o lado positivo e o negativo pelos olhos de Amanda.
Concluo o seguinte: Somente Amanda para saber o que passou. Nada que ela exponha é capaz de transmitir seus sentimentos. Mas este livro é valioso. Sinto vontade de pedir: "Leia, mesmo que não goste, reflita sobre o que ela sofreu e o que muitas pessoas sofrem”.

Não costumo destacar trechos, mas separei dois interessantes:
"O que você imagina sobre um lugar é sempre diferente do que você encontra quando chega lá: em cada país, em cada cidade, em cada quarteirão, é possível encontrar pais que amam seus filhos, vizinhos que cuidam uns dos outros e crianças prontas para brincar. Pensei que certamente encontraria histórias que valeria a pena contar. Com certeza, haveria algum mérito em tentar relatá-las. Eu sabia que coisas ruins aconteciam. Não era totalmente ingênua. Já vira uma boa quantidade de armas e miséria até então. Mas, de maneira geral, eu sempre estivera à parte de tudo aquilo, desfrutando das coisas boas e deixando os perigos passarem por mim como se eu não estivesse realmente lá."
No segundo trecho é notável o quanto ela mantém esperança, perdão, resiliência e um determinado nível de controle quando está no ápice do cativeiro:
"Tentei localizar o que ocorrera de bom no que acontecera em cada dia. Procurava por quaisquer momentos em que meus captores houvessem demonstrado sua humanidade: Dou graças porque, hoje, Jamal colocou minha comida no chão em vez de jogá-la em mim. Dou graças porque Abdullah fez a saudação Asalaamu Alikum quando entrou no meu quarto. Estou feliz por ter ouvido por alguns segundos, os garotos rindo e brincando no corredor, porque isso me fez lembrar que, mesmo que por apenas um minuto, há um adolescente dentro de cada um deles que deseja ser livre para viver a própria vida."
É impressionante, até mesmo inacreditável como ela tenta enxergar algo bom nas piores coisas possíveis. Soa até duvidoso. Talvez ela seja uma pessoa extremamente bondosa, ou tenha sentido isso quando presa e abusada; talvez tenha sido a forma escolhida para sobreviver dos captores e até mesmo de si própria. Somente a bondade e esperança para fortalecer a pessoa e não deixá-la cair no ódio e desespero e quem sabe, suicídio ou atos insanos, foi o que Amanda me passou.

Até cogitei se ela não sofreu da Síndrome de Estocolmo, quando o sequestrado tem algum tipo de ligação ou afeição pelo sequestrador, mesmo sofrendo os piores abusos. Ela parece tentar ganhar a simpatia dos captores a todo o instante, utilizando até mesmo o Islã como base e tentando ensinar coisas aos adolescentes. Para que se identificassem com ela, a respeitassem, a libertassem ou ao menos a tratassem como muçulmana respeitosa. Ela se converteu ao Islamismo para a verem como igual.
Uma defesa para justificar que àquilo vai acabar? Uma justificativa ao enxergar os sequestradores como adolescentes ignorantes e vítimas do mundo que os criou? Que não são maldosos por natureza e sim pela criação e meio sociocultural?
Não a julgo. Imaginei mil coisas, mas não a julgo. Podemos opinar, nunca julgar.

Se você não gosta de biografias, talvez um tanto modeladas, mas adora uma história emocionante, deve ponderar ler A Casa do Céu. Autobiografia é um caso à parte, porque às vezes a pessoa tem uma excelente história de vida para contar, porém não escreve profissionalmente.
No caso da Amanda, ela contou com uma coautora, a Sarah Corbett e ao ler esse livro você tem noção total do porquê.
É caso especial: Amanda sofreu tanto, por tanto tempo, que ficou psicologicamente abalada. Ao conversar com a Sarah elas gravaram todos os relatos, além de analisarem os manuscritos da Amanda. Esta tentava se lembrar de todos os detalhes possíveis, especialmente a ordem cronológica dos acontecimentos.
Todos os terapeutas envolvidos no tratamento de grave estresse pós-traumático ajudaram também na composição dos relatos.
Complementando, a família da Amanda e os agentes participantes da negociação com os sequestradores também colaboraram.

Ela é sobrevivente e ativista social que ajuda mulheres da Somália e do Quênia a terem o mínimo de respeito através do básico como educação e saúde. Ela continua viajando, não perdeu o medo de viver nem a esperança no ser humano.
Creio que uma história tão drástica deva mesmo ser contada e divulgada. As pessoas deveriam ler e pensar em como isso é comum, principalmente com jornalistas em zonas conflituosas. Todo livro é feito para ser vendido, claro, mas aqui temos uma importante história de resistência, dor, esperança e superação.
Imagina uma mulher branca ocidental não muçulmana que não fala os idiomas locais da Somália sequestrada e torturada em cativeiro por quatrocentos e sessenta dias? Se qualquer caso de sequestro, até mesmo os relâmpagos aqui no Brasil, tão comuns e horríveis traumatizam vidas, imagine o que Amanda sofreu. Eu não consigo. Leia e tente imaginar.

As autoras:


Sara e Amanda.
Amanda Lindhout é fundadora da Global Enrichment Foundation (Fundação para o Enriquecimento Global), uma organização sem fins lucrativos que apoia iniciativas para o desenvolvimento, ajuda humanitária e educação na Somália e no Quênia.
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Sara Corbett é colaboradora da The New York Times Magazine. Seus trabalhos também apareceram em publicações como National Geographic, Elle, Outside, Oprah Magazine, Esquire e Mother Jones.
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Vídeo da Amanda falando sobre A Casa do Céu (em inglês, sem legendas, mas gostei.):




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