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13 de março de 2014

O Oceano no Fim do Caminho, Neil Gaiman, Editora Intrínseca

O Oceano no Fim do Caminho (The Ocean at the end of the Lane)
Neil Gaiman - Editora Intrínseca
Tradução: Renata Pettengill
208 páginas - Ano: 2013 - R$24,90 (impresso) e R$14,90 (e-Book).

Sinopse:
"Sussex, Inglaterra. Um homem de meia-idade volta à casa onde passou a infância para um funeral. A construção não é mais a mesma, e ele é atraído para a fazenda no fim da estrada, onde, aos sete anos, conheceu uma garota extraordinária, Lettie Hempstock, que morava com a mãe e a avó.
Ele não pensava em Lettie há décadas, mas mesmo assim, ao se sentar à beira do lago (o mesmo a que ela se referia como um oceano) nos fundos da velha casa de fazenda, o passado esquecido volta de repente. E é um passado estranho demais, assustador demais, perigoso demais para ter acontecido de verdade, especialmente com um menino.
Quarenta anos antes, um homem cometeu suicídio dentro de um carro roubado no fim da estrada que dava na fazenda. Sua morte foi o estopim, com consequências inimagináveis. A escuridão foi despertada, algo estranho e incompreensível para uma criança. E Lettie - com sua magia, amizade e a sabedoria digna de alguém com muito mais de onze anos - prometeu protegê-lo, não importava o que acontecesse.
Trabalho revolucionário de um mestre da literatura, O oceano no fim do caminho demonstra um raro entendimento daquilo que nos torna humanos, e mostra o poder que as histórias têm de revelar e, ao mesmo tempo, de nos proteger dos perigos dentro e fora de nós. É uma fábula emocionante, assustadora e melancólica. Um convite a repensar a escuridão que espreita as memórias da infância."

Links: Intrínseca | Skoob | hotsite | comprar por R$18,50 *
*Data da postagem

Resenha:
Sempre admiro capas que carregam significado da história. Essa cena existe e é uma das mais surpreendentes. Um lago ou oceano? Águas mágicas mutantes ou ondas da imaginação fértil de um menino de sete anos de idade? Um mergulho sobrenatural, em outro mundo; submersão em si próprio, adentrando nas profundezas de seu coração e flutuando entre a realidade e a busca pelo caminho.
O título também é propício, porque um homem retorna a um local quarenta anos depois. Lá ele encontra o "lago-oceano" no fim do caminho. O começo, o fim e o recomeço do poder da imaginação.

O livro inicia de forma básica, mas que depois percebemos ser completa:
"Era apenas um lago de patos, nos fundos da fazenda. Nada muito grande.
Lettie Hempstock dizia que era um oceano, mas eu sabia que isso não fazia o menor sentido."
Começando dessa forma, um "Era uma vez" disfarçado, já senti que adentrava em um "conto de fadas" de fantasia urbana e dotada de um surrealismo que poucos autores adultos conseguem criar.

Este livro é realmente adulto, embora a narrativa seja de um garotinho. Na verdade de um homem de meia idade que volta a ser um menino ao reencontrar um local misterioso, o oceano no fim do caminho.
Todo o livro é uma contação de lembranças e devaneios do adulto que se torna novamente criança ao relembrar um passado misterioso com sua imaginação fértil.
O Prólogo é o retorno desse homem a casa onde morou em parte de sua infância e a chegada à fazenda das Hempstock. Aqui ele recorda de tudo.
Em seguida temos quinze capítulos sem títulos e marcados em algarismos romanos que é toda a história relembrada por ele. Será que ele realmente sabe o que está resgatando do passado? Serão loucura e imaginação misturadas a fatos marcantes?
E por último o Epílogo, quando ele sai da viagem mental e acorda sacolejado por tantas lembranças, misturando fantasia com o real e temos o resultado final de uma magnífica fábula.

Ele não possui nome. Ele é um exemplo de qualquer pessoa, eu, você, qualquer um. Qualquer pessoa, pois todos nós passamos pela infância, não importa como ela seja: longa ou curta; feliz ou triste; movimentada ou apática; assustadora ou engraçada. Todas as crianças sofrem das mais diversas dúvidas, sonhos e curiosidades sobre o mundo e a vida dos adultos. E ao nos tornarmos adultos, o quanto resguardamos da inocência e criatividade infantil? O quanto conseguimos equilibrar a responsabilidade com o divertimento? Somos ainda capazes de criar, sonhar e manter a pureza de uma criança? A verdade é que por mais que sejamos obrigados a crescer, uma parte de nós sempre almeja ter uma ponta dos sentimentos e liberdades infantis. Nem todos cultivam ou assumem isso. Essa é a mensagem do livro.

Livro que recomendo, porque eu gosto de fábulas fantasiosamente infantis e loucas, mas que no fundo transbordam mensagens e avisos importantes e lições para a vida adulta. É uma história totalmente surreal, cheia de cenas fantásticas, impossíveis e aparentemente sem nexo. Existe muita complexidade nas páginas aparentemente insanas e simples.
Então, se você busca por uma história leve recheada de mensagens secretas e pesadas, esta será uma excelente aventura. Se você procura por uma leitura de surrealismo bem-estruturada e aberta a diversas interpretações, leia O Oceano no Fim do Caminho. Sonhe, viaje, relembre as maluquices da sua infância e os perigos que você encontrava e que agora mal se lembra deles.
É um livro que não existe uma explicação. Não espere decifrar tudo, não se prenda ao sentido literal dos acontecimentos e coloque sua imaginação e interpretação para funcionar. Simbolismos, a linha tênue entre o real e o surreal existe e dependerá do leitor criar e ler como preferir.
Não espere ter respostas para cada fator presente. Cada leitor interpreta a história à sua maneira, isso é unânime para mim.

Destaque para as mulheres fortes: as três habilidosas Hempstock, a gatinha misteriosa Oceano e a assustadora Ursula Monkton.
Um menino que não correspondeu às expectativas masculinas do pai e invés de praticar esportes preferia enfiar a mente nos livros e desbravar o quintal atrás das mesmas aventuras. Ele lia de tudo, principalmente fantasia como As Crônicas de Nárnia e até mesmo velhos exemplares de livros dos anos 1930 e 1940 onde meninas estudantes comuns sempre salvavam a escola e o mundo de modo fantástico. Bem feminista e nosso protagonista não tem problema algum com isso.

Não posso comentar muito sobre o livro, que seria perfeito para um clube de debate. Se eu comentar sobre tudo o que notei, darei spoilers. E eu me maravilhei tentando interpretar cada coisa psicodélica que acontecia.
A maravilhosa visão de mundo (e recriação dele) de uma criança me fez relembrar das minhas próprias loucuras de quando possuía sete anos.
Algumas coisas posso até comentar: Vi o castigo de ficar trancado no porão, por exemplo, como o corte na imaginação sagaz do menino.
Por outro lado, podemos interpretar diversos fatos de múltiplas maneiras. Desculpas encontradas por ele, em sua inocência, para justificar atos incompreensíveis para ele naquela idade, como o pai parecer estar tendo um caso com a babá, o vizinho que se suicidou, o falecimento de seu gato, os problemas financeiros da família, o fato da mãe ter de trabalhar fora. A fazenda de sua amiga Lettie de onze anos de idade parece o refúgio do mundo real. O problema é que mergulhar no surrealismo tem seu preço. Nem tudo é bom.
Eu mesma interpretei algumas coisas por ângulos diferentes. Um livro que foi poderoso para atiçar minha imaginação.

Reproduzo aqui um trecho retalhado, um diálogo profundo entre as duas crianças, o protagonista de sete anos e sua amiga Lettie de onze anos, quem inicia dizendo:
"— Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro. Nem você. Nem eu. As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo.
— Você é um monstro? Como a Ursula Monkton?
...
— A meu ver, não — respondeu. — Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas de que as pessoas têm medo. Alguns são coisas de que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não têm.
... 
— Sei lá. Por que você pensa que ela tem medo de alguma coisa? Ela é adulta, não é? Os adultos e os monstros não têm medo de nada."
O livro é do tipo "ame ou odeie". Sim, dificilmente há o meio-termo. Se você quer um livro que seja bizarro e fantasioso, mas que seja explícito e rodeado de explicações, não é um livro para você. Se você quer linhas que façam sentido, que o autor explique cada coisa, que guie o leitor a compreender os detalhes e mistérios, não espere isso de Gaiman. Ele mistura mitologias, sonhos, fantasias e as joga como uma loucura a ser desbravada por cada um. Então se você busca por algo dividido entre a realidade e a fantasia, esqueça.
É você quem deve imaginar.
É libertador ler histórias assim; que parecem fábulas ou contos infantis, porém criados especialmente para adultos! Contos para crianças? Não! Contos para adultos disfarçados de itens infantis? Sim!
Adoro esse tipo de leitura e quem não está acostumado pode não gostar ou até mesmo, sendo sincera, não compreender. Porque cada um deve entender do seu modo íntimo. E mergulhar em sua própria intimidade e nadar pelas águas de sua imaginação sendo guiado por um livro não é fácil para a maioria das pessoas. Principalmente a temática de visão infantil versus visão adulta.
Há magia no livro: A de fazer você criar a sua enquanto o lê.

O autor:
Neil Gaiman nasceu em 1960 em Portchester, Inglaterra e é autor de romances e de quadrinhos. Vive em Minneapolis, Estados Unidos e é casado com Amanda Palmer, da banda Dresden Dolls.
Entre seus livros estão: Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi e o lançamento O Oceano no Fim do Caminho, lançado pela Editora Intrínseca simultaneamente ao lançamento em língua inglesa.
Sua criação quadrinística mais conhecida é Sandman, que tem como personagens principais Sandman, a personificação antropomórfica do Sonho (também conhecido como Morpheus - referência à mitologia grega).
Também escreve poemas e roteiros para cinema e televisão.
Ganhou vários prêmios importantes como Hugo, Nebula, Bram Stoker, Newbery Medal e Eisner (treze!).

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