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2 de dezembro de 2014

A Torre Acima do Véu, de Roberta Spindler e Giz Editorial

A Torre Acima do Véu
Roberta Spindler - Giz Editorial
272 páginas - Ano: 2014 - R$29,90
+ informações | comprar: Saraiva - Cultura

Sinopse:
"Quando uma densa e venenosa névoa surge misteriosamente, pânico e morte tomam conta do planeta. Os poucos sobreviventes se refugiam no topo dos megaedifícios e arranha–céus das megalópoles. 
Acuados, vivem uma nova era de privações e sob o ataque constante de seres assustadores, chamados apenas de Sombras.
Suas vidas logo passaram a depender da proteção da Torre, aquela que controla os armamentos e a tecnologia que restaram.
Cinquenta anos se passam, na megacidade Rio–Aires, Beca vive do resgate de recursos há muito abandonados nos andares inferiores, junto com seu pai e seu irmão. A profissão, perigosa por natureza, torna–se ainda mais letal quando ela participa de uma negociação traiçoeira e se vê cada vez mais envolvida em perigos e segredos que ameaçam muito mais do que sua vida ou a de sua família."

Resenha:
A Torre Acima do Véu é uma distopia nacional escrita por Roberta Spindler, co-autora de Contos de Meigan - A Fúria dos Cártagos (com Oriana Comesanha, Editora Dracaena) e autora de diversos contos em antologias de Ficção Fantástica. Volume independente publicado pela Giz Editorial, apresenta enredo e universo completos, porém deixa a possibilidade de mais conteúdo para o futuro. Torço para que isso ocorra, porque o livro se tornou um dos meus preferidos.
Adoro distopias porque possuem elementos inquietantes sobre a existência humana, especialmente as clássicas. As atuais são excelentes também, mas acabam apresentando quase sempre as mesmas características e, portanto, estava em busca de um romance distópico novo e, ao mesmo tempo, inovador. A Torre Acima do Véu era exatamente o que eu procurava e fico, além de satisfeita, orgulhosa, porque a Roberta é uma autora brasileira.
Assim como nas distopias da moda, A Torre Acima do Véu traz uma heroína forte, corajosa e surpreendente. Adoro personagens femininas duronas, tão ou mais resistentes que os homens, mas sem perder a feminilidade (embora não se preocupem com isso)! Beca conquista tanto quanto Katniss (Jogo Vorazes), Tris (Divergente) e Cia (O Teste), embora eu a tenha achado mais parecida com June (Legend) e bem mais madura.
Esta obra me agradou em todos os sentidos, porque particularmente aprecio todos os fatores essenciais do enredo: Ação, suspense e super-habilidades.
Antes de tudo é um livro de Ficção Científica. Notei também grande influência da narrativa e itens das histórias em quadrinhos, como a caracterização das personagens.
Fiquei muito empolgada com essa combinação! A ação e o suspense transformam o livro em um thriller estonteante, o clima de histórias em quadrinhos contribui muito para a movimentação e personalidade da obra, e a distopia apresenta itens de Ficção Científica sem pesar na trama, sem ser chato.
O exemplar segue o padrão da Giz Editorial, com fonte confortável, páginas amareladas e boa estrutura, organizada em capítulos com títulos. A capa de Rafael Victor está linda e confirma a influência das histórias em quadrinhos. A equipe da Giz está de parabéns.

O mundo distópico apresenta organização inédita e a distopia não segue a mesma receita contemporânea tradicional, a semelhança para na protagonista feminina marcante. Roberta foi criativa em tecer uma distopia fresca, arrojada.
A vida humana neste mundo pós-apocalíptico resiste com precariedade, sendo obrigada a se adaptar a uma nova realidade. A sobrevivência em meio ao caos gerado por uma mortífera e sinistra névoa inerte na superfície do planeta há mais de meio século é dura. Os sobreviventes somente podem morar nos megaedifícios que ainda perduram. Estes são enormes e altíssimos, com centenas de andares. Assim surgiu a Nova Superfície.
A humanidade havia atingido um nível elevado de tecnologia, abalado totalmente pelo desastre. Resíduos de outra vida tentam resistir ao tempo, instabilidade e fragilidade. Alguns objetos aparecem na trama e contam silenciosamente esse avanço e retrocesso.
O foco da história é a megalópole Rio-Aires. A cultura latina é forte, e o idioma falado é uma mistura de português com espanhol. A miscigenação das pessoas é interessante e contribui para o enriquecimento da caracterização.
A sociedade foi reorganizada em um novo sistema oficial (e não oficial!), separada em blocos, gangues e facções, com o comando da Torre e seu presidente Emir. Com transmissões frequentes, a Torre informa e controla a população. Parte desta, é rebelde e se recusa a ser controlada pelo novo governo central - acaba tendo de viver miseravelmente nas partes mais baixas dos edifícios. E uma parte especial, que para mim foi o destaque do livro, é dotada de habilidades físicas e mentais.
Durante pouco mais de cinquenta anos sobrevivendo acima do véu misterioso e tóxico, algumas crianças da nova geração nasceram com mutações, com capacidades super-humanas: Os Alterados.
Possuem intensificação em algumas características como velocidade, força e agilidade. Outros talentos mais raros existem, como clarividência, habilidades psíquicas e teletransporte. Corredores, Oráculos, Combatentes, Teleportadores, Saltadores...

Beca, a protagonista, pertence a este último grupo, possuindo agilidade e equilíbrios fantásticos. Aliada a um equipamento especial, como a inseparável grappling gun, ela sobrevive ao lado do pai, Lion, ex-mergulhador da Torre (profissionais que se arriscam adentrando na névoa), e do irmão, Edu, um hacker de nível avançado. Beca é caçadora de relíquias, objetos importantes ou raros presentes nos andares inferiores, sob os perigos oriundos da neblina venenosa. O trio acaba topando quase que qualquer missão, mesmo as aparentemente impossíveis. Eles formam um time / família cativante e acabam tendo contato com os diversos grupos sociais, do gueto à elite.
Beca entrou para meu time de protagonistas / super-heroínas preferidas! Do visual às atitudes, vibrei com a imagem que construí dela. Tive facilidade em imaginá-la saltando, correndo e se equlibrando em cenas de tirar o fôlego.
Todas as personagens são excelentes, outro ponto positivo do livro. Gostei de todas e o principal, percebi como as aparições são importantes e contribuem para o desenvolvimento da trama, não tem nenhuma pessoa sobrando na história.
Rato trabalha como informante e Beca não confia nele, embora constantemente precise de seus conhecimentos. Enigmático, ele é o anti-herói da trama, aquela personagem que o leitor gosta, mas que por guardar muitos segredos, causa dúvidas. É complexo e vive em conflito com seu "verdadeiro eu" e seu lado indomável.
A mesma inquietação causa Emir, o comandante da Torre, líder da Nova Superfície. Ele é firme e frio. O lema de obedecer as ordens da Torre em prol da segurança e desenvolvimento é levado a sério pelos habitantes que não querem estar à margem. Para Emir, antes a sociedade, depois o indivíduo. Refleti sobre a dificuldade de ser o líder e às vezes senti dubiedade nele.

A autora traz uma narrativa em terceira pessoa com ritmo quente. Embora o principal ponto de vista seja o de Beca, Roberta às vezes mostra os de outros, como Rato.
Introduz primeiramente o leitor ao mundo criado, de modo rápido e enxuto. Depois apresenta Beca e seu mundo particular, suas habilidades, seu trabalho, seus relacionamentos e os locais que frequenta. É importante conhecer a heroína.
Através de missões cotidianas e transmissões da Torre, a autora vai criando conflitos, dando personalidade e vida e, aos poucos, constrói uma trama sólida e convincente. Os acontecimentos se interligam, traçando destinos.
A névoa não trouxe apenas morte e mutações positivas... uma nova espécie vive dentro dela, os Sombras. Quem serão eles? Prepare-se para uma história inovadora, fértil e fantástica. Até mesmo os animais foram afetados. Um mundo novo é fabricado pela autora. E tem mais a ser descoberto...
Beca se vê diante da missão mais árdua, complicada e importante de sua vida. Ela é a líder de campo de uma equipe inusitada, que necessita deixar diferenças e desavenças de lado para o sucesso da missão. Todos correm risco de morte, a Torre possui seus próprios interesses e o futuro da humanidade está nas mãos da impressionante equipe que encanta o leitor.
Mas não são tão heroicos assim, porque cada integrante tem seu motivo para se arriscar. É isso que os faz tão interessantes. Será que obterão sucesso? Encontrarão respostas sobre a névoa nociva e o passado da humanidade? Como enfrentarão os Sombras? Retornarão ilesos?

Roberta equilibra muita ação (muita mesmo!), tensão e distopia em um thriller intenso e misterioso. Apresenta uma trama íntegra e despojada, com um mundo criativo e clima de histórias em quadrinhos. As personagens são estruturadas, evoluem e sofrem. Sim, tem drama na história!
Quando o leitor pensa que já passou pelo clímax, mais surpresas surgem e o desfecho é gratificante e emocionante. A autora não deixa buracos e finaliza a trama, mesmo com ganchos para outra possível história.
O livro me agradou totalmente, porque faz o meu estilo, mas, acima de tudo, Roberta Spindler escreve muito bem e é uma das melhores autoras de Ficção Fantástica nacional. Caso você não curta algo no livro, certamente não será por falha da autora e sim por questão de gosto.
Recomendo o livro para fãs de histórias em quadrinhos e de histórias com ação ininterrupta. Se você está entediado com as repetições que as distopias modernas trazem (incluindo as que focam no lado romântico), deverá gostar de A Torre Acima do Véu, porque em vez de destacar a dúvida amorosa da protagonista, concentra-se na ação e no inimigo a enfrentar: O desconhecido e a morte!

Extras:
Ilustrações oficiais divulgadas pela autora para promover o livro. A arte é do Fabio Nahon e as cores do André Ciderfao. Em ordem: Beca, Rato e Edu.
Os desenhos possuem grande semelhança com o que imaginei, mas eu vi a Beca com cabelos ondulados. O André também fez o mapa da Zona da Torre:





A autora:
Roberta Spindler nasceu em Belém do Pará, em 1985.
Graduada em Publicidade, também trabalha como editora de vídeos. Nerd confessa, adora quadrinhos, games e RPG.
Escreve desde a adolescência e é apaixonada por Literatura Fantástica. Tem contos publicados em diversas antologias e é coautora do romance Contos de Meigan - A Fúria dos Cártagos.

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